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Surgimento dos Clubes de Mães em Campina Grande

4.1 Histórico: Origem e evolução dos Clubes de Mães

4.1.2 Surgimento dos Clubes de Mães em Campina Grande

Neste contexto surgem os Clubes de Mães, em 1963, por iniciativa da Faculdade de Serviço Social da Universidade Regional do Nordeste – URNE, atual Universidade Estadual da Paraíba – UEPB, através do Estágio Supervisionado, disciplina necessária à formação profissional. Por meio da atuação de estagiárias nos bairros da cidade, ocorre um processo de organização de comunidades e formação de grupos, entre esses, os Clubes de Mães, com o objetivo de motivar as mulheres a participarem da vida comunitária. Dessa maneira, se dá a expansão dos Clubes a partir da mobilização das mulheres e das ações missionárias da Igreja Católica, que atuavam na evangelização e promoção humana, enfocando as vantagens da vida em grupo e o dever de todos ajudarem seus semelhantes. As orientações aos clubes dizem respeito a aspectos de assistência, solidariedade e reforço aos papéis definidos para as mulheres em conformidade com as relações familiares patriarcais.

A partir da sua trajetória, podemos questionar se ocorreram mudanças significativas nessa prática desenvolvida nos Clubes de Mães até á atualidade. O relato da informante

reforça que o surgimento dos CM’s e SAB’s não se deu de forma espontânea, mas com a participação de agentes externos.

Os CM's foram criados pela Escola de Serviço Social de Campina Grande. Ela foi não somente responsável por isso, mas também pela fundação das Sociedades de Amigos de Bairros, as SAB's. Então, elas foram incentivadas pela Escola, que inclusive ofereceu às alunas, como nós naquele momento, estágio e fomos organizando e ampliando. a gente começava assim: Serviço Social de caso, de grupo e de comunidade. A gente tinha que estagiar nos três processos. Era o grupo o CM’s e o que era tido como comunidade era a Sociedade de Amigos de Bairro, era tanto que no segundo ano a gente fazia estágio em caso, mas era o caso na comunidade, então, a gente trabalhava um caso isolado de um indivíduo, ou da comunidade, ou do CM, enfim.(Inf. 01).

Os primeiros CM’s surgiram em bairros da malha urbana, principalmente em áreas de concentração de famílias de baixa renda; foram os seguintes: o clube de mães Anita Cabral, situado na localidade denominada Tambor, fundado em 1963; o Clube de Mães Iza Leal, situado no bairro Santa Rosa, fundado em 1964; o Clube de Mães Maria Arruda da Silva, no bairro José Pinheiro, fundado em 1965; o Clube de Mães Alice Ramos Tejo, no bairro do Centenário, fundado em 1967. Nessa década, foram criados 15 (quinze) CM’s. Os relatos corroboram a idéia de que a fundação dos clubes teve a participação de agentes externos tanto do Curso de Serviço Social quanto da Igreja Católica, e a motivação para tal fundação foi a assistência a pessoas carentes. Portanto, a justificativa central apresentada diz respeito à solidariedade, como podemos constatar nas falas a seguir:

Juntou o pessoal da Igreja e a gente viu que o bairro era muito carente, as mães viviam muitas sem ter o que fazer, foi em 1967, o clube foi fundado pela Igreja.. Nós que falamos com o padre, a intenção foi nossa quando sugerimos a fazer assim, aliás, nos primeiros dias a gente se reunia na igreja mesmo, aí depois fizeram essa SAB, aí tinha dia que o padre cedia um espaçosinho. Então nos cederam esse espaço para a gente construir o nosso CM, para a gente trabalhar, porque a igreja é apertadinha e não cabia as pessoas lá dentro, porque foi aumentando o número de mães, de moças que queriam fazer um curso, que queriam aprender alguma coisa, sabe!? Fundamos o clube com o objetivo de ocupar essas criaturas, de elas terem alguma coisa para fazer, e até mesmo ajudar na renda familiar, também com

o objetivo de esclarecer, o povo que era muito mal-tratado, as pessoas eram carentes e para aprendizagem no curso para ajudar na renda familiar, ai quando foi no dia 14 de Maio de 1967, nós fundamos, aí nós inauguramos. (Inf. 22).

As fundadoras e algumas outras pessoas se interessaram em registrar o início. Quando começaram a participar do CM’s, Era visitando os doentes chegou até a tirar bicho das pessoas pobres, tão pobre era o bairro, tão carente era o povo, que o trabalho era desse tipo, visitando as pessoas, dando ajuda, foi um trabalho muito bonito e muito penoso, bonito demais. (Inf. 18).

Eu fazia o segundo ano do curso, de Serviço Social. Fui fazer um trabalho junto ao CM. Eu lembro que fomos, havia bastantes mães, era um povo bem participativo. (Inf. 01).

Desde seu surgimento, podemos identificar, a partir dos registros existentes, a conotação dada aos CM’s enquanto espaço de sociabilidade. Os clubes iniciaram suas atividades “com as mulheres [...] desenvolvendo a sociabilidade, despertando para a responsabilidade como esposa e mãe, procurando atingir uma melhoria de sua vida que se estendia por toda família” (LEAL, 1966, p. 69). Temos um segundo registro do já citado “Diagnóstico do Movimento Comunitário de Campina Grande”, que esboça uma concepção sobre Clubes de Mães.

O Clube de mães é considerado uma entidade de caráter social/educativo sem fins lucrativo formado por senhoras de um mesmo bairro, que procuram trabalhar conjuntamente, visando desenvolver-se individual e coletivamente, numa tentativa de contribuir para a melhoria das condições de seu bairro, e, conseqüentemente, da população. (PRADO, 1988, p. 15)

O surgimento dos CM’s em meio à conjuntura politicamente adversa pode ser compreendido pelo fato de que foram criados com o objetivo de repassar informações sobre organização familiar, higiene e trabalhos manuais. Desse modo, configuravam uma forma de organização direcionada à orientação de mulheres para atuação no âmbito da família referente

às atribuições de dona de casa e agregadora das relações familiares. Isso, sob orientação e coordenação da Faculdade de Serviço Social, instituição dirigida por religiosa da Ordem Vicentina da Igreja Católica, o que, aparentemente, não traria riscos à ordem estabelecida. Vejamos um registro da orientação às mulheres em um CM.

Sobre os motivos de fundação dos clubes e a aprendizagem das mulheres, uma das informantes esclarece:

A finalidade dessa formação também era para que as mulheres tivessem mais condições de orientar os filhos. Isso porque a gente sabe que as condições não existiam pelo próprio meio em que viviam. Até hoje entram nos CM’s as pessoas de renda baixa, as pessoas que têm um certo status não vão, vai somente para prestar um serviço. Então tem essa particularidade, de saber orientar, transmitir e de que as mulheres aprendam alguma coisa que possa auxiliar como renda familiar. (Inf. 03).