3. OBJETIVOS GERAIS
5.8. Aspetos religiosos e cosmogónicos
“A bruxaria é geral. As bruxas procuram apropriar-se das secreções do corpo daqueles que querem enfeitiçar. O bruxedo (u-fiti) é também o maior flagelo do Zambeze.” (SHEBESTA: 1966: 56)
Paul Shebesta, antropólogo e missionário, considera os bruxos e os bruxedos como verdadeiros inimigos das pessoas pela enorme crueldade implícita na maioria dos seus feitiços. Dá o exemplo de uma bebida venenosa que era dada a indivíduos suspeitos de bruxedo.
“Se o suspeito vomitasse o veneno, era considerado culpado e era morto; se fosse ao contrário, o queixoso devia pagar uma multa ao acusado.” (SHEBESTA: 1966: 56)
Todo o tipo de credos místicos continuam a ter impacto na vida dos moçambicanos, sendo um dos mais conhecidos e preocupantes a permanência do preconceito por albinos, alvos comuns de perseguição, mutilações e morte. Pensa-se que, durante os últimos anos na vizinha Tanzânia, cerca de oitenta albinos terão sido mortos nesses rituais. Num artigo com o tema “Os albinos não morrem: crença e etnicidade no Moçambique pós-colonial ”João de Pina- Cabral sugere a possibilidade de esta crença ter que ver com problemas étnicos, fundados na “grande divisão étnica «preto»/«branco» vigente na África pós-colonial”. (PINA-CABRAL: 2004)
Entre outros exemplos, felizmente menos dramáticos, obtive junto do guia local chamado Castro Doliz Morais, durante um passeio pelo PNG, a informação de que já não existem hienas na Gorongosa. Apesar de durante o período da guerra civil a maioria dos animais ter sido caçada para alimento dos militares, as hienas eram sobretudo perseguidas pelos soldados, porque tradicionalmente se acredita (tal como o próprio Castro parece crer) que o
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nariz e a cauda deste animal tem o poder de descobrir outros animais, e como tal descobrir o inimigo - provavelmente baseados nas reconhecidas qualidades das hienas em encontrar comida. Algo que se veio a verificar fora da realidade, pois em Novembro de 2013 uma hiena foi captada por uma máquina fotográfica no interior do PNG.
Por ultimo, o mesmo tipo de crença faz com que normalmente os homens mais importantes das tribos, régulos, fumos ou curandeiros exibam peles e dentes (de leão ou leopardo) como demonstração da sua força e poder.
Fig.45: Curandeiro e seus objetos - Imagem fotografada de painel expositivo no Museu de História Natural, em Maputo, Julho de 2013
A ideia de que o homem é parte integrante do universo e está sujeito às leis que o regem é uma circunstância enraizada nas diversas culturas da humanidade.
Os apelidados povos “primitivos” mais próximos e dependentes das leis da natureza (que definem a circunstância das suas vidas) tendem não só a respeitá-las como a adorá-las, através de mitos, ritos, símbolos e imagens. De
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algum modo, acreditam que a sua interação os possa conduzir à possibilidade de influenciar um destino que não está nas suas mãos, mas na benevolência dos “deuses”.
Neste sentido, o professor (historiador/filósofo) Mircea Eliade sugere que a tomada de consciência do nativo relativamente à sua situação no cosmos induz, inevitavelmente, a uma posição metafísica.
Na generalidade, os povos da África austral exercem o culto dos mortos num contexto denominado por “manismo”, uma crença na capacidade dos mortos poderem continuar a influenciar a sorte dos vivos.
Os espíritos são como o vento Eles estão contigo em todo o lado. Consegues ver o vento?
Consegues agarrá-lo na tua mão? Os espíritos caminham contigo.
Tu és parte da família deles.30
(TKACZ, V.: MUALA, D.: 2010: 21)
O respeito e o medo das almas dos antepassados estão na base de uma ordem social das comunidades. No entanto, também a divisão do espaço na organização das aldeias e a separação dos usos segue uma ordem cosmogónica, estruturada entre o Caos, o Cosmos e a área de transição. Primeiro, o território da aldeia compreende o centro das atividades sociais e de ordem pública. Mais afastado encontra-se o matagal e a floresta. Por norma, a zona que delimita a mata da aldeia traduz-se num lugar de transição, utilizado normalmente para as culturas agrícolas e que tem o nome tradicional de “machamba”. Em síntese, a aldeia simboliza a ordem e o matagal representa o caos.
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Quando a população muda de lugar e funda uma nova aldeia, normalmente por motivos de subsistência - quer pela produtividade dos solos ou de outra necessidade que escasseia - o processo de transição é acompanhado por ritos de passagem que se baseiam em cerimónias mágico-religiosas.
Esses ritos, além do conceito de renovação periódica repetindo o acto da criação, incluem também a identificação dum «Centro»: uma árvore que se torna sagrada (perto da qual deve ser construída a casa do chefe na povoação tsonga, por exemplo), ou um local no qual é depositado um preparado à base de fruta e cereais (por exemplo, na povoação maconde o preparado é de frutos e farinha de mapira, a «ntela», marcando o lugar da futura construção da casa dos homens). Esta cerimónia tem a função de indicar se o local é propício para a edificação da nova povoação, de afastar o perigo/espíritos maus; liga espiritualmente o fundador (o chefe) aos restantes membros da povoação.” (MENEZES, Carlos: 2001: 59)
O simbolismo do círculo reflete-se no modelo circular dos recintos familiares e nas construções das habitações, justificado predominantemente pelos credos religiosos e cosmogónicos da população nativa de Moçambique.
No interior de Sofala, pelo seu maior isolamento, estes aspetos têm ainda hoje uma grande relevância.
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Fig.46: O círculo na cultura tradicional africana
“A figura mais importante do céu é o círculo. Os astros que trazem a luz, a energia, as colheitas - o sol, a lua, a terra - têm forma circular. A lua é vista essencialmente como um ser feminino (em certas partes do mundo é vista como um ser masculino). Também por analogia é na palhota que são concebidos os seres humanos. Portanto, a palhota é um «ser gerador», um ser protector, tem a forma redonda dentro de um outro ser maior, igualmente
redondo, que é a povoação.”(MENEZES, Carlos: 2001: 60)
Os próprios materiais utilizados na construção das palhotas conferem às habitações o sentido cíclico da vida, na sua dimensão mais efémera, reforçando a ideia de um território que é habitado sem um sentido de propriedade pessoal, estando a sua pertença maioritariamente ligada aos espíritos do lugar.
“O regime de propriedade da terra nas povoações tradicionais, contrariamente às cidades, não é factor de permanência indefinida. Em muitos povos do nosso planeta, encontram-se crenças segundo as quais a
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Terra e todos os seres vivos têm uma natureza sobrenatural, e que todos os seus ocupantes estão de passagem.” (MENEZES, Carlos: 2001: 63)
“Isto é mais um indicador de que o assentamento tradicional não possui
nenhum factor material que o faça fixar-se ao lugar. Por outro lado, a combinação destes materiais com a forma das habitações resolve eficazmente todos os problemas térmicos do microclima interno.” (MENEZES, Carlos: 2001: 62)
A organização dos recintos familiares da África austral e em particular da Gorongosa são constituídos na generalidade por “palhotas” (quarto de dormir), celeiros, currais e cozinha, e lugares destinados às atividades artesanais como a fabricação de artesanato ou instrumentos de produção. O aspeto que mais diferencia o ordenamento do espaço físico nestes locais, face a outros mais desenvolvidos, substancia-se na proximidade (pequena distancia) que separa os seus diferentes usos.
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