4 Movimento sindical
4.1 Os primórdios do sindicalismo
Os séculos XVIII e XIX foram indubitavelmente marcados pelas revoluções norte- americana e francesa, em 1776 e 1789 e pela revolução industrial na Europa ocidental. Estas convulsões provocaram transformações sociais e políticas de tal ordem que os povos iniciaram ou intensificaram a luta pela liberdade, pela igualdade e contra toda a forma de exclusão.
A maioria da literatura contemporânea considera que o sindicalismo nasce na Europa Ocidental e América do Norte no final do século XVIII e início do XIX, influenciado, essencialmente, pelo grau de industrialização do país. Até ao século XVIII, o sindicalismo existiu na forma de mutualismo, cuja origem vem das corporações de ofício na Europa medieval, mais tarde montepios, confrarias, guildas, grémios e irmandades de socorro. A revolução francesa, com as suas conceções individualistas, e as diversas revoluções liberais que foram sucedendo, levaram á destruição da organização corporativa medieval e à proibição de quaisquer associações no campo da economia por toda a Europa. Em França, a lei de Chapelier56, em 1791, proibiu a criação de quaisquer associações de indivíduos da mesma profissão, as greves e as manifestações, argumentando que apenas serviam para defender os seus interesses coletivos. Na Inglaterra, os Combinations Acts, de 1799 e 1800, suprimiram as associações profissionais e o direito de coligação. As relações de trabalho modificam-se com a revolução industrial e a sociedade rural e agrícola do mundo ocidental começa a transformar-se numa sociedade basicamente industrial e urbana. As novas fontes de energia, como o carvão, colocam o mundo sob o domínio tecnológico e económico da Inglaterra. A Europa segue os seus passos e presencia o aumento do rendimento do trabalho e, consequentemente, da produção global.
52Apontamentos sobre a AIT: http://www.iwa-ait.org/content/cgt-portuguesa-e-fundacao-da-associacao-
internacional-dos-trabalhadores e http://www.freewebs.com/ait-sp/oqueeaait.htm 53 http://www.ugt.pt/site/index.php?Itemid=4&id=2&option=com_content&view=article 54 História do sindicalismo e criação dos sindicatos em França:
http://farennes.free.fr/histoiresyndicalisme.htm
55 Cronologia “datas importantes da história social”: http://cgt-wkf.reference-syndicale.fr/category/la- cgt/histoire/
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A industrialização foi acompanhada por muitos benefícios materiais, mas também por um grande número de problemas, como a formação de duas novas classes sociais bem distintas: os empresários, proprietários dos capitais, das máquinas, matérias-primas, e dos bens produzidos pelo trabalho e os operários ou trabalhadores assalariados cujo capital se resume à sua força de trabalho. Aprofundam-se as injustiças sociais, o que proporciona as condições necessárias para a mobilização e organização dos trabalhadores.
A Comuna de Paris, em 187157, é o culminar das paralisações de caráter grevista que assolaram a Europa na segunda metade do século XIX. A luta pelas 8 horas de trabalho, principalmente, em França, em Inglaterra e nos EUA, foi um dos motivos mais fortes de mobilização. As ações grevistas acerca das 8 horas de trabalho, ocorridas no dia 1 de maio de 188658, envolvendo violência, prisão e enforcamentos, motivou a consagração desse dia como Dia Mundial do Trabalhador.
Os primeiros sindicatos surgiram na década de 1820 na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos, na Austrália, depois na França e na Bélgica59, e mais tarde, em outros países europeus e da América Latina.
Ilegais, tolerados com hostilidade, os sindicatos foram legalizados em momentos diferentes nos vários países: em 1824, na Grã-Bretanha, embora só reconhecidos em 1871 no Trade-Union Act; em 1884, com a lei Waldeck-Rousseau60, em França. O movimento sindicalista expandiu-se por toda a Europa, despertando as consciências dos trabalhadores, unindo-os na defesa dos seus interesses. Os sindicatos vão-se oficializando e adquirindo natureza jurídico-política.
Embora muitos sindicatos sejam marcados pelo mutualismo, os que mais crescem são os que sofrem influências políticas. É assim nos sindicatos britânicos, americanos e franceses, os primeiros inspirados pelo radicalismo igualitário, os restantes pelos ideais da revolução americana e da revolução francesa. A presença maçónica verifica-se nos Cavaleiros do Trabalho (Knights of Labor ou Noble and Holy Order of the Knights of Labor61), em 1869,
57 Breve resumo na Enciclopédia da Porto Editora em http://www.infopedia.pt/$comuna-de-paris 58 A ILO-International Labour Organization tem várias ligações a páginas sobre as origens do Dia do
Trabalhador em http://www.ilo.org/public/english/support/lib/about/mayday.htm
59 Em 1898 o Partido “Ouvrier Belge” funda a Comissão Sindical, de inspiração socialista, que junta
vários organizações de trabalhadores e que dá lugar, em 1937, à “Confédération Générale du Travail de
Belgique”: http://www.fgtb.be/web/guest/histoire
60 http://www.britannica.com/EBchecked/topic/634389/Rene-Waldeck-Rousseau#ref142982 61 http://www.knightsoflabor.org/
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e em vários sindicatos latino-americanos, mas o socialismo e o anarquismo exercem maior influência. O socialismo era defendido por Karl Max, que preconizava o centralismo, o parlamentarismo e a luta política como meios de luta e o anarquismo tinha como defensor Bakunine que apregoava o anti estatismo e o federalismo.
Em 1864, a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT)62, conhecida como a Primeira Internacional, apoiada por Karl Marx, tenta pôr em prática a união dos trabalhadores de todos os países, mas a AIT desaparece em 1876 e essa tarefa é atribuída à Segunda Internacional, fundada em 1889. As duas correntes, socialismo e anarquismo, dividem o sindicalismo, embora os sindicatos socialistas tenham um peso significativo em todo o mundo. A influência socialista verifica-se na Federação dos Sindicatos (1886-1895) criado na França, na União Geral de Trabalho espanhol63 (1888), na Confederação Geral do Trabalho (CGT) sueca (1899)64, na Confederação Geral Italiana do Trabalho65 (CGL, fundada em 1906, nomeada CGIL em 1944) e em outros sindicatos da Europa e América Latina. A ascendência anarquista é forte em vários sindicatos italianos, espanhóis (a Confederação Nacional do Trabalho66, em 1910, agrupa os sindicatos desta sensibilidade), franceses (a CGT67, nascida em 1895) e também em vários países da América Latina. Na segunda metade do século XIX, os sindicatos não desistem de fazer greves ou manifestações pontuais, mas, por intermédio dos partidos, passam a exercer pressão também ao nível político. A maioria dos países onde os sindicatos estão implantados assistem a grandes movimentos grevistas no final do século XIX e início do século XX. O confronto com as forças de segurança, nalguns deles, foram trágicos terminando em autênticos massacres, como foi o caso de Chicago (maio de 1886)68, Fourmies (primeiro de maio de 1891)69, Iquique (1907)70, Dublin (1913)71 Ancona (1914)72, entre outros.
62 A história da Internacional na secção portuguesa da AIT: http://www.freewebs.com/ait- sp/oqueeaait3.htm
63 Qué es UGT: http://www.ugt.es/quees/Que_es_UGT.pdf 64 Para além de fontes já mencionadas ver Sejersted (2011)
65 Website da Confederazione Generale Italiana del Lavoro http://www.cgil.it/CGIL/Storia/Storia.aspx#C1 66 Qué és la CNT: http://archivo.cnt.es/Documentos/DocIntro.htm
67 CGT – Repères chronologiques: http://www.cgt.fr/spip.php?page=article_dossier1&id_article=1243 68 Ver resumo na Enciclopédia de Chicago: http://www.encyclopedia.chicagohistory.org/pages/571.html 69 Histoire du 1er Mai – Union locale des Syndicats CGT - Force Ouvrière de Saint Nazaire et Région: http://www.ulfonz44600.fr/histoire-du-1er-mai/
70 Masacre de la Escuela Santa María de Iquique – Biblioteca Nacional de Chile: http://www.memoriachilena.cl/602/w3-article-3604.html
71 SIPTU brief history: http://www.siptu.ie/aboutsiptu/history/the1913lock-out/ e cronologia em http://www.siptu.ie/media/media_17016_en.pdf
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