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Associacionismo, solidariedade, alianças e rivalidade

2.3 Dádiva e associação

2.3.2 Associacionismo, solidariedade, alianças e rivalidade

É de fundamental importância trazer a discussão sobre associacionismo enquanto categoria essencial na leitura da teoria da dádiva à medida que esclarece o Clube de Mães, enquanto experiência de associação diferente da classificação de organização da sociedade civil inserida no terceiro setor, compreendida a partir do reconhecimento e pertencimento às organizações primárias da sociedade.

A compreensão associacionista sugerida pela Teoria da Dádiva é decisiva para situar a sociedade civil não como terceiro setor para completar os dois outros, o Estado e o mercado, mas como uma experiência histórica particular regida por mecanismo de organização e de regulação peculiares. Apenas se tornam evidentes quando são realçados os processos de pertencimento e de reconhecimento interpessoais presentes nas instituições primárias da vida social. A crítica Maussiana de modernidade demonstra proximidades importantes com a leitura antiutilitarista de Boa Ventura de Sousa Santos sobre comunidade ao afirmar:

O princípio da comunidade foi nos últimos 200 anos o mais negligenciado. E tanto assim foi que acabou por ser totalmente absorvido pelos princípios do Estado e do mercado. Mas também, por isso, é o princípio menos obstruído por determinações, portanto mais colocado para instaurar uma dialética positiva com o pilar da emancipação, (SANTOS, 2002, p. 75).

A concepção de comunidade e bem comum não constitui necessariamente a defesa de identidades coletivas contra os direitos á liberdade individual, mas para entender que a vida associativa, pode constituir um elemento diferencial importante para se pensar uma moral do indivíduo compatível com a existência do coletivo democrático. Essa concepção é partilhada pelo pragmatista John Dewey (2000), que pensa associação como a condição mesma da associação humana, significa pensar comunidade como individuação e como uma modalidade de crítica ao Estado e ao mercado em favor da democracia.

Na concepção do dom as associações são todas as formas de livre união, de recursos diversos sem fins lucrativos privilegiando os fins de solidariedade, camaradagem, boa vizinhança, espontaneidade e criatividade. Deve ser considerado o espírito de amizade e democracia na condução do funcionamento dessas associações. Nesse sentido trazemos a definição de associação segundo Caillé:

O acordo tácito ou explícito, em conformidade ou não com a lei, escrita ou não escrita, pelo qual duas ou mais pessoas se comprometem de maneira mais ou menos permanente, a compartilhar seus recursos materiais, seus conhecimentos, ou sua atividade com um fim que é diferente ou que não é principalmente o de compartilhar benefícios materiais. (2002, p. 149)

Continuam as indicações do Dom na perspectiva de controlar a amplitude da definição com estabelecimento de alguns critérios como: distinção entre associação de largo ou stricto sensu, aos fins, ao recrutamento de membros, grau de autonomia e democracia. Coloca o questionamento se é possível distinguir entre associação primarizada e associação secundarizada, ou se há um equilíbrio entre elas, e afirma que há um nexo privilegiado entre associação e democracia.

Como o dom e o político são uma só e mesma coisa, mas em escala diferente, se realiza nos espaços públicos e secundários e em primeiro lugar nos espaços públicos primários que são as associações. A associação é um tipo de expressão do fato associativo, pode-se afirmar que a mesma abrange aquilo que se poderia denominar espaços públicos primários, privilegiando o aspecto do interconhecimento.

Necessário se faz situar a tipologia a partir da qual se origina a associação. Numa perspectiva formal, a associação é compreendida a partir de critérios como: a natureza formal ratificada através de lei ou de costume (público ou secreto); os fins econômicos, culturais ou

esportivos; o tipo de recrutamento de seus membros; o grau de autonomia frente aos poderes instituídos e o grau de democracia/autonomia/heteronímia em seu interior.

Nesse contexto, a associação será considerada levando em conta alguns dos aspectos acima citados na perspectiva formal, lançando mão da teoria da dádiva para iluminar o estudo empírico, uma vez que o dom é um meio pelo qual se estabelece o pacto associativo, aquele em que cada um se compromete a se dar incondicionalmente a cada um, mas se mostra igualmente disposto a sair do pacto à medida que os outros não se dispõem a mantê-lo. Daí infere-se um nexo privilegiado entre associação e democracia, entendendo-se que o dom e o político se apresentam intrinsecamente ligados e se efetivam no seio do espaço público primário que é a associação, no caso específico deste estudo, o fato associativo “Clube de Mães”.

Necessário se faz explicitar a importância fundamental das associações primárias para consolidação da solidariedade democrática, caracterizada pelo caráter espontâneo e inclusivo. Essa se constitui num sentimento que é despertado nas pessoas pelo seu semelhante que na democracia pode se expandir aos desconhecidos. A prática associativa se expressa, primeiramente, pela capacidade de agir em comum que se torna um hábito. A solidariedade reforça o sentido de comunidade permitindo articular sociabilidade à democracia primária e secundária. A construção permanente da democracia não pode ser erigida apenas no nível do pacto coletivo tácito, no nível da política construída nos espaços secundários. Ela ocorre e tem seu cerne no âmago dos espaços públicos primários que são as associações.

Para corroborar com essa concepção acerca de associação e democracia, trazemos a concepção desenvolvida por Phillipe Chanial (2001), que aponta para a necessidade de reforçar as iniciativas associativas, reafirmar o aspecto moral essencial da democracia que é a solidariedade. A partir das relações humanas nas quais se privilegia o infra-político (a democracia em ação, vivenciada, sensível), o referido autor apresenta a proposta de uma

política alicerçada nos grupos primários, família, amigos, comunidade, ajuda mútua. Estes aspectos são centrados na cultura popular, na solidariedade intuitiva e favorável na confiança e nos sentimentos regidos pela lógica do dom.

Capítulo III

Democracia,

reconhecimento e gênero

C

APÍTULO

III

– DEMOCRACIA, RECONHECIMENTO E GÊNERO