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4. O setor de saúde suplementar brasileiro

4.3. Exercício de poder de mercado

Constata-se que o problema na detenção de poder econômico das operadoras é agravado por outros três elementos que facilitam que este poder seja efetivamente exercido: (i) existência de “custos de mudança” (switching

costs), (ii) elevada diferenciação do produto; e (iii) barreiras à entrada.

No que se refere ao primeiro item, a probabilidade de exercício de poder de mercado pode ser ampliada, a montante e a jusante na cadeia, em decorrência dos elevados “custos de mudança”, que estão relacionados à dificuldade enfrentada pelos médicos e pacientes na troca de operadora.

No caso dos médicos, essa migração resulta em perda de parte considerável dos pacientes, sendo que não é trivial recomposição da “carteira de clientes” de forma rápida (Duclos, 2005). Outro custo importante é que o tempo do prestador de serviços de saúde é “perecível”: quando um médico deixa de atender um paciente em um dia, esse tempo não pode ser recuperado (Duclos, 2006).

Do ponto de vista do consumidor, existe também o “custo de mudança” associado ao período de carência que deve ser respeitado para que o beneficiário possa, de fato, fazer uso dos serviços contratados da nova operadora (Duclos, 2006). Além disso, os consumidores possuem o custo de ter que mudar de médico caso optem por se associar a outra operadora que não oferece as mesmas alternativas de médicos e serviços. Essa alteração e o período de carência podem ser bastante custosos, não necessariamente em termos financeiros, mas o bem-estar do consumidor pode vir a ser comprometido a depender das condições de saúde do paciente e se for necessária a interrupção/alteração de determinado tratamento.

Nesse sentido, o baixo grau de substitutibilidade entre os diferentes prestadores de serviços médicos está associado ao elevado grau de diferenciação de produto inerente a esse mercado (Gaynor e Vogt, 1999). Ocké- Reis (2006) argumenta, inclusive, que a principal forma de concorrência entre as empresas é a diferenciação de produto. Tanto é que as empresas de planos de

saúde atendem a nichos diferenciados, mediante a oferta de pacotes bastante heterogêneos.

De fato, no que se refere à saúde, as preferências dos consumidores são bastante heterogêneas. Diante disso, é menor a sensibilidade dos consumidores a preço, que somada aos “custos de mudança”, reduz a elasticidade-preço da demanda, aumentando a probabilidade de adoção de práticas danosas ao ambiente competitivo por parte da operadora.

Adicionalmente, a existência de barreiras à entrada também deve ser considerada no sentido de facilitar o exercício do poder econômico detido pelas operadoras. Dos elementos já mencionados que implicam em tendência à concentração deste mercado – associados à existência de importantes economias de escala –, alguns fatores devem ser retomados por representarem barreiras à entrada. Um deles é a existência de custos irrecuperáveis relacionados ao gasto necessário para constituir uma marca e uma rede de provedores de qualidade (Duclos, 2005)48.

A importância da marca não é só uma barreira à entrada de novas empresas competidoras, mas também dificulta que os médicos prestem serviços aos consumidores finais sem o intermédio de uma operadora. Isto é, uma vez que os prestadores de serviços de saúde não estão em condições equivalentes de concorrer, isoladamente, com as operadoras, a necessidade da marca como sinalizador da competência dos médicos representa um obstáculo para que os serviços de saúde sejam oferecidos diretamente. Tanto é que, de acordo com Falcão (2006), somente 20% dos médicos não trabalham para operadoras de planos de saúde.

Adicionalmente, esse dado retrata a existência de outra barreira à entrada para potenciais rivais. Duclos (2005) aponta ainda como obstáculo as vantagens absolutas de custo à medida que é praxe a existência de contratos de exclusividade entre as incumbentes e grande parte dos provedores de serviços médicos. Esta prática, denominada unimilitância, ocorre especialmente entre prestadores de serviços de saúde e operadoras do tipo cooperativas médicas,

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Sublinha-se, contudo, que a marca não representaria uma barreira à entrada para empresas que atuam em atividades correlatas ou no setor de saúde suplementar em outros mercados relevantes e já possuem reputação consolidada no mercado – são os denominados uncommited entrants (Duclos, 2006).

como a Unimed. Com este instrumento, o acesso de operadoras concorrentes a médicos é restringido e, como já visto, a formação de um portfólio amplo de médicos é uma variável competitiva bastante importante neste mercado. Sendo assim, de acordo com o apresentado acima, restam poucos médicos para se conveniar aos potenciais entrantes e, portanto, por meio desses contratos de exclusividade, é possível bloquear a entrada de concorrentes potenciais.

Outro aspecto importante é que todas as empresas atuantes neste mercado devem respeitar determinados quesitos de capital, de forma a evitar problemas de risco de insolvência. Esta pode ser considerada mais uma barreira à entrada, na medida em que potenciais ingressantes necessitam de um investimento inicial elevado.

Por fim, faz-se necessário avaliar a importância que as pequenas operadoras têm no sentido de inibir eventuais exercícios de poder de mercado das grandes operadoras. Ainda que existam pequenas firmas atuando nesse mercado, em decorrência da necessidade de capital, estas não são capazes de aumentar sua participação de forma a contestar eventual exercício de poder de mercado por parte das grandes empresas (Duclos, 2006). Ademais, conforme argumentado anteriormente, operadoras de maior porte e elevada escala de operação estão em vantagem competitiva. Por conta desses elementos, ainda que exista uma franja composta por pequenas empresas, não se pode afirmar que o mercado de saúde suplementar seja competitivo.

Diante dessas diferentes características, conclui-se que as operadoras de planos de saúde não só possuem poder econômico, como estão em condição de exercê-lo a montante e a jusante na cadeia. Tanto é que, conforme previsto pela teoria econômica, em geral, o exercício de poder de mercado é traduzido em lucro para as empresas. A despeito da existência de empresas com saúde financeira comprometida, o lucro auferido no ano de 2006 por modalidade de operadora (Tabela 3) indica que, em geral, as firmas apresentam resultados positivos.

Tabela 3: Lucro das operadoras de planos de saúde, por tipo, segundo a modalidade da operadora - Brasil – 2006 (R$ milhões)49

T otal 41.804 40.252 1.551 3,7% Operadoras m édico-hospitalares 40.933 39.551 1.382 3,4% Autogestão (d) 873 897 -24 -2,8% C ooperativa médica 16.334 15.648 686 4,2% Filantropia 1.174 2.128 -954 -81,3% Medicina de grupo 13.802 12.870 931 6,7%

Seguradora especializada em saúde 8.750 8.007 743 8,5%

Operadoras odontológicas 871 702 169 19,4% C ooperativa odontológica 248 232 16 6,6% Odontologia de grupo 623 470 153 24,5% Margem (c )/(a) M odalidade da operadora Receita com contraprestação m édia (a) Despesas totais: assistencial + adm inistrativas (b) Lucro Bruto (c )=(a)-(b)

Fonte: ANS. Diops/FIP - 01/11/2007;

d Não são incluídas as Autogestões patrocinadas.

E, de fato, observa-se que, para o período de análise entre os anos de 2003, e 2006, cerca de 75% dos municípios apresentaram HHI em termos de número de beneficiários superior a 1.800 pontos50. Este é o valor de referência usualmente utilizado pelas autoridades antitruste como condição necessária para que se presuma a existência de poder de mercado. Mais precisamente, acima deste patamar, o Federal Trade Comission (FTC), em seu Guia de Análise de Concentração Horizontal, considera que o mercado é altamente concentrado. Essas informações corroboram o argumento de que a estrutura de oferta de planos de saúde apresenta elevada concentração e que, portanto, existe um poder econômico a ser compensado pela criação de cooperativas médicas.

Portanto, existe um poder de mercado a ser compensado, ou seja, está presente a primeira condição para que a criação de poder compensatório seja benéfica. Neste contexto, é importante avaliar os impactos da regulação, uma vez que a intervenção governamental, assim como o poder compensatório, podem ser considerados como mecanismos de dirimir os efeitos deletérios deste poder de mercado detido pelas operadoras de plano de saúde.

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Dados preliminares, sujeitos à revisão.

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Informações disponibilizadas pela ANS, que utilizadas na análise empírica, conforme será apresentado adiante.