2. A OIT E A LIBERDADE SINDICAL
2.2 ESTRUTURA E OBJETIVOS DA OIT
2.2.3 Atividade normativa da OIT
Os temas de maior relevância para o mundo do trabalho, após estudos e deliberação com os segmentos que compõem a OIT, são normatizados para que possam ser adotados pelos Estados membros.
Basicamente, a atividade normativa da OIT se dá por meio da edição de convenções e recomendações , com a finalidade cumprir os objetivos da Organização, ou seja, promover a justiça
social. São instrumentos ju rídicos, porém igualmente
regulamentados na Constituição da OIT, documento que os Estados, ao se filiarem, se comprometem a cumprir .
As convenções possuem natureza jurídica de tratado multilateral aberto . São elaboradas pela Conferência Internacional do Trabalho, permanecendo abertas à ratificação pelos Estados membros até que uma convenção revisora, total ou parcial, seja aprovada.66
Formalmente não diferem dos demais tratados
internacionais, acompanhando as disposições da Convenção de Viena, que regula o direito dos tratados. Tem por finalidade regulamentar o trabalho e outras questões conexas no âmbito internacional.
Assim que aprovada s as convenções pela Conferência Internacional, geram a obrigação aos Estados membros de, no prazo de um ano, em regra, submeterem o texto à autoridade ou autoridades que possuam competência no país para apreciação e internalização, nos termos do artigo 19, 5, “b” da Constituição da OIT, sendo que, o mais comum, é o parlamento naciona l ser a autoridade competente .
66
Importante destacar que, mesmo a autoridade competente tendo decidido pela não ratificação, o Estado fica obrigado a informar à Repartição Internacional do Trabalho a situação em que o tema se encontra no âmbito interno, ou seja, como o assunto é regulado, seja pel a legislação, seja pela prática negocial, bem como quais são óbices que impedem ou retardam sua ratificação.
O trâmite interno para a aprovação nos Estados membros varia de acordo com a tradição jurídica e o modelo constitucional adotado. Já quanto à forma , alguns Estados podem considerar adotado o texto integral do tratado ou convenção após a sua aprovação, já outros consideram necessário a edição de a reprodução de seu conteúdo normativo e a edição de lei específica.67
Ressalta -se, ainda, que antes da vigência interna, que se dá doze meses após a ratificação pelo Estado, a convenção deve ter vigência internacional, o que ocorre, em regra, com o esgotamento do prazo de doze meses após a ratificação por dois países.
Uma vez ratificadas, as convenções cons tituem fonte forma de direito, gerando para os cidadãos direitos subjetivos,
imediatamente aplicáveis.68
Cumpre dar relevo ao fato de que, embora tenham forma jurídica de tratado nos moldes do direito internacional público, as convenções da OIT apresentam uma particularidade que as torna únicas em termos de normas internacionais, é o fato de
67
C R I VEL LI , o p . c it . , p . 7 3 .
68
que nesse tipo de tratado os Estados aceitam a intervenção de uma
terceira vontade, qual seja, a vontade da OIT.69
A ratificação pelo Estado membro terá um prazo de validade de 10 anos e , após esse prazo, o Estado poderá denunciar a ratificação, em comunicação dirigida ao Diretor -geral da Repartição, gerando efeito somente 12 meses após o registro da denúncia, ou ainda, caso não seja feita a denúncia nos 12 meses que se seguem à validade da ratificação, haverá renovação tácita da ratificação, que se dará por mais 10 anos e assim sucessivamente.
No tocante à interpretação das convenções, a própria Constituição da OIT em seu artigo 37 §§ 1º e 2º, estabelece procedimentos p ara a resolução de dificuldades relativas à interpretação.
Por sua vez, a s recomendações são instrumentos internacionais que não possuem natureza de tratado, mas também
são oriundas da Conferência Internacional do Trabalho ,
constituindo -se em fonte material, mas não formal de direito.
Possuem as recomendações uma característica que as difere das demais recomendações conhecidas em direito internacional público. Ao contrário das recomendações em geral, que não geram obrigações jurídicas para os Estados que a s adotam, as recomendações da OIT impõem aos Estados membros
certas obrigações, ainda que de caráter formal.70
Nas palavras de Fábio Túlio Barroso, as
recomendações são admitidas na ordem jurídica de cada país de acordo com sua conveniência, que pode aprese nta-la no âmbito
69
SI L VA, op . c it. , p . 69 .
70
interno para seu processo ordinário legislativo, quando se torna lei. No mais, se o Estado membro não estabelecer atividade normativa interna não estará infringindo uma norma internacional do
Trabalho.71
Entretanto, da mesma forma que as convenções, as recomendações devem ser submetidas à autoridade competente para legislar ou adotar outra s medidas relativas à matéria , porém no prazo máximo de 18 meses . A autoridade competente pode decidir transformar em lei o que estiver disposto na recomen dação, empreender outras iniciativas relativas ao tema, ou mesmo apenas tomar conhecimento de seu conteúdo. Também geram a obrigação
ao Estado membro de fornecer informações à Repartição
Internacional do Trabalho sobre o tratamento da matéria no território nacional, legislação e aplicação prática, indicando se está sendo observada ou se há intensão de ser observada e , ainda, se assim entender, quais as modificações que precis arão ser implementada s para a adoção de suas disposições.
As recomendações podem t er o caráter complementar à convenção sobre o mesmo tema, os seja, um detalhamento das diretrizes amplas da convenção, espécie de regulamentação. Por outro lado, pode ocorrer da matéria ainda não estar madura para que seja ser objeto de uma convenção, por falta de consenso, daí a adoção da recomendação para que o tema seja gradualmente aceito.
Cláudio Santos da Silva destaca o fato de que ainda há muito debate doutrinário acerca das assimetrias existentes entre os Estados membros da OIT e as implicações dessas disparidades na atividade normativa da Organização, dificultado a pretensão de universalidade das convenções aprovadas. Aponta que ao longo de sua história, a desigualdade do desenvolvimento econômico nos
71
países levou a Constituição da OIT a prever a moderação e o equilíbrio no nível das normas quando de sua elaboração, conforme
disposição do art. 19 da Constituição da OIT.72
Assim, a diferença entre as convenções e as recomendações da OIT é somente formal, uma vez que, materialmente, ambas podem tra tar dos mesmos assuntos e serem fonte material de direito . Em essência, se assemelham aos tratados e declarações internacionais de proteção dos direitos humanos.
2.3 CONVENÇÕES E RECOMENDAÇÕES DA OIT SOBRE