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Conforme exposto anteriormente o Estado vem de uma crise financeira que está se arrastando por anos. Nota-se que a segurança pública da mesma forma vem recebendo cada vez menos investimento ao longo desses anos, vindo ao sucateamento nos dias de hoje. Porém, este

sucateamento chegou a um limite em que não há mais condições para os servidores trabalharem, e assim não conseguem cumprir com a devida prestação de serviço à comunidade ferindo então o interesse público.

O atual Governo passa uma imagem de falta de preocupação com o tema, pois há uma aparente falta de política pública de segurança onde faltam investimentos na área para manutenção e melhoria das estruturas, falta nomeação de servidores para suprir o déficit e também para alcançar o número essencial para uma prestação eficaz da segurança. Além do mais, desde que o Governo assumiu o Estado nota-se uma política de contenção de gastos em que se privilegia a saúde financeira do Estado em detrimento da consecução do interesse público.

O desequilíbrio nas contas do Estado chegou a um ponto em que o Governo não consegue nem mesmo pagar os servidores na integralidade e tem de pedalar dívidas constantemente. Para tentar solucionar esse quadro de crise, teve inicio uma série de medidas de ajuste fiscal. Nesta linha, a partir de agora passamos a analisar alguns dos atos tomados pelo governador do Estado desde a sua chegada e que influenciam diretamente na segurança pública.

Em janeiro de 2015, logo depois de tomar posse, o Governador do Estado assinou um decreto com previsão de corte de gastos. As medidas adotadas foram: suspensão por 180 dias de pagamentos a fornecedores do Governo anterior; suspensão de nomeação de aprovados em concursos e criação de novos cargos públicos, e redução de gastos com viagens, diárias e serviços, entre outras. (CRONOLOGIA, 2015).

O Decreto nº 52.230, de 02 de janeiro de 2015, estabeleceu medidas de contenção no âmbito da Administração Direta, das autarquias e das fundações do Estado ficando vedadas pelo prazo de 180 dias no Poder Executivo e suas autarquias e fundações, a criação de novos gastos em relação à pessoal: a) abertura de concurso público ou de processo seletivo; b) criação de cargos; c) criação, alteração ou reestruturação de quadro de pessoal; d) criação de novas gratificações ou alteração daquelas já existentes; e) nomeação para cargos de provimento efetivo; d) contratação de pessoal; e) contratação temporária, nos termos do art. 19, inciso IV, da Constituição Estadual; f) remoções com ajuda de custo; e g) promoções ou progressões nos quadros de pessoal. (RIO GRANDE DO SUL, 2016b).

Neste tempo o Governo fazia a execução da primeira fase do Plano Estadual de Segurança Pública que era divido em eixos: construção do estudo de situação, políticas de integração entre município, Estado e União, além de contemplar no plano a construção de penitenciárias e chamamento dos aprovados em concurso. (SECRETÁRIO, 2016).

Em junho de 2015 o Governo anuncia mais uma série de medidas para tentar amenizar a crise. Entre elas, está a prorrogação, por mais 180 dias, do decreto de corte de gastos de janeiro, além de projetos de leis de responsabilidade fiscal e de revisão de incentivos fiscais além de alterações nas concessões de pagamentos com licença-prêmio e funções gratificadas, trata-se do Decreto nº 52.862, de 13 de janeiro de 2016. (RIO GRANDE DO SUL, 2016c).

Conforme matéria do jornal Correio do Povo, apesar do clamor popular para que o decreto abra uma exceção e permita a nomeação imediata de 2,5 mil brigadianos e 600 policiais civis para a segurança pública, o Governo informou que não havia recursos. Para a Associação Beneficente Antônio Mendes Filho (ABAMF), os dados da Secretaria da Fazenda demonstravam que a arrecadação no período chegou a quase R$ 4 bilhões, portanto consideraram inverídicas as alegações do Governo. (GOVERNADOR, 2016).

Em julho de 2015 iniciaram-se os parcelamentos de salário dos servidores (que se mantém até hoje). Em agosto os servidores públicos reagiram ao atraso nos pagamentos e promovem um dia de paralisação. Alguns serviços essenciais foram prejudicados, como segurança pública, educação e transporte. (CRONOLOGIA, 2015).

Policiais militares e civis realizaram operações-padrão, a Polícia Civil trabalhava somente registrando ocorrências de crimes contra a vida, deixando sem atendimento as ocorrências de rotina, inclusive fechando algumas delegacias. A Brigada Militar, responsável pelo policiamento ostensivo, realizou operação-padrão e nenhuma viatura saia dos quartéis sem estar em perfeitas condições para trafegar (mecânica, documentação, etc.), policiais faziam rondas a pé e muitos não foram pras ruas reduzindo o efetivo empregado.

Os Corpos de Bombeiros só atenderam chamados em caso de incêndio e acidentes com vitimas presas às ferragens, deixando de atender a população em casos de urgência e nas solicitações de vistorias e emissão de alvarás de prevenção de incêndio. O Instituto Geral de

Pericias (IGP) deixou de realizar perícias e a Superintendência de Serviços Penitenciários (SUSEPE) deixou de cumprir diligências e transporte de apenados.

Ainda no inicio de agosto de 2015 o terceiro pacote de ajuste fiscal é apresentado pelo Governo, e dentre as principais medidas, estão propostas de alteração no regime de previdência de futuros servidores públicos, alteração no tempo de serviço de servidores da Brigada Militar o que causou grande alvoroço nas instituições, pois com receio de perder direitos muitos servidores pediram aposentadoria. (CRONOLOGIA, 2015).

Nesse tempo o Governo também buscou articular estratégias para corrigir alguns problemas da segurança pública, a exemplo do projeto proposto pelo chefe da Casa Civil, Márcio Biolchi, para diminuir as cedências de servidores da segurança a outros órgãos cujo objetivo era impedir promoções e incorporações de vantagens pelos policiais em desvio de função. (CRONOLOGIA, 2015). O governador também trabalhava no sentido de tirar policiais de áreas administrativas e colocá-los nas ruas, assim como aqueles cedidos a outros poderes.

A estrutura da Secretaria Estadual da Segurança Pública também foi objeto de reformulação no que se refere à distribuição dos setores. Atualmente conta com 10 departamentos e 34 divisões. A meta é reduzir para cinco departamentos e 20 divisões. Com tal mudança ocorrerá a liberação de 46 policiais civis e militares que atuam nessas áreas para trabalhar no policiamento ostensivo ou em investigações. (GOVERNO, 2016c).

Outra iniciativa do Governo foi liberar os requerimentos de concessão e renovação de abonos de permanência da Brigada Militar que o Decreto nº 52.230, de 02 de janeiro de 2015, havia restringido. O objetivo era aumentar o valor da gratificação e proporcionar a volta dos inativos para a função visando melhorar o efetivo da segurança pública autorizando a recontratação de até 500 policiais militares aposentados para atuar exclusivamente em escolas, com vídeo monitoramento e serviço administrativo possibilitando a liberação de PMs da ativa para o policiamento ostensivo. Os servidores do IGP também foram contemplados com tal gratificação podendo solicitar abono de permanência para continuar trabalhando após a aposentadoria. (SARTORI, 2016).

Em setembro de 2016 o Governo do Estado anunciou a convocação de 1.272 mil candidatos aprovados no concurso público para soldado da Brigada Militar. A projeção da BM é de que os novos PMs comecem a atuar na ruas a partir de março de 2017, na condição de estagiários operacionais, realizando policiamentos sozinhos após concluírem os oito meses de curso na Academia de Polícia Militar. Além dos aprovados no concurso da Brigada, 260 soldados foram chamados para iniciar o curso de formação de Bombeiro Militar. (GOVERNO, 2016a).

Apesar desses atos do governador em prol da segurança o mesmo deixou de repassar aproximadamente R$ 30.575.800,00 prometidos para Brigada Militar, Polícia Civil, Superintendência dos Serviços Penitenciários e Instituto-Geral de Perícias. O dinheiro estava previsto para reestruturação e reaparelhamento dos órgãos de Segurança Pública. As informações são do Portal RBS que informam ainda que os valores estariam destinados à aquisição de novas viaturas, armamento, munição, equipamentos de proteção individual e demais materiais necessários às funções exercidas pelos servidores. (MATOS, 2016).

Os valores prometidos, conforme Matos (2016) eram para ser liberados até dezembro da seguinte forma: R$ 14.805.500,00 para a Brigada Militar, R$ 5.069.500,00 para Polícia Civil, R$ 6.100.000,00 para a SUSEPE e R$ 4.600.800,00 para o IGP. Conforme a Secretaria Estadual da Segurança, já existe autorização para liberar os valores, mas depende de cada instituição para que isso ocorra. A Secretaria da Fazenda afirma que o dinheiro está à disposição, dependendo dos próprios órgãos de segurança executá-los.

Chega-se então ao final deste capítulo em que se pode perceber que a segurança pública é algo complexo e necessário. Ao mesmo que tempo que restringe, concede direitos e garantias fundamentais aos cidadãos. Para tanto se vale de órgãos que detém funções das mais variadas conforme se demonstrou acima. Da mesma forma se pode conhecer um pouco do difícil cenário que tais órgãos encontram para manter a ordem e a paz social para que se garantam os direitos de cada um coletivamente.

Por fim, demonstrou-se como o atual Governo esteve lidando com a situação demonstrada durante a sua gestão onde foi possível notar que o Governo, em todas as suas decisões, sempre visou corrigir o problema financeiro do Estado privilegiando a saúde dos

cofres públicos sob o pretexto de que o Estado só tem condições de prestar o serviço ao povo se tiver dinheiro em caixa.

De outra forma, entendemos equivocada leitura do atual cenário da segurança pública, pois como já abordado e clarificado no presente texto, trata-se de um direito fundamental do cidadão, e o Governo usa da sua discricionariedade para optar pela reestruturação financeira do Estado ao invés de garantir o atendimento ao interesse público por meio da reestruturação e melhoria nos aparatos de segurança.

Mesmo com alguns atos visando a diminuição da crise no quadro da segurança, nota- se que são medidas paliativas que não servem nem para reestruturar e nem melhorar a estrutura dos órgãos, servem somente para externar uma resposta quando há alguma pressão por parte da sociedade ou das associações que representam os servidores estaduais. Diante disso não há como esquecer que o Estado só existe para a consecução dos fins públicos. Ele só existe para proteger e conceder direitos aos cidadãos. Na medida em que seus cofres recebem receitas estas devem de imediato ser investidas em prol do povo. Então, cabe agora, concluirmos a presente pesquisa a partir de tudo que já foi abordado por este trabalho.

CONCLUSÃO

No presente trabalho se pode constatar que o regime jurídico-administrativo se fundamenta a partir da supremacia do interesse público e do princípio da indisponibilidade do interesse público, e que a partir destes, derivam todas as prerrogativas especiais da Administração Pública necessárias para a satisfação dos fins públicos, que neste caso, trata-se do poder discricionário.

Pode-se perceber que tal poder é importante para a manutenção do direito fundamental do cidadão à segurança pública, pois analisando os atos do governador do Estado durante a atual gestão se identificou o emprego de políticas públicas que privilegiam a contenção de gastos em detrimento dos direitos e garantias da população gaúcha.

Então, conforme discutido no presente trabalho, é possível identificar que o cenário da segurança pública no Estado como um reflexo de uma ausência de politicas destinadas à essa área que acabam por deixar as estruturas sucateadas e sem condições para os servidores trabalharem. É, também, digno de ressaltar que há uma crise econômica notória, tanto federal como estadual que acabam por influenciar na manutenção dos instrumentos e órgãos públicos, especialmente naqueles abordados no presente trabalho.

Tal situação não pode ser uma justificativa, entretanto, para que o Governo deixe de agir em prol do interesse público primário deixando a segurança pública em segundo plano, pois já analisamos que ela se trata de um direito fundamental, e como tal merece ser protegido e concedido a todos os cidadãos. Além do mais cabe ao Estado garantir condições mínimas para o exercício da cidadania de seu povo.

Através do estudo dos institutos do Direito Administrativo, dos conceitos e princípios, observa-se a clara opção do Governo estadual em privilegiar o interesse público secundário (do Estado enquanto pessoa jurídica) em detrimento do interesse público primário (da população em si), a qual está voltada ao saneamento das finanças públicas.

Longe de qualquer julgamento ou posicionamento de caráter político-partidário ou ideológico, atentando-se apenas à matéria do Direito Administrativo, é possível dizer que as decisões tomadas pelo governador do Estado agem contra o Direito, afastando-se do interesse público primário que lhe assiste cumprir. Na medida em que privilegia a arrecadação de finanças e corta investimentos em áreas primordiais para a sociedade o Governo deixa a população à mercê de uma onda de violência, uma crise de segurança que se reflete em assaltos, roubos, assassinatos e um espírito de tensão e medo geral e constante, claramente contrariando os princípios fundamentais estabelecidos expressamente no título primeiro da Constituição Federal de 1988 e reproduzidos na Constituição do Estado.

Em suma, a partir dos aspectos analisados, pode-se dizer que se utiliza do poder discricionário inerente à Administração Pública e deixa de cumprir com suas obrigações de garantir o essencial direito à segurança dos cidadãos (interesse público primário), privilegiando a saúde financeira dos cofres públicos do Estado (interesse público secundário), conforme o próprio Governador deixou claro em entrevista transcrita no capítulo anterior em que o mesmo diz ser primordial equilibrar as finanças do Estado para depois prestar atendimento à população.

Assim sendo conclui-se que o atual Governo do Estado está desviando de suas funções constitucionais e legais, praticando atos que, embora discricionários, visam a outro objetivo que não ao interesse público primário. E diante dessa ocorrência poderíamos aventar que ocorre desvio de poder ou de finalidade, que nos possibilita concluir que os estudos de Direito Administrativo indicam haver contrariedade visto que os atos do Governo do Estado estão eivados de ilegalidade por se desviarem da consecução da finalidade pública.

Destacamos aqui a importância de boas escolhas quando se trata do interesse público. A sociedade não pode ficar à mercê de uma inadequada prestação dos serviços públicos, visto que é pagadora de impostos e mantenedora do Estado enquanto instituição. Não pode a população pagar o preço pela inadequada gestão pública dos recursos financeiros do Estado.

Importante também salientar que não se trata de uma crise originada no presente Governo, mas sim uma consequência de diversas administrações públicas deficientes exercidas por diversos governadores e partidos.

Os investimentos em segurança pública não podem ser cortados, diminuídos ou relevados ao segundo plano. A consequência disso, como se viu, é o aumento da violência, resultando em perdas de vida e de patrimônio de cidadãos de todas as classes sociais. O prejuízo de uma vida perdida jamais pode ser reparado, e é esse risco que a sociedade corre quando não está bem servida por seus gestores na segurança pública. É preciso garantir, sim, a saúde financeira do Estado do Rio Grande do Sul, mas de forma alguma se pode deixar o interesse público primário em segundo plano para atingir esse objetivo, pois o interesse público secundário só é legitimo quando não é contrário ao interesse público primário, caso isso ocorra não pode ser considerado interesse público.

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