4. Contexto Histórico
4.3. As novas potências marítimas e a perda do monopólio português 23
No fim do século XVI o panorama político e religioso na Europa viria mudar com o Protestantismo. Tanto a Inglaterra como a Holanda, por terem adotado os seus próprios modelos religiosos protestantes deixaram de responder ao Papa e ao Tratado de Tordesilhas. A situação piorou ainda mais quando Espanha privou os Países Baixos de comerciar com Portugal após os confrontos que levaram à sua independência. Este embargo levou a que os neerlandeses tentassem estabelecer o comércio direto com a China, desencadeando vários confrontos durante largos anos entre portugueses e holandeses, com a participação ocasional de espanhóis (Chang, 1997, pág. 150). A destruição da armada luso-espanhola em 1588 no conflito com a Inglaterra é a data assinalada pelos historiadores que marca o começo do declínio do poderio colonial luso-espanhol (Chang, 1997, pág. 14). Os próprios ingleses também começavam a entrar pelos mares do sudeste asiático. Sendo assim, ainda em finais do século XVI o corso neerlandês e inglês começou os seus ataques à Rota do Cabo controlada pelos portugueses (Costa, 2014, pp. 172-173). Um dos acontecimentos mais notórios durante este período foi o sequestro por parte dos neerlandeses da carraca portuguesa Santa Catarina, que partia de Malaca em 1602. A carga deste navio terá sido trazida para os Países Baixos, mostrada à população e leiloada. Esta carga ficou bastante famosa pela sua quantidade da porcelana kraak, um tipo de produção bastante específico, cuja população terá apreciado bastante e comprado em grande número (Chang, 1997, pág.
151). Este acontecimento foi visto também como uma força motivacional para os neerlandeses tomarem o monopólio marítimo português pela força.
Por isso mesmo em 1602 é criada a Companhia das Índias Orientais neerlandesa, mais conhecida por VOC, e a sua capital assentou em Jacarta, conquistada em 1619, tendo sido então batizada como Batávia (Costa, 2014, pp. 174 e 176). Apesar dos vários conflitos sangrentos entre portugueses e holandeses, é celebrada uma trégua de 12
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anos em 1609 entre os Países Baixos e a Espanha (Chang, 1997, pág.159). Durante estes 12 anos, os holandeses não desistiram dos seus objetivos e só serviram como um tempo de planeamento das suas próximas abordagens. O estabelecimento de um comércio direto com a China não foi nada fácil visto que o uso da força usado tanto contra portugueses como chineses mancharam bastante a sua reputação (Chang, 1997, pág.
152). Para além do mais, os laços entre portugueses e chineses não se iriam desfazer de um dia para o outro em prol de um povo recentemente chegado cuja primeira abordagem foi violenta e de atos de guerra. Contudo, o comportamento dos portugueses face aos ataques neerlandeses, tal como a sua ganância, também terá começado a gerar imensa suspeita nos chineses, mais uma vez, começando outro período degradante na relação entre ambos (Chang, 1997, pp. 153 e 155).
Por outro lado, os neerlandeses conseguiram estabelecer um comércio direto e criar laços mais facilmente com o Japão. Estes foram estabelecidos em 1611 e, desde cedo, o principal objetivo foi tomar Macau de modo a conseguirem apoderarem-se do monopólio do comércio marítimo asiático (Boxer, 1991, pág. 22). À chegada dos portugueses ao Japão, este país atravessava um período de grande instabilidade política.
Todavia, a introdução das armas de fogo pelos portugueses levou a um processo de unificação política e territorial consumado no século XVII. Nobunaga e Hideyoshi, duas das figuras mais proeminentes da história japonesa e protagonistas nesse processo, demonstraram uma tolerância para com a religião cristã, e como gratidão pela introdução das armas de fogo no Japão deixaram a missão religiosa prosseguir sem grandes entraves. Contudo, tão cedo quanto em 1580, a missão no Japão havia avançado bastante, havendo daimyos, líderes feudais japoneses, já completamente convertidos, que destruíam e se revoltavam contra os templos e os antigos costumes japoneses, por vezes até convertendo através da força (Subrahmanyam, 1995, pág. 213).
Em 1588 começava a haver relatos de comportamentos de alguns clérigos europeus no Japão, como se tivessem a autoridade de daimyos, levando a uma degradação clara na relação entre os portugueses e os japoneses. Os neerlandeses aproveitando-se desta situação foram fortalecendo os seus laços com os japoneses, ao contrário dos portugueses (Chang, 1997, pág. 158-159).
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Durante esta altura há que ter em conta que, no plano político chinês, ocorria o período de transição de dinastias, com um claro declínio do poder Ming em detrimento do poder crescente dos Manchus que vinham do norte. Durante esta altura, a China vivia em confrontos constantes e a corrupção vigorava. Os portugueses, para tentar voltar a criar laços mais fortes com a China, voluntariaram-se para ajudar a combater os manchus (Chang, 1997, pág. 164). Todavia, os mercadores de Cantão aperceberam-se que esta ajuda era também uma oportunidade para os portugueses irem mais além e estabelecer o comércio com a China dentro do seu território, o qual se encontrava dentro da influência desses mesmos mercadores. Assim, e dada a situação política, foi uma questão de subornar alguns mandarins para que não fosse permitida a interferência dos portugueses nestes confrontos (Chang, 1997, pp. 164-165).
Findada a trégua de 12 anos assinada em 1609, os holandeses finalmente decidiram atacar e tentar conquistar Macau. Esta tentativa foi considerada um falhanço completo. Para os portugueses de Macau esta vitória foi bastante importante, apesar de só ter adiado o inevitável por mais 20 anos (Boxer, 1991, pág. 132). Mesmo assim, durante os últimos anos da dinastia Ming (1425-1644) a administração de Macau foi marcada por ser má e danosa, tendo levado consequentemente à sua falência (Chang, 1997, pág. 174). Sem dinheiro e já desfalcado por vários outros confrontos com os neerlandeses, Macau já não teria como se defender do rival (Chang, 1997, pp. 175-176).
A agravar ainda mais a situação no plano japonês, Tokugawa, que não partilhava da mesma paciência e tolerância dos seus antecessores, acabou por expulsar definitivamente os portugueses e o cristianismo do Japão em 1637. A VOC garantiu ao imperador o abastecimento dos produtos que os portugueses lhes tinham fornecido ao longo destes últimos anos (Chang, 1997, pp. 184-185). É verdade que o Japão era o maior exportador de ouro e prata para Macau. Quando se perdeu esse comércio a cidade ainda conseguiu vigorar num comércio algo intenso, maioritariamente devido à sua extensão conquistada ao longo dos anos (Subrahmanyam, 1995, pág. 292).
Desde 1554 que o contrabando na costa chinesa tinha vindo a ser um dos principais motivos de discórdia entre portugueses e chineses. Em 1631, devido a esse mesmo motivo as autoridades chinesas impõem mais uma vez proibições no comércio com Cantão (Chang, 1997, pág. 176). Contudo, portugueses e chineses ainda tentaram
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criar um sistema de abastecimento e comércio que esteve longe de correr na perfeição.
O golpe mais duro, e que viria a retirar o monopólio aos portugueses, seria um cerco a Malaca seguido da sua conquista em 1633 pelos neerlandeses, deixando Macau com um comércio direto apenas com Manila (Chang, 1997, pág. 186).
A restauração da independência de Portugal em 1641 não teve grande impacto no Estado da Índia porque os portugueses já não possuíam quase recurso nenhum. Aliás, só fez com que se envolvessem em vários conflitos com espanhóis a nível territorial, e holandeses no ultramar (Boxer, 2001, pág. 118). Os portugueses acabaram por perder completamente estes confrontos no domínio asiático. Esta derrota foi consumada com a perda do comércio com Manila no início da década de 40 do século XVII, após conflitos com os espanhóis que estariam dispostos a manter o trato (Chang, 1997, pp. 187-187).
Portugal deixava de ser o grande protagonista deste comércio. Surge então os Países Baixos como o novo grande protagonista que, por sua vez, vai marcar o comércio marítimo euro-asiático até finais do séc. XVIII.
Com o poder Qing consolidado, estes mostraram-se muito mais tolerantes do que os seus antecessores com Macau e os portugueses, apesar de estes terem pretendido ajudar na resistência contra o seu poder (Subrahmanyam, 1995, pág. 294).
Todavia, Portugal não ficou totalmente privado deste comércio, apenas ficou dependente das leis impostas pela VOC. Sanjay Subrahmanyam refere ainda que, nas décadas de 80 e 90 do século XVII, se estimava uma frota de 10 a 11 navios portugueses que saiam de Macau e antes de seguir caminho para a Europa passavam pela cidade da Batávia (Subrahmanyam, 1995, pág. 299).
4.4. VOC
A Vereenigde Oost-Indische Compagnie, Companhia das Índias Orientais em português, ou VOC como é conhecida internacionalmente, foi fundada em 1602 e sediou a sua capital em Jacarta, batizada Batávia em 1618, após a sua conquista. Esta companhia é muitas vezes considerada como a primeira “empresa” multinacional com acionistas e trabalhadores de origem europeia e asiática (Giehler, 2020, pág. 18). O período de grande florescimento económico na história dos Países Baixos durante o século XVII é muito devido a esta companhia (Jörg, 1986, pág. 10). Apesar de várias companhias pequenas se terem juntado à VOC, funcionando como subdepartamentos
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ou câmaras independentes, era em Amesterdão e na Zelândia que estava a maior parte do poder e dos acionistas da companhia (Jörg, 1986, pág. 10). A VOC possuía 60 diretores que, grosso modo, eram as pessoas mais importantes da companhia. Desses 60 diretores eram eleitos 17, duas ou três vezes por ano, para o grupo Heren XVII, que era o grupo que estava acima na cadeia do poder da administração da VOC (Jörg, 1986, pág.
12).
Nos Países Baixos a VOC não era centralizada, ao contrário do plano asiático. Em teoria, Batávia estava sob a administração dos Heren XVII. Todavia, devido à longa distância entre ambos, a obediência total era virtualmente impossível (Jörg, 1986, pág.13). A VOC usava mão de obra mal paga, consistindo essencialmente em antigos marinheiros e soldados de origens asiáticas ou europeias (Jörg, 1986, pág. 13).
Ao contrário do contexto português, todos os eventos das viagens da VOC eram relatados em cartas e relatórios (Jörg, 1986, pág. 14). Uma boa parte destes documentos perduraram até aos nossos tempos e foram guardados no arquivo da VOC em Haia4. Estes documentos têm um valor bastante importante pela sua informação, não só referente à VOC, como também relativos a países asiáticos que não possuem outro tipo de documentação da época (Jörg, 1986, pág. 14).