4 ASSÉDIO MORAL COMO VIOLAÇÃO DE UM DEVER JURÍDICO
4.2. O ASSÉDIO MORAL COMO DESVIO E ABUSO DE PODER PÚBLICO
O abuso do poder na maioria das vezes vem revestido de formas mais diversas como ato ilícito, ou seja, abuso do poder é sempre uma ilegalidade invalidadora do ato que a contém. Apresenta-se como o assédio moral, e não raro, encoberto na aparência ilusória dos atos legais. Tornando-se um flagrante ou um
101 BARRETO apud BATALHA, Lilian Ramos, Assédio moral em face do servidor público. Disponível
em: <http://www.direitonet.com.br/textos/x/16/95/1695/DN_assedio_moral_em_face_ do_servidor_publico.doc>. Acesso: em 18 de maio. 2009.
102 BARRETO apud BATALHA, Lilian Ramos, Assédio moral em face do servidor público. Disponível
em: <http://www.direitonet.com.br/textos/x/16/95/1695/DN_assedio_moral_em_face_ do_servidor_publico.doc>. Acesso: em 18 de maio. 2009.
disfarçado abuso de poder. Nesse sentido, temos que a teoria do abuso de poder esta inteiramente ligada na moral atrelada ao domínio jurídico. Tem-se que, se o poder foi conferido ao administrador público para realizar determinado fim por determinados pretextos e por determinados meios, toda a ação que se afasta desta conduta contrariando o determinado por lei, padece do vício de desvio de poder ou de finalidade e, como todo ato abusivo ou arbitrário, é ilegítimo.104
Porém há que se diferenciar o abuso de poder e o excesso de poder que ocorre quando a autoridade, ainda que competente para praticar o ato, vai além do permitido utilizando-se de suas faculdades administrativas. Excede indo além de sua competência legal e, com isso invalida o ato, porque nenhuma pessoa pode atuar em nome da administração fora do que a lei lhe permite. Não obstante o excesso de poder torna o ato arbitrário, ilícito e nulo, tornando-se assim uma forma de abuso de poder que retira a legitimidade da conduta do administrador público colocando-o na ilegalidade. 105
Portanto, quando a autoridade pratica assédio moral, ultrapassa os limites de suas atribuições ou se desvia das finalidades administrativas incorre em abuso do poder. O assédio moral vem atrelado com abuso do poder é uma manipulação perversa, sendo que se instala no ambiente de trabalho de forma gradativa, normalmente é precedido de um conflito.106
A conduta de um assediante é aquela capaz de romper com equilíbrio no meio ambiente de trabalho, afetando diretamente a qualidade de vida no trabalho e a satisfação do empregado, representando uma conduta anti-social e antiética, sendo contrária aos bons costumes e a boa-fé que deve nortear toda relação social ou jurídica.107
Nesse sentido, Caio Mário da Silva Pereira alerta que,
[...] a iliceidade de conduta está no procedimento contrário a um dever preexistente. Sempre que alguém falta ao dever a que é adstrito, comete um ilícito, e como os deveres, qualquer que seja a sua causa imediata, na
104 RIPERT apud MEIRELES, 2004, p. 95.
105 BATALHA, Lilian Ramos, Assédio moral em face do servidor público. Disponível em:
<http://www.direitonet.com.br/textos/x/16/95/1695/DN_assedio_moral_em_face_ do_servidor_publico.doc>. Acesso: em 18 de maio. 2009.
106 MEIRELLES, 2000, p. 102-104. 107 ALKIMIN, 2005, p. 28.
realidade são sempre impostos pelos preceitos jurídicos, o ato ilícito importa na violação do ordenamento jurídico.108
No âmbito público o assédio moral pode ter início quando a vítima reage ao autoritarismo da chefia ou não se adapta à reestruturação da organização ou, ainda, à gestão sob pressão, valendo-se, muitas vezes, do exercício do jus resistentide para recusar o cumprimento de determinações que revelem excesso no exercício do poder de direção e comando, notadamente, quando do conflitante com a dignidade da pessoa humana do trabalhador. Esse quadro é propenso para a prática do assédio moral, iniciando-se o processo de desvalorização e desqualificação da vítima.109
O assédio moral afronta a moral da vitima,
[...] Trata-se efetivamente de bem e de mal, do que se faz e do que não se faz e do que é considerado aceitável ou não em nossa sociedade. Não é possível estudar esse fenômeno sem levar em conta a perspectiva ética ou moral, portanto, o que sobra para as vítimas do assédio moral é o sentimento de terem sido maltratados, desprezados, humilhados, rejeitados [...].110
Não há dúvida que o assédio moral afronta a dignidade do trabalhador, agredindo seu direito de personalidade, como a integridade física e moral, tentando com isso afastar a vítima do emprego e, ainda mais, levando a vítima ao verdadeiro terror psicológico, prejudicando a saúde e afrontando os direitos fundamentais.111
Trata-se de uma garantia fundamental de interesse coletivo e devidamente expresso na Constituição Federal, devendo o poder público e a coletividade preservá- lo, sendo dever tanto do empregador, trabalhador e do poder público, a preservação do meio ambiente laboral sadio com qualidade de vida.112
Portanto, o assédio moral é um vício particularmente censurável, já que se traduz em comportamento traiçoeiro. A autoridade age revestida em pretenso interesse público, ocultando, dessa forma, sua maliciosa intenção. Sob a máscara da legalidade, procura, nebulosamente, alcançar finalidade estranha á competência que possui. Ou seja: atua de falsa-fé. O ato se apresenta correto para o público, enquanto,
108 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil. 19. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1998-
2000. p. 32.
109 HIRIGOYEN, 2005, p. 219-220. 110 HIRIGOYEN, 2005, p. 210. 111 HIRIGOYEN, 2005, p. 210-211. 112 ALKIMIN, 2005, p. 28.
na realidade, possui uma outra face oculta. Pode-se dizer que o mais grave é a ocultação maliciosa dos abusos de poder com uma capa de pureza virtual.113
4.3 FORMAS DE MANIFESTAÇÃO DO ASSÉDIO MORAL
O assédio moral manifesta-se, como forma abusiva e antiética de degradar o ambiente de trabalho, afetando a dignidade e auto-estima da vitima, manifestando- se através de condutas comissiva ou omissiva, ou seja, atinge a vítima com agressão psicológica de forma sutil, mascarando a intenção maldosa.114
Segundo Batalha, ao falar-se em assédio moral,
Há que se exemplificarem as maneiras pelas qual o assédio moral se manifesta, que entre a doutrina, já tem nome, como, por exemplo, a interdição fisiológica, a famosa “geladeira” – quando o servidor fica sem atribuições, o isolamento, o desvio de função, a colocação do funcionário a disposição do Diretor de Secretaria ou do secretário geral ou do Departamento de Pessoal.115
Incorre o chefe neste caso, além de assédio moral, no ilícito de crime contra o erário público, pois faz, sem o conhecimento dos órgãos superiores ou controladores de contas, com que o erário gaste indevidamente pagando a quem quer trabalhar e não lhe sendo permitido dar a contraprestação laborativa por seus vencimentos.
Este ilícito já é gerado maliciosamente, visando a causar o dano material ao funcionário, que sem lotação, acaba sendo mal-avaliado ou nem mesmo tem sua avaliação feita, visto que está fora de função (disfunção) e perde as promoções, sendo que como a estabilidade está vinculada ao desempenho, gera um decréscimo na produtividade, ainda que contra a vontade do servidor assediado, com o objetivo dolosamente expresso de levá-lo à demissão e ao dano moral, na medida em que causa constrangimento, depressão (aí compreendidos no quantum indenizatório despesas médicas e medicamentosas), erupções cutâneas, úlceras, podendo levar até o suicídio.
Portanto, não se pode esquecer que as chefias, como também, funcionários
113 MELLO, 1992, p. 63.
114 BARRETO apud BATALHA, Lilian Ramos, Assédio moral em face do servidor público. Disponível
em: <http://www.direitonet.com.br/textos/x/16/95/1695/DN_assedio_moral_em_face_ do_servidor_publico.doc>. Acesso: em 18 de maio. 2009.
115 BARRETO apud BATALHA, Lilian Ramos, Assédio moral em face do servidor público. Disponível
em: <http://www.direitonet.com.br/textos/x/16/95/1695/DN_assedio_moral_em_face_ do_servidor_publico.doc>. Acesso: em 18 de maio. 2009.