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Obras particulares

No documento Elite municipal da Ponta do Sol: 1878-1886 (páginas 130-133)

A administração do município da Ponta do Sol (1878-1886) A organização administrativa do Estado foi objeto de atenção por parte dos

2. AS ÁREAS DE INTERVENÇÃO MUNICIPAL

2.2. ECONOMIA 4 Obras públicas

2.2.5. Obras particulares

Na vigência das vereações de 1878 a 1886, surgiu-nos um leque significativo de requerimentos de particulares para a realização de pequenas obras para permitir um melhoramento no acesso a habitação, na circulação em caminhos, na disponibilidade de água em fontes, na construção de levadas, na proteção de propriedade e no acesso à Igreja de São Bento, na freguesia da Ribeira Brava307.

Tomemos o exemplo do morador na Vila da Ponta do Sol, Vicente de Andrade Souto, proprietário, fanqueiro e um dos quarenta maiores contribuintes do concelho da Ponta do Sol. Em duas ocasiões, este solicitou autorização para substituir as pedras que limitavam o seu quintal com o caminho para o sítio das Hortas, por varos de ferro. Todavia, o requerente melhorou benfeitorias em terreno camarário, junto à Capela de São Sebastião, ocupando principalmente a parte do mainel do adro da referida capela. O Presidente da Câmara decidiu que se o referido infrator, no prazo de sessenta dias, não devolvesse o valor das benfeitorias à Câmara e demolisse os aumentos feitos, a instituição municipal fazia-o, tendo o requerente que custear as despesas camarárias.

Mais tarde, Vicente de Andrade Souto pediu licença para construir um corredor de madeira sobre o caminho público à frente da propriedade, localizada de fronte para o adro da mencionada capela. A Câmara Municipal da Ponta do Sol viabilizou o seu pedido, sob condição de não obstruir a via pública, bem como do corredor ter altura e qualidade suficiente para não estorvar os transeuntes, quer a pé, quer a cavalo, ou com qualquer sombreiro ou chapéu-de-sol aberto308.

A partir desta referência, podemos observar alguns esboços de modernização urbanística, como cuidado no alinhamento da rua e na circulação de pessoas. Para com os particulares e, em regra, a vereação presidida por Francisco António de Ornelas, estendeu a sua ação em trabalhos de ligeira importância para o concelho, mas relevante para os proprietários.

307 Atas respetivas: ARM, CMPS, AS, n.º 172, fl. 228v-232v, 24 de janeiro de 1879; AS, n.º 172, fl. 234-

235, 15 de fevereiro de 1879 e AS, n.º 172, fl. 252-257v, 30 de julho de 1879; ARM, CMPS, AS, n.º 172, fl. 234-235, 15 de fevereiro de 1879; AS, n.º 173, fl. 52-52v, 14 de janeiro de 1882 e AS, n.º 173, fl. 61- 62v, 30 de agosto de 1882; ARM, CMPS, AS, n.º 172, fl. 290-292, 7 de junho de 1880 e, por fim, ARM, CMPS, AS, n.º 173, fl. 72v-74, 20 de dezembro de 1882.

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Ver as seguintes atas: ARM, CMPS, AS, n.º 172, fl. 237-238v, 22 de março de 1879; AS, n.º 172, fl. 239v-242, 10 de maio de 1879 e AS, n.º 173, fl. 61-63v, 30 de agosto de 1882.

Neste ponto do trabalho, debruçáramo-nos num caso paradigmático: a construção de uma pequena obra que acendeu rivalidades entre as altas personalidades da freguesia da Ponta do Sol e que monopolizou as atenções camarárias.

No ano de 1879, encontrámos vinte e sete atas de vereação. Se retirarmos quinze atas com assuntos específicos e com único ponto da ordem de trabalhos (tomada de posse de vereadores, orçamento geral, autos de arrematação, recrutamento militar e uma ata sem quórum), sobram doze. Destas doze atas, a questão da obra de um aqueduto esteve presente em cinco, contando que uma delas foi sessão extraordinária convocada para o efeito, nomeadamente a 19 de junho de 1879309.

A 1 de março de 1879, Manuel Joaquim Borges solicitou à Câmara Municipal da Ponta do Sol duas licenças, uma para abrir um regueiro, junto ao caminho da Vila ao sítio do Ribeirinho, para levar água à sua propriedade e, outra para construir um aqueduto subterrâneo na beira da rocha, mas que ficaria superior ao caminho, alegando que não causaria juízo à viação. A Câmara da Ponta do Sol aprovou desde que não provocasse dano na entrada a outros.

Na sessão camarária de 14 de junho, foi discutido o requerimento de António Félix Pita e de António Teodoro de Andrade Souto Maior a solicitar a anulação da licença concedida a Manuel Joaquim Borges para a construção do aqueduto, uma vez que esta obra trazia consequências negativas para os viandantes, assim como as águas infiltravam-se no basalto, trazendo desmoronamentos. A edilidade ponta-solense acabou por deliberar, em despacho, a anulação da licença. Contudo, não foi uma decisão pacífica, porque saiu vencido o Vice-presidente, Francisco José F. Ribeiro de Campos.

Cinco dias depois, a 19 de junho, decorreu extraordinariamente nova reunião camarária para decidir a demolição da obra por parte da Câmara, caso Manuel Joaquim Borges não a fizesse. Estiveram presentes o Presidente, Francisco António de Ornelas, os vereadores, António Jacinto Pestana, João Jacinto de Meneses, Francisco Cabral de Noronha e Roberto de Freitas e o Administrador do Concelho. Os vereadores Meneses e Cabral foram da opinião que a demolição devia ser feita o mais rápido possível, enquanto o vereador Pestana alertou os presentes para que a decisão final fosse tomada quando chegasse a decisão do recurso de Manuel Joaquim Borges ao Conselho de Distrito. Por seu turno, o Administrador do Concelho defendeu a razão da necessidade

309 ARM, CMPS, AS, n.º 172, fl. 235v-237, 1 de março de 1879; AS, n.º 172, fl. 245-248, 14 de junho de

1879; AS, n.º 172, fl. 249v-250v, 19 de junho de 1879; AS, n.º 172, fl. 253-257, 30 de julho de 1879 e AS, n.º 172, fl. 264-269, 25 de agosto de 1879.

pública, porque a edilidade ponta-solense concedeu a licença e as obras foram feitas de boa fé, dever-se-ia aguardar pela decisão do recurso remetido para instâncias superiores. Desta forma, a Câmara Municipal teria uma decisão fundamentada e não estaria a «parecer estar exclusivamente satisfazendo conveniencias particulares»310.

No final do mês de julho, coube ao elenco camarário argumentar em sua defesa no processo do recurso dirigido por Manuel Joaquim Borges, parente do Administrador do Concelho, Nuno de Freitas Pestana. Assim, a Câmara Municipal alegou que a tomada de decisão foi feita sem a informação prévia dos benefícios ou prejuízos que pudessem resultar de tal concessão autorizada. Porém, as obras causaram prejuízos a António Félix Pita e António Andrade Souto Maior, para além do facto de Manuel Joaquim Borges ter ocultado a verdade. O requerente informou a Câmara que iria aproveitar as águas, mas acabou por ser um meio subtil para invadir a propriedade e direito de água de outros, para além de causar risco para os transeuntes.

A deliberação camarária foi feita de acordo com o n.º 6, do Art.º 103.º, do Código Administrativo de 1878. Deste modo, a obra em causa era de competência municipal, pois a licença de servidão de um aqueduto para condução de águas não precisava de aprovação prévia da Junta Geral de Distrito. A Câmara também se defendeu da acusação de falta de independência, alegando nada ter a ver com as questões particulares do requerente. Assim, esta manteve a sua decisão de anulação da licença, com voto contra do vereador António Jacinto Pestana. A última indicação sobre o assunto surge a 25 de agosto quando Manuel Joaquim Borges pretende saber se foi dada ordem para a destruição das obras que realizou, cuja resposta desconhecemos.

A extensão tentacular dos influentes da Ponta do Sol fez-se sentir nesta questão polémica, de um lado, Manuel Joaquim Borges, porteiro da Câmara e oficial de diligências da administração do concelho e, do outro lado, António Félix Pita, oficial de diligências e um dos quarenta maiores contribuintes do concelho da Ponta do Sol, e António Teodoro de Andrade Souto Maior, oficial e antigo vereador em vários elencos camarários.

Na vida do concelho jogava-se o prestígio individual, acautelavam-se interesses particulares, recorriam-se às figuras da vida política local ou de quem junto das instâncias superiores pudesse interceder em seu favor.

2.2. ECONOMIA

No documento Elite municipal da Ponta do Sol: 1878-1886 (páginas 130-133)