4. O setor de saúde suplementar brasileiro
4.2. Poder de mercado
4.2.1. Assimetria de informação
Um aspecto bastante importante, característico deste setor de saúde suplementar, é que a interação entre os agentes é fortemente marcada pela assimetria de informação43. De acordo com Gaynor e Vogt (1999):
“Health care markets are characterized by multiple imperfections, in
large part deriving from the uncertainty and asymmetric of information between buyers and sellers that are inherent in the nature of health and medical care” (P.3).
Na relação entre operadora e consumidor, este último não compreende o conteúdo dos contratos e não tem a capacidade técnica de estimar ou avaliar se os produtos disponíveis compreendem as suas necessidades eventuais e futuras de assistência à saúde. Isso abre espaço para comportamento oportunista por parte das operadoras (Araújo, 2004).
Além disso, a assimetria de informação resulta na existência de risco moral neste mercado, que pode ser entendido como o incentivo que o assegurado tem em se sujeitar a situações de maior risco, dado que possui seguro de saúde. O resultado é o consumo de serviços caros para problemas simples e redução dos auto-cuidados preventivos (Andreazzi, 2003). Em outras palavras, verifica-se consumo excessivo ou sobreutilização dos serviços médicos por parte do beneficiário, incorrendo em maiores custos, por vezes desnecessários, às operadoras de planos de saúde (Gaynor e Vogt, 1999), (Macera e Saintive, 2004) e (Hsiao, 1995).
Neste sentido, Stiglitz (2000) argumenta que “there is considerable evidence
that much of medical care expenditures may in fact be inappropriate.” (Stiglitz,
2000, p. 320)
Mesmo porque, em muitos casos, a decisão por determinado procedimento envolve um benefício bastante inferior ao custo, sendo que o paciente não optaria por esse tratamento caso o custo não fosse, ao menos em parte, pago pela operadora de plano de saúde (Stiglitz, 2000). Ou seja, os indivíduos gastam
43
Na relação entre operadora e médicos, é importante destacar a existência de ativos intangíveis – representados pelo conhecimento especializado dos médicos – que somados à problemas de informação acaba por resultar em contratos incompletos (Derengowski e Fonseca, 2003).
mais com saúde do que despenderiam caso não tivessem um seguro, sendo que esse comportamento se traduz em ineficiência, ilustrada no Gráfico 14.
Gráfico 14: Risco moral no mercado de saúde suplementar Fonte: Stiglitz (2000).
O plano de saúde acaba por reduzir o preço pago pelo paciente e, consequentemente, aumenta a quantidade de serviço médico consumida (de Q0
para Q1). Constata-se que custo marginal (p) associado a esse gasto “excessivo”
(Q1-Q0) supera o preço de reserva dos pacientes, que é retratado pela curva de
demanda. Por conta desse consumo excessivo, há um peso-morto e a medida dessa ineficiência é retratada pela área hachurada do triângulo ABC no Gráfico 14.
Com efeito, os estudos elaborados por Maia et al. (2004) apontam para a presença de sobreutilização dos serviços de saúde suplementar no mercado brasileiro. De acordo com esses autores, essa sobreutilização compromete a eficiência do funcionamento do mercado:
“Uma das implicações do risco moral na utilização dos serviços de saúde no sistema suplementar é que os preços praticados nesse setor estariam acima do nível ótimo, gerando perdas de bem- estar. Nesse caso alguns indivíduos não adquirem plano devido a sua restrição orçamentária, comprometendo a eficiência na alocação dos recursos.” (Maia et al., 2004, p. 19)
Demanda por serviço médico quantidade de serviço médico Custo/preço do serviço médico p
custo do serviço pago pelo paciente Q0 Q1 E C A B custo do serviço pago
Destaca-se que, segundo Andrade et al. (2003), o risco moral também está presente na relação entre operadoras de planos de saúde e médicos. Como os prestadores de serviço possuem um volume maior de informação que os das instituições financiadoras, aqueles primeiros tendem a induzir maior utilização dos serviços relacionados à saúde. Tal comportamento é motivado, especialmente, pela tentativa de elevar o rendimento direto dos médicos. A presença de risco moral entre esses dois agentes ganha maior importância no contexto de exercício de poder de monopsônio por parte das operadoras e, por conta disso, esta questão será retomada mais adiante neste estudo.
De forma a dirimir os efeitos decorrentes do risco moral, as seguradoras acabam mantendo uma equipe de profissionais de saúde com o objetivo de avaliar com maior cautela os pedidos de exames e tratamentos solicitados. Com isso, reduzem a qualidade do atendimento aos consumidores que de fato necessitam de assistência médica, mas que encontram maiores barreiras e demora no atendimento. Além disso, essa equipe de médicos que reavalia as solicitações representa mais um item na estrutura de custos das operadoras.
Associada à assimetria de informação encontra-se a incerteza relacionada à competência dos prestadores de serviços de saúde. Em função disso, a reputação da marca das operadoras acaba sendo um importante sinalizador de que os médicos associados àquela seguradora oferecem um serviço de qualidade.
Por conta da existência desse ativo intangível (reputação da marca da operadora), que envolve substanciais investimentos irrecuperáveis, é possível identificar a presença de economias de escala – o custo se reduz à medida que aumenta a escala de operação e o custo de saída do mercado da seguradora de planos de saúde.
Associada à marca, outras variáveis podem ser importantes na escolha entre as diferentes operadoras de planos de saúde. Devido à incerteza quanto aos riscos à saúde – não se sabe qual doença ou acidente pode vir a acontecer – e às peculiaridades do relacionamento entre médicos e pacientes, estes últimos demandam grande variedade de especialidades de tratamento e opções de profissionais em cada especialidade. Logo, são necessários investimentos irrecuperáveis para constituir uma rede eficiente de provedores de qualidade
(Duclos, 2005). Neste cenário, estão em vantagem competitiva as operadoras que possuem um maior número de beneficiários que fazem uso deste amplo leque de opções. Ou seja, verifica-se mais um elemento responsável por economias de escala.
A despeito dessas incertezas, é plausível que os consumidores possuam melhor conhecimento sobre seu próprio estado de saúde que seus seguradores. Sendo assim, conforme aumenta o preço do plano, os indivíduos com boa saúde tendem a sair do mercado e a probabilidade de adoecer dos usuários que procuram comprar seguro de saúde tende a ser maior que a probabilidade média do restante da população (Stiglitz, 2000).
Por conta dessa assimetria de informação, as operadoras precisam desenvolver mecanismos que limitem essa seleção adversa44 e necessitam financiar os seus efeitos. O resultado, na prática, é um progressivo aumento de custos e, consequentemente, de preços (Macera e Saintive, 2004).
Nessa conjuntura, Stiglitz (2000) argumenta que:
“In practice, it is costly to identify good risks, and insurance firms spend considerable resources attempting to do so. Indeed, an insurance company´s profits can be increased as much through better ways of identifying good risks from bad risks as they can be by improving the efficiency and quality of overall service provided. If private insurance firms cannot discriminate among individuals by level of risk, quite another problem arises.” (Stiglitz, 2000, p. 361)
Diante disso, as empresas de plano de saúde buscam “selecionar o risco”, criando mecanismos para compor uma carteira rentável de beneficiários ou, ao menos, que não resulte em prejuízo. De acordo com os argumentos de Almeida (1998), presentes em Macera e Saintive (2004):
“Com o fito de se proteger da combinação de baixos prêmios e alto potencial de custo, as operadoras/seguradoras engajam-se na seleção de risco (prática conhecida por cream skimming ou
cherry picking). Criam-se barreiras à entrada dos segurados no
sistema, tais como a não aceitação de indivíduos com doenças pré-existentes ou a imposição de limites de cobertura. As operadoras/seguradoras tenderiam, portanto, a concentrar seus
44
Vianna (2003) argumenta que, assim como ocorre em todo sistema de compra voluntário, uma vez que os consumidores têm maior conhecimento com relação ao próprio estado de saúde do que seus seguradores, aqueles que esperam usar mais o serviço de saúde têm maior interesse em fazer essa compra. Desta forma, o risco de adoecer dos usuários que de fato procuram adquirir o seguro tende a ser maior que o risco médio da população.
esforços de venda em indivíduos de baixo risco. A ineficiência toma a forma de aumento dos custos administrativos e de exclusão, além de estimativas de risco para clientes específicos” (Macera e Saintive, 2004, p. 4).
Portanto, em função da presença desses fatores que acabam por aumentar os custos (fixos e variáveis) de operação e que permitem ganhos de escala, os mecanismos que resultam em aumento da eficiência são os mesmos que contribuem para que o mercado seja relativamente concentrado: empresas de maior porte possuem vantagem competitiva. Essas vantagens estão relacionadas com a manutenção da saúde financeira das empresas, questão esta que é tratada no próximo item.