3. OBJETIVOS GERAIS
5.3. Etnias locais e suas origens
Fig.26. Mapa de distribuição das principais famílias de línguas africanas, baseado no trabalho de Mark Dingemanse 2004.
De acordo com o antropólogo e missionário alemão Paul Shebesta, os Tonga, desde as migrações dos povos Bantu, serão «os negros mais antigos do sudeste africano», tendo sido posteriormente ofuscados por tribos guerreiras e criadoras de gado. Na sua origem os Tonga eram agricultores que «desbravam a estepe sub-tropical e cultivavam principalmente milho-miúdo, outros cereais e tubérculos. Não criam gado para além de cabras, galinhas e, por vezes, porcos.» Devido à mosca tsé-tsé a criação de gado bovino não é possível no baixo Zambeze e a pesca é mais comum que a caça. Durante a sua passagem por estas
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paragens (1950-60) Paul Shebesta verificou que na caça as armas mais utilizadas eram o arco e a flecha, sendo que quando se tratava da caça ao hipopótamo utilizavam arpões mas sobretudo lanças. (SHEBESTA, P.: 1966: 52)
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Sobre os Shona, atualmente o grupo mais populoso do Zimbabwe mas também de grande influência na região da Gorongosa, Michal Gelfand escreve: “Africa has something to offer the world in human behaviour and this the Shona man and human can give by their fine example.” (GELFAND, M.: 1973)
Nos diversos artigos que publicou, este distinto professor de medicina e conhecedor profundo dos seus costumes, declarava uma grande admiração pela cultura e valores dos Shona, como um povo que contrastava com o “individualismo material” dos povos do oeste africano.
Outrora o centro do Grande Zimbabwe situa ainda hoje o centro das comunidades Shona, entre o rio Limpopo e o Zambeze. Os Shona, tal como os Sena, não se chamam Shona, este nome tem origem no dialeto linguístico usado por estes, uma língua próxima dos povos Bantu. (GELFAND, M.: 1973: 6-8)
O grupo Sena Gorongosa é o mais meridional ao sul do Zambeze, e o mais ocidental nos confins da fronteira Rodesiana dos grupos Sena. Os seus vizinhos mais próximos são vizinhos Shona, a que eles chamam de Manyka e com os quais parecem manter relações amigáveis e de aliança. Também a língua Shi-manyka dos Shona é-lhes muitas vezes familiar embora seja bem diferente da que por eles é falada, a que chamam Ki-gorongosa ou Xi- gorongosi.
“Gorongosa is a district of Sofala province in the centre of Mozambique. Gorongosa society is founded on patrilineal kinship, polygyny, and an agricultural system of production. Although colonial Portuguese officials attempted for more than a century to classify the ethnicity of the Gorongosas, the local people identify themselves with a place rather than an ethnicity. They call themselves Ma-Gorongosianos, referring to the constellation of the Gorongosa Mountains, which are said to possess mystical powers.” (IGREJA, V. et al: 2008: 356)
Embora os Sena também se reconheçam pela palavra Sena têm mais claramente consciência de pertencer a um grupo regional de nome Ndzindza
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(povo, conjunto da tribo). O povo da Gorongosa, apesar de invasões e consequentes cruzamentos étnicos, preservou sempre a sua originalidade Ndzinza.
Quanto aos nomes atribuídos aos povos, trata-se de definições com simples valor prático que são utilizadas para identificar agregados culturais e políticos, não necessariamente étnicos, e que raramente possuem limites certos no tempo e no espaço (Fabietti, U., L’identità etnica. Storia critica di un concetto equivoco, La Nuova Italia Scientifica, Roma, 1995).” (BRUSCHI: 2001: VII)
“…é preciso lembrar que os nomes variam em relação à maneira como os povos se chamam uns aos outros, e que a definição do contexto a que se atribui o nome é também variável ou arbitrária.” (BRUSCHI: 2001: VII)
É provável que a região montanhosa em que se insere tenha contribuído para uma certa resistência cultural. No entanto, e apesar da permanência não têm memória de uma antiga organização politica e hierárquica do território. Estes grupos compreendem um certo número de clãs pouco organizados e sem desempenhar qualquer papel político formal, embora tendam a ser, cada vez mais, considerados em intervenções no território, como é o caso da reabilitação do parque nacional da Gorongosa. (SOUSBERGHE, L.: 1965)
À esquerda (fig.28) vestígios arqueológicos dos Khoisan (Bosquimanos), à direita (fig.29) painel M’Gomo com figuras representativas do quotidiano Sena.
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À esquerda (fig.30) pele de gazela ornamentada pela técnica de pelo depilado, à direita (fig.31), técnica de madeira de M’Gomo queimada e figuras raspadas em baixo-relevo.
O que temos como certo sobre os Sena são as suas múltiplas origens, e por conseguinte a expressão da sua grande complexidade e diversidade, impossível de fixar no tempo e no espaço.
As suas origens seguem uma cronologia de fatores de miscigenação que, grosso-modo, se podem remeter aos povos Khoisan (à cerca de 100 000 anos atrás), sabendo que as migrações Bantu chegam ao Sudeste africano nos primeiros séculos d.C., e que rapidamente se transformam no povo dominante.
De acordo com a dispersão Bantu pelo território surgem naturalmente um conjunto de sub-etnias que com o passar dos anos se assumirão também individualmente, ou seja, dos Bantu e um pouco de Khoisan, dependendo dos locais e da sua influência surgem um conjunto de outros povos. Alguns dão origem ao reino do Grande Zimbabwe, assim como a fusão de outras mestiçagens constrói os alicerces para a fundação do Império Monomotapa. Quase ao mesmo tempo, surgem os mercadores da India e das Arábias e instalam-se ao longo da costa do Indico, que pouco a pouco ficará famosa por todo o mundo. Seguem-se os portugueses impulsionados pela fortuna destas terras, desejosos de conhecer as propaladas riquezas de Sofala. A chegada de outros povos e das suas culturas constrói uma diversidade de dominâncias territoriais e aumenta a complexidade e a dimensão das já tradicionais migrações africanas. Estas, até aqui, cingiam-se a um contexto indígena e eram maioritariamente impulsionadas pelas necessidades
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iminentes, por um instinto de sobrevivência que os levava a procurar terras mais férteis com água e animais para caçar.
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