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Figueiredo: os militares deixam o poder

No documento Santa Cruz do Sul, março de 2011 (páginas 76-80)

2.4 Regime militar: repressão e desenvolvimento dependente

2.4.1 A política dos militares

2.4.1.5 Figueiredo: os militares deixam o poder

Eleito pelo Colégio eleitoral em 14 de outubro de 1978, Figueiredo tomou posse em março de 1979, tendo como vice o ex-governador de Minas Gerais, Aureliano Chaves. O último presidente do regime militar havia sido chefe do Gabinete Militar no governo Médici e chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI) no governo Geisel. Sua escolha representou um paradoxo, já que “o homem indicado para continuar a promovê-la [a abertura política]

fosse o responsável pela chefia de um órgão repressivo.” (FAUSTO, 2000, p. 501). Apesar de um governo inexpressivo, coube a Figueiredo aprovar a Lei nº 6.683, de 28 de agosto de 1979, conhecida como Lei de Anistia. O documento concedeu anistia a todos que, desde 1961, haviam praticado crimes políticos, tiveram direitos políticos cassados ou foram punidos pelos Atos Institucionais.

Em 1979 os controles à imprensa tinham praticamente desaparecido e a população contava com relativa liberdade para se manifestar, mas a oposição continuava longe de chegar

ao poder. Na economia, Mário Henrique Simonsen deixou o Ministério do Planejamento, entregue novamente a Antônio Delfim Neto, conhecido como o ministro que havia realizado o Milagre Brasileiro. Ao voltar ao cargo, porém, o ministro encontrou uma situação completamente diferente da década de 1960: o mundo havia sofrido o segundo choque do petróleo, os preços subiram e agravou-se o problema do balanço de pagamentos. Ao mesmo tempo, subiam cada vez mais as taxas internacionais de juros e aumentavam as dificuldades para se conseguir novos empréstimos (FAUSTO, 2000).

Nos últimos dez anos, 13% dos ocupados haviam se transformado de autônomos e não-remunerados em empregados no setor público e privado ou empregadores. Porém, Singer (1999) defende que esta melhora apenas refletiu o desenvolvimento da economia.

Nos anos 80, toda a América Latina foi prejudicada pelo endividamento externo. O fluxo de capitais que havia impulsionado a industrialização se dirigia agora para outras regiões, especialmente na Ásia oriental (SINGER, 1999). Iniciou-se um período de grande inflação, que registrou até o início dos anos 1990 índices de três e quatro dígitos, só interrompida periodicamente por planos de estabilização. Entre 1980 e 1982, por exemplo, a inflação girou em torno dos 100% anuais (CYSNE, 1993).

Para fazer frente à crise que tinha início, Figueiredo lançou em 1980 o II Plano Nacional de Desenvolvimento, com ações previstas até 1985. Como não poderia deixar de ser, o foco do documento era combater a inflação, mas a ditadura teve que se preocupar com o crescimento da dívida externa causado pela grande abertura da economia ao imperialismo. O governo Figueiredo teve que se comprometer também com a “desestatização” da economia, inclusive com a possibilidade de empresas estatais serem transferidas ao setor privado (IANNI, 1981). Delgado (1985) recorda que o plano definiu como grandes objetivos nacionais para o período conquistar acelerado crescimento da renda e do emprego, melhor distribuição de renda e redução da pobreza, diminuição das desigualdades regionais, alcançar equilíbrio do balanço de pagamentos e controle da dívida externa, desenvolvimento do setor energético e aperfeiçoamento das instituições políticas, além do combate à inflação. Os esforços valeram a pena, pois a partir de 1984 a economia se reativou, impulsionada pelo aumento da exportações, especialmente de produtos industrializados (FAUSTO, 2000).

O país vivia a certeza de que o regime militar havia chegado ao fim e se engajou na campanha encabeçada pelo Partido dos Trabalhadores, exigindo eleições diretas para presidente. O movimento cresceu rapidamente, se tornando quase uma unanimidade nacional.

A ditadura chegou ao fim com a eleição de Tancredo Neves à presidência, em janeiro de 1985. “Por caminhos complicados e utilizando-se do sistema eleitoral imposto pelo regime autoritário, a oposição chegava ao poder.” (FAUSTO, 2000, p. 512). A posse não aconteceu.

A 15 de março quem subiu a rampa do Palácio do Planalto foi o vice-presidente, José Sarney, já que o presidente eleito estava doente. Apesar das tensões que marcaram o período e do medo constante de uma nova intervenção militar, a democracia prevaleceu. Em 1988 foi aprovada nova Constituição e realizadas eleições diretas em 15 de novembro de 1989, quando 70 milhões de brasileiros foram às urnas e elegeram Fernando Collor de Melo como primeiro presidente da nova era democrática brasileira.

Assim encerrava-se o período considerado como o regime ditatorial mais longo da história do Brasil Republicano. Marcado por políticas liberais na economia e pela repressão e centralização do poder no campo político, os governos militares tiveram papel fundamental no desenvolvimento do cooperativismo. Durante os 20 anos de regime militar, conforme visto no primeiro capítulo, o incentivo à formação de cooperativas, aliado ao seu controle pelo governo federal, consolidou a entrada do capitalismo no campo, o aumento da produção e das exportações. Cabe agora entender a realidade brasileira no período estudado com relação aos meios de comunicação e ao jornalismo. Para tanto, após compreender o cooperativismo e o contexto político-econômico especialmente na década de 1970, passemos a um levantamento sobre o mercado de bens culturais e de comunicação e a realidade enfrentada no período pelos profissionais de comunicação.

3 JORNALISMO: DOS TIPOS MÓVEIS À REPRESSÃO DO REGIME MILITAR

Entre as mídias voltadas ao grande público, o jornal é a mais antiga. Desde a Roma antiga há registros de experiências de comunicação escrita, mas publicações com as características básicas de um jornal, como distribuição regular e em massa de notícias impressas, só ocorreram após a criação do processo de impressão através do uso de tipos móveis por Johannes Gutenberg, em 1447. Brito e Pedreira (2009) recordam que os primeiros jornais impressos surgiram no começo do século XVII na Europa, chegando posteriormente à América e depois se espalhando pelo mundo todo.

Mas a invenção da técnica da impressão não significou o surgimento imediato do jornalismo. Apesar de por vezes este ser confundido com o jornalismo impresso, através do termo “imprensa”, não são sinônimos nem remontam à criação da tipografia. O controle das tipografias, por seu potencial para disseminação de idéias, fez com que os governos instituíssem rigoroso controle sobre a nova técnica (MELO, 2003). Logo, o jornalismo como conhecemos hoje demorou ainda alguns séculos para se estabelecer como padrão dominante na difusão de notícias.

Conforme Romancini e Lago (2007), o jornal impresso se tornou realidade na Europa no século XVIII, porém, sua massificação ocorreu apenas entre o final do século XIX e o início do XX, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. Ou seja, se tornou um meio de comunicação de massa apenas após o início da profissionalização dos autores dos periódicos.

Até então, as publicações eram utilizadas para divulgar o ponto de vista dos seus editores e para questões políticas. Ao mesmo tempo em que começou a surgir uma categoria de profissionais especializados na busca, apuração e divulgação das informações, o jornal passou a ter maior aceitação do público. Não por mera coincidência, data também desse período o abandono do modelo europeu de jornalismo, com linguagem empolada e posicionamentos políticos claros, e a adoção da busca pela objetividade e imparcialidade como padrão editorial.

No Brasil, o jornalismo não era considerado uma profissão até o final do século XIX, sendo no máximo visto como um meio de vida (REVERBEL e BONES, 1996). A formalização da profissão iniciou oficialmente com o reconhecimento por Getúlio Vargas, ao estabelecer em 1938 decreto-lei regulando as condições de trabalho dos jornalistas. Mais

tarde, já durante o regime militar instaurado em 1964, se estabeleceu a exigência de registro profissional e a conclusão de curso superior específico.

A seguir, é abordada a profissionalização do Jornalismo, passando pelas demais profissões da Comunicação Social, e o desenvolvimento dos meios de comunicação no país, a fim de compreender o cenário em que foi criada a Coojornal. Torna-se relevante tratar dos meios de comunicação para compreender a postura governamental quanto ao tema e, principalmente, por se tratar, na época, do principal mercado de trabalho para jornalistas.

No documento Santa Cruz do Sul, março de 2011 (páginas 76-80)