• Nenhum resultado encontrado

2 A CRISE DO CAPITALISMO, REGIMES ALIMENTARES E

2.4 O CONCEITO DE SOBERANIA ALIMENTAR E SUAS IMPLICAÇÕES

O conceito de soberania alimentar surgiu a partir dos próprios movimentos sociais, em específico, a partir das reflexões e atividades da Via Campesina. Atualmente, todo o arcabouço e debate que envolve a soberania alimentar deixou de estar apenas na esfera das Organizações Não-Governamentais e movimentos sociais passando a integrar a agenda de organizações internacionais e chegar, inclusive, a FAO, além de também pressionar as discussões internas nos Estados sobre a política agrícola.

A formulação da concepção de soberania alimentar, como é entendida nos dias de hoje, foi apresentada ao público na Cúpula Mundial da Alimentação em 1996 representando uma alternativa em relação às políticas corporativas de abertura de mercados e redução do papel do Estado. A definição estabelecida na declaração de 1996 afirma que a soberania alimentar é o direito dos povos, países e sindicatos de definir sua política agrícola e alimentar sem que haja uma interferência direta de terceiros países (VIA CAMPESINA, 1996).

Para isso, inclui-se dentro do conceito a necessidade de priorizar a produção agrícola local e que seja garantido o acesso à terra, água, sementes e crédito para os camponeses e os que não tem posse. Envolve também lutar contra os transgênicos, livre acesso às sementes e o cuidado com as águas e outros bens públicos para que sejam distribuídos sustentavelmente. Dentro da perspectiva da soberania alimentar, é fundamental o direito dos países de se protegerem de preços muito baixos de produtos agrícolas oriundos da importação e que os preços agrícolas estejam ligados aos custos de produção, portanto devem ser impostas taxas em produtos excessivamente baratos e o controle da produção para evitar excedentes estruturais. Por fim, para que seja efetivada a soberania alimentar é fundamental a participação da população nos processos decisórios e também o reconhecimento dos direitos das mulheres produtoras (idem).

Desde 1996 o conceito de soberania alimentar evoluiu e passou a se tornar um paradigma pelo qual os movimentos sociais do campo tentam efetivar mudanças nas arenas políticas. Destaca-se que na Cúpula Mundial da Alimentação em 2002 e no fórum paralelo

realizado pelas ONGs e movimentos sociais, a questão da soberania alimentar foi o grande destaque (WITTMAN, 2011, p. 87). O marco conceitual mais recente em que houve um amplo debate acerca do tema foi no fórum internacional realizado em Nyéléni no Mali. Cerca de 500 pessoas de 80 países representando movimentos de camponeses, agricultores familiares, indígenas, sem terras, migrantes, movimentos feministas e ambientalistas discutiram a questão e elaboraram o seguinte conceito:

A soberania alimentar é o direito das pessoas a alimentos saudáveis e culturalmente adequados, produzidos por métodos robustos ecologicamente e sustentáveis, e o direito de definir seus próprios sistemas alimentares e agricultura. Coloca as aspirações e necessidades daqueles que produzem, distribuem e consomem alimentos no coração dos sistemas e políticas alimentares, em vez das demandas dos mercados e corporações. Defende os interesses e a inclusão da próxima geração. Oferece uma estratégia para resistir e desmantelar o atual regime corporativo de comércio e alimentação e diretrizes para os sistemas de alimentação, agricultura, pastoral e pesca determinados por produtores e usuários locais. A soberania alimentar prioriza as economias e os mercados locais e nacionais e capacita a agricultura dirigida por camponeses e agricultores familiares, pescadores artesanais, pastores, e produção, distribuição e consumo de alimentos com base na sustentabilidade ambiental, social e econômica. A soberania alimentar promove um comércio transparente que garante uma renda a todos os povos, bem como os direitos dos consumidores de controlar sua alimentação e nutrição. Garante que os direitos de usar e gerenciar terras, territórios, águas, sementes, gado e biodiversidade estão nas mãos daqueles que produzem alimentos. A soberania alimentar implica novas relações sociais livres de opressão e desigualdade entre homens e mulheres, povos, grupos raciais, classes sociais e econômicas e gerações (NYÉLÉNI FORUM FOR FOOD SOVEREIGNTY, 2007).12

Em resumo, conforme coloca Christina Schiavoni (2009, p. 685) seis princípios básicos foram desenvolvidos a partir da declaração de Nyéléni: o foco na alimentação para as pessoas, valorização dos produtores rurais, localização dos sistemas alimentares, colocar o

12Tradução livre de: Food sovereignty is the right of peoples to healthy and culturally appropriate food produced

through ecologically sound and sustainable methods, and their right to define their own food and agriculture systems. It puts the aspirations and needs of those who produce, distribute and consume food at the heart of food systems and policies rather than the demands of markets and corporations. It defends the interests and inclusion of the next generation. It offers a strategy to resist and dismantle the current corporate trade and food regime, and directions for food, farming, pastoral and fisheries systems determined by local producers and users. Food sovereignty prioritises local and national economies and markets and empowers peasant and family farmer-driven agriculture, artisanal - fishing, pastoralist-led grazing, and food production, distribution and consumption based on environmental, social and economic sustainability. Food sovereignty promotes transparent trade that guarantees just incomes to all peoples as well as the rights of consumers to control their food and nutrition. It ensures that the rights to use and manage lands, territories, waters, seeds, livestock and biodiversity are in the hands of those of us who produce food. Food sovereignty implies new social relations free of oppression and inequality between men and women, peoples, racial groups, social and economic classes and generations.

controle na esfera local, desenvolvimento de conhecimento e habilidades, trabalho com a natureza. O problema conceitual com a soberania alimentar parece ser que o conceito apresenta inúmeras versões criando definições que se sobrepõe umas às outras o que acarreta uma dificuldade de delimitar especificamente suas fronteiras. Porém, consoante destaca Raj Patel (2009, p. 663), a quantidade de definições conceituais de soberania alimentar são um sintoma de como essa perspectiva é extremamente necessária para os debates atuais envolvendo a política agrícola.

O paradigma da soberania alimentar não se configura apenas como um novo arcabouço conceitual, mas sobretudo como um giro epistémico que se contrapõe à perspectiva dominante representada pelo conceito de segurança alimentar. Desde a década de 1970, a FAO já havia se preocupado em definir o que seria segurança alimentar, concepção que foi mudando ao longo do tempo. Em 1974, a Cúpula Mundial de Alimentação estabeleceu que haveria segurança alimentar quando houvesse “disponibilidade em todos os momentos de suprimentos adequados de alimentos básicos em escala mundial para sustentar uma expansão constante do consumo de alimentos e compensar flutuações na produção e preços” (FAO, 2003, p. 27).

Percebe-se que o foco da noção desenvolvida na época estava relacionado ao volume e estabilidade na oferta de alimentos. A ideia reflete o consenso entre burocratas da época de que os Estados teriam a capacidade de redistribuir os recursos se eles estivessem disponíveis e que o maior problema seria garantir que houvesse suprimentos globais suficientes para alimentar a população (PATEL, 2009, p. 664). Com a evolução do conceito, em 2001 já havia uma mudança significativa na ideia de segurança alimentar, que para a FAO seria “a situação que existe quando todas as pessoas, em todos os tempos, tem acesso físico, social e econômico a alimentos suficientes, seguros e nutritivos que correspondam às necessidades de suas dietas e preferências para uma vida ativa e saudável” (FAO, 2001, p. 49).

A crítica que é feita a partir da ótica da soberania alimentar é de que essas definições de segurança alimentar tratam os alimentos como se fossem um problema de falta de comercialização suficiente ao invés de uma compreensão sistemática sobre a fome. Em outras palavras, privilegia-se a questão do acesso à comida e não o controle sobre os sistemas de produção e consumo. Nessa concepção, a comida é uma commodity comercializável assim como qualquer outra e a fome apenas um problema distributivo (WITTMAN, 2011, p. 91). O ponto central do que está sendo discutido é que as formas como os conceitos de segurança ou soberania alimentar são propostos geram implicações significativas para o modo como a política agrícola e alimentar são desenvolvidas ou contestadas.

Em resumo, a definição de segurança alimentar da FAO evita deliberadamente a discussão sobre o controle social do sistema alimentar. Consequentemente, de acordo com Raj Patel (2009, p. 665), seria possível estar cumprindo pena em um presídio ou sob um regime autoritário e mesmo assim vivenciar uma situação de segurança alimentar. Por outro lado, a posição da Via Campesina é de que a discussão dos arranjos políticos internos é uma parte necessária do debate sobre a segurança alimentar. Portanto, nessa perspectiva, a soberania alimentar seria um pré-requisito necessário para que se atingisse uma segurança alimentar de longo prazo.

Em um documento para discussão publicado pela FAO, os autores debatem as diferenças entre a perspectiva de segurança alimentar defendida pela organização e a ideia de soberania alimentar advogada por movimentos sociais e ONGs. Segundo eles:

Existem duas diferenças principais. Primeiro, o conceito de segurança alimentar - adotado pelos Estados membros da FAO - é neutro em termos das relações de poder envolvidas. Não emite juízo de valor acerca da concentração do poder econômico nos vários elos da cadeia alimentar e no comércio internacional de alimentos, nem a propriedade de meios-chave de produção, como terra ou acesso à informação. Por outro lado, o conceito de soberania alimentar começa precisamente observando a assimetria de poder nos vários mercados envolvidos e nas diversas áreas de poder, como nas negociações comerciais multilaterais. Assim, apela ao papel estabilizador que um Estado democrático pode desempenhar se considerar que a comida é mais do que uma mera mercadoria. A segunda diferença substancial tem a ver com a forma como os alimentos são produzidos. A FAO (...) não pode adotar uma posição única ou enfática em relação aos diferentes modos de produção de alimentos justamente por sua natureza como organização intergovernamental e multilateral. (...) Por outro lado, o conceito de soberania alimentar é clara e principalmente focado na agricultura não industrial de pequena escala e na agricultura familiar - incluindo criação de animais, silvicultura e pesca - de preferência de natureza orgânica e principalmente relacionada a agroecologia (GORDILLO; JERÓNIMO, 2013, p. 7)13.

13 Tradução livre de: There are two main differences. First, the concept of food security — adopted by FAO

member states — is neutral in terms of the power relationships involved. It does not prejudge the concentration of economic power in the various links of the food chain and in international food trade, or the ownership of key means of production such as land or access to information. On the other hand, the concept of food sovereignty starts precisely by noting the asymmetry of power in the various markets involved and the various areas of power, such as in multilateral trade negotiations. It thus appeals to the stabilizing role that a democratic state can play if it considers food to be more than a mere commodity. The second substantial difference has to do with how food is produced. FAO (...) cannot adopt a single or emphatic position regarding the different modes of food production precisely because of its nature as an intergovernmental and multilateral organization. (...) In contrast, the concept of food sovereignty is clearly and primarily focused on non-industrial, small-scale agriculture and family farming — including animal husbandry, forestry and fishing — preferably of an organic nature, and mainly relating to agro-ecology.

Percebe-se, portanto, que o conceito de segurança alimentar defendido pela FAO e pelos países que tem interesses relacionados à agricultura comercial tenta fazer uma associação com uma ideia de neutralidade política. Porém, ao evitar discutir a forma como os sistemas alimentares estão estruturados se favorece as corporações e o agronegócio. Annette Desmarais (2015, p. 156) observa que não só a disputa conceitual, mas também a luta efetiva por soberania alimentar coloca os alimentos e a agricultura como uma trincheira decisiva na luta de classes mundial. Questões relacionadas à alimentação são centrais na vida cotidiana dos trabalhadores e das trabalhadoras tanto em países do Norte como do Sul global.

Outra questão saliente nos debates atuais é proposta de utilização do arcabouço conceitual da soberania alimentar para reformular toda a discussão que envolve o direito humano a alimentação e nutrição adequadas. Conforme colocam Flávio Valente, Ana Franco e Denisse Montes (2016), a incorporação dos valores associados à soberania alimentar ajudaria o plano normativo internacional a acabar com um descompasso significativo em relação às necessidades que se colocam da incorporação da dimensão nutricional e dos direitos das mulheres nos debates.

O direito humano à alimentação e nutrição adequadas é realizado quando indivíduos e comunidades têm uma vida saudável, produtiva e ativa, possibilitada, entre outras coisas, pelo seu bem-estar nutricional. Assim, uma inclusão mais proeminente da dimensão nutricional na estrutura conceitual do direito humano à alimentação e nutrição adequadas é central para o entendimento e a realização adequados desse direito. O direito humano à alimentação e nutrição adequadas envolve todo o processo, desde o aumento da produção no campo até a garantia de acesso a alimentos adequados e a promoção do bem-estar nutricional para todos. A dimensão nutricional deve ser levada em consideração em todas as fases do sistema alimentar, desde a produção de sementes, cultivo, colheita, transformação, comercialização e compra, até o consumo e a utilização biológica e cultural em nível individual, caso o objetivo seja alcançar o bem-estar nutricional e a dignidade humana14 (VALENTE; FRANCO; MONTES, 2016, ´p. 556).

14 Tradução livre de: “The human right to adequate food and nutrition is realized when individuals and

communities have a healthy, productive, and active life, made possible, among other things, by their nutritional well-being. Thus, a more prominent inclusion of the nutritional dimension in the conceptual framework of the human right to adequate food and nutrition is central for the proper understanding and realization of this right. The human right to adequate food and nutrition entails the full process from increasing the yield in the field, to guaranteeing access to adequate food and the promotion of nutritional well-being for all. The nutritional dimension must be taken into account at all phases of the food system, from the production of seeds, cultivation, harvesting, transformation, marketing, and purchase, all the way to consumption and biological and cultural utilization at the individual level, if nutritional well-being and human dignity are to be achieved.”

Em resumo, a plataforma proposta para reestruturação do direito humano à alimentação e nutrição adequadas em consonância com o conceito de soberania alimentar se torna atualmente uma frente importante para os debates atuais envolvendo a alimentação nos órgãos internacionais. Para isso, há uma série de propostas concretas que deveriam ser levadas à frente de forma integrada. Por exemplo, seria necessário colocar a autodeterminação dos povos e das comunidades no centro dos debates de forma a garantir que o desenvolvimento e disposição dos recursos naturais fosse pensada também em escala local. Outro ponto importante é a incorporação da dimensão de sustentabilidade ambiental nos sistemas alimentares, principalmente, por meio dos princípios da agroecologia, que apresentam um reduzido impacto ambiental (idem, p. 569).

Há uma crítica generalizada à forma como o direito à alimentação está sendo tratado pelos órgãos das Nações Unidas, especialmente, porque se trata de uma abordagem que foca, sobretudo, na perspectiva dos direitos individuais sem que se atente aos problemas estruturais do desenvolvimento agrícola, produção e consumo de alimentos. Por exemplo, nas diretrizes voluntárias da FAO para o apoio progressivo na realização do direito à alimentação no contexto da segurança alimentar nacional houve um foco nas reformas legais, políticas e técnicas que deveriam ser implementadas a nível estatal, porém foi ignorado o âmbito do sistema econômico internacional (WITTMAN, 2011, p. 92).

Uma parte da literatura crítica na Economia Política Internacional, contudo, vem se colocando contra o uso do conceito de soberania alimentar. Para Jennifer Clapp, por exemplo, a justaposição da segurança e soberania alimentar como conceitos concorrentes mais atrapalha do que ajuda o avanço da agenda, visto que dificultaria a construção do diálogo nas arenas onde são determinadas as políticas públicas. A autora concorda que existem diversas formas de abordar o tema da alimentação e que se carrega uma conotação política nos termos, entretanto o abandono do conceito de segurança alimentar para apoiar uma agenda normativa de oposição tão ampla não seria a melhor estratégia (CLAPP, 2015, p. 3).

Algumas pesquisas começam a analisar os casos concretos em que os movimentos ligados a luta no campo passam a incorporar a agenda da segurança alimentar. Em Honduras, as associações e sindicatos nacionais de camponeses, que foram enfraquecidas pelos cortes de fundos e a plataforma neoliberal agressiva, tiveram grandes dificuldades de encapar a campanha pela soberania alimentar, consoante aponta Jefferson Boyer (2010). Além do mais, o autor argumenta que em diversos casos os movimentos agrários transnacionais não foram capazes de assimilar as necessidades e compreensões dos camponeses locais (idem). Por outro

lado, outros estudos apontam que mesmo sem encampar diretamente a agenda da soberania alimentar, as práticas tradicionais de camponeses se enquadram nos princípios defendidos, segundo indica Ryan Isakson (2009) em seu estudo na Guatemala.