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6 Proposta de modelo

6.1 Atores da e-participação

As atividades de e-participação são realizadas por atores. Estes são normalmente caraterizados como as diferentes partes interessadas (por exemplo, os cidadãos e os políticos). Os atores são responsáveis por promover, dirigir e participar nas diversas atividades, desenvolver ou configurar as tecnologias associadas, e por dar resposta aos resultados das atividades de participação.

A literatura dá ênfase à escolha dos participantes pois, por exemplo, os mini públicos podem ser manipulados por quem os reúne ou serem utilizados para legitimar decisões controversas. A tendência para a recondução da democracia à participação dos cidadãos em experiências deliberativas não é desprovida de riscos quando estas são promovidas por agentes governamentais ou pela própria administração. Urbinati (2000) argumenta que não devemos ignorar o potencial antidemocrático que a proliferação de mini públicos pode acarretar e estes podem ser dirigidos para julgar alternativas políticas para cuja estruturação pouco ou nada contribuíram. Tulloch (2008), por sua vez, considera ser um risco, em muitas abordagens à participação pública, a redução do público a uma entidade homogénea ignorando a existência de uma multiplicidade de públicos complexos e o diferencial de poder entre eles.

Existe um paradoxo na formação de opinião, segundo Urbinati (2014): por um lado, os cidadãos estão convencidos que recuperaram o poder sobre os eleitos e, por outro lado, o facto de as coisas acontecerem não garante que os cidadãos tenham qualquer controle sobre as intenções que orientam os atores. O autor argumenta que existem contextos em que o empoderamento do cidadão é altamente desejável, mas há outros em que um papel consultivo é mais apropriado.

As técnicas tradicionais de participação baseiam-se na realização de sessões presenciais. Acontece que geralmente estas sessões decorrem numa atmosfera de confrontação, em que os indivíduos que possuem melhor expressão verbal tendem a dominar estes encontros defendendo pontos de vista que nem sempre são coincidentes com os da maioria da população impactada pela decisão (Carver, 2001).

Para a análise de iniciativas de participação pública, Fung (2006) adota oito mecanismos, sendo que o mais inclusivo é formado por todos os públicos e o menos inclusivo é formado por agentes do Estado, conforme apresentado na Tabela 10.

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Tabela 10 – Mecanismo de seleção de participantes (Adaptado de Fung (2006)) Mecanismo de seleção dos

participantes Descrição Público – mais inclusivo Esfera pública difusa

Aqueles que estão abertos a todos os que forem chamados a participar. É o menos restritivo, pois abrange todas as pessoas. Mini públicos Autosseleção Mesmo quando são chamados a participar, uma parte da população

pode não se envolver no processo e só participam os interessados. Recrutamento

seletivo

São os incentivos de participação para grupos da sociedade que não se envolveriam na discussão ou o tema da participação possui grande relevância para este determinado grupo. Algumas comunidades empregam organizadores para divulgar as reuniões de planeamento em bairros com moradores de parcos recursos. Seleção

aleatória

Seleciona aleatoriamente os participantes da discussão. É a melhor garantia de representatividade da população.

Leigos interessados

São cidadãos que têm um grande interesse em alguma preocupação pública e, portanto, estão dispostos a investir muito tempo e energia para representar e servir aqueles que têm interesses semelhantes ou perspetivas, mas optaram por não participar. Profissionais Estes participantes são frequentemente pagos e representam

interesses organizados. Estado – menos inclusivo Representantes eleitos

Eleições competitivas que selecionam profissionais políticos que, supostamente, representam os interesses dos cidadãos. São mais exclusivos e encontram-se dentro do Estado.

Administradores especializados

Selecionados por representantes eleitos. São os mecanismos mais restritivos.

David Osimo (2008) classifica os utilizadores como causadores de impactos nos governos através do uso da Web 2.0 de acordo com o seu papel de utilizadores mais ativos na Web, que variam desde os que 1) produzem conteúdo; 2) fornecem avaliações e revisões; 3) usam o conteúdo gerado por outros utilizadores; e 4) fornecem dados e gostos pessoais. Ferro & Molinari (2010), por sua vez, criam uma tipologia da presença online dos cidadãos através de um modelo que apresenta as suas principais características e até mesmo a percentagem de pessoas no mundo que estão nas seguintes categorias: 1) ativistas; 2) socializadores; 3) os conectados; e 4) os desconectados. Weninger, Poplin, & Petrin (2010) apresentam os tipos de utilizadores presentes nas plataformas Web 2.0 a partir do estudo de uma iniciativa muito parecida com a plataforma Cidade Democrática denominada Nexthamburg na Alemanha. Os autores propõem duas dimensões que analisam esses utilizadores: tipos de interação (passivo, ativo e reativo) e níveis de comunicação (produção entre pares, intra comunidade e pública).

Tal como estes autores, Fung argumenta que os principais modos de comunicação e decisão, aplicado a orçamentos participativos, vão desde o papel do cidadão como mero ouvinte até à tomada de decisão por agentes públicos, dispondo-os numa única dimensão que varia do menos intenso para o mais intenso, como mostra a Tabela 11.

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Tabela 11 – Mecanismos de comunicação e decisão

Modos de comunicação Decisão

Mecanismos que empregam estes três primeiros modos de comunicação e decisão muitas vezes não tentam traduzir as opiniões ou preferências dos participantes numa visão coletiva ou decisão Ser mero espetador

O cidadão apenas ouve as informações transmitidas por políticos ou outros grupos que estão presentes na decisão. Por exemplo, assistindo à discussão entre políticos, ativistas e grupos de interesse, em reuniões da comunidade.

Expressar as suas

preferências

O cidadão pode apresentar as suas preferências às pessoas envolvidas na decisão. Por exemplo, os ativistas que participam das audiências públicas apresentam as suas opiniões sobre a temática discutida.

Desenvolver as suas preferências

Outros debates são organizados de maneira a permitir aos participantes explorar, desenvolver e talvez transformar as suas preferências e perspetivas. Os participantes são encorajados a aprender sobre as questões e, se for o caso, transformar os seus pontos de vista e opiniões. Por exemplo, atividades que tenham material didático sobre o tema e que os cidadãos discutam sobre as vantagens e desvantagens das diversas alternativas.

Mecanismos em que há uma tentativa de escolha coletiva, ou seja, de tomada de decisão Agregar e negociar

Participa na tomada de decisão referente à discussão. Neste modo, os participantes sabem o que querem e o modo de tomada de decisão agrega as suas preferências. A negociação permite que os participantes encontrem a melhor alternativa disponível tendo em consideração as preferências comuns.

Deliberar e negociar

Em mecanismos projetados para ciar deliberação, os participantes tipicamente absorvem informação e experiências de uns e outros para desenvolver as suas opiniões e descobrir os seus interesses. No decorrer do desenvolvimento dos seus pontos de vista individuais em contexto de grupo, os mecanismos deliberativos muitas vezes empregam procedimentos para facilitar o esclarecimento de dúvidas e a descoberta de novas opções.

Colocar a sua experiência e conhecimento

Funcionários cuja formação e especialização profissional aplicam os seus conhecimentos para resolver problemas particulares. Este modo geralmente não envolve os cidadãos. É o domínio dos projetistas, reguladores, assistentes sociais, professores, diretores, polícia e afins.

Para além da comunicação, o modo como a autoridade e o poder são exercidos tem impacto da participação pública na ação do poder público, indo de simples decisões que os participantes tomam e as entidades estatais seguem, até à falta de expectativa que os cidadãos têm pela ação política. As cinco categorias principais, definidas por Fung, de

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como a participação influencia na tomada de decisão dos agentes públicos, são mostradas na Tabela 12.

Tabela 12 – Mecanismos de autoridade e poder

Modos de autoridade e poder Descrição

Os participantes têm menos autoridade e poder na tomada de decisão Educação individual

O participante típico tem pouca ou nenhuma expetativa de influenciar a política ou ação. Em vez disso, participa para obter benefícios pessoais ou por uma questão de obrigação cívica.

Influência comunicativa

Muitos mecanismos participativos exercem influência sobre o Estado ou os seus agentes ou, indiretamente, alterando ou mobilizando a opinião pública. As discussões e decisões exercem uma influência

comunicativa sobre os cidadãos que são influenciados pelo testemunho, pelos motivos, as conclusões ou, simplesmente, pela observância dos deveres, da justiça e da moral

Informar e consultar

Aconselhamento e consulta é um mecanismo comum em fóruns participativos que exercem influência sobre as autoridades públicas. Neste modo, os funcionários preservam a sua autoridade e poder, mas comprometem- se a receber as propostas dos participantes. É o propósito da maioria das audiências públicas e outras reuniões da comunidade. Os participantes têm mais autoridade e poder na tomada de decisão

Cogovernança Nalguns locais os cidadãos juntam-se com os

funcionários para fazer planos e políticas ou desenvolver estratégias de ação pública.

Autoridade direta

Os cidadãos exercem autoridade direta sobre as decisões públicas ou recursos.