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7.1. DEMANDAS PARA O REGENTE DE CORO INFANTIL SEGUNDO SUA

7.1.2 Atuação profissional no coro

A atuação profissional do regente também é influenciada por aspectos que este traz do período anterior ao ingresso na graduação e da formação continuada.

Com a fala dos regentes, percebe-se que suas experiências anteriores ao ingresso na faculdade de Música aconteceram em escolas de música, como também em aulas particulares de instrumentos musicais, por meio de vivências familiares e grupos musicais. Tardif (2012) explica que “a socialização é um processo de formação do indivíduo que se estende por toda a história de vida e comporta rupturas e continuidades” (p. 71). Complementa explicando que o tipo de socialização que caracteriza as vivências anteriores ao ingresso à graduação, ou seja, “[...] que compreende as experiências familiares e escolares dos professores” (TARDIF, 2012, p. 71) é intitulada “pré-profissionais”.

Quando os regentes foram questionados sobre como essas vivências pré-profissionais repercutiam em sua atuação de ensino da música, deram enfoque a aspectos interessantes. Foi possível constatar benefícios musicais e benefícios relacionados à docência.

A experiência profissional do Regente A com regência coral define-se em vinte e nove anos. Desses vinte e nove anos, vinte e sete são como regente de coro infantil, no caso, o Coro A, mas também atua com outros coros infantis na cidade de Curitiba, esses há menos tempo.

No aspecto musical, o Regente A comenta que referente a coro infantil seu aprendizado aconteceu ao participar das Oficinas de Música de Curitiba e muito mais pela prática, atuando como regente de coro infantil, pois não havia cursos específicos preparatórios para a regência de coro infantil. Diz que

[...] na época pelo menos não tinha agora eu não sei... [...] as formações sempre foram proporcionadas pelas oficinas de música de Curitiba né... é... então é aí que os regentes buscam né... materiais né e se instrumentalizar e atuar como regente de coro infantil (EA).

Outro aspecto citado foi quanto à docência. Complementa dizendo:

[...] sou de uma época como eu te falei, não existia uma didática de coro infantil assim uma formação pra didática de coro infantil então agente sempre aprendeu fazendo é e aprendendo com pessoas que já tinham... (EA).

O Regente B atua como regente há dez anos. Está como regente do Coro B há sete anos, mas teve experiências anteriores com a regência durante três anos, quando também dava aula de instrumentos em uma escola de música. Relata também que começou a atuar com regência um pouco antes de se formar. No aspecto musical, diz ter participado como cantora de diferentes formações vocais. Sua primeira experiência foi com um coro cênico, diz que “era um trabalho bem engraçado, assim” (EB). Durante sua infância, frequentou aulas particulares de instrumento musical e essas aulas lhe deram embasamento teórico. Comentou que o aprendizado que obteve em sua infância lhe permitiu ter conhecimento musical aplicável no coro, afinal o regente também precisa ter domínio dos conceitos para ensinar.

Do ponto de vista da docência, considera que depois da questão afetiva, do gosto por trabalhar com crianças, é preciso saber cantar, referindo-se ao contexto do Coro B. Traz consigo diversas experiências na área do canto e defende a ideia que “o regente de um coro tem que cantar bem, principalmente se for um coro infantil, porque eles imitam a gente, e eles vão

cantar do jeito que a gente canta” (EB). Sua fala se aproxima da proposta de Dalcroze44 (apud FONTERRADA, 2005) cujo método enfatiza fortemente o princípio de que para ensinar música, deve ser um músico bem preparado, pois só se pode ensinar aquilo que se sabe bem.

Ambas as experiências, do Regente A e do Regente B, refletem em suas realidades de atuação. O formato de trabalho de cada um carrega características intrínsecas ao processo individual delas de vivência com a música. O tipo de vivência obtida durante o período escolar “[...] é necessariamente formadora, pois leva os futuros professores a adquirirem crenças, representações e certezas sobre a prática do ofício de professor, bem como sobre o que é ser aluno” (TARDIF, 2012, p. 20).

Fica claro na fala dos regentes a “[...] importância das experiências familiares e escolares anteriores à formação inicial na aquisição do saber-ensinar” (TARDIF, 2012, p. 20). Considerando suas experiências, destaca o Regente B:

[...] Olha, se a pessoa nunca cantou, é... e quer trabalhar com criança, tem que fazer aula de canto.... pra aprender a não machucar sua voz....não é?... Mesmo as crianças que cantam coisas líricas, você tem que saber orientar, conhecer sua voz para poder orientar para a criança não se machucar, não forçar um registro que de repente ela não tem, notas muito agudas ou muito graves. Então acho que primeiro de tudo a pessoa tem que ter um pouco desta formação (EB).

Muito do que fazem hoje no trabalho com coro infantil, dada devida importância às reflexões e vivências musicais em seus processos formativos foi aprendido com/na prática. Dessa forma, Tardif (2012) comenta: “[...] mergulhados na prática, tendo que aprender fazendo, os professores devem provar a si próprios e aos outros que são capazes de ensinar” (p. 51).

Um aspecto que me chama atenção na fala dos regentes entrevistados é o envolvimento emocional em que estes apresentam quando defendem o porquê de trabalharem com crianças. Para o Regente A “uma profunda paixão pelas crianças e pela música” (EA), para o Regente B “Ah! Primeiro porque eu amo o trabalho, né? Depois porque eu amo as crianças” (EB), se expressam com um sorriso no rosto.

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Consequentemente, mostra-se evidente em seus respectivos coros, uma boa e afetiva relação com as crianças. Em suas funções educacionais, como coloca Tardif (2012) “o docente raramente atua sozinho. Ele se encontra em interação com outras pessoas, a começar pelos alunos” (p.49). Explica ainda o autor:

[...] no discurso docente, as relações com os alunos constituem o espaço onde são validados, em última instância, sua competência e seus saberes. A sala de aula e a interação cotidiana com as turmas de alunos constituem, de um certo modo, um teste referente tanto ao “eu profissional” quanto aos saberes veiculados e transmitidos pelo docente (TARDIF, 2012, p. 51-52).

Percebeu-se nas falas dos regentes, mesmo com formação específica em música, a experiência com a prática como muito valorizada. De acordo com o Regente A, sua prática foi propiciando determinadas certezas para ele. Já o Regente B comentou que sua prática veio da experiência com o canto. Quando questionado sobre como teria adquirido algumas capacidades respondeu: “é da experiência de cantar em coro, é... na graduação a gente não teve aula de canto, a gente cantava, tinha uma excelente professora que... mas nunca foi dada técnica vocal assim, né? Pelo menos na época que eu fiz, eu não sei como é que tá agora, né?” (EB).

As opiniões emitidas pelos regentes sobre a importância e benefícios gerados pela experiência prática, se relacionam com o que defende Tardif (2012) que por meio de sua pesquisa, concluiu que os professores se desenvolvem em termos profissionais “[...] através da prática e da experiência [...]” (p. 86). Dos benefícios contam que a experiência os permite superar dificuldades que surgem no dia a dia do coro, como: indisciplina, assiduidade, falta de concentração, e outros aspectos corriqueiros da rotina coral. Nisso, é possível associar o saber experiencial com o aspecto do tempo que, de acordo com Tardif (2012) “é um saber temporal, evolutivo e dinâmico que se transforma e se constrói no âmbito de uma carreira, de uma história de vida profissional, e implica uma socialização e uma aprendizagem da profissão” (p. 110-111).

Assim, no contexto coral, não se dissocia a experiência prática da formação específica. É possível perceber que as vivências no dia a dia do coro

compreendem a carreira do regente e agregam significativo valor ao aspecto da formação/preparação que, acaba por propiciar a aprendizagem da profissão. Os saberes por eles citados podem ser entendidos como “um saber aberto, poroso, permeável, pois integra experiências novas, conhecimentos adquiridos ao longo do caminho e um saber-fazer que se remodela em função das mudanças na prática, nas situações de trabalho” (TARDIF, 2012, p. 110).

Outro fator apontado pelo regente A é que o contato com outros regentes em diferentes ambientes sejam esses profissionais ou de formação, proporciona a troca de experiências e consequentemente o manuseio de material didático específico para coro infantil. Relata sua experiência pessoal ao participar de festivais e cursos específicos.

[...] a gente vai atrás e tenta se formar... naquela época não tinha internet então pra você conhecer trabalhos de outras pessoas você tinha que ir até onde elas atuavam, você tinha que trocar figurinhas e tinha várias pessoas em Curitiba colegas né.. que também a gente trocava o que uma tinha o que a outra tinha, ai eu consegui isso, consegui aquilo porque até lojas pra você comprar material de coro infantil... (EA).

Apesar das dificuldades apontadas é possível concluir que esses ambientes de trocas produzem benefícios. Como coloca Tardif (2012) “[...] uma outra fonte de aprendizagem do trabalho é a experiência dos outros, dos pares, dos colegas que dão conselhos” (p. 87), sendo assim, o regente também aprende com outro colega regente. Isso colabora para o aprendizado da prática docente, pois gera reflexões, questionamentos e vivências que possibilitam ao regente a legitimação de saberes experienciais, como também aprender com seus colegas de profissão.

Por esta razão, no âmbito do coro infantil, o papel dos regentes é preponderante no estabelecimento de métodos e práticas que sejam eficazes e facilmente adaptáveis às crianças, de acordo com suas possibilidades de aprendizado, formação e conhecimento prévio. Pode-se concluir que as trocas entre regentes, a experiência adquirida em seu contexto de prática de ensino, como também as pesquisas realizadas acabam por adquirir papel fundamental para a prática de ensino da música das entrevistadas.