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Atividade comercial como elemento da centralidade em Santa Cruz

Mapa 14 Área de influência de Santa Cruz por segmentos do setor de serviços

3 O TERCIÁRIO NA TESSITURA DA CENTRALIDADE URBANA E REGIONAL

3.1 SERVIÇOS DISTRIBUTIVOS: COMÉRCIO E TRANSPORTES

3.1.1 Atividade comercial como elemento da centralidade em Santa Cruz

Santa Cruz é considerada o centro regional do Agreste Potiguar e essa condição serve de atração para investimentos externos. Como afirma Santos (2003), quanto mais importante é a cidade, em termos funcionais, maior é o número de empresários, de profissionais liberais, de funcionários e de assalariados e, por conseguinte, maior é o número de consumidores.

No que se refere ao comércio de Santa Cruz, a cidade dispõe de uma vasta concentração de estabelecimentos ligados aos segmentos varejista e atacadista, além de lojas de franquias, que tem sua organização relacionada a ambientes externos a cidade. Paralelamente aos estabelecimentos, pode-se destacar a atuação dos camelôs, que utilizam o espaço da principal avenida da cidade, a Dr. Pedro Medeiros, todos os dias da semana. Esses estabelecimentos contribuem expressivamente para a dinâmica da Cidade de Santa Cruz tanto em nível local como regional.

Todavia, torna-se importante destacar que o comércio de Santa Cruz, mesmo com a tradicional importância da cidade do ponto de vista regional, apresenta uma dinâmica de funcionamento que predomina em pequenas cidades interioranas. Por exemplo, em relação ao horário de funcionamento: os estabelecimentos abrem de segunda a sexta, entre 7 ou 8 horas, fecham ao meio dia, reabrem entre 13 ou 14 horas e fecham entre 17 ou 18 horas, aos sábados, ficam abertos das 7 ás 17 horas, em virtude da feira livre. Dessa maneira, a população local já é acostumada com esses horários de funcionamento do comércio e o mesmo ocorre com aqueles residentes em outras cidades. Essa dinâmica de funcionamento influencia nos horários das lotações, cujos deslocamentos são predominantemente no turno matutino.

Contudo, essa dinâmica começou a ser afetada com a chegada de estabelecimentos de grandes redes que atuam na capital e Região Metropolitana de Natal, os quais apresentam algumas práticas diferenciadas do que até então prevalecia.

Um exemplo foi a abertura da Farmácia da Rede Irmã Dulce, no ano de 2009, cujo funcionamento é de domingo a domingo, das 7 às 22 horas, diferindo do que era adotado na cidade – das 7 às 18 horas e, passando desse horário, ficava aberta apenas a que estava de plantão.

Outro exemplo foi a abertura de um estabelecimento vinculado a Rede Mais de Supermercados no ano de 2016. Este estabelecimento inovou o comércio local em termos de estrutura física - oferece numerosas vagas de estacionamentos, amplo ambiente interno, além

de lojas de roupas, farmácia, panificadora, restaurante e lanchonete – e de horário de funcionamento, visto que está aberto ao público de 7 às 20 horas e de domingo a domingo (Figura 5).

Figura 5 - Supermercado Rede Mais em Santa Cruz - 2017

Fonte: Pesquisa de campo, 2017.

Esse acontecimento fez com que os comerciantes locais do segmento de mercadinhos e supermercados ficassem preocupados com a concorrência, que poderia se tornar gigantesca. Com isso, alguns donos de supermercados já tradicionais da cidade começaram a investir em seus estabelecimentos. Esse foi o caso do Supermercado Varejão (Figura 6), que investiu bastante em termos de infraestrutura, ampliação do espaço, climatização, padaria interna e aumento no horário de funcionamento.

Figura 6 - Supermercado Varejão após reforma em Santa Cruz - 2017

A chegada do estabelecimento da Rede Mais contribuiu para dinamizar o comercio local e ampliou ainda mais o papel de Santa Cruz na rede urbana a qual está inserida, acentuando a condição de centralidade já existente. Pessoas de outras cidades se deslocam para Santa Cruz para adquirir produtos comercializados neste estabelecimento, inclusive aproveitando sua localização estratégica, as margens da BR 226.

A despeito de ter provocado grande impacto nos estabelecimentos existentes em Santa Cruz, é importante ressaltar que um fator que possibilita a sobrevivência do comércio local é o crédito de caderneta, ou seja, o “fiado”, que ainda tem expressividade, inclusive no Supermercado Varejão. Alguns donos de supermercados afirmam que é bastante comum o fato de pessoas, inclusive de outras cidades, terem fichas promissórias que possibilitem a venda no crédito próprio da loja, o que não é possível no Supermercado Rede Mais, onde o crédito só é concedido através de cartão. Também é comum uma família já ser cliente do estabelecimento há bastante tempo, sendo a venda “fiado” uma prática que passa de geração a geração – desde os avós. Geralmente se paga a dívida do mês anterior e faz uma nova, se tornando uma coisa cíclica quase que infindável.

Dessa forma, verifica-se que os estabelecimentos comerciais de Santa Cruz, além de gerarem capital para a própria cidade, também alimentam os fluxos da rede urbana, especialmente as articulações que fazem da cidade um centro regional.

3.1.1.1 A Feira Livre de Santa Cruz: mercado periódico de abrangência regional

A feira livre de Santa Cruz é um evento tradicional de expressiva importância, tanto em termos de geração de renda para os feirantes que nela atuam, quanto para a dinâmica regional que confere centralidade a cidade, visto que muitos feirantes e consumidores advêm de municípios do Rio Grande do Norte e da Paraíba. Segundo Bezerra (1983, p. 80)

Santa Cruz ainda era vila quando foi iniciada a feira local, em 1879, em um dia de domingo. A Câmara Municipal, na sessão de 26 de Setembro de 1890, determinou a transferência da feira para o dia de sábado, em vez de domingo, e para que o público tivesse conhecimento dessa mudança, a Câmara contratou o preto de nome Joaquim Bernardo, que pregoava pública e solenemente essa transferência. Ainda em 1890 a Câmara Municipal, em sessão, marcou o lugar da feira que deveria ser localizada em frente à casa de Joaquim Claudiano da Rocha até á de Alexandre de Melo Ferreira Pinto.

A feira livre requisita uma reorganização espacial do centro da cidade, local onde se realiza. Essa reorganização se inicia na quinta-feira e se intensifica na sexta-feira, quando

alguns feirantes começam a chegar de outros municípios para prepararem as bancas onde são expostos os produtos. Aos sábados, dia da realização da feira, aumenta o fluxos de pessoas que vem a Santa Cruz, de modo que a área central da cidade se reorganiza para alojar esse mercado periódico que já é bastante tradicional (Figura 7), inclusive os pontos de parada dos veículos coletivos.

Figura 7 - Santa Cruz - Pontos de parada das lotações no dia da feira livre

Fonte: Pesquisa de campo, 2017.

Os feirantes comercializam frutas, verduras, cereais, legumes, carne – sendo esta vendida nas bancas dispostas nas ruas e no interior do mercado público –, bem como roupas, alumínios, cordas, redes, chás, ervas, bacias, cópias de calçados de marcas famosas, CD‟s e DVD‟s. Há também os “mangaieiros” que comercializam chapéus, celas de cavalo e sandálias (NUNES FILHO, 2012) e outros produtos artesanais. A organização espacial da feira revela que há locais especializados, ou seja, determinado tipo de produto vai ser facilmente encontrado em um local específico (Figura 8).

Figura 8 - Organização da Feira Livre de Santa Cruz.

Fonte: Pesquisa de campo, 2017

A organização do espaço da feira é prerrogativa do poder público municipal, que define os locais destinados a determinadas atividades e os horários para circulação de veículos na área ocupada por essa atividade. Essas iniciativas visam evitar confrontos entre os feirantes devido a ocupação de espaço e facilitar a cobrança do imposto pelos fiscais da Secretaria de Tributação (Figura 9). No entanto, não há um registro desses comerciantes, o que ajudaria a gestão municipal em termos de dimensionamento da feira livre e no que se refere a promoção de melhorias no espaço que ela ocupa. Outrossim, seria importante para os estudos sobre a realidade local no sentido de se obter dados acerca dos sujeitos envolvidos na feira – origem, renda obtida, entre outros.

Figura 9 - Vista parcial da feira livre de Santa Cruz.

Fonte: Arquivo do autor, 2017

A importância que a Feira Livre de Santa Cruz assume no contexto regional está associada, entre outros fatores, ao fato de não existir essa atividade em algumas cidades circunvizinhas como Campo Redondo, Japi, Sítio Novo. Essa situação pode ser elucidada a partir das reflexões de Rolim (1993), que se fundamentam na Teoria da Centralidade, de Chistaller, segundo a qual, muitas vezes o serviço do mesmo nível apresentado no lugar central pode inibir o seu surgimento naqueles lugares de ordem inferior, mesmo que tenha um mercado para ofertá-lo. Em outras palavras, cidades que detém a condição de centralidade e oferecem determinados serviços, podem inibir o surgimento deste mesmo serviço nas cidades menores, por apresentarem melhores condições em termos de preço e qualidade, por exemplo. Segundo os entrevistados, dentre os fatores que contribuem para que as pessoas sejam atraídas a feira de Santa Cruz, está o baixo preço das mercadorias, que se tornam mais acessíveis para os consumidores. Portanto, a feira livre de Santa Cruz se constitui um dos fatores que contribuem para verificar o papel da cidade como centro regional.