• Nenhum resultado encontrado

3 A CORRIDA GLOBAL POR TERRAS NO SÉCULO XXI

3.3 ATORES E DINÂMICAS ESPACIAIS DO LAND GRABBING

De acordo com Alexandre Leite e Thiago Lima (2017, p. 6), é importante destacar que “o adensamento das aquisições transnacionais de terra não ocorre apenas em uma direção pré-determinada pelas relações de dependência derivadas da dicotomia Centro- Periferia”. Países do chamado Sul Global também têm participado ativamente do processo de

Land Grabbing, em diversos casos, como o Brasil, esses países estão adquirindo e tomando

terras no exterior, mas também tem suas terras estrangeirizadas.

Nesta seção, optou-se por reportar os dados do Land Matrix. Naturalmente, os dados sobre grandes transações de terra no mundo, em qualquer base de dados, tendem a apresentar viés e distorções, pela própria natureza do tema. Contudo, o Land Matrix, atualmente, apresenta os dados com melhor qualidade e que possibilitam ter uma visão mais acurada dos atores que participam da dinâmica global. Na seção 4.2, será desenvolvido um tópico especificamente sobre o problema das bases de dados que fazem o monitoramento dos casos de Land Grabbing.

Tendo feito as devidas ressalvas, segue-se para apresentação dos dados. O gráfico abaixo ilustra quais os países que foram alvo do maior número de transações terra desde o início do século XXI:

Gráfico 8 - Países com maior número de transações de terra com mais de 200 hectares (2000- 2019)

Fonte: Land Matrix

A Ucrânia aparece na liderança entre os países que tiveram suas terras mais estrangeirizadas, com quase 200 casos na base de dados. Visser e Spoor (2011, p. 300) destacam que o processo de Land Grabbing na África recebeu grande atenção dos meios acadêmicos e de comunicação, enquanto que o avanço sobre as terras da Eurásia pós-soviética passou relativamente desapercebido. Os autores argumentam que toda a região apresenta uma grande reserva de terras vista pelo capital internacional como potencial para implantação de grandes empreendimentos. Além do mais, durante a primeira década do século XXI, na Ucrânia, a terra negra, que é extremamente fértil, esteve à venda com preços relativamente baixos.

No geral, o gráfico demonstra uma distribuição geográfica variada dos países alvo com dois países do Leste Europeu (Ucrânia e Romênia), três do Leste Asiático (Laos, Camboja, Indonésia), dois africanos (Moçambique e Etiópia), e três Sul-Americanos (Brasil, Argentina e Uruguai). Todos os 10 países com maior número de transações de terras com mais de 200 hectares em seus territórios apresentaram mais de 50 casos durante o período de análise. O gráfico abaixo reporta a quantidade de hectares que foram estrangeirizadas nos países alvo, foram reportados todos os países que tiveram mais de 1.000.000 hectares transacionados na corrida recente por terras.

Gráfico 9 - Países que tiveram mais de 1.000.000 de hectares de suas terras transacionados (2000-2019)

Fonte: Land Matrix

Não há uma total correspondência entre os países com maior número de transações em seu território e aqueles com a maior quantidade de hectares transacionados.

Porém, cinco países aparecem nos dois gráficos (Ucrânia, Brasil, Indonésia, Moçambique e Argentina). Mais uma vez, há países da Europa, Leste Asiático e América do Sul entre aqueles que lideram a lista de países alvo. A Ucrânia se destaca nas primeiras posições das duas listas, a maior parte dos casos de grandes aquisições no país veio de corporações e governos da própria Europa Ocidental, especialmente, da França, Alemanha, Holanda e Luxemburgo.

No caso do Brasil, Sauer (2012, p. 92) salienta que o campo sempre foi alvo de disputas territoriais, em especial, a resistência contra as expropriações de terra. Atualmente, a principal localidade alvo das aquisições e tomada de terras no país é a região do MATOPIBA, que abrange os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Os investimentos especulativos aumentaram, sobretudo, após a crise de 2008. Com a grilagem de terras na região, diminui-se o custo para criação de fazendas. Com a corrida por terras no século XXI, houve a subida no preço e o início de um processo de especulação que se retroalimenta (PITTA, BOECHAT; MENDONÇA, 2017).

No caso de Papua Nova Guiné, o maior número de casos registrados na base é de investimentos provenientes da Ásia. Porém, há três casos de corporações norte-americanas que compraram terras para plantio de madeira em que cada transação envolve mais de 600.000 hectares de terra, segundo os dados da plataforma Land Matrix. No caso da Rússia, Visser e Spoor (2011, p. 3) ao comentarem o relatório do Banco Mundial (DEININGER et al., 2011) ressaltam que a “Rússia é um dos maiores países em termos de terras agricultáveis disponíveis, com um potencial sem comparação para a expansão da produção de trigo”.

Importante destacar que questões geopolíticas têm feito atores regionais se preocuparem em defender suas terras. Por exemplo, o Egito tem sérios problemas com o acesso à água e depende completamente do rio Nilo. A dependência do Egito de água proveniente de fontes externas é de 97% (WARNER; SEBASTIAN; EMPINOTTI, 2013, p. 9). Além de importar água, o Egito também é um grande importador de alimentos, após a subida dos preços em 2007/2008, o país começou a enfrentar problemas também nessa área. Assim como a África do Sul, que é outro ator regional importante no continente, o Egito ao mesmo tempo em que tem suas terras estrangeirizadas também é um dos grandes compradores, embora não apareça na lista dos 10 primeiros.

Abaixo, segue o gráfico sobre aqueles que estão comprando terras. Naturalmente, a maior parte das aquisições são realizadas por atores privados. Apesar dos governos não serem os principais compradores das terras diretamente, Cotula (2012, p. 660) demonstra que os governos dos países de origem das corporações apoiam as compras de

diversas formas. O gráfico abaixo detalha a nacionalidade das principais corporações que estão adquirindo terras mundo afora.

Gráfico 10 - Países que os governos e/ou corporações adquiriram mais de 1.000.000 hectares de terra (2000-2019)

Fonte: Land Matrix

Embora países do centro do sistema capitalista apareçam na lista, nota-se que há uma diversidade geográfica na nacionalidade das corporações e governos que estão adquirindo terras em larga escala. Dos países que tradicionalmente participaram das diversas formas de colonialismo ou neocolonialismo, destacam-se os Estados Unidos, Reino Unido e Holanda. Do continente europeu, há ainda a presença de Luxemburgo e Chipre. Países do leste asiático que tiveram uma rápida expansão econômica ao longo do século XX e no começo do século XXI, como China, Malásia e Singapura, também estão presentes. Países Árabes que dependem fortemente da importação de alimentos, tais como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, estão progressivamente aumentando seus investimentos em terra. Por fim, temos atores regionais importantes do Sul Global completando a lista: Brasil e Índia.

Uma ressalva relevante feita por Borras e Franco (2012, p. 48) é a respeito do estereótipo criado sobre os países sem que uma análise mais profunda seja realizada. Para os autores, o objeto de análise deve envolver não apenas a nacionalidade daqueles que estão adquirindo as terras, mas sobretudo o caráter e os termos das mudanças na produção agrícola que pode ser causada pela transformação na forma de utilização da terra. Por isso, é necessário entender o contexto mais amplo das mudanças em andamento. Os autores apontam quatro principais formas de alteração no uso da terra, demonstradas no quadro abaixo:

Quadro 1 - As principais direções das mudanças no uso da terra

Tipo 1

Alimentos para Alimentos

Tipo 2

Alimentos para Biocombustíveis

Tipo 3

Não-Alimentos para Alimentos

Tipo 4 Não Alimentos para

Biocombustíveis

Fonte: Borras e Franco, 2012, p. 39

Cada tipo apresentado no quadro comporta diversas subdivisões. Por exemplo, no tipo 1, pode haver a alteração da produção de alimentos para consumo interno para que sejam plantadas commodities para o mercado internacional de alimentos. No caso do tipo 2, as mudanças para que seja produzido biocombustível pode vir tanto de terras de pequenos produtores quanto de terras em que já eram utilizadas como plantations. O tipo 3, normalmente, são terras tidas como desocupadas ou florestas, porém diversas situações demonstram que são terras utilizadas de forma comum pela população local. Por fim, o tipo 4 engloba essas mesmas terras que são convertidas para produção de biocombustíveis.

Não só é fundamental observar em cada caso concreto o processo pelo qual há a mudança na forma como a terra é utilizada, mas também o papel das elites nacionais. A pesquisa de campo de Hilhorst et al. (2011) no Níger, Benin e Burkina Faso revelou que a maior parte das compras de terras era feita por investidores nacionais, em especial, adquirindo terras que estavam fora do interesse dos investidores estrangeiros. Além do mais, as fronteiras entre o que são investimentos nacionais, regionais ou internacionais não são tão claras. Por exemplo, alguns

países africanos são utilizados como trânsito para os investimentos que vem de fora do continente para um terceiro país da África. A África do Sul é o principal ator regional que exerce essa função. Há casos em que corporações com sede no Reino Unido adquirem terras em outros países africanos através de empreendimentos conjuntos com empresas sul-africanas (COTULA, 2012, p. 659).

O gráfico abaixo mostra os 10 países que estiveram envolvidos com mais transações de terras de 200 hectares ou mais no século XXI e confirma-se a centralidade da África do Sul como ator regional de grande relevância.

Gráfico 11 - Países que registraram maior número de aquisições com mais de 200 hectares por parte dos governos e/ou corporações (2000-2019)

Fonte: Land Matrix

Estados Unidos e China aparecem mais uma vez na liderança no ranking de grandes aquisições de terra da plataforma Land Matrix. Ou seja, os dois países foram os que

compraram o maior volume de terra mundo afora e também aqueles que tiveram o maior número de casos singulares de transações, segundo os dados apresentados. Outros países que aparecem nas duas listas são: Reino Unido, Malásia, Luxemburgo, Singapura, Holanda e Índia. África do Sul e Vietnã são atores regionais importantes que surgiram quando se apresentam os dados dos números de casos.

Em ambos os gráficos com os dados sobre os maiores compradores, observa-se que atores do Sul Global são essenciais para se entender o fenômeno em andamento. Alguns casos específicos são emblemáticos, tal como os investimentos brasileiros em Moçambique. A presença do capital brasileiro em Moçambique foi mais forte a partir de 2004 iniciando com a exploração de carvão na Mina de Moatize, quando a Vale assinou um contrato de 25 anos para explorar carvão mineral a uma taxa anual de extração de 26 milhões de toneladas (MELO; ROCHA, 2019, p. 119). O contrato envolveu a aquisição de mais de 23.000 hectares de terra. Contudo, o caso de maior repercussão foi o projeto brasileiro de plantação de cana-de-açúcar para produção de etanol.

Por meio do ProSAVANA, o Brasil tentou exportar para Moçambique o modelo de agronegócio que prevalece no cerrado brasileiro. O ProSAVANA foi um acordo de cooperação assinado entre Brasil, Moçambique e Japão para que a tecnologia aplicada no desenvolvimento agrícola do cerrado brasileiro fosse levada para o país africano com o apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) e outras agências (CLEMENTS; FERNANDES, 2013). Em uma outra parceria brasileira, em 2010, foi assinado um acordo com o Presidente da Comissão Europeia e o Presidente do Conselho Europeu para plantação de 4.800.000 hectares de cana de açúcar com tecnologia brasileira e investimento europeu em Moçambique (HOUTART, 2011, p. 13). Após a pressão de comunidade local, especialmente, em virtude do enorme consumo de água necessário para os projetos (FIAN, 2010), parte dos empreendimentos foram cancelados.

Além de Moçambique, empresas e o governo brasileiro também participaram de negociações de terra em países da América Latina. Destaca-se a inserção brasileira no Paraguai, que nas últimas décadas teve suas terras estrangeirizadas e viu o modelo do agronegócio se expandir pelo campo prejudicando a produção local por parte de pequenos produtores e das populações indígenas (GALEANO, 2012). A Bolívia também recebeu investimentos brasileiros na expansão da agricultura em larga escala, especialmente na região de Santa Cruz com o avanço das plantações de soja (URIOSTE, 2012).

3.4 AS CRISES FINANCEIRA, AMBIENTAL, ALIMENTAR E ENERGÉTICA COMO