Requadro N o 1: Componentes de um conflito ambiental
APROXIMAÇÃO À ANÁLISE DE CONFLITOS AMBIENTAIS COMO SISTEMAS COMPLEXOS.
3.1.2 Atrair capitais: como se construiu o dogma
A segunda grande crise do capitalismo, nos anos 70, se põe uma evidência nos países industrializados nas dificuldades para sustentar o crescimento da produtividade, os desequilíbrios macroeconômicos, estagflação, desemprego e déficit externo. Nos Países latino-americanos se expressa também em desequilíbrios externos e internos, basicamente nas dificuldades nas contas externas e os elevados níveis de inflação.
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Lembre-se que a importância da IED não está determinada exclusivamente pela magnitude dos fluxos senão pela orientação dos mesmos, historicamente concentrados nos setores mais dinâmicos em cada etapa da economia nacional. (KOSACOFF, 1989)
Segundo René Villarreal (1989) os paradigmas teóricos vigentes, neokeynesiano e estruturalista, não podiam explicar exaustivamente a crise, mais tampouco surge um paradigma teórico realmente novo, como teria acontecido na crise de 1930.
Pelo contrário, a identificação simplista do Estado de bem-estar como principal responsável da crise recuperou o velho discurso liberal. Da mão de economistas como Milton Friedman e lideres políticos paradigmáticos como Margaret Tatcher e Ronald Reagan instalam-se o neoliberalismo e um enfoque monetarista. Os organismos internacionais como o FMI o banco promovem, o enfoque monetário da balança de pagos, encontrando terreno fértil em uma região agoniada pelos reiterados problemas de desequilibro externo.
Recordemos que uma das principais limitações do modelo de principais substituições de importações (ISI), vigente até esse momento, foi a insuficiente capacidade de gerar as divisas que a própria expansão industrial requeria. Enquanto a industrialização orientava-se exclusivamente ao mercado interno e por tanto não gerava divisas diretamente, estas se obtêm pela exportação de bens primários afetados pelo estrago progressivo dos termos de intercâmbio. Assim recorrentemente produzia-se o que Prebisch chamava de “estrangulamento externo” e, consequentemente, o típico “stop and go”, quer dizer, a contratação do nível de crescimento para parar com o requerimento de divisas e equilibrar a balança comercial. Nesse modelo ISI as respostas aos equilíbrios procuravam-se na economia produtiva. Pelo contrário, o enfoque monetário da balança de pagos relacionados à importância do déficit comercial se ele pode ser compensado com ingresso de divisas por créditos externos ou investimentos estrangeiro. (Ver Esquema Nº. 3).
As visões monetárias, com o mesmo simplismo com o que adjudicaram rapidamente a responsabilidade da crise nos paises capitalistas centrais ao estado keynesiano, nos paises capitalistas periféricos de importações. As ditaduras quebraram o modelo de substituição de importações e colocaram profundas transformações aplicando o enfoque monetário da balança de pagos, apresentado como única “solução” possível, e as “reformas estruturais” que permitiriam gerar confiança e atraírem capitais. (Ver Esquema No. 4).
Esquema Nº. 4
Segundo Gerard Dumenil (2003) o neoliberalismo não é um modelo de desenvolvimento senão um modelo econômico orientado é recomposição dos ingressos dos setores mais concentrados da capital e não resolve os problemas de acumulação, entretanto as ganâncias das empresas são majoritariamente distribuídas como dividendos, e orientadas crescentemente ao consumo do investimento. Isto parece comprovar-se na Argentina, onde grande parte do ingresso concentrado em uma pequena parte da população e das empresas se traduz em consumo imitativo dos centros ou fuga de capitais, e um comportamento predominante rendístico, que redunda em um baixíssimo investimento produtivo.
Em muitos casos o investimento estrangeiro chega a substituir o investimento nacional ou desnacionalizar empresas mais que a aumentar a capacidade produtiva. Justamente, quando o cenário ás volta competitivas, seus proprietários aproveitam para vender-las, realizando as ganâncias da valorização, e orientando o capital para colocações financeiras que representam ingressos de capitais em outros países.
Simplificando poder-se-ia dizer que, quem mais ganha seria quem mais freqüentemente exporta capital. Isto se realiza tanto de forma registrada como não registrada. Não devemos esquecer que a fuga de capital na Argentina segundo diferentes estimativas alcança uma quantia próxima á da dívida externa. (BASUALDO e KULFAS, 2000).
Além o próprio marco estabelecido para atrair investidores facilita a remissão de utilidades e dividendos para o exterior. Se as principais leis foram colocadas em vigência pela ditadura, o marco gerado durante a convertibilidade e as medidas de promoção facilitou o aumento dos fluxos da IED e no mesmo tempo à remissão de utilidades.
De modo ilustrativo: na década de 1980-89 o total da IED chegou a 5.859 milhões de dólares dos quais se remeteram como utilidades o 26,1% enquanto que na década seguinte chegaram 67.625 milhões de dólares, mas a remissão de utilidades alcançou o 60,6% (CHUDNOVSKY e LÓPEZ, 2001, p. 50). É significativo que do total da IED acumulado no período 1992-2001, 43.538 milhões de dólares, o 53% fora câmbio de mãos, o 28,9% contribuições, o 11% dívida com matrizes e3 filiais e o 6,9% re-investimento de utilidades (fonte: DNCI). Estas cifras refletem a desnacionalização pela privatização de ativos estatais como YPF, assim como a venda de empresas nacionais e capitais estrangeiros.
O estoque da IED em termos de PBI passou do 7,7% em 1992 para 31% em 2002, refletindo uma tendência crescente e sustentada á extrangeirização da economia. Embora, a respeito dos fluxos da IED, a crise do ano de 2001 produz uma forte retração verificando-se uma leve recuperação nos anos 2004 e 2005. (Ver Gráfico Nº.1)
A magnitude dos fluxos de IED com relação ao PBI foi oscilante e salvo nos anos 1999 – 2000, (em que foi alta devido à privatização de YPF) se matem por debaixo do 3% (Ver Gráfico Nº. 2).
Gráfico Nº. 2
A IED concentra-se nos setores ligados á exploração de recursos primários orientada a exportação, serviços básicos, bancos e indústrias de manufatura de baixa complexidade2 (Ver Gráfico Nº.3).
Gráfico Nº. 3
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Segundo o Centro para o Estudo da Produção, da Secretaria de Indústria, do total de investimentos do ano 2005, 14.105 milhões de dólares, “El petróleo y gás, la energia y, em menor medida las comunicaciones y la
construcción, fueron los sectores preferidos por los capitales estadounidenses. En cambio, los brasilenõs se orientaron al sector de materiales para la construcción (con la compra de Loma Negra por parte del Grupo Camargo Correa). Alimentos y bebidas e industrias básicas de hierro y acero. Los capitales argentinos prefirieron las inversiones el sector financiero, bancario y de la construcción.” (www.clarín.com.ar,18/02/06)
Esta orientação parece estar favorecida pelas regulamentações existentes, ainda que também possa perguntar-se: em que medida as regulamentações não se fizeram à medida das necessidades e da procura do capital estrangeiro, em função da estratégia de incentivar o ingresso de divisa e no marco das reformas em acordos com organismos de créditos internacionais.
Como expressa a agencia de desenvolvimento de investimentos do ministério de economia (ADI), o País conta com um marco legal para proteger o investimento estrangeiro. A lei de investimentos estrangeiros (Lei Nº. 21382/1993) estabelece o tratamento não discriminatório do capital estrangeiro (igualdade de tratamento com o nacional), nenhuma restrição á transferência ao exterior de utilidades e dividendos, nem á repatriação do investimento, proteção de registros e marcas, e constituição de normas de promoção. Isto inclui desde zonas francas, (que diminuem total ou parcialmente os impostos para as importações) até normas de promoção industrial por estado, normas de promoção industrial por Estado, normas de promoção setorial como o florestal (lei 25080/2000) e incentivos como à lei de promoção de investimentos (lei 25924/2004). Todavia a mencionada agência destaca a disponibilidade de mão de obra qualificada de alta produtividade com relação dos outros Países de América Latina, e a riqueza Argentina em recursos naturais: petróleo e gás, superfície para cultivo, pesca, floresta e minas. A respeito de esta última, estabelece que “as taxas de retorno das minas de ouro e cobre estão entre as mais altas do mundo” (ADI, perguntas freqüentes, 2006).
O conjunto de regulamentações nacionais é compatível com a reinserção em uma economia internacional signada pelas “desregulamentações” em favor da livre mobilidade de capitais.
Outro traço característico do neoliberalismo, a distribuição regressiva do ingresso não é só uma conseqüência do mesmo senão um dos seus elementos constitutivos, fundamento de um circulo que retro alimenta a desigualdade e o paradigma tecnológico delineado pela procura da diferenciação orientada a produzir para a procura solvente, concentrada e segmentada que resulta dessa desigualdade.
Como explica Dumenil (2003), é um traço destacado da economia debaixo do neoliberalismo que os maiores ingressos não se traduzem substancialmente em economia e investimento e que os lucros se distribuem muito mais do que se reinvestem. A distribuição de dividendos volta-se imperativa para competir com outras alternativas e obter lucros no marco de operações especulativas que põem em evidência o predomínio de uma lógica financeira de funcionamento das empresas. Esta é definida por Sevares como “la forma de funcionamiento
en la cual las empresas se orientan a obtener beneficios contables de corto plazo, generalmente en la valorización de las acciones, relegando las estrategias de crecimiento o las inversiones de largo plazo” (2003, p. 28).
Esta forma de comportamento geral implica que os fluxos de capitais externos estão orientados para obter altas rentabilidades, no menor tempo, e limitam sua intervenção na economia produtiva a atividades que as possam segurar; e fornecedoras de insumos, que pelo seu valor estratégico ou pela sua escassez ou restrições a sua produção nos países centrais, preferem produzir fora de seus territórios.
Aos problemas ambientais derivados do produtivismo (inerente também aos modelos keynesiano, aos desenvolvimentistas e as principais experiências de socialismo real). Sumam- se os derivados de uma concepção baseada na “desregulamentação”, a livre mobilidade de capitais (e em menor medida e de forma diferenciada, de bens) e a internacionalização sob um paradigma de capitalismo “flexível”.
A reestruturação capitalista neoliberal implica a constituição de espaços ambientais ampliados, ou mais especificamente, ampliados de um modo diferente a situações anteriores.
Seguindo a Gilberto Montibeller, consideramos “o espaço sócio-ambiental como a área geográfica na qual uma economia se abastece de recursos do meio ambiente e deposita seus resíduos” 3 (MONTIBELLER, 2004, p. 162-3).
Durante vários séculos alguns países usaram territórios de outros, utilizando para essas formas como a colonização ou investimento de réplica, etc.. Nesta etapa, o torna predominante sob formas sustentadas na abertura, normas de promoção de investimento estrangeiro, normas setoriais de fomento e forte incidência na orientação de políticas por atores transnacionais, (empresas, organismos de crédito e outras instituições) que condicionam o rol dos estados nacionais, em tanto os submetem á necessidade do ingresso de capitais. Nesse sentido, a abertura implantada pela ditadura, assentou as bases fundamentais do modelo na medida em que, como o analisa Schvarzer (1990), existe uma “causação circular”: a abertura gerou a dívida que, a sua vez, impulsionou a mais abertura.
A atração de capitais se converteu num dogma no qual se fundamentam as políticas e avaliam-se os seus resultados. Isto abre espaço, por exemplo, a que a mera venta de empresas de capital nacional ou a ativos estatais, seja vista como investimento e valorizada politicamente de maneira positiva; ainda que a prática não signifique um aumento real e
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Montibeller, G., considerando o principio de equidade internacional inerente ao conceito de desenvolvimento sustentável, destaca que a procura de sustentabilidade deve ser no espaço ambiental e não do país ou região tomados isoladamente. (2004: p.162-3)
relevante da capacidade produtiva, e constitua a desnacionalização, substituição de investimento nacional por estrangeira e, em muitos casos, a fuga total ou parcial do dinheiro obtido pela venda de ativos nacionais.
Também no marco, deste dogma, tende-se a desprezar ou sub-avaliar as perdas de recursos naturais e os danos ambientais.
Assim, por exemplo, a política pesqueira nos primeiros anos da sua implantação foi vista e apresentada como um sucesso (“Argentina: de País com pesca a País pesqueiro”), mostrando como indicadores da performance do sucesso, o crescimento do produto e o total do investimento estrangeiro. Porém o forte impacto no setor pesqueiro local, pela diminuição dos recursos, com o conseguinte desemprego e afetação da economia regional mostraram que essa política só pode ser considerada um sucesso em relação de uma aposta dogmática ao capital estrangeiro.
De forma similar, os resultados da promoção da indústria mineira, são lidos em termos de ingresso de capitais, minimizando o obscurecendo tanto os impactos ambientais que deram lugar á emergência de intensos conflitos, como seus grandes custos fiscais.
Também as privatizações foram avaliadas como um “sucesso” em termos de ingresso de capitais, ainda que os resultados seja a diminuição das reservas, o esgotamento de recursos e a desnacionalização da renda petroleira.
Esta avidez pelo ingresso de divisas converte a produção de soja no principal produto de exportação, “a moça mimada do campo argentino”, obviando as advertências sobre problemas atuais e iminentes derivados do mono-cultivo, do deslocamento de outras atividades (ex: gado e leite) e da expansão da fronteira agrícola-pecuária sobre zonas cuja transformação e utilização para o cultivo de soja poderiam significar a perda de ambientes, de diversidade e da base de sustento das populações originárias.
Sucessivos governos mostraram como vitória o “boom” pesqueiro o “mineiro”, o “boom” das privatizações, o “boom” da soja... Sem dúvida, isto se pode ver como um sucesso em termos de rentabilidade empresária, incremento do produto das receptivas atividades e ingressos de capitais. Porém, o balanço não pode reduzir-se ao total dos investimentos ingressados no País. Logo de duas décadas deste modelo de políticas esta evidente que o “derrame” que prometia a teoria, se converteu em pobreza, em passivos ambientais gerados pelos empreendimentos mineiros, em diminuição de recursos pesqueiros, em perda de recursos não renováveis como petróleo e gás, e em importantes impactos negativos ocasionados pelo mono-cultivo da soja.
Além destes efeitos vale deixar colocada uma pergunta, o que impacto tem tido as condições sistemáticas geradas para atrair capitais externos no desenvolvimento de outras atividades econômicas na indústria, no mercado e o consumo interno e fundamentalmente na economia e no investimento nacional, tanto pública como privada? Não são essas condições as mesmas que alimentam uma lógica de comportamento centrada na valorização financeira em demérito de uma lógica produtiva, e as mesmas que no mesmo tempo que facilitam o ingresso de capitais permitem sua saída?
O desenho de políticas econômicas ao serviço da atração de capitais converte o País em “tomador” de um modelo determinado exogenamente e coloca o território nacional como espaço ambiental dos países de origem dos investimentos.