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5 PROPOSTA CURRICULAR DAS AULAS DE LITERATURA DO ENSINO

6.8 ATIVIDADES PROPOSTAS NAS AULAS DE LITERATURA

Sandra pensa que as atividades propostas para o 1º ano devem ser bastante diferentes

das oferecidas para o 5º ano: “O segundo [ano] se aproxima muito do primeiro [ano]. O

terceiro [ano] fica mais no meio termo. O quarto ano é como se fosse uma preparação para o

quinto [ano] (...) fica difícil a gente separar”. Para ela, o 1º ano exige textos mais curtos

porque o tempo de atenção deles é menor em relação ao 5º ano: “São mais curtos os textos,

mas você pode ler um clássico no primeiro ano. (...) eu li o Ricardo Azevedo que eram três

histórias de bobos, paspalhões. (...) Eu li com o meu segundo ano em duas etapas. (...) a

história era tão envolvente que eles queriam saber”.

Para Sandra, o 1º ano é um momento de “começar a criar empatia com o público

infantil (...). Tem que ter uma parte assim de jogo, de brincadeira, para depois você introduzir

o texto naquela brincadeira e depois você fazer uma proposta”. Já o 5º ano precisa ter debates.

Os textos selecionados devem provocar questionamentos: “É muito mais você lançar uma

literatura mais questionadora”. Nos debates é importante ouvir a opinião das crianças.

Conversando sobre as atividades propostas nas aulas de Literatura, Sandra trouxe à

tona outras duas questões: as atividades que o 5º ano realizava quando Renata era

coordenadora de Literatura e o perfil do professor de Literatura do EFI. Anos atrás, Sandra foi

chamada para avaliar o 5º ano. Teve um aluno que disse para ela: “Tia, por que que a gente

não faz teatro?”. Esse aluno provocou Sandra. Para ela não é qualquer professor que dá aula

de Literatura, pois “não é qualquer um que sabe ler, fazer uma leitura de um livro literário,

entendeu? As pessoas pensam que contar história é fácil, mas não é fácil não”. Ela pensa que

esse professor deve saber ler com entonação, ter envolvimento com o texto literário, ler de

acordo com a pontuação, olhar, fazer algumas pausas e perguntar sobre o texto.

As aulas de Literatura de Mariana contavam com atividades pedagógicas diversas: “A

apresentação das histórias era feita através da leitura de livros, mas também de teatrinhos de

fantoche, teatros de sombra, filmes, vídeos, poesias, entre outras técnicas, utilizando, sempre

que possível, músicas adequadas para despertar emoções”. Após a contação, os alunos

“representavam cenas, construíam personagens com desenhos, recortes e colagens e

utilizavam jogos”. Os jogos estavam em integração com os contos e com outras áreas do

conhecimento. De acordo com Cláudia, “As leituras dos textos, em nossas aulas de Literatura,

são permeadas com atividades mais lúdicas e plásticas, caracterizando as obras apresentadas”.

De modo geral, as observações e a participação nas reuniões pedagógicas mostraram

que as atividades propostas são leitura, conversa, dramatização, desenho (com ou sem

materiais diversos), escrita, exibição, análise, pintura de desenhos, jogo, dobradura.

Há leitura de literatura; conversa sobre texto, imagens ou vídeos; dramatização do

texto literário durante a leitura compartilhada da professora, ou em grupo, e após o

conhecimento do texto, com fantoches de varas; desenho de cenas, personagens, objetos;

escrita de bilhete, apreciação crítica, texto informativo, resposta a uma pergunta suscitada

pelo livro; exibição de curta-metragem, filmes, fotografias; análise de imagens; pintura de

desenhos de autoria dos alunos, quebra-cabeça; jogo de adivinhação, de cartas; dobraduras de

cenários e personagens. No apêndice G compartilhamos um quadro com as atividades

realizadas após a leitura e a conversa sobre o livro no período de março a outubro de 2016.

De modo geral, o 1º, 2º, 3º e 4º anos ouvem, conversam, desenham e escrevem,

preponderantemente. O 5º ano ouve, conversa, debate e escreve. A linha de força que é mais

presente nas atividades de Literatura é a Experiência/Formação, na medida em que a produção

de sentidos é um vetor muito presente no ato da leitura e da conversa. Também está presente a

linha Leitura e Ludismo. A leitura deve provocar encantamento, trazer o leitor para fabular

com o autor. Embora a intenção da produção, após a leitura, seja provocar uma reflexão ou

sistematização sobre a leitura, observamos que ela nem sempre promove uma resposta do

leitor ao texto. Embora ele tenha que criar nessa resposta, este momento nem sempre é de

criação para os alunos devido à repetição dos modos de criar. Vimos crianças realizando as

produções de modo tarefeiro, apenas para entregar. Nem sempre isso aconteceu porque o

aluno não era aplicado. Vimos alunos considerados bons desestimulados na realização das

produções. Então, a intenção é provocar a imaginação, mas a variedade de maneiras de

provocar este momento precisa ser revista. O professor tem a intenção formativa, e o aluno

está envolvido para dar a sua contrapalavra. Mas a maior parte das atividades propostas fica

no desenhar e escrever (1º ao 4º ano) e no debater e escrever (5º ano).

Olhando para as atividades propostas, diríamos que a força delas está na leitura. Ela é

cativante, bem contextualizada, o professor está inteiro nela. Os alunos ouvem, observam e

assistem. Percebemos que a leitura pelo aluno aparece quando há a dramatização do texto. A

conversa sobre o texto literário está presente, mas o teor dela fica a cargo do professor. Aqui

acreditamos que vale a pena combinar previamente o que é importante perguntar sobre o texto

para que as reflexões sobre as construções literárias sejam garantidas. Os alunos, de modo

geral, conversam sobre o texto literário, sobre aquilo que o professor quiser dar destaque. A

atividade subsequente à conversa é fundamental. A equipe compreende que o leitor dá uma

resposta e, desde o PGE de 1985, a marca desse momento da aula é a criação. Porém, hoje, a

equipe precisa refletir: em que medida a criação está sendo vivida pelo aluno com as

atividades propostas? O aluno está realizando para entregar uma tarefa, ou para de fato dar

uma resposta ao texto? As aulas de Literatura dão mais ênfase ao conteúdo e à emoção. O que

está mais frágil no trabalho é a criação.

Toda a aula de Literatura vai ao encontro do que Vigotski (2010, p. 333) chamou de

vivência estética. Há esta intenção. As professoras e coordenadoras entendem que o aluno não

está passivo na aula. Tal atividade construtiva é realizada pelo aluno na apreciação da leitura

dramatizada pela professora Mariana, nas leituras dialogadas da professora Cláudia e da

coordenadora Sandra. Todavia, há dúvidas quanto à construção e criação do objeto estético

pelo aluno, na medida em que ele realiza atividades propostas pela professora que nem

sempre fazem sentido para ele. As aulas mostram que os textos são bem aceitos, que a

conversa de fato abre espaço para as reflexões dos alunos. Porém, as atividades nem sempre

são bem aceitas, seja pelo desafio que provocam, pelo sentido que fazem para o aluno, ou pela

repetição de modos de realizar a tarefa. Nesta hora a criação fica em xeque.

Por meio da leitura dialogada ou não o aluno reage. Percebemos que a conversa é um

importante momento de reconstrução do objeto estético, que é quando o aluno entra em

interlocução mais fortemente com a obra, juntando sua experiência com o que a obra traz. A

resposta dada à obra é que, às vezes, é interrompida nas aulas por causa das razões expostas

acima. A reação estética nem sempre se completa.

Vimos que no momento em que a obra de arte é vivenciada a divergência entre

conteúdo e forma provoca uma contradição emocional no sujeito. Isso é potencializado

quando a professora ressalta tal divergência. O momento da estimulação é potencializado pela

ilustração, pelos objetos, ambientação da sala. A reação estética começa pela percepção

sensorial. Na síntese criadora secundária (VIGOTSKI, 2010, p. 334) o leitor se une à obra.

Esta síntese é potencializada e vivida na conversa sobre o texto literário. Por meio da empatia,

os alunos se projetam na obra, com a professora abrindo ou não espaço. A fragilidade está na

resposta. E por que há dúvidas sobre a resposta? Porque não é possível afirmar que há criação

na atividade proposta após a conversa. Contudo, a intenção é provocar esta criação. Ela é

presente e forte. A importância que a equipe confere à criação se relaciona com o dizer de

Vigotski (1998, p. 313-314):

a percepção da arte também exige criação, porque para essa percepção não basta simplesmente vivenciar com sinceridade o sentimento que dominou o autor, não

basta entender da estrutura da própria obra: é necessário ainda superar

criativamente o seu próprio sentimento, encontrar a sua catarse, e só então o efeito da arte se manifestará em sua plenitude (VIGOTSKI, 1998, p. 313-314, grifo nosso).

A leitura e a conversa possibilitam a empatia (BAKHTIN, 1993a, p. 32-33) das

crianças. Mas, para que possam de fato contemplar e vivenciar esteticamente a obra, é

necessário haver uma cocriação. É necessária uma atividade de autoria posterior em relação

ao leitor/contemplador. Questionamos na tese o quanto o aluno está como cocriador da obra.

A atividade proposta deve possibilitar cocriação. Falta garantir a conclusão da

recepção/reação estética. “Só porque vemos ou ouvimos algo não quer dizer que já

percebemos a sua forma artística [...] é preciso ingressar como criador no que se vê, ouve e

pronuncia” (BAKHTIN, 1993b, p. 58-59, grifo do autor). “A percepção mais simples da

forma ainda não é, por si mesma, um fato estético” (VIGOTSKY, 1998, p. 68).

Como os alunos continuam na condição de criadores nas aulas de Literatura após a

leitura e a conversa sobre o texto literário? Acreditamos que é produzindo coletivamente

produtos finais ligados a um projeto de classe, pois dessa maneira o que será produzido é

decidido coletivamente e, portanto, fará sentido para o grupo. Exemplos de produtos finais de

projetos literários são livros, musicalização de poemas, apresentações teatrais, festivais de

poesia/recitais, jornais/boletins informativos, curtas-metragens, animações, cenas de livros,

autobiografias leitoras, teatro de fantoches, radioteca, videoteca com entrevistas, máscaras,

modernização de histórias antigas, produções escritas de finais de contos, registro de histórias

populares contadas na comunidade, adaptações de clássicos para história em quadrinhos,

tapetes de histórias, livros virtuais, propagandas de livros, produções escritas de versões,

traduções e adaptações, escrita de resenhas.

As aulas de Literatura nada mais são do que a leitura dialogada e guiada do texto

literário. Um grande encontro para construir sentidos coletivamente. Por isso, pensamos que

elas se aproximam mais do conceito de educação literária do que de formação literária, pois a

aprendizagem de interpretação de textos supõe ter como resultado uma prática desenvolvida

através da recepção oral ou leitura direta dos textos pelos alunos e as formas guiadas para

ensinar a construir sentidos (COLOMER, 2009, p. 73).

Constatamos que nas aulas de Literatura há a presença da dimensão afetiva da

literatura (FITTIPALDI, 2013, p. 444-445), já que as práticas literárias são reconhecidas pelos

sujeitos de pesquisa como relevantes na vida pessoal das crianças e no desenvolvimento de

seus hábitos de leitura. Além disso, a dimensão sociocultural (FITTIPALDI, 2013, p.

444-445) está presente por meio da entrada de conhecimentos sobre a cultura, o contexto de

circulação e recepção da obra, e o entendimento de que a literatura é uma prática social. A

dimensão cognitiva (FITTIPALDI, 2013, p. 444-445) também aparece nas aulas, pois se

refere à compreensão das práticas literárias como processos interpretativos em que os leitores

são ativos e constroem sentidos. A dimensão ético-filosófica (FITTIPALDI, 2013, p.

444-445) também comparece com força, na medida em que ela permite refletir sobre a literatura

como discurso em que se manifestam representações e juízos de valor da sociedade.

Observando as aulas de Literatura, destacamos a dimensão estético-linguística porque

acreditamos que ela representa a especificidade das aulas de Literatura. Há momentos de

observação de recursos retóricos e de reflexão sobre seus efeitos estéticos e as suas

possibilidades expressivas, bem como dos diversos modos de construção da linguagem

literária, de reflexão sobre os sentidos que potencializam o uso de determinados recursos

linguísticos e da imagem. Todavia, eles não são tão presentes quanto deveriam. Algumas

práticas pedagógicas que observamos potencializam tal aprendizagem, como a dramatização e

a escrita individual ou colaborativa. Há outras que deveriam entrar, como a narração oral, os

jogos com a linguagem a leitura em voz alta, a leitura coletiva, a recitação poética em classe,

a realização de espetáculos teatrais, a indagação das eleições linguísticas e das ressonâncias

que sugerem determinados vocábulos ou expressões, oficinas literárias de trocas de leituras e

de escritas.

O fato de as aulas terem como ponto nodal a imaginação, a fabulação e a criação

(CPII, 2008) faz com que elas estejam em consonância com a ideia de Vigotski (2008) de que

a literatura atua no âmago do processo de desenvolvimento do ser humano, no seu mundo

simbólico e no processo de imaginação e criação. A ideia de a criação pretender ser um ponto

forte das aulas Literatura também se articula com o que Larrosa (2003) fala sobre a

imaginação. A imaginação produz, incrementa e transforma a realidade. Fictio vem da palavra

facere, que significa fazer. As aulas de Literatura pretendem fabular e fazer/criar algo.

A importância das aulas de Literatura vem dessa relação entre imaginação e criação.

Do nosso ponto de vista, elas apresentam as seguintes especificidades: a) acessar, organizar e

reorganizar a nossa experiência (JOUVE, 2012); b) ensinar a pensar de modo dialético

(CALVINO, 2016, p. 129); e c) iniciar-nos nas finesses da língua (COMPAGNON, 2012, p.

70-71). As aulas de Literatura devem ter como especificidade a dimensão estético-linguística,

o que não quer dizer que as demais dimensões não entrem nas aulas. Contudo, o

desenvolvimento destas dimensões  afetiva, sociocultural, cognitiva, ético-filosófica 

pode estar tanto nas aulas de Língua Portuguesa quanto nas de Literatura, ficando a cargo da

Literatura a dimensão estético-linguística por ser o núcleo do seu trabalho. A Literatura é

estética.

Chegamos ao final da análise dos dados construídos durante a realização da pesquisa

de campo. A seguir, apresentamos nossas considerações finais acerca de: Como são as aulas

de Literatura do Ensino Fundamental I do Colégio Pedro II campus Humaitá? O que estas

aulas fazem com os sujeitos e o que eles fazem nela?

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Quando tomamos a decisão de pesquisar não sabemos o que está por vir. Tantas aulas,

orientações, textos, congressos, escutas. E, no final, sentimo-nos como que montando um

grande quebra-cabeça com peças de diferentes naturezas. Interessante notar que a composição

deste quebra-cabeça também não se faz somente na relação entre pesquisador, orientador e

sujeitos de pesquisa. Além dos autores com os quais dialogamos e buscamos compreensão,

carregamos conosco tudo e todos que estão ou estiveram conosco até o momento da escrita

final da pesquisa.

Sem dúvidas, a experiência do doutorado sanduíche me colocou no lugar de

estrangeira. Estar em uma creche com crianças de diferentes nacionalidades falando catalão,

observando o espaço, as conversas, o comportamento, os combinados, os profissionais. E

ainda, na universidade, junto aos futuros professores catalães. O que discutiam? E a biblioteca

dessa universidade, o que tinha sobre aulas de Literatura? Esse lugar de estrangeira me

marcou profundamente. Tudo o que foi vivido está aqui, no texto, está em mim. Abrir-me

para a experiência foi o que a construção desta pesquisa pediu de mim. As peças antes

dispersas passam a fazer sentido, encontram lugar. Muita coisa me passou, me atravessou, me

alcançou, me afetou. Buscar compreender Como são as aulas de Literatura do Ensino

Fundamental I do Colégio Pedro II campus Humaitá? O que estas aulas fazem com os

sujeitos e o que eles fazem nela? reuniu tantas pessoas, levou-me a lugares que eu não

imaginava, mobilizou muita energia.

Afinal, o que fazem as professoras e o que orienta a coordenação pedagógica de

Literatura? As professoras fazem o que a coordenação orienta. A coordenadora faz uma

mediação entre as professoras e propõe aulas a cada encontro. Sua ação é sempre no sentido

de chegar a um combinado onde as professoras se sintam bem com a aula planejada. Há

espaço para perguntar, criar. As aulas são uma decisão coletiva. Cada sujeito de pesquisa

marca de maneira diferente as aulas de Literatura. As orientações de Renata, quando

coordenadora, deixaram como marca a renovação do acervo, as mudanças nos temas que

orientavam as aulas e a proposição de outras atividades lúdicas, a partir dos livros. Sandra,

além de ter feito as mesmas mudanças que Renata, conseguiu integrar a Literatura à Língua

Portuguesa sem deixar que a especificidade do trabalho se perdesse. Mariana, que viveu a

mudança de todas as coordenações pedagógicas de Literatura, marcou as suas aulas por meio

da criação tanto sua quanto das crianças. E Cláudia deixa a marca da leitura dialogada com

ênfase nas construções literárias.

Como a proposta curricular se articula às aulas de Literatura? A proposta curricular

se articula às aulas de Literatura por meio dos gêneros literários estudados; da presença de

livros clássicos e contemporâneos da LIJ; e da presença das atividades de leitura. Durante

todo o EFI os alunos leem textos narrativos; por quatro anos, leem poesias; e, no último ano,

têm contato com o texto teatral. Todavia, durante os cinco anos desta etapa da Educação

Básica, as crianças dramatizam histórias e poemas a partir de leituras feitas nas aulas. Além

disso, a proposta se articula quando observamos que há intenção nas aulas de possibilitar que

as crianças estabeleçam inúmeras relações entre os textos lidos na aula, outros textos e suas

experiências de vida. Há preocupação em atender os interesses das crianças e em garantir

condições de trocas significativas por meio de propostas criativas que possibilitem expressão

e identificação do aluno.

Qual é a metodologia de trabalho? As aulas têm como orientação o tema definido em

equipe com as demais disciplinas. Os temas que são trimestrais são decididos em uma reunião

de planejamento geral que acontece todo trimestre. Cada ano escolar escolhe um tema e, a

partir daí, cada disciplina pensa como vai desenvolver tal tema considerando as

especificidades das aulas. As crianças não participam da escolha dos temas das aulas de

Literatura, embora o interesse delas seja considerado por meio do que as professoras

observam acerca de suas conversas e comportamento nas aulas. Fazemos uma crítica a essa

maneira de selecionar os temas de estudo, ainda mais quando pensamos na perspectiva da

formação literária. Esta abordagem inclui uma atividade de cocriação por parte do leitor em

relação à obra. Como os alunos vão se colocar como cocriadores se a participação deles se

circunscreve basicamente à conversa sobre o texto literário?

Na perspectiva da educação literária, em que as aulas de Literatura são uma

aprendizagem da interpretação de textos, os alunos podem ficar fora dessas escolhas, pois

cabe a eles construir a competência literária que é guiada pela professora. Na perspectiva da

formação literária é construída uma relação com o texto. Isso exige uma abertura dos dois

lados  da escola e dos alunos  para um encontro com a literatura. As crianças precisam de

fato contemplar e vivenciar esteticamente a obra. Para tanto, é necessário haver uma

cocriação, uma atividade de autoria em relação ao leitor/contemplador. “A percepção mais

simples da forma ainda não é, por si mesma, um fato estético” (VIGOTSKY, 1998, p. 68), “é

preciso ingressar como criador no que se vê, ouve e pronuncia” (BAKHTIN, 1993b, p. 58-59,

Para Larrosa (2003, p. 46-46) a literatura tem função vital na escola. Aprender a ler

não é somente adquirir a competência de interpretar textos, mas ser capaz de escutar o que

está nas entrelinhas. Ler vai além do texto. Isso implica em permitir que as crianças tomem a

palavra. Neste ato elas se distanciam em relação ao que foi dito e transgridem as regras do

dizer. Desse modo, ensina-se uma relação com o texto que é uma forma de atenção, uma

atitude de escuta, uma inquietude, uma abertura.

Entendemos que o tema ajudou a Literatura no início da construção da estrutura das

suas aulas. Hoje, ele fecha, na medida em que os alunos não participam. Mas ele também é

um ponto de encontro com as demais disciplinas da escola. Propomos que o primeiro critério

de seleção dos livros seja a qualidade literária. Ao invés de temas para orientar as aulas de

Literatura, parece mais amplo pensar em projetos literários.

Como ampliar as experiências de leitura e a formação literária das crianças?

Observamos que há uma ampliação na capacidade dos alunos de conversarem sobre o texto,

um alargamento no tempo que conseguem parar para ouvir a leitura e na fluência de leitura.

Não observamos que há uma proposta de ir ampliando as experiências de leitura a cada ano,

como numa progressão. As aulas mostraram que a tendência é mais para a educação literária,

para uma aula de interpretação de textos que pretende promover a formação literária. A

ampliação das propostas pode vir com a proposição de textos, conversas e produções que

peçam pouco a pouco mais desse leitor em formação. O que vale para as aulas do 1º ano não

vale para as do 5º ano, mas para o 2º, 3º e 4º anos há pouca diferença. Todos escutam a leitura