4.3 Crise e fim da cooperativa
4.3.2 Assembleísmo e ativismo político: a crise interna
Além da repressão do governo, a Coojornal teve que lidar com uma outra forma de problemas político-ideológicos. Por volta de 1978 os associados começaram a se dividir em dois grupos, com posturas e objetivos diferentes para a cooperativa. A direção, ainda presidida por Vieira da Cunha, era alvo de várias acusações. As disputas alcançaram tamanha relevância para o fechamento da Coojornal que para Vieira da Cunha (2011) a eleição em que duas chapas disputaram a diretoria, em 197956, marca o início do seu declínio. Nesse ano o estado já contava, segundo o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (2012), com 1543 jornalistas filiados à entidade.
Uma das acusações feitas contra a diretoria seria a centralização das decisões.
Conforme contam Centeno (2011), Guimaraens (2011) e Polydoro (2011), a administração da Coojornal era democrática. Entretanto, o grupo que formou a oposição queria mais participação dos associados em todos os níveis de decisão, o que não era apoiado pela situação. Para a diretoria, uma maior democratização inviabilizaria a administração da cooperativa. De acordo com os entrevistados, havia uma estrutura democrática, com as principais decisões tomadas em assembléias. Apesar de ter sido da oposição, Rafael Guimaraens (2011) reconhece que não seria possível realizar assembléias para cada decisão a
56 Os entrevistados tendem a se confundir nas datas e não foi encontrado um registro preciso a respeito de eleições e mandatos. O então presidente, Vieira da Cunha (2011), afirma que esta eleição foi em 1979, quando se reelegeu pela terceira vez.
ser tomada. Por isso, havia ainda conselhos e as decisões em geral eram tomadas pela diretoria.
E esse grupo dirigente, uma equipe, vamos dizer assim, um grupo de associados mais jovens passou a fazer esse questionamento. Até casualmente as pessoas do núcleo de jornalismo histórico eram as pessoas que se vincularam à oposição, em termos gerais. Eu próprio era da oposição, embora trabalhasse lá. E questionar, que estava muito, que precisava abrir mais, que precisava... E houve, da parte da direção, até um fechamento maior ainda. Na verdade no fundo eles se achavam muito responsáveis, pela fundação. (GUIMARAENS, 2011)
Segundo Vieira da Cunha (2011) e Bones da Costa (2011), a oposição buscava uma atuação mais política da Coojornal, enquanto a situação acreditava que deveria ser mantido o foco em fazer da organização uma alternativa no mercado de trabalho. “Há uma tentativa de enfrentamento da ditadura, as duas partes enfrentam a ditadura, mas uma com mais cautela e a outra com mais, mais desabrida assim.” (CENTENO, 2011). Vasques (2011) resume bem a questão. Para o cartunista, havia um grupo que queria privilegiar a cooperativa, que representava uma opção em termos de mercado de trabalho, e outro que buscava focar as atenções no Coojornal, ou seja, promover uma atuação política mais ativa. Essas posições se acirraram ainda mais após a reunião onde os militares insinuaram a Polydoro (2011) que a única forma de acabar com a ditadura e desbaratar o sistema paralelo formado dentro do governo seria apoiando a eleição de Figueiredo, conforme abordado anteriormente. “Reforçou a idéia de que nós tínhamos que ir com calma, que uma precipitação poderia ser o fim da cooperativa e se nos tivéssemos articulados e tal, nós poderíamos contribuir pra esse sucesso.”
(POLYDORO, 2011).
Bones da Costa (2011) explica que durante algum tempo tentaram harmonizar as duas partes para evitar que a Coojornal acabasse se dividindo em duas, o que protelou a crise. Com o tempo, a divisão interna se agravou a ponto de associados deixarem de se falar (VASQUES, 2011). Mas os entrevistados frisam que só isso não causou o fim da Coojornal. “Mas aí tinha o componente do momento. Não se tratava de gerir um negócio, mas de tentar incidir numa realidade desfavorável e mudar ela, entende. Então essas broncas aí ficavam extremamente potencializadas.” (VASQUES, 2011). Para os ex-associados, esse racha interno seria superado se não fossem os outros fatores. “O Vieira era um cara que continuava tendo a confiança da maioria das pessoas. Não era uma coisa de grande gravidade.” (BONES DA COSTA, 2011).
Analisando com um distanciamento temporal, sob o ponto de vista de um associado que fazia parte da oposição, Guimaraens (2011) defende ter havido erros de ambas as partes: “Claro que
se falar com as pessoas, alguns vão achar que foi imaturidade dos jovens, outros vão achar que a direção é autoritária mesmo. Mas eu acho que foi uma mistura das duas coisas assim, foi intolerância versus imaturidade.” (GUIMARAENS, 2011). Bones da Costa (2011) acredita que a crise financeira colaborou para acirrar as disputas internas, pois a oposição passou a argumentar que os problemas seriam resolvidos com uma administração diferente.
Em sua terceira eleição, em 1979, Vieira da Cunha (2011) pela primeira vez concorreu contra outra chapa, pois até então as eleições contavam com chapa única. Na sua opinião, havia uma disputa de poder, pois a Coojornal estava em um dos seus melhores momentos, com o Coojornal prestigiado e influente em todo o Brasil. O presidente ganhou a eleição, mas a cooperativa acabou perdendo:
Não pelo fato de ter uma oposição, mas pelo fato de ter havido uma imaturidade muito grande, tanto de um lado quanto de outro, de tal forma que foi uma disputa muito acirrada, cujo resultado foi os que ganharam permaneceram na cooperativa e os que perderam se afastaram. Não necessariamente se desassociaram. Mas eram pessoas que estavam no seu dia-a-dia lá, participando com trabalho, com idéias, e se afastaram, o que empobreceu intelectual e profissionalmente a cooperativa.
(VIEIRA DA CUNHA, 2011)
Vieira da Cunha continuou no poder, mas a eleição foi apertada. Guimaraens (2011) acredita que a vitória da situação aconteceu apenas porque o estatuto permitia o voto por procuração. Assim, quem morava longe podia votar sem estar presente na assembléia e, por não acompanhar diretamente o que acontecia na Coojornal, a referência de quem residia fora era a chapa de situação. Havia uma verdadeira “guerra de procurações” (BONES DA COSTA, 2011).
Para o quarto mandato foi eleito Osmar Trindade57. A cooperativa enfrentava o seu pior momento, com os associados polarizados entre oposição e situação, cada vez menos trabalhos e anúncios. Era início de 1981 quando a chapa assumiu e tramitava o processo contra quatro dos seus jornalistas, citado anteriormente. Nessa época, a direção original já havia se afastado. Guimaraens (2011), que esteve envolvido na diretoria nas gestões anteriores, foi convidado a ser secretário na chapa presidida por Trindade. Já não atuavam na Coojornal figuras importantes dos primeiros anos, como Elmar Bones da Costa, José Antônio Vieira da Cunha e Jorge Polydoro (GUIMARAENS, 2011).
57 Há uma certa confusão a respeito da polarização entre situação e oposição nesta eleição. Pelos dados apurados nas entrevistas, aparentemente novamente concorreu uma chapa única de situação.
Nos primeiros anos da década de 1980 ficou claro que a Coojornal ia mal, tanto por questões financeiras quanto por disputas internas. Com a cooperativa perdendo negócios e, conseqüentemente, receita, naturalmente os associados começaram a se afastar. “Houve também um afastamento político, porque muitas pessoas começaram a se desencantar com o rumo que a cooperativa estava tomando, começaram a se afastar, então foi uma, isso foi uma lenta agonia que acabou acontecendo.” (VIEIRA DA CUNHA, 2011). Aliando a isso o fato de que cada associado que pedia desfiliação solicitava o resgate de sua cota-parte, o afastamento dos associados colaborou duplamente para o fim (GUIMARAENS, 2011). Por outro lado, os associados não tinham escolha, já que não havia mais muito trabalho na Coojornal. Tanto que nos últimos anos era normal atrasar os pagamentos ou até mesmo entregar apenas vales, ao invés do adiantamento das sobras em forma de salário. “Diminuiu a entrada de dinheiro, tinha muitos meses que a gente pensava ‘como nós vamos ser remunerados?’ Então quem tinha mais compromissos recebia, outro não recebia.” (LERNER, 2011).