A primeira menção na legislação brasileira à insalubridade, ocorreu na Constituição de 1934, que estabeleceu a proibição do trabalho insalubre para menores de 18 (dezoito) anos e para as mulheres. Posteriormente com a edição da Lei n. 185, em janeiro de 1936, estabeleceu-se o aumento do salário mínimo em até a metade nos serviços insalubres, inexistindo, contudo, regulamentação para se exigir o pagamento do referido adicional (OLIVEIRA, 2010, p. 166).
Em 1939, com a Portaria n. SCM – 51, classificou-se os agentes insalubres em três graus: máximo, médio e mínimo. O adicional remuneratório cabível em cada grau só teve sua aplicação efetivada 60 (sessenta) dias após a publicação do Decreto n. 2.162, em maio de 1940, instituindo-se um percentual adicional de 40%, 20% ou 10% do salário mínimo para as atividades desempenhadas respectivamente em graus máximo, médio e mínimo de insalubridade (Op. cit., p. 166-167).
Com o advento da CLT, em 1943, a insalubridade, inicialmente, foi conceituada de forma restrita, unicamente ligada ao ramo industrial, somente em 1977 o conceito passa a ser mais abrangente, correspondendo a atual redação do art. 189, da CLT:
Art. 189. Serão consideradas atividades ou operações insalubres aquelas que, por sua natureza, condições ou métodos de trabalho, exponham os empregados a agentes nocivos a saúde, acima dos limites de tolerância fixados em razão da natureza e da intensidade do agente e do tempo de exposição aos seus efeitos (BRASIL, 1943). As atividades insalubres, segundo Barros: “[...] são aquelas que, por sua natureza, condições ou métodos de trabalho expõem os empregados a agentes químicos, físicos ou biológicos nocivos à saúde, acima dos limites de tolerância [...]” (2007, p. 767).
Para Carrion:
[...] juridicamente, a insalubridade só existe a partir da inclusão das respectivas atividades na relação baixada pelo Ministério do Trabalho. Do ponto de vista conceitual são insalubres as atividades ou operações que exponham a pessoa humana a agentes nocivos a saúde [...] “acima dos limites de tolerância fixados em razão da natureza e da intensidade do agente e do tempo de exposição aos seus efeitos” [...] (2009, p. 184).
Depreende-se, das conceituações de insalubridade, que a sua caracterização está intrinsecamente ligada a intensidade e tempo de exposição ao agente nocivo, configurando-se, em regra, quando há exposição ao agente agressor acima dos limites de tolerância previamente fixados.
Há insalubridade, segundo Süssekind,
quando o empregado sofre a agressão de agentes físicos ou químicos acima dos níveis de tolerância fixados pelo Ministério do Trabalho, em razão da natureza e da
intensidade do agente e do tempo de exposição aos seus efeitos (critério
quantitativo); ou, ainda, de agentes biológicos e alguns agentes químicos relacionados pelo mesmo órgão (critério qualitativo)” (SÜSSEKIND, 2004, p. 933). A NR – 15, da Portaria 3.214/78, do Ministério do Trabalho, cuidou de especificar em seus artigos os agentes insalubres, considerando dentre eles: o ruído contínuo ou intermitente, ruído de impacto, calor, radiações ionizantes, trabalho em condições hiperbáricas, radiações não ionizantes, vibrações, frio, umidade, agentes químicos, poeiras minerais e agentes biológicos (OLIVEIRA, 2010, p. 167).
O trabalho em condições insalubres expõe a saúde do obreiro a maior perigo, ocasionando, assim, como forma de compensação um aumento em sua remuneração (SARAIVA, 2010, p. 349).
Saliente-se que a insalubridade poderá ser eliminada ou neutralizada, por meio da aplicação de medidas de proteção, sejam elas coletivas ou individuais. Reduzida a nocividade do agente até o limite de tolerância não há que se falar em insalubridade. Nesse mesmo sentido, leciona Barreto:
E, como se trata de uma condição ou estado muitas vezes removível, a insalubridade pode ser eliminada, já pelo tempo limitado de exposição aos tóxicos, como gases, poeiras, vapores, fumaças nocivas e análogos, já pela utilização de processos, métodos ou dispositivos especiais que a neutralizam ou a removem, já, enfim, pela adoção de medidas gerais ou individuais, capazes de defender e proteger a saúde do trabalhador [grifo do autor] (apud SÜSSEKIND, 1995, p. 869).
Dentre as medidas empregadas para a proteção da integridade biológica do trabalhador, encontra-se a utilização de equipamentos de proteção individual, que devem
obrigatoriamente ser fornecidos gratuitamente pelo empregador.
Porém, a Súmula 289, do TST, esclarece que a simples entrega do aparelho de proteção não exime o empregador do pagamento do adicional de insalubridade, competindo- lhe a adoção de rotinas que conduzam à diminuição ou eliminação da nocividade, incluindo- se a aplicação de medidas que garantam o uso dos equipamentos pelos empregados (CARRION, 2009, p. 1157).
Eliminada a insalubridade, seja pelo emprego de medidas protetivas individuais ou coletivas, não será mais devido o adicional. Deve-se advertir, porém, que os equipamentos de proteção individual, necessariamente, devem ter a aprovação do Ministério do Trabalho, pois
Além da aprovação prévia desse equipamento, incumbe ao Ministério do Trabalho, por intermédio da inspeção especializada em segurança e higiene do trabalho, verificar, “a posteriori”, por provocação dos interessados ou “ex officio”, se as medidas adotadas são as mais indicadas, notificando o empregador para que promova, quando for o caso, as modificações cabíveis [grifo do autor] (SÜSSEKIND, 1995, p. 871).
Evidente, assim, que o empregador não pode oferecer a seus empregados meios de proteção sem a chancela do ente fiscalizador e regulador da matéria, é indispensável a prévia aprovação e posterior fiscalização de sua eficiência e real utilização.
Frize-se, porém, que uma atividade ou operação insalubre deve, necessariamente, estar enquadrada como tal pelo Ministério do Trabalho. Assim, não bastará que as atividades sejam ditas insalubres pela perícia, pois é imprescindível a prévia classificação. Preceitua o art. 190, da CLT e a Súmula 460, do STF:
Art. 190. O Ministério do Trabalho aprovará o quadro das atividades e das
operações insalubres e adotará normas sobre os critérios de caracterização da insalubridade, os limites de tolerância aos agentes agressivos, meios de proteção e o tempo máximo de exposição do empregado a esses agentes (BRASIL, 1943).
Sum. 460. Para efeito do adicional de insalubridade, a perícia judicial, em
reclamação trabalhista, não dispensa o enquadramento da atividade entre as insalubres, que é ato de competência do Ministro do Trabalho e Previdência Social (CARRION, 2009, p. 1184).
Claro, assim, o posicionamento legal e jurisprudência da indispensabilidade da classificação da atividade como insalubre pelo Ministério do Trabalho que periodicamente atualiza a classificação e limites de tolerância para cada agente nocivo elencado.
Os agentes insalubres são divididos em três grupos: agentes físicos; químicos e biológicos. Suas definições encontram-se inseridas na NR – 9, do Ministério do Trabalho, considerando–se agentes físicos as diversas formas de energia a que possam estar expostos os trabalhadores, como: ruídos, vibrações, pressões anormais, temperaturas extremas, radiações
ionizantes e não ionizantes, infrassom e ultrassom; os agentes químicos são substâncias ou produtos que possam penetrar no organismo através da via respiratória, podendo ser poeira, fumo, névoa, gases ou vapores e todos os demais compostos que têm contato direto com o trabalhador ou que por sua natureza possam ser absorvidos pelo organismo em razão do contato com a pele ou ingestão; na classe dos agentes biológicos encontram-se inseridos, dentre outros, as bactérias, fungos, vírus, parasitas e protozoários (OLIVEIRA, 2009, p.27- 28).
Importante mencionar que, segundo assevera Camardella (apud OLIVEIRA, 2009, p. 28) os agentes nocivos à saúde podem ocasionar doenças ao trabalhador, contudo, sua ocorrência dependerá simultaneamente:
[...] da inter-relação do agente insalubre com a atividade com a atividade profissional e com o próprio indivíduo; da natureza e intensidade do agente insalubre; das características da atividade profissional do trabalhador, como duração do processo e tempo de execução; da susceptibilidade do indivíduo ao agente; e de outros fatores que podem influir na gravidade ou no período de evolução das doenças, como: trabalho pesado, nutrição deficiente, alcoolismo, idade, sexo, cor e também a existência de doenças não profissionais.
Observa Vendrame (apud SÜSSEKIND, 2004, p. 933), que
a agressão do agente insalubre opera de forma cumulativa e paulatina. Cumulativa porque os males que afetam diretamente a saúde dos trabalhadores são progressivos e irreversíveis. Paulatina, pois o organismo do trabalhador vai sendo lesado aos poucos.
Observa-se que os efeitos adversos à integridade física do trabalhador é o resultado de um conjunto de fatores, apresentando-se crucial o tempo em que o trabalhador fica exposto ao agente nocivo e sua intensidade, portanto os meios de proteção são de fundamental importância para a garantia da saúde do obreiro e de sua qualidade de vida.
O Direito do Trabalho deve estabelecer como escopo a mantença do bem mais valioso e primordial que é a saúde do trabalhador, abandonando-se a tendência ao enfoque da percepção do adicional como único modo de abrandamento à deterioração da saúde, mas como alternativa extrema em casos de total impossibilidade de eliminação da nocividade ou de sua eficaz neutralização, pois
Percebe-se agora que o pagamento do adicional de insalubridade acabou se transformando num permissivo institucionalizado para expor o trabalhador ao agente nocivo. Para a empresa mostrou-se menos dispendioso pagar o adicional do que realizar os investimentos para tornar o ambiente de trabalho saudável (OLIVEIRA, 2010, p. 168).
suficientes para assegurar o trabalho em condições seguras e saudáveis, pois a concepção da monetização do risco encontra-se arraigada na mente do empregador.
Ademais, não se deve deixar de considerar os constantes avanços tecnológicos e desenvolvimento de novas técnicas e mesmo o lançamento de novos produtos químicos cujos efeitos ainda são ignorados, posto que por vezes constata-se que o nível de tolerância a agentes já conhecidos está equivocadamente fixado.
4.2 DA SÚMULA 349 DO TRIBUNAL SUPERIOR DO TRABALHO E ARTIGO 60 DA