MEMÓRIA: BASES CONCEPTUAIS E METODOLÓGICA
1.3. Contributos das neurociências
1.3.1. Tipos e processos da memória
Um dos mais importantes desenvolvimentos conceituais na teoria cognitiva é a subdivisão da memória em três processos separados de codificação, armazenamento e recuperação. A codificação centra-se na perceção da informação, o armazenamento consiste na manutenção dessa informação e a recuperação baseia-se na recordação da informação previamente armazenada. Podemos afirmar que, os psicólogos cognitivistas referem-se, geralmente, aos principais processos da memória como abrangendo três operações comuns: codificação, armazenamento e recuperação, cada uma representando um estágio no processamento (tratamento) da memória. A codificação refere-se ao modo como se transforma um “input” físico e sensorial numa representação que pode ser armazenada na memória. O armazenamento refere-se à maneira como se mantém a informação codificada na memória, ou seja, o movimento da informação codificada para um armazenamento de memória e a manutenção dessa informação no armazenamento. A recuperação refere-se ao modo como uma pessoa obtém acesso à informação armazenada na memória, isto é, a recuperação da informação armazenada a partir de um armazenamento de memória, transferindo a informação para a consciência, para uso no
processamento cognitivo ativo. A codificação, armazenamento e recuperação são, frequentemente, considerados como estágios sequenciais, por meio dos quais o indivíduo em primeiro lugar introduz a informação, conserva-a por um momento e posteriormente a esquece, ou seja, primeiro ocorreria a codificação que seria o processo de colocar a informação dentro da memória; uma vez transferida a informação para dentro da memória, ela deve permanecer lá – esta seria a parte do armazenamento. E para usar a informação armazenada, é preciso que ela seja usada. Esse processo é a recuperação. Entretanto, esses processos interagem reciprocamente e são interdependentes. Gerow, Brothen e Newell (1989), consideram que eles são inter-relacionados, pois usar a memória é uma atividade cognitiva. Por exemplo, ao memorizar o parágrafo de um texto, este pode ser considerado difícil de codificar, o que vai dificultar também, o armazenamento e a recuperação da informação. Se for colocado um título, ou rótulo verbal nesse parágrafo, ele vai ajudar na codificação e, portanto, lembrar o trecho que de outra forma pareceria irreconhecível.
As teorias baseadas nos recursos cognitivos centram-se em explicar os processos cognitivos de memorização a partir de parâmetros como a velocidade com que se pode processar mentalmente a informação, a capacidade da memória de curto prazo ou a habilidade para inibir o processamento mental da informação irrelevante,. (Anderson, 1995; Baddeley, 1990). Duas distinções fundamentais caracterizam estas teorias: a) a duração da retenção onde podemos distinguir a memória sensorial (MS), a memória de curto prazo (MCP), a memória de trabalho e a memória de longo prazo (MLP) e b) o tipo de informação armazenada na memória de longo prazo:
a) - Quanto à duração da retenção a memória sensorial é uma forma de memória automática que não decorre do campo da consciência e cuja forma de representação é sensorial. A existência desta primeira fase de memória foi proposta por Sperling (1960). O depósito sensorial consiste em memória de muito curto prazo. A aquisição de informação acontece nesta primeira fase. Informação que entra neste depósito entra na forma de entradas sensoriais de todos os órgãos dos sentidos. Este depósito pode segurar grandes quantias de informação; virtualmente toda a informação que entra nas sensações. Tecnicamente, existe um depósito sensorial diferente para cada sensação, mas a maioria dos diagramas do processamento da memória, como o exposto acima, simplificam estes depósitos sensoriais separados para um depósito sensorial genérico que representa todas as sensações. A informação aqui armazenada é informação crua, sensorial que foi analisada para algum significado. A informação de depósito sensorial decai rapidamente em alguns
segundos. Então, uma decisão sobre que informação transferir para o próximo depósito de memória para ser analisada e de que informação será esquecida deve ser tomada imediatamente.
O sujeito recebe a informação através dos órgãos dos sentidos, transformando-a em impressões sensoriais que se armazenam na MS, mas de curta duração, não excedendo meio segundo (memória icónica) e dois ou três segundos para o sistema auditivo (memória ecoica). Grande parte da informação incluída nessas impressões sensoriais desvanecem-se rapidamente. A informação que sobrevive armazena-se desde a MS e a MCP, a partir donde o sujeito a pode manipular conscientemente. A capacidade desta memória é muito grande e corresponde na verdade à capacidade de recepção e de tratamento do órgão sensorial. A memória de curto prazo permite a retenção das informações durante a fase de tratamento. A sua capacidade, segundo evidenciado por Miller (1956) seria uma capacidade equivalente ao número mágico sete. Nos seus estudos demonstrou que as pessoas lembravam, em média, sete palavras (mais precisamente, entre cinco a nove palavras) de uma lista estudada, assim como sete letras (apesar de que cada uma das palavras ter muito mais do que sete letras) mas, depende, da organização da informação. Em suma, para Miller, as pessoas organizavam a informação em blocos de informação e a capacidade da memória de curto prazo seria de sete, para mais ou menos unidades de informação. Aqui as representações são semânticas; Depois de passarem para a memória sensorial, os itens selecionados pelos processos atencionais são armazenados na memória de curto prazo antes de serem transferidos para a memória de longo prazo se forem objecto de uma repetição mental. Em cada etapa destes processos perde-se informação por declínio ou por interferência (Atkinson & Schiffrin, 1968).
Nos modelos mais recentes a manutenção da memória de curto prazo não basta para a memorização de longo prazo. Também intervêm fatores como a profundidade de tratamento da informação na altura da codificação e o estabelecimento de ligações semânticas entre a nova informação e os conhecimentos antigos. A informação não é simplesmente mantida, ela também é trabalhada. Estas constatações levaram Baddeley e Hitch (1994) a introduzir o conceito de memória de trabalho que explanaremos a seguir. A memória de trabalho ou memória operativa permite realizar um “trabalho”, ou seja, o tratamento cognitivo das informações temporariamente memorizadas. Para Baddeley e Hitch (1994) este sistema de memória tem um administrador central que controla outros sistemas que lhe estão subordinados. Norman e Sallice (1980) defendem que o administrador central é um sistema atencional supervisor que coordena e planifica os
tratamentos operados nos dois sistemas que lhe estão subordinados. Este modelo de memória de trabalho modificou a forma de abordagem da questão dos mecanismos de passagem da memória de curto prazo para a memória de longo prazo.
Pesquisas de Baddeley e Hitch (1994) sugerem uma memória a curto prazo considerada como uma memória de trabalho tripartida em que existe uma central executiva que coordena e controla o material armazenado na forma visio espacial e fonológica que referenciam respetivamente o material visual e especial e o material referenciado pelas palavras, pelo discurso pelos números. Estudos atuais (Baddeley, 2006; Darling, Della Sala & Logie, 2007, in Corder, Vasquez, Garcia & Galera, 2012, p.113), enfatizam que “a memória de trabalho pode ser fracionada em dois componentes: 1) visual, responsável pelo armazenamento e processamento de propriedades relacionadas a forma, cor, luminosidade e disposições visuais estáticas; 2) espacial, relacionado ao armazenamento de localizações e trajetórias”. As evidências apresentadas na literatura mostram que as características visuais e espaciais são processadas por sistemas separados, mas que interagem entre si. Para Rangel, Damasceno, Filho, et al. (2010) essa integração é uma função complexa realizada pelo cérebro na qual as operações mentais realizadas por diferentes áreas são integradas e resultam numa experiência unificada.
Os estudos de (Finke et al., 2005 e de Jiang, Olson e Chun 2000, in Corder, Vasques, Garcia & Galera 2012, p. 114) também mostram que “numa tarefa de memória visual, a informação espacial é codificada, mesmo quando desnecessária, e sugerem que a informação espacial pode fornecer subsídios importantes para a codificação da informação visual na memória de curto prazo”.
A memória de longo prazo onde as informações são conservadas durante um período considerável, reveste-se de diversas formas que decorrem de mecanismos diferentes, de estruturas cerebrais e de circuitos neuronais distintos. Muitas vezes surgem dúvidas sobre quando podemos falar de memória de curto prazo ou de memória de longo prazo. Dois fenómenos ilustram esta distinção. Trata-se do efeito da primazia e o efeito da recência. Se apresentarmos uma lista de palavras a um sujeito e, em seguida, lhe pedirmos para reproduzir o maior número possível de palavras dessa lista, ele irá lembrar-se das primeiras palavras da lista (efeito de primazia) e das últimas (efeito da recência) ao passo que as palavras do meio da lista serão esquecidas. Estes dois efeitos serão interpretados como testemunhando, respetivamente, a memorização de longo prazo e a manutenção da memória de curto prazo. Assim, os factos recentes que já não decorrem da memória de trabalho não são definitivamente memorizados. Pelo contrário é provável que o traço dos
factos antigos que se memorizou não seja apagado, exceto se houver destruição dos circuitos neuronais, mesmo que se possa ter dificuldades para, num determinado momento, aceder a essas lembranças.
O funcionamento da memória de longo prazo pode ser descrito em três etapas: memorização ou codificação, conservação ou retenção e recordação. A memorização integra a informação nas redes associativas múltiplas. De qualquer modo ela conserva o conteúdo da memória e apela para diversos sistemas de codificação – semântica, processual, contexto emocional, etc.; a retenção intervém depois da formação dos engramas (a forma como as memórias são hipoteticamente guardadas devido a mudanças biofísicas ou bioquímicas no cérebro (e outros tecidos neurais) em resposta a um estímulo externo). Existe conservação daquilo que já foi memorizado devido às novas experiências. A conservação supõe um regresso à consciência daquilo que já está na memória, o que consolida a lembrança e explica a preservação daquilo que é mais antigo; A lembrança utiliza as informações armazenadas na memória. É um processo que intervém constantemente na nossa vida e que sustenta o pensamento. A evocação voluntária, distinta do reconhecimento, pode adquirir a forma da lembrança livre ou da lembrança indiciada.
b) - No que se refere aos tipos de informação armazenada na memória de longo prazo o facto de os conhecimentos não serem todos da mesma natureza levou alguns estudiosos a fazerem várias distinções na sua organização. Assim se compreende, como já referimos anteriormente, que Tulving e Schachter (1990) tenham distinguido a memória explícita da memória implícita naquilo que Squire (1992) designou como memória declarativa e memória não declarativa. O acesso às informações na memória explícita ou declarativa é consciente, ao contrário do acesso às informações armazenadas na memória implícita ou não declarativa. Estes dois sistemas subdividem-se ainda em subsistemas. Para Tulving (1972) no registo da memória explícita distinguem-se a memória episódica da memória semântica. Enquanto esta diz respeito a conhecimentos de carácter geral, comuns a todos nós, a memória episódica remete para a história pessoal. A memória implícita reveste-se também de diversas formas como a memória processual (a dos gestos, das aptidões) que difere das respostas condicionadas, como difere da forma de memória implícita destacada pelos psicólogos graças aos paradigmas de sedução pelos quais um sujeito trata melhor ou mais depressa informações relacionadas com uma informação prévia, ao mesmo tempo que não tem qualquer informação consciente dessa informação prévia. É esta forma de inacessibilidade das recordações que caracteriza as diversas formas
de memória implícita. Estudos em pacientes com lesão do lobo temporal (pioneiramente com o paciente H.M) revelaram dois modos particularmente diferentes de aprendizagem, diferença que os cognitivistas avaliaram em estudos com sujeitos normais. O ser humano aprende o que é o mundo apreendendo conhecimento sobre pessoas e objetos, acessíveis à consciência, usando uma forma de memória que é em geral chamada de explícita, ou aprende como fazer coisas, adquirindo habilidades motoras ou perceptivas a que a consciência não tem acesso, usando para isto a memória implícita. Contudo retomaremos os resultados destas pesquisas, fazendo uma abordagem mais completa, no ponto seguinte sobre as estruturas e circuitos da memória.