2 PROCESSO DE SUBJETIVAÇÃO: CONDIÇÕES, FORMAS E MODOS
2.2 Formas do sujeito se constituir
2.2.3 Atitude-limite: interpretação e diagnóstico do presente
Foucault apresenta, nas formas do sujeito se constituir, as abordagens sobre os saberes e a veridicção, as relações de poder e as técnicas de governamentalidade. Esclarece que são formas que não estão dissociadas, mas se relacionam de forma processual. Contudo, no cerne de todas as formas possíveis, o francês situa o próprio indivíduo em sua atitude-limite. Para esclarecer se a atitude-limite pode ser tratada como aquela que será uma espécie de “estopim” ou evento que provoca uma série de acontecimentos outros na história efetiva do indivíduo em sua subjetividade, sentimos a necessidade de investigar, em Foucault, a noção de experiência.
A noção de experiência está presente por todo o percurso das análises de Foucault, embora se possa identificar algumas mudanças ao longo dos anos, de suas pesquisas e do processo de subjetivação do autor. No período arqueológico, por exemplo, Foucault refere-se à experiência-limite considerando o indivíduo envolto numa espécie de compartimento da história. Dentro desse quadro, o indivíduo era compreendido como aquele que não possuía a capacidade de criar, era considerado anônimo, estando absorvido no aspecto formal da história, instituído, assim, enquanto indivíduo sem autoria ou autoridade sobre seu destino. Em tal momento histórico, o indivíduo aparecia invisível em sua condição de subjetividade, como, por exemplo, se considerarmos a experiência-limite do “louco” ou do “delinquente”. O
próprio Foucault, ao explicar o desenvolvimento de suas pesquisas em História da Loucura, afirma, em Arqueologia do saber, que: “[...] De maneira geral, Histoire de la folie dedicava uma parte bastante considerável, e aliás bem enigmática, ao que se designava como uma ‘experiência’, mostrando assim o quanto permanecíamos próximos de admitir um sujeito anônimo e geral da história [...]” (FOUCAULT, 2008b, p. 18).
No momento arqueológico inicial das suas primeiras pesquisas, Foucault apresenta o indivíduo que experiência o impenetrável, o impossível e, dessa forma, expressa a realidade que é confrontada com a loucura, a morte, a sexualidade. Contudo, através do método arqueológico, Foucault, nove anos depois da escrita da Arqueologia do saber, percebe esse mesmo indivíduo como que escavando na espessura do seu próprio espaço, de suas próprias vivências, de sua própria linguagem, de suas próprias experiências, sua própria vida. Na conferência A loucura e a sociedade, ministrada na Faculdade das Artes Liberais da Universidade de Tóquio, em outubro de 1970, publicada em 1978, In: Ditos e escritos X, o francês se questiona sobre a episteme adequada a apreender esse tipo de vivência:
Eu me pergunto se não se poderia estudar o racionalismo clássico ou, de maneira mais geral ainda, o sistema de racionalidade de nossas sociedades, das sociedades que nos são contemporâneas, se não se poderia examinar, analisar esse sistema de racionalidade, estudando, ao mesmo tempo em que o sistema positivo de racionalidade, o sistema negativo da exclusão. Que forma de loucura se exclui? Como se exclui a loucura? Como se recorta e se traça um limite entre o que é razão e loucura? Talvez seja precisamente colocando-se nesse eixo do limite, nessa fronteira, nessa lâmina de faca entre a razão e a desrazão, entre a loucura e a não loucura que se poderá compreender ao mesmo tempo o que é reconhecido e admitido positivamente por uma sociedade e o que, por essa mesma sociedade, por essa mesma cultura, é excluído e rejeitado (FOUCAULT, 2014b, p. 315).
Dessa forma, tem-se já nas pesquisas do período arqueológico, em História da
loucura, por exemplo, uma análise em que Foucault, em 1969, quando da escrita da Arqueologia do saber, considera como um livro de pura história aquele no qual o indivíduo é
um sujeito anônimo nas meras representações gerais da história e seu processo de compreensão de sua vivência deve se dar numa abertura, uma propositura teórica diferenciada daquela comumente realizada no ocidente, que privilegia uma história da razão. Nesse sentido, esse mesmo livro de Foucault é mais que o compêndio de uma história sobre a loucura, pois intenta, antes de tudo, fazer da loucura um objeto da história capaz de fazer avançar a compreensão sobre as vivências que circundam o sujeito e o constituem como projeto de sua própria subjetivação, isso em meio a uma história que tenta dar conta de acontecimentos e não mais de uma razão geral. Assim, a mesma temática nove anos depois,
em uma conferência de 1978, em Tóquio, Foucault faz a problemática funcionar como uma nova experiência que vai além da mera constatação de uma verdade histórica.
Por conseguinte, nessa mudança de percepção, o movimento de foco não se dirige a uma manifestação variável, ao contrário: poderíamos supor aqui que se trata, no próprio Foucault, em suas análises, do desenvolvimento do processo de subjetivação. É como se o francês passasse das relações de poder ao cuidado de si e, por isso mesmo, quando na investigação sobre a loucura, ele admite mais tarde um novo entendimento possível na mesma problemática. É nessa nova atitude de análise que se encontra uma espécie de
arquegeneologia. Assim, no fato histórico retido pela narrativa homogênea se encontra o
limite entre a razão e a desrazão, entre a loucura e a não loucura. É nesse efeito disjuntivo entre positividades e negatividades ou entre o que permanece admitido positivamente por uma sociedade e o que é excluído e rejeitado por ela que está o indivíduo. Este, em seu limite, toma atitude, se apodera de si mesmo, e força, do mesmo modo, a sociedade a mover-se – usando a expressão de Foucault – nessa “lâmina de faca”. Parece, então, na profundidade da investigação do que existe na ordem de um discurso aceito, possível desfazer-se da ilusão e, ao apreendê-la, redirecioná-la. Eis o estabelecimento da atitude limite:
Mas ela tem seus limites: apreende-se inadequadamente essa ordem do discurso uma vez que permanece-se, tão somente, na apreensão; em particular, tende-se a situar os poderes e os perigos sob “essa atividade, comumente, quotidiana e cinzenta”, como uma ameaça velada – isso, uma vez que o conjunto do texto tenderá, pelo contrário, à desfazer essa ilusão de profundidade79 (POTTE-BONEVILLE, 2004, p. 291).
De uma primeira forma de experiência que se encontra no pensamento de Foucault, surge uma segunda forma de interpretação da realidade. Na segunda forma de experiência é que se estabelece o limite, de tal forma que é possível analisar, diagnosticar o presente e estabelecer no indivíduo a atitude-limite. É dessa forma que Foucault apresenta, na expressão da genealogia, ao mesmo tempo, a abordagem empírica e arqueológica que se comunica com a análise genealógica, isto é, a investigação teórica de problematizações oriundas da própria experiência vivenciada pelo sujeito.
O próprio Foucault, quando escreve Vigiar e punir, apresenta-se como esse sujeito de experiência-limite. Ele afirma, em uma Entrevista com Trombadori, que o contato com o
79
Mais elle a ses limites: on appréhende mal cet ordre du discours lorsqu'on reste, justement, dans l'appréhension; en particulier, on va tendre à situer les pouvoirs et les dangers sous “cette activité pourtant quotidienne et grise”, comme une menace cachée - ce, lorsque l'ensemble du texte tendra, au contraire, à défaire cette illusion de profondeur (In: POTTE-BONNEVILLE, Mathieu. Michel Foucault, l’inquiétude de l’histoire. Paris: PUF, 2004, p. 291).
grupo de prisões, o universo carcerário e a consequente aclamação posterior da obra pelos profissionais da vigilância e da assistência social demonstra a urgência por modificações nas práticas vigentes. As mesmas possibilidades da experiência-limite que conduzem ao desenvolvimento da atitude-limite acompanham a temática das prisões
[...] Porque as mesmas teses que, à respeito de Vigiar e punir, permitirão aos comentadores de concluir sobre a existência de um poder “sem exterioridade”, espaço liso, intercambiável, sem segregação, indefinidamente redundante e sem exterior”, coicidentemente aí, com a posição exterior a mais absoluta, aquilo, o qual nós tínhamos até o momento suspenso o exame, da desrazão, limite desse espaço sem limite, permanece como essa normalização sem permanência. É este o problema: que se ajuntem, desde o começo em Foucault, o dito sobre uma exclusão da desrazão com aquele de uma integração da loucura de cuja circunscrição não cabe a exclusão; ou a figura de uma exterioridade junto a aquela de uma interioridade recurvada sobre si mesma, passando ao interior de si a fim de impedir, para além das regulações que ela opera, nenhuma exterioridade [...]80(POTTE- BONNEVILLE, 2004, p. 57).
Contudo, somente a partir de 1968 ficou clara a expressão da experiência-limite vinculada à noção de atitude-limite em Foucault. O pensamento filosófico do francês envolve o indivíduo no movimento da constituição histórica de discursos, práticas, relações de poder e subjetividades. É nesse entendimento que Buraj nos alerta sobre “[...] não indagar sobre os limites internos de uma declaração em particular, mas sair do campo da ‘exterioridade’, a fim de reconectar com outras declarações e regras para criar juntos a ‘formação discursiva’” (2000, p. 27)81.
Nessa perspectiva, tem-se que o pensamento de Foucault, no que diz respeito à atitude-limite, tende a se aproximar da experiência fenomenológica, à qual o próprio Foucault se refere, em parte, nos textos dos anos 50 e 60. No prefácio à Binswanger (1954) e Folíe et
déraison (1961), ambos editados em Ditos e escritos I, é perceptível a experiência
80 [...] Car les mêmes thèses qui, à propos de Surveiller et punir, permettront aux commentateurs de conclure à l'existence d'un pouvoir “sans dehors”, “espace lisse, interchangeable, sans ségrégation, indéfiniment redondant et sans extérieur”, coincident ici avec la position du dehors le plus absolu celui, dont nous avons jusqu'à présent suspendu l'examen, de la déraison, limite de cet espace sans limite, reste de cette normalisation sans reste. C'est cela le problème : que s'ajointent, du départ chez Foucault, le récit d'une exclusion de la déraison avec celui d'une intégration de la folie dont le ressort n'est pas d'exclure; ou la figure d'une extériorité, avec celle d'une intériorité toute recourbée sur elle-même, passant à I'intérieur d'elle-même pour ne laisser subsister, au-delà des régulations qu'elle opère, aucun dehors. [...] In: POTTE-BONNEVILLE, Mathieu. Michel Foucault,
l’inquiétude de l’histoire. Paris : PUF, 2004, p. 57.
81 [...] ne s'enferment pas dans les limites internes d'un énoncé particulier, mais sortent hors le champ de 'l'extériorité', afin d'y renouer avec d'autres énoncés et règles jusqu'à créer ensemble une 'formation discursive' (BURAJ, 2000, p. 27). In : FISEROVÁ, Michaela. Partager le Visible: Repenser Foucault. Paris: L’Harmattan, 2013.
fenomenológica aliada à atitude-limite. Propõe Foucault (2011b, p. 154) no prefácio de Folie
et déraison:
Poder-se-ia fazer uma história dos limites - desses gestos obscuros, necessariamente esquecidos logo que concluídos, pelos quais uma cultura rejeita alguma coisa que será para ela o Exterior; e, ao longo de sua história, esse vazio escavado, esse espaço branco pelo qual ela se isola a designa tanto quanto seus valores. Pois seus valores, ela os recebe e os mantém na continuidade da história; mas nessa região de que queremos falar, ela exerce suas escolhas essenciais, ela faz a divisão que lhe dá a face de sua positividade; ali se encontra a espessura originária na qual ela se forma. Interrogar uma cultura sobre suas experiências-limites é questioná-la, nos confins da história, sobre um dilaceramento que é como o nascimento mesmo de sua história. Então, encontram-se confrontados, em uma tensão sempre prestes a desenlaçar-se, a continuidade temporal de uma análise dialética e o surgimento, às portas do tempo, de uma estrutura trágica.
Nesse sentido, pode-se perceber que o que Foucault procura em qualquer das experiências é, na realidade da analítica do poder, compreender o significado da experiência cotidiana para encontrar o aspecto em que o indivíduo se constitui enquanto realmente fundador. Deste modo, a partir desta experiência e de suas significações, a ideia de experiência-limite se define como aquilo que irrompe, que é como a denominamos anteriormente, o “estopim” de onde vai eclodir uma experiência outra:
De início o texto baixa o tom, insistindo sobre a banalidade, a quotidianidade daquilo sobre o que nos inquietamos. Um certo lirismo irrompe: “As pessoas falam”. Em seguida, e no mesmo movimento, a categoria da inquietude cede lugar à do perigo. Dir-se-ia que Foucault opõe ao sentimento, à suposição, naquilo que eles podem ter de impreciso e de vasto, a designação mais modesta de um fato; mas essa designação mesma não reenvia a inquietude às suas quimeras sem lhes estreitar o motivo, sem afastar a extrema proximidade de um susto em relação ao qual trata-se de compreender, ou a partir do qual trata-se de pensar. Localizar precisamente os perigos, mais do que permanecer em uma angústia indistinta; desfazer, ao mesmo tempo, a ilusão de uma ameaça que se espreita sob os fatos, abaixo da ordem do montante das práticas que as pessoas realizam [...]82 (POTTE-BONNEVILLE, 2004, p. 293).
Essa problemática tende a encontrar uma maneira de reformular o conceito de experiência, estendendo-o além de si mesmo, considerando as críticas mais pertinentes às
82
D'abord, le texte baisse le ton, insistant sur la banalité, la quotidienneté de ce dont on s’inquiète. Un certain lyrisme s'interrompt: “Les gens parlent”. Ensuite, et dans le même mouvement, la catégorie d'inquiétude cède le pas devant celle de “danger”. On dirait ainsi que Foucault oppose au sentiment, au soupçon, dans ce qu'ils peuvent avoir d'imprécis et de vaste, la désignation plus modeste d'un fait ; mais cette désignation même ne renvoie pas l'inquiétude à ses chimères sans en approcher autrement le motif, sans dégager l'extrême proximité d'un effroi qu'il s'agit de comprendre, ou à partir duquel il s'agit de penser. Repérer des dangers precis, plutôt que d'em rester à une angoisse d'ensemble; défaire, dans le même temps, l'ilúsion d'une menace tapie sous les faits, en deçà de l'ordre des pratiques, en amont de ce que les gens font [...] (POTTE-BONNEVILLE, Mathieu.
chamadas filosofias do sujeito. Dessa forma, no pensamento de Foucault a experiência é algo que o indivíduo realiza sozinho, mas não se trata de algo acabado ou completo na medida em que escapa à subjetividade pura, pois quando outros indivíduos se cruzam na mesma experiência, se interpõe a relação de poder e a luta para buscar nos enlaces da convivência os desenlaces possíveis, de modo que o sujeito não venha a perder o que é de si, a sua vida própria.
Nesse sentido, o indivíduo, em sua subjetividade, experienciar dada realidade não significa necessariamente que ele a apreendeu em sua totalidade; ademais, outros indivíduos com singularidades variadas também a experimentam, por isso mesmo surgem normas, interrogatórios e interesses que se cruzam em seus limites.
Da mesma forma, aparecem nas experiências que se cruzam técnicas de como articular o outro na série de concepções que foram criadas para explicar as normatividades e epistemes, e ainda dispositivos e estratégias como mecanismos para entrar no embate, na luta dos jogos da verdade que se instauram. Toda essa constituição desenvolve-se nos indivíduos em suas experiências e é o que se poderia denominar atitude-limite ou uma espécie de “estopim” das relações de poder, das relações de força.
Por conseguinte, a atitude-limite encontra-se associada à interpretação da realidade e ao diagnóstico do presente, pois é no diagnóstico da realidade experienciada que o indivíduo encontra os problemas junto às informações que se cruzam e que o compõem, o que o constitui, o que o envolve, seja loucura, doença, linguagem, crime ou desejo, bem como os dispositivos e estratégias fundamentais no processo de subjetivação.
Outra concepção que ajuda a dar conta de uma interpretação da realidade a encontramos na noção de diagnóstico nos é apresentada por Foucault, no texto Mensagem ou
ruído (1966), In : Ditos e escritos X. Nesta abordagem, ele se utiliza, como modelo de
episteme, da análise diagnóstica comumente utilizada pelos médicos:
Em sua prática, o médico tem de tratar não com um doente, com certeza, mas, também, não com alguém que sofre, e não principalmente, graças a Deus, com um “ser humano”. Ele não tem de tratar nem com o corpo, nem com a alma, nem com os dois ao mesmo tempo, nem com sua mistura. Ele tem de tratar com o ruído. Por meio desse ruído, ele deve ouvir os elementos de uma mensagem. Para ouvi-lo, é necessário que:
. ele elimine o ruído, que ele feche os ouvidos a tudo o que não é elemento da mensagem;
. ele reconheça (as duas operações são, evidentemente, correlativas) os traços distintivos de cada elemento; e
Dessa forma, a maneira possível de elaborar o dignóstico do presente é-nos apresentada por Foucault pela analogia do diagnóstico médico. Assim, como o médico não pode esperar o final do ruído, que é a doença, e esta pode levar à morte, ele, em sua função, elimina o ruído em busca da cura, reconhece na diversidade de sintomas os traços distintivos de cada elemento, não os codifica; ao contrário, depois de um certo tempo de escuta, se põe a traduzir os sintomas, as informações, solicita ou não o auxílio de exames mais apurados, investiga, analisa e emite um diagnóstico.
Assim, a partir dos anos 70, Foucault procura levantar o problema da experiência como momento de transformação. Nesse sentido, aparece a atitude-limite associada aos dispositivos de resistência que constituem o indivíduo no processo de subjetivação.