A administração do município da Ponta do Sol (1878-1886) A organização administrativa do Estado foi objeto de atenção por parte dos
2. AS ÁREAS DE INTERVENÇÃO MUNICIPAL
2.2. ECONOMIA 6 Posturas
2.2.9. Atividades económicas
A vida económica do concelho da Ponta do Sol decorria em torno da atividade agrícola, nomeadamente da cana sacarina, principal matéria-prima dinamizadora das fábricas do concelho.
O trabalho na agricultura era bastante árduo, com instrumentos de uso comum e sem auxílio de máquinas agrícolas. A produtividade agrícola era reduzida, devido à
325 ARM, CMPS, AS, n.º 172, fl. 234-235, 15 de fevereiro de 1879 e AS, n.º 172, fl. 245-248, 14 de junho
de 1879.
326
ARM, CMPS, AS, n.º 173, fl. 29v-34, 01 de junho de 1881 e AS, n.º 173, fl. 34-35, 22 de junho de 1881.
327 Codigo Administrativo de 1878, pág. 30. 328
ARM, CMPS, AS, n.º 172, fl. 238v-239v, 16 de abril de 1879.
escassez de águas no concelho da Ponta do Sol, tendo esta situação sido melhorada com a extração da água do Rabaçal, na parte ocidental do Paul da Serra330.
Os adubos fertilizantes das terras eram os matos das serras. Os principais produtos agrícolas produzidos foram os cereais (trigo, cevada, centeio e milho), o feijão, a batata-doce, a semilha, o inhame e vinho.
Uma das pragas das videiras foi o oídio. O oidium tukery foi a doença que grassou nos vinhedos um pouco por toda a Ilha da Madeira, sobretudo em 1852, tendo sido mais gravoso no Funchal e em Câmara de Lobos. O concelho ponta-solense também passou pela grave crise vinícola, à semelhança da quebra de produção de vinho em Portugal Continental, nomeadamente na região de Figueira da Foz331.
A cana-de-açúcar ocupava grande parte do terreno do concelho, sendo posteriormente feita, em grande escala, a aguardente e algum açúcar332.
Na segunda metade do século XIX, a cultura da cana sacarina era quase o único recurso dos proprietários e agricultores do município da Ponta do Sol, que enfrentavam sérios problemas, resultantes dos elevados impostos na exportação do açúcar, dos fungos que atacaram os canaviais insulares (1882) e da livre circulação do mel, do melaço e do melado estrangeiros333.
A cultura da cana sacarina foi objeto de evidentes preocupações, quer por parte das autoridades municipais, quer por personalidades ilustres do concelho. Apresentámos dois exemplos, a saber: primeiro, a Câmara Municipal da Ponta do Sol foi favorável à aplicação de taxas sobre os produtos estrangeiros, impedindo a sua livre circulação.
330
A passagem das águas do Norte para o Sul da Ilha da Madeira pelo Rabaçal é de 16 de setembro de 1855 (SILVA, Fernando Augusto da e MENESES, Carlos Azevedo de (1998), volume II, artigo Levadas, pp. 235-269).
331
Nos inícios da segunda metade do século XIX, as vinhas madeirenses foram atacadas pelo Oidium
Tuckeri (mangra) e, posteriormente, na década de 70, pela filoxera, gerando grave crise económica no
arquipélago da Madeira. Com a perda de produtividade agrícola e de rendimentos, muitos madeirenses encontraram na emigração a solução para a resolução dos seus problemas. Ver: SILVA, Fernando Augusto da e MENESES, Carlos Azevedo de (1998), volume II, artigo Filoxera, pp. 32-33; artigo
Mangra da Vinha, pp. 329-330 e artigo Míldio, pág. 363 e volume III, artigo Vinhas, pp. 406-412 e Diario da Tarde, ano 1.º, n.º 236, dia 5 de outubro de 1882, pág. 1. Sobre Figueira da Foz e Buarcos, ver:
CASCÃO, Rui de Ascensão Ferreira (1998), pp. 173-175.
332
SILVA, Fernando Augusto da e MENESES, Carlos Azevedo de (1998), volume I, artigo Açucar, pp. 14-16 e artigo Aguardente, pp. 22-24 e volume III, artigo Proteccionismo Sacarino, pp. 159-160.
333 A partir de 1882 registou-se a entrada de uma grave doença nos canaviais da cana sacarina, provocada
pelo fungo Conyothytium melasporum, o que causou grandes prejuízos nos anos de 1884, 1885 e 1886, desde a destruição dos canaviais, passando pela subida do preço da cana até à importação do melaço. SILVA, Fernando Augusto da e MENESES, Carlos Azevedo de (1998), volume I, artigo Alcool, pp. 34- 35 e artigo Cana Sacarina, pp. 226-230.
Sobre a situação económica da Ilha da Madeira, veja-se a publicação de António Correia de Herédia, de 1888, na qual fez observações dessa realidade, desde a organização da propriedade rural, passando pelas produções agrícolas até aos direitos de importação e exportação.
Segundo, por volta de 1885, um grupo de ilustres habitantes, Nuno de Freitas Pestana, João Francisco de Ornelas Sobrinho, Guilherme de Abreu Macedo, Francisco Cabral de Noronha, Luís César Camacho e Manuel Luís Pestana, solicitaram a intervenção do Governador Civil junto do rei, para a introdução de variedades de cana doce mais resistentes às pragas. Juntamente com esta preocupação, este grupo deu a conhecer, também, as suas queixas sobre o elevado preço das águas, o mau estado de viação pública, a necessidade da criação de um banco agrícola, o recrutamento de mancebos e o pesado tributo dos tabacos produzidos em fábricas lisboetas334.
O sector industrial do concelho da Ponta do Sol era dominado pelas fábricas de cana sacarina, como já verificámos no Capítulo I, pelos estudos de Benedita Câmara ou pelo Inquerito Industrial de 1881. Pelos registos das atas de vereações, encontrámos a indicação de dois estabelecimentos industriais: a fábrica de Guilherme Wilbraham, localizada na Vila da Ponta do Sol, e a fábrica de moer canas doces de João de Andrade, nos Anjos (Canhas)335.
Quanto às florestas, outro bem precioso das populações, também eram acauteladas pelas instituições municipais e distritais336. No século XVIII, a historiadora Ana Madalena de Sousa constatou que a edilidade ponta-solense estava ciente da necessidade de defender o meio ambiente, de preservar as matas e as serras e de punir os infratores em caso de corte ilegal de madeiras ou de feiteiras e de giestas337.
As serras eram vigiadas por guardas florestais, cujo número era insuficiente para cobrir as necessidades. A falta de recursos monetários impedia a Câmara Municipal da Ponta do Sol de contratar mais funcionários338. As devastações ocorridas nas serras eram habitualmente causadas pelos pastos ou pelas atividades desenvolvidas pelos carvoeiros. À edilidade chegavam regulares pedidos de autorização para o corte de árvores, como o caso do vinhático. O corte da lenha e madeira era uma preocupação da Câmara Municipal da Ponta do Sol e também a da Calheta339.
334 ARM, CMPS, AS, n.º 173, fl. 165-165v, 20 de outubro de 1886. 335
ARM, CMPS, AS, n.º 173, fl. 14v-15v, 20 de outubro de 1880 e AS, n.º 173, fl. 38v-40v, 5 de outubro de 1881. Através das atas de vereação, também, sabemos que o vereador António Jacinto Pestana oponha-se à concessão do aforamento da servidão pública para a fábrica do industrial Guilherme Wilbraham. Fábrica de João de Andrade: ARM, CMPS, AS, n.º 173, fl. 52-52v, 14 de janeiro de 1882.
336 Governo Civil (ARM, CMPS, AS, n.º 172, fl. 220-222, 5 de outubro de 1878) e Direção da Associação
Madeirense Promotora do Bem Público (ARM, CMPS, AS, n.º 172, fl. 228v-232v, 24 de janeiro de 1879).
337 SOUSA, Ana Madalena Rosa Barros Trigo de (2004), pág. 163. 338 ARM, CMPS, AS, n.º 172, fl. 220-222, 5 de outubro de 1878. 339
Ponta do Sol: ARM, CMPS, AS, n.º 173, fl. 69v-71, 15 de novembro de 1882 e AS, n.º 173, fl. 132- 133, 22 de abril de 1885. O trabalho de investigação sobre o município da Calheta incidiu sobre o
2.2. ECONOMIA