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2 PROCESSO DE SUBJETIVAÇÃO: CONDIÇÕES, FORMAS E MODOS

2.1 Condição do sujeito se constituir

2.1.2 Relações de força: verdade, poder e sujeito

Seguindo os passos de Foucault, percebe-se, nas relações de força, não somente o jogo instaurado entre o poder e a concepção de verdade: há também o indivíduo que permeia este jogo, o apreende e luta com todas as suas forças, como se no cerne da paisagem do estado de dominação uma outra paisagem aflorasse. É como se ela estivesse camuflada, num jogo de claro escuros, mas cuja visibilidade nunca será reduzida, funcionando como, segundo uma bela abordagem que encontramos em Caminha (2010, p. 204):

[...] uma janela que nos abre sobre um espaço primordial em que estamos situados – um lugar através do qual nossa relação com a visibilidade do mundo nunca está reduzida ao encontro passivo como a exibição de uma tela totalmente exterior ao nosso olhar [...].

É com base nessa compreensão que pretendemos examinar as relações de força no processo de subjetivação. O entendimento do poder não se fecha na representação do poder, ao contrário: trata-se de uma janela sempre aberta às relações próprias de existência do indivíduo. Em meio a essa abordagem, apresenta-se a verdade, muito embora associada sempre ao poder, como uma espécie de representação, e daí alguns questionamentos surgem: Como no pensamento histórico-filosófico de Foucault é possível compreender a verdade? Quanto ao indivíduo situado no emaranhado das relações de poder, como este se apresenta nessa nova paisagem, tendo em vista que a atmosfera em que se situa nas relações de poder é a mesma que o impulsiona à luta e a descobertas de novas vias nos processos de subjetivação? É a essa análise que Foucault se reporta em O Governo dos vivos:

[...] tal forma de análise repousa, como de outro modo todas as outras análises inversas, mais sobre uma atitude do que sobre uma tese. Mas essa atitude não é exatamente, digamos, a atitude da época: do ceticismo, de colocar em suspensão todas as certezas, as posições téticas da verdade. É uma atitude que consiste, primeiramente, em dizer: nenhum poder existe por si! [quelque pouvoir ne va pas de

soi!] Nenhum poder, qualquer que seja, é evidente ou inevitável! Qualquer poder,

consequentemente, não merece ser aceito no jogo! Não existe legitimidade intrínseca do poder! E a partir dessa posição, a démarche consiste em perguntar-se o que, a partir disso, é feito do sujeito e das relações de conhecimento no momento em que nenhum poder é fundado no direito nem na necessidade; no momento em que qualquer poder jamais repousa a não ser sobre a contingência e a fragilidade de uma história; no momento em que o contrato social é um blefe e a sociedade civil um conto para crianças; no momento em que não existe nenhum direito universal, imediato e evidente que possa, em todo lugar e sempre, sustentar uma relação de poder qualquer que ela seja (FOUCAULT, 2009, p. 34).

Na abordagem de Foucault (2009, p. 35) em O Governo dos vivos, “[...] qualquer poder, qualquer que ele seja, não é de pleno direito aceitável ou não é absolutamente e definitivamente inevitável”. Assim, quando o francês se dedica à análise sobre a verdade frente ao poder, uma proposta é imediatamente apresentada aos leitores e pesquisadores, a saber: o convite à realização de alguns deslocamentos:

[...] o curso deste ano se ocupará em elaborar a noção de governo dos homens pela verdade. [...] O que significa elaborar essa noção? Trata-se de deslocar um pouco as coisas em relação ao tema atualmente utilizado e repetido do saber-poder, tema que foi ele mesmo apenas uma maneira de deslocar as coisas em relação a um tipo de análise no domínio, digamos, da historia do pensamento; domínio de análise que foi mais ou menos organizado ou que girou em torno da noção de ideologia dominante. Grosso modo, se vocês quiserem, dois deslocamentos sucessivos: um da noção de ideologia dominante para essa noção de poder-saber e agora um segundo deslocamento da noção saber-poder para a noção do governo pela verdade (FOUCAULT, 2009, p. 19).

Foucault aponta a necessidade de se realizar ao menos dois deslocamentos, o primeiro, da ideologia dominante para a noção de poder-saber, o segundo, da noção de saber-poder para a do governo pela verdade. Então, sobre a noção de ideologia, tem-se, ao considerar a etimologia da palavra originada do grego idea e logos, que esta noção se refere a estudo, conhecimento e investigação de um modo de ser, de uma condição de existência, etc., estudo que pode vir a constituir um conceito para determinado momento da história, embora, conforme Foucault, vale salientar, nenhum conceito possa ser eternizado na medida em que a história é dinâmica e está em movimento.

Todavia, não considerando mais sua etimologia, mas o sentido moderno sobre o termo ideologia, tem-se que este não é empregado para identificar o conhecimento ou o estudo, seja de que natureza ou aspecto em que algo se apresente, mesmo uma doutrina filosófica. Ao contrário, o termo, como é utilizado na modernidade, solidifica ideais de uma verdade

determinada, embora na modernidade as ideologias se apresentem como que destituídas de validades objetivas, reais ou históricas. Nesses casos, a ideologia mantém interesses claros ou mesmo ocultos por aqueles que a utilizam. É, então, ao considerar este aspecto que Foucault propõe o primeiro deslocamento: o da ideologia para o poder-saber.

Em Foucault, pensamos não ser possível uma generalização gratuita das ideias e conceitos. Não há como aceitar determinações prodigiosas de ideias, obras, invenções e inovações implantadas ou, ainda, eventos com conflitos explicados e conceituados de forma translúcida, apaziguante e harmônica. Neste sentido, tem-se em Foucault, considerando o tratamento que nos tempos modernos é dado à noção de ideologia, a necessidade do deslocamento, pois o filósofo francês percebe nessa uma devida associação com o que ele vai considerar dispositivo de poder.

O termo “dispositivo” aparece em Foucault nos anos 70, quando ele o designa, inicialmente, como operador que possui uma espécie de potência mediante ao poder, isto porque estão presentes nos dispositivos tanto as técnicas, como formas de sujeição implementadas por autoridades que tomam o poder enquanto representação da história, quanto as estratégias para superá-las. Todavia, a partir do momento em que a análise de Foucault se centra na questão do poder, o filósofo salienta a importância de abordar não o edifício legal da soberania do aparelho do Estado com todas as ideologias que o acompanham, pois ainda mais importante que isso, para ele, é a análise dos dispositivos como mecanismo de dominação. É essa a escolha metodológica que realiza o francês e em O Governo dos vivos quando, por exemplo, mostra que é nesse aspecto que o deslocamento de ideologia tende ao saber-poder:

A noção de saber tinha por função colocar fora de terreno a oposição do científico e do não científico, a questão da ilusão e da realidade, a questão do verdadeiro e do falso, não para dizer que essas oposições não tinham um estado de causa, de sentido, de valor; eu quis dizer, simplesmente, que se tratava, com o saber, de colocar o problema em termos de práticas constitutivas de domínios de objetos e de conceitos no interior das quais as oposições do científico e do não científico, da ilusão e da realidade, do verdadeiro e do falso, poderiam assumir seus efeitos. Já a noção de poder tinha, essencialmente, por função substituir a noção de sistemas de representação: aqui a questão, o campo de análise, são os procedimentos, os instrumentos e as técnicas pelas quais se realizam efetivamente as relações de poder (FOUCAULT, 2009, p. 20).

Conforme Foucault, na noção de saber-poder estão os dispositivos presentes nas relações de poder. Esta noção pode se constituir em discursos, práticas e táticas que se deslocam paulatinamente. É esse o método que o próprio Foucault utiliza nas análises das problemáticas por ele desenvolvidas. O que o francês realizou foram constantes

“deslocamentos”; seja na análise do poder quando nos apresenta os “dispositivos de poder” (1977, p. 211-222; 2006, p. 3-24), seja na análise sobre o conhecimento em que mostra os “dispositivos de saber” (1999, p. 475 ss), seja na investigação sobre a loucura ou sobre as prisões com os “dispositivos disciplinares” (1978, p. 556-584; 1975, p. 195ss) ou, mesmo na

História da sexualidade na qual estão presentes “dispositivos de sexualidade” (1998, pp.

11ss).

Em O Governo dos vivos, Foucault aponta para a importância de realizar alguns deslocamentos em relação aos conceitos de saber e poder, uma vez que, ao fazer esse [...] “deslocamento em relação a essa noção de saber-poder trata de se desembaraçar disso para tentar elaborar a noção de governo pela verdade. Desembaraçar-se da noção saber-poder como se desembaraçar da noção de ideologia dominante” (FOUCAULT, 2009, p. 20).

Então, nas relações de poder estão dispositivos que desencadeiam relações de força, as quais, por sua vez, colocam o sujeito face à análise de como o saber se apresenta, seja fabricando ideias ou produzindo verdades. Neste sentido, podem os dispositivos, também, auxiliar o indivíduo na constituição de sua subjetividade. É neste aspecto que nos deparamos com o segundo deslocamento proposto por Foucault: da noção saber-poder para a noção do governo pela verdade. Contudo, afirma Foucault (2009, p. 21) ainda em O Governo dos vivos:

Por conseqüência, eu serei certamente mais indulgente com a noção saber-poder do que com a noção de ideologia dominante, mas cabe a vocês me reprovarem. Na incapacidade, portanto, de tratar a mim mesmo como eu trataria os outros, eu diria que trata-se essencialmente, passando da noção saber-poder para a noção do governo pela verdade, de dar um conteúdo positivo e diferenciado a esses dois termos saber e poder .

Foucault, ao assumir a incapacidade de tratar de si mesmo, opera com a ideia da dificuldade epistêmica que todo autor tem ao dar conta do seu próprio pensamento. Essa perspectiva adotada por ele marca a passagem da noção de saber-poder para o governo da verdade. Nesse sentido, o objetivo dele é mostrar ao indivíduo que se os saberes foram produzidos não se deve tomá-los como simplesmente verdadeiros ou falsos, esta implicação é imprescindível na constituição do sujeito.

Por conseguinte, aquilo que pode interessar numa dimensão epistemológica pode não ser útil ao processo de subjetivação ou ao indivíduo na constituição da sua subjetividade. O governo pela verdade coloca o indivíduo não diante de uma verdade universal – de uma condição confortável por força de uma resposta para todas as questões, pela submissão de uma ideologia dominante – mas, ao contrário, no entrelaçamento das relações de poder e força

o saber se apresenta como aquele que é capaz de mostrar ao indivíduo os diversos usos das formas de poder, inclusive como formas de subjetivação passíveis de serem apreendidas e utilizadas por outros indivíduos.

Nesse sentido, a noção de saber-poder não é em Foucault aquela que desenvolve uma história das idéias ou mesmo uma história da evolução da ciência. O filósofo francês sequer discute essa noção, isto é, de investigar se determinada teoria é verdadeira ou falsa. Ao contrário, ele analisa o modo como o saber vai se constituindo, fabricando ideias, produzindo verdades e, ao mesmo tempo, elabora críticas que permitem ao indivíduo se deparar com dispositivos presentes nas pretensas verdades estabelecidas para fazer parte do jogo.

Em O Governo dos vivos, Foucault apresenta sua análise sobre a construção da noção de saber na direção do problema da verdade:

É um lugar comum dizer que as artes de governar e os jogos de verdade não são independentes um do outro, e que não é possível governar sem entrar, de uma maneira ou de outra, nos jogos de verdade. Tudo isso são lugares comuns e creio que em relação a isso pode-se encontrar quatro ou cinco formas principais, digamos, no pensamento político moderno, no sentido largo do termo, quer dizer, a partir do século XVII [...] (FOUCAULT, 2009, p. 21).

Assim, ao observar que não é possível governar sem os jogos de verdade, Foucault não somente apresenta o quadro geral de como são elaboradas as relações de poder no pensamento político moderno, como aponta para a extensão da noção de governo, de autarquia com o cuidado de si nas relações com o poder no processo de subjetivação.

Neste sentido, o indivíduo em processo de subjetivação deve perceber seu próprio entorno, o meio em que vive, o que está diante de si e realizar um exame das relações que lhes são subjacentes. Assim, aparece o saber enquanto mapeamento da situação e o poder como o uso desses saberes. Essa relação saber-poder está no cerne dos procedimentos que constituem o indivíduo. Deste modo, este é, ao mesmo tempo, objeto e efeito do poder e, nesta posição, é também efeito e objeto do saber. Nessa perspectiva, o sujeito é movido e, ao mesmo tempo, é aquele que move a si próprio.

Por conseguinte, conforme Foucault, entendemos que entre a ideologia dominante, o pensamento dos outros e a relação saber-poder, encontraremos o indivíduo com o seu próprio pensamento, elaborado e criado em função das suas relações de poder e força. Sobre este aspecto, aborda Foucault (2009, p. 29):

Diz-se frequentemente que por detrás de todas as relações de poder existe, em última instância, qualquer coisa como um núcleo de violência e que, ao se despir o

poder de seus adornos, é o jogo nu da vida e da morte que se encontrará. Pode ser. Mas, pode haver poder sem adorno? Dito de outro modo, pode haver efetivamente um poder que se passaria sem jogos de sombras e de luzes, de verdade e de erro, do verdadeiro e do falso, do oculto e do manifesto, do visível e do invisível? Ou ainda, pode haver exercício de poder sem um [clarão] de verdade, sem um círculo aleturgico que gira em torno dele e que o acompanha?

O poder tem uma aparência, uma forma de manifestação; como o próprio Foucault salienta, tem seus adornos, mas encontra-se subjacente ao indivíduo a capacidade de compreendê-lo e, nesse sentido, de se precaver desse engodo, desenvolvendo condições de resistir a tais manifestações do poder, criando, assim, estratégias para superá-lo enquanto manipulação e dominação.

É assim também que se deve entender a verdade, como uma questão de atitude de reconhecer que o poder repousa sobre a contingência e a fragilidade de uma história e de uma manifestação localizada no tempo e no espaço e, portanto, sujeito às suas contingências. Tal condição o desapropria da ilusão do absoluto e do domínio pleno.

Anteriormente afirmamos, nesta pesquisa, a não separação por Foucault dos métodos arqueológico e genealógico, agora, neste momento da investigação podemos perceber com maior clareza uma espécie de procedimento arquegenealógico65 atuando nas relações de

força: verdade, poder e sujeito. Esse procedimento é perceptível na medida em que aquilo que o indivíduo toma como evidente e certo, porque é o que é-lhe dado pelo poder, é também, o que, pelo saber, pode ser criticado, ponderado, transformado ou desmistificado. É nesse aspecto que as relações de força se contituem no pensamento filosófico-histórico de Foucault

65 Em entrevista com D. Trombadori, Paris, fim de 1978, intitulada: Conversa com Michel Foucault, publicada em Ditos e escritos VI, o próprio Foucault nos clareia um pouco sobre o seu método, diz ele: “- Quando começo

um livro, não somente não sei o que pensarei no final, mas não sei, claramente, que método empregarei. Cada um de meus livros é uma maneira de recortar um objeto e de forjar um método de análise [...]”, o que nos leva a

acreditar que arqueologia e genealogia se cruzam nas investigações do autor, que ainda observa: “[...]

Terminado o meu trabalho, posso, por uma espécie de olhar retrospectivo, extrair da experiência que acabo de fazer uma reflexão metodológica que tira o método que o livro pôde [sic] seguir. De modo que escrevo, um pouco em alternância, livros que chamaria de exploração e livros de método. Livros de exploração: a História da loucura, o Nascimento da clínica etc. Livros de método: A arqueologia do saber. Em seguida, escrevi coisas como vigiar e punir, A vontade de saber”. Parece-nos, então, que os trabalhos do francês se intercruzam e é nas

entrevistas, prefácios, artigos, isto é, nos Ditos e escritos que ele nos fornece e esclarece os aspectos de sua obra uma vez que, como ele mesmo admite: “Proponho, também, reflexões metódicas em artigos e entrevistas. São,

antes, reflexões sobre um livro terminado, suscetíveis de me ajudar a definir um outro trabalho possível. São espécies de andaimes que servem de relés entre um trabalho que se está acabando e um outro. Não é um método geral, definitivamente válido para os outros e para mim. O que escrevo não é jamais prescritivo nem para mim nem para os outros. E, quando muito, instrumental e sonhador” (FOUCAULT, 2010b, p. 290). É, então, a partir

dos esclarecimentos que Foucault nos fornece sobre o seu trabalho que podemos afirmar que não se separa arqueologia e genealogia, que o francês, desse modo, não adota um método específico, oscilando entre uma e outra abordagem, e numa relação entre as duas, ao contrário, o que ele promove são constantes deslocamentos não no sentido de prescrever e anunciar, não no sentido de cair em um relativismo em suas posições e argumentos, mas na inquietação de, na analítica do poder, buscar detectar as relações próprias que permitem que “[...] as posições teóricas não cessam de se transformar [...]” (FOUCAULT, 2009, p. 32).

como o que denuncia a impossibilidade de se estabelecer uma relação entre verdade, saber e poder.

Foucault procura com esse método desestabilizar as evidências, descaracterizar as verdades universais e dar sentido à existência do indivíduo. Ele mesmo, enquanto pesquisador, é coerente com o entendimento de que a verdade não é dada, mas é uma manifestação na forma da subjetividade. Sobre a produção teórica, isto é, aquele tipo de conhecimento que via de regra se elege como conceitual, afirma Foucault em O Governo dos

vivos, sobre sua própria atitude em relação a esse tipo de saber:

[...] é que para mim, após tudo, o trabalho teórico não consiste, e eu não digo isso por orgulho ou vaidade, mas por sentimento profundo de uma incapacidade; para mim o trabalho teórico não consiste em estabelecer e fixar um conjunto de posições sobre as quais eu me manteria e cuja ligação entre essas diferentes posições, na sua suposta ligação coerente, formaria um sistema. Meu problema, ou a única possibilidade teórica que sinto, seria a de deixar somente o desenho o mais inteligível possível, o traço do movimento pelo qual eu não estou mais no lugar onde eu estava agora pouco. [...] Essa necessidade, portanto, não aparece jamais como plano de um edifício permanente; não é preciso lhe reclamar e impor as mesmas exigências como se tratasse de um plano: trata-se, ainda uma vez, de traçar um deslocamento, quer dizer, traçar não edifícios teóricos, mas deslocamentos pelos quais as posições teóricas não cessam de se transformar (FOUCAULT, 2009, p. 32).

Coerente com a perspectiva, reconhecida pela maioria dos seus comentadores, na ausência em sua obra de estruturas rígidas, de sistemas, de quadros teóricos fechados, Foucault aponta para uma abertura conceitual no que tange aos temas e teorias por ele utilizadas, o que não implica, necessariamente, na ausência de uma estrutura subjacente à sua própria obra e ao seu próprio pensamento. A propósito do que estamos tentando mostrar, suas considerações arqueológicas e genealógicas acerca de vários temas destacados em meio ao processo histórico têm como elemento presente uma compreensão sobre o poder que se estabelece nas relações. Entretanto, a despeito de que tais considerações pudessem servir para a construção de um quadro geral sobre uma manifestação universal das formas de poder, o que interessa a Foucault é dar subsídios ao indivíduo para constituir-se em meio às relações de força e poder.

Desse modo, o filósofo francês nos apresenta como, no produto das determinações históricas, é possível ao indivíduo trabalhar a si mesmo. É nesse aspecto que está a ligação do problema da resistência subjetiva nas diversas singularidades que dá lugar à auto-invenção. Este espaço para a criação e transformação é o próprio processo de subjetivação do indivíduo.