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á que este livro se prende ao estudo das teorias socioló­

gicas, e não há história do pensamento social em geral, come­ çará com Augusto Comte — que foi a primeira grande figura a afirmar, e depois provar com os fatos, que a ciência empí­ rica e teórica da sociedade era possível e desejável. Mas, a fim de tornar Com te compreensível, precisa-se apresentar antes o

clima intelectual da França no inicio do século XIX.

A França no inicio do século XIX

O clima intelectual de uma sociedade é formado pelas idéias que os intelectuais contemporâneos têm como cenas, pelos problemas comumente discutidos entre êles c pelos seus métodos de discussão. Tal clima pode ser mais ou menos integrado; cm outras palavras, os intelectuais podem estar ou não divididos em facções, cada qual detentora de uma série de idéias preferidas, uma categoria especial de problemas e um método particular dc discussão.

No início do século XIX, o clima intelectual da França estava bem integrado Falava-se com orgulho das conquistas realizadas nas Ciências Matemáticas e Naturais, confiava-se na onipotência dos métodos. Quanto aos assuntos humanos, subsistia a crença na existência de leis sociais similares às esta­ belecidas nas Ciências Naturais. Entre essas, atribuía-se posição dominante à lei do progresso ou desenvolvimento necessário das sociedades humanas rumo a estágios mais altos e melhores.

Tal seqüência de idéias pode ser retraçada até Blaise Pascal 1623-62), que sugeriu a semelhança entre a continuidade das gerações humanas com a de um indivíduo que vivesse para sempre e não cessasse dc acumular conhecimento. Charles Montesquieu (1669-1753), na primeira frase de. seu famoso

VEsprit dês lois (1748), ofereceu uma definição das leis da

natureza que mcieceu aprovação geral: as leis, na mais ampla acepção do termo — disse êlc —, são relações necessárias de­ rivadas da natureza das coisas.

A idéia de progresso, desenvolveu-a Jacques Turgot (1727- •81). Num memorial publicado em 1750 e no breve Discours

sur 1'Histoirc universelle tentou mostrar que o avanço humano

no conhecimento da natureza era acompanhado de uma eman­ cipação gradual do espírito, libertando-se dos conceitos antro- pomórficos, segundo um processo que, em sua opinião, passara por três estágios: primeiro, os homens supunham que os fenô­ menos naturais eram produzidos por sêres inteligentes invisí­ veis, mas semelhantes a êles; segundo, começaram a explicar tais fenômenos por expressões abstratas, tais como essência e potência; terceiro, observando a ação mecânica recíproca dos corpos, formularam hipóteses que poderiam ser desenvolvidas

pela Matemática c verificadas pela experimentação.

Outro protagonista da idéia do progresso, o Marquês de Condorcet (1743-94), expressa seus pontos de vista na obra intitulada Esquisse d’un tableau historique des progrès, de Fesprit

humain, escrita no cárcere pouco antes da própria execução que êlc sabia inevitável; traçou aí o perfil do progresso huma­ no através das idades e formulou a possibilidade dc uma ciência capaz de antever o futuro da humanidade e, conseqüente­ mente, acelerá-lo ou dirigi-lo. Para estabelecer leis que per­ mitam aos homens a previsão do futuro, deveria a História deixar de ser uma história de indivíduos e tomar-se uma his­ tória das massas humanas. Sc c quando ocorrer essa transfor­ mação, tomar-se-á possível antever o porvir com base no co­ nhecimento dc leis necessárias e invariáveis. Não há motivo para acreditar que não existem essas leis, governando os assun­ tos humanos. A maior delas 6 desconhecida ainda, mas à base da observação histórica pode-se afirmar que o progresso é ne­ cessário c ininterrupto, dependendo da sucessão de explicações antropomórficas, metafísicas e científicas dos fenômenos naturais.

A vida de Comte

Comte (1798-1857) nasceu cm Montpellier, Fiança. Aos dezesseis anos, o homem que viria a ser o pai e fundador da Sociologia matriculou-se na Êcole Polytechinique, então a es­ cola mais considerada do país. Seus professores, na maioria estudiosos de Matemática e Física, revelavam, ao contrário do jovem Comtc, pouco interesse pelo estudo dos assuntos huma­ nos e da sociedade. Como muitos dos filósofos desse período, especialmente os filósofos sociais L. G. Bonald e Joseph de Maistre, alarmou-se ele com os efeitos demolidores da Revolu­ ção Francesa, a desordem criada pela destruição violenta dos grupos sociais intermediários entre a família e o Estado. Assim o aprimoramento da sociedade logo se tornou a preocupação principal de Com te, o verdadeiro objetivo de sua vida. Mas ele entendia que, para aprimorar a sociedade, fazia-se necessá­ ria uma ciência teórica da sociedade. Não a tendo à disposi­ ção, decidiu criá-la. Esta nova ciência, a seu ver, dependia de outras; resolveu, portanto, estudar a serie completa das ci­ ências teóricas, que identificava com a Filosofia positiva. Com os resultados de tal estudo, conseguiu formular um sistema das leis que regem a sociedade dc modo a postular sua cura à base dessas leis.

As conquistas de Comte, até a formulação deste gigantes­ co empreendimento, foram grandemente estimuladas pelo fato de que, aos dezenove anos e ainda aluno da Escola Politécni­ ca, tomou-se secretário do Conde Henri dc Saint-Simon (1760- -1825). Embora membro da aristocracia francesa, Saint-Simon veio a ser um dos primeiros c mais eminentes socialistas utópi­ cos, um dos pensadores sociais, talvez sonhadores sociais, que acreditavam que os problemas da sociedade do seu tempo se­ riam melhor resolvidos reorganizando-se a produção econômi­ ca, privando-se, conseqüentemente, da liberdade econômica (en­ tão valor fundamental) a classe proprietária dos meios dc pro­ dução. Em um panfleto publicado em 1813, Saint-Simon ex­ punha as seguintes idéias:

A moral e a politico se tornarão ciências “positivas".

C onere tizar-se-á a tendência de muitas leis peculia­ res às ciências individuais, para uma lei única e que tudo abranja.

A ciência uirá a w o nôvo poder espiritual.

A sociedade precisa, portanto, s*r reorganizada e, neste sentido, fl humanidade entrari no terceiro período de sua história: o primeiro, ou preliminar, terminou cm Sócrates, e o segundo, ou conjetural, persistiu até a época dos trabalhos dc Saint-Simon.

De 1817 a 1823, Comte e Saint-Simon colaboraram tão estreitamente que i impossível distinguir quais as contribuições dc um e de outro. Verifica-se essa colaboração especialmente na obra Plano das Operações Cientificas Necessárias Perra a

Reorganização da Sociedade. Mais tarde, Comte chamaria essa obra dc “a grande descoberta do ano de 1822”. Nessa pu­ blicação, os autores asseveravam que a Política deve tomar-se a Física Social, um ramo da Fisiologia; que cada setor dó co­ nhecimento deve passar por três estados: o teológico, o meta­ físico e o positivo; e que o objeto da Física Social era desco­ brir as leis naturais c imutáveis do progresso, tão necessárias quanto a Jci da gravidade. Assim, o programa de uma nova

ciência (que depois se chamaria Sociologia) ficava claramente

fixado, rnmo também era proclamada a proposição fundamental da teoria sociológica dc Comte — a lei dos três estados.

Logo após a publicação dessa obra, deixaram de traba­ lhar juntos e passaram a atacar-se acerbamcnte. Comte nun­ ca mais encontrou uma posição estável e bem remunerada, pas­ sando a viver a custa de explicações e exames de Matemá­ tica e de outros experientes. Sucediam-se desapontamentos pessoais e querelas com diversas pessoas, e seu isolamento cres­ cia sempre. Não obstante, um pequeno grupo de admirado­ res, a fim de ajudá-lo, convidou-o a dar uma série dc aulas particulares sôbre Filosofia positiva. Comte aceitou o convi­

te c as notas dc aula foram gradualmente publicadas, entre

1830 e 1842, constituindo o volumoso Cours de philosophic po­

sitive em seis tomos, sua obra fundamental. Enquanto traba­ lhava nesse projeto, descobriu o princípio da higiene mental. Aplicando essa descoberta à sua própria vida, parou de ler a fim de manter a mente livre da contaminação das idéias alheias. Em seus últimos anos de vida, entre 1851 e 1854, escreveu um tratado intitulado Système de politique positive em quatro volumes, onde aplica as descobertas da Sociologia teórica à solução dos problemas sociais da época. Assim, cumpria seu objetivo inicial, o aprimoramento da sociedade, mas, ao fazê- -lo, desviou-se parcialmente do positivismo e tentou construir

uma religião da humanidade. Apesar disso, encontram-se nessa obra contribuições importantes e interessantes ao anterior

Court tie philosophic positive.

Premissas básicas

A teoria sociológica dc Comtc consta de um sistema fun­ dado cm duas proposições correlatas: a lei dos três estados e o teorema de que as ciências teóricas formam uma hierarquia cm cujo ápice se situa a Sociologia.

As ciências — assevera Comte na segunda proposição — são teóricas ou práticas (aplicadas). As teóricas subdividem- -se ainda em descritivas (concretas) e abstratas. As primeiras lidam com os fenômenos concretos e as segundas esforçam-se pela descoberta das leis da natureza quo regem tais fenômenos, determinando sua coexistência e sucessão. As ciências teóricas abstratas constituem uma série, ou hierarquia, em que cada grau superior depende do antecedente porque lida com fenômenos mais complexos e concretos. A Matemática ocupa a base da hierarquia, abrangendo os aspectos abstratos de todos os fenô­ menos. Logo a seguir vem a Mecânica, que Comte quase iden­ tificava com a Astronomia, ciência que, naquela época, estava realizando progressos espetaculares. À Mecânica seguiam-se a Física, a Quimíca e a Biologia. E, acima de todas elas, vinha colocar-se a nova ciência da Física Social ou Sociologia.

A lei dos três estados significa, em primeiro lugar, que cada setor do conhecimento atravessa três períodos de desen­ volvimento: teológico, metafísico e positivo. Mas as ciências individuais não se movem simultaneamente; quanto mais alta se situa a ciência na hierarquia, mais demorada é a passagem de um estado a outro. Não poderia ser de outro modo, pois primeiro tinham que se desenvolver as mais complexas. Comte acreditava que todos os setores do conhecimento, menos um, haviam atingido o estado positivo; com o surgimento da So­ ciologia, a série estaria completa.

No sistema de Comte, entretanto, a lei dos três estados é muito mais do que um princípio regedor do avanço do co­ nhecimento. O desenvolvimento e a educação do indivíduo, como também a própria sociedade humana, precisam igual­

mente atravessar três estados. O desenvolvimento e a organi­ zação sociais positivos dependem do conhecimento científico,

jsto c, sociológico, dos fenômenos sociais. Ein outras palavras, “a grande dcscobcr:a do ano de 1822”» pensava Com te, de­ veria tomar-se a idéia diretriz para a reorganização da socie­ dade abalada pela Revolução Francesa.

Estava tão firmemente convencido da exatidão do seus pon­ tos de vista que mandou um exemplar da Philosophic positive ao Imperador Nicolau I, da Rússia, escrevendo-lhe uma carta em que afirmava ter certeza de que o governante autocrático (que, singularmente, possuía boa formação matemática) ini­ ciaria reformas que levariam a Rússia à sociedade positiva. Êste incidente revela que as pretensões de Comte, como as de muitos inovadores, eram, às vêzes, ridículas.

Mas as premissas básicas de sua teoria sociológica mere­ cem consideração c respeito. Sua lista dc ciências abstratas

ò incompleta. Omitiu a Psicologia, que tomou como um ramo

da Hsíoiogia, e a relação existente entre as ciências individuais

é mais complexa do que supôs. A divisão geral das ciências,

todavia, revelou-se em geral boa. A lei dos três estados, no entanto, com o sentido que lhe emprestou seu inventor, ca­

rece nitidamente do validez. Se as primeiras explicações da natureza e do homem têm sido freqüentemente religiosas, se­ guidas por explanações filosóficas e, enfim, pela ciência em­ pírica, nem sempre o último approach elimina o primeiro; ao contrário, ocorre a acumulação e, freqüentemente, a mistura dos três. Mesmo sofrendo essa correção, tal lei comtiana não resistiria à prova de fatos hoje cm dia conhecidos. Contudo, pode-se vislumbrá-la, sob unia forma grandemente modificada, em uma das teorias mais ambiciosas dos dias atuais, a de So­ rokin (vide capítulo XX).

A Ciência da Sociologia

Sua localização no sistema das ciências bem indica o significado que tem para Comte a Sociologia: é a ciência teórica abstrata dos fenômenos sociais. Em 1828, quando (com Saint-Simon) compreendeu a necessidade dessa nova ciência, escreveu Comte: “Possuímos atualmente uma Física Celeste, uma Física Terrestre, seja Mecânica ou Química, uma Física Vegetal c uma Física Animal; desejamos ainda uma outra, e última, a Física Social, a fim de completar o sistema de nosso conhecimento da natureza. Entendo por Física Social a ciência que tem por objeto o estudo dos fenômenos sociais

considerados sob o mesmo espírito que os fenômenos astro­ nômicos, físicos, químicos ou fisiológicos, isto é, sujeitos a leis naturais invariáveis, cuja descoberta constitui a meta especí­ fica da investigação.” Mais precisamente, a finalidade era "descobrir através de que séries fixas dc transformações su­ cessivas, a raça humana, partindo de um estado não superior ao das sociedades dos grandes macacos, gradualmente, atingiu o ponto cm que hoje se encontra a Europa civilizada”.2

Comte relutou muito em substituir o nome da nova ciên­ cia — Física Social — por Sociologia. Na última parte da

Philosophic positive explicou que inventara um nôvo nome porque o antigo fora usurpado por um cientista belga que o

escolheu para título dc uma obra devotada a matéria tão vil, qual fôsse a simples Estatística. A obra a que se referia era o Ensaio dc Física Social de Quételet (vide capítulo IV), que trazia às Ciências Sociais uma das contribuições mais vigorosas do século XIX.

Em Politique positive Comte procurou dar mais vida à definição um tanto formal de Sociologia, apresentada em Phi-

losophie positive. Por um lado, parecia identificar a Sociolo­

gia coin o estudo da totalidade dos fenômenos do intelecto hu­ mano e das conseqüentes ações dos homens. Por outro lado, qualificava essa posição afirmando que a Sociologia não era o estudo do intelecto como tal, mas dos resultados cumula­

tivos de seu exercício. Embora, é fora de dúvida, não tenha abandonado a concepção da Sociologia como uma ciência teórica dos fenômenos sociais, identificava, agora, a soma total dos últimos com os resultados cumulativos do exercício do in­ telecto — concepção dos fenômenos sociais semelhantes ao con­ ceito dc cultura, freqüentemente empregado pelos sociólogos

contemporâneos, que o tomaram da Antropologia Cultural. Era germe, essa roncepção de cultura já estava presente na obra de Comte muito antes de vir a ser encarada como de impor­ tância estratégica pelos sociólogos e antropólogos modernos. •

Metodologia

Comte achava que a discussão dos métodos não podia ser separada do estudo dos fenômenos investigados por êsses

* Palavras transcritas em Politique positive, VoL IV, apêndice.

métodos. Conseqüentemente, só é possível rcconstituir seus pontos dc vista metodológicos pela reunião dc idéias disper­ sas ein seus tratados.

A Sociologia precisa utili/ar o método positivo, o que já estava estabelecido no próprio programa da nova ciência c derivava das premissas básicas comtianas. Mas o que era o método positivo? Em resposta, Comte pouco dizia, a não ser que tal método exigia a subordinação dos conceitos aos fatos c a aceitação da idéia dc que os fenômenos sociais estão submetidos a leis gerais; do contrário, não se poderia estru­

turar nenhuma ciência teórica abstrata relativa a tais fenô­ menos. Dc acôrdo com sua compreensão da hierarquia das ciências, admitia que o sistema formado pelas leis sociais era menos rígido do que o das leis biológicas e este, por sua vez, menos rígido do que o das leis físicas.

Embora de avançada formação matemática, negava Comte que o método positivo pudesse identificar-sc com o uso da Matemática ou da Estatística. “O projeto dc tratar a ciência social como uma aplicação da Matemática a fim dc tomá-la positiva originou-sc no preconceito dos físicos dc que, fora da Matemática, não há certeza. Èsse preconceito era natural na época em que tudo que fósse pusitivo pertencia ao domínio da Matemática aplicada c, conseqüentemente, tudo que esta não abrangesse era vago e cunjeiural. Mas desde a formação das duas grandes ciências positivas, a Química e a Fisiologia, onde a análise matemática não desempenha papel algum, e que são reconhecidas como não menos certas do que as ou­

tras, semelhante preconceito seria inteiramente inexplicável.”5 Certa vez, assinalou as "vãs tentativas de diversos geômetras de levar avante um estudo positivo da sociedade mediante a aplicação da ilusória teoria do acaso (probabilidade)'*. Mais uma vez, tinha em mente a obra He Quételet. Ê digno de nota que, nos dias atuais, exista uma escola ncopositiva (vide capítulo XVI), que vê na quantificação o ideal dc tôda ciência, da Sociologia inclusive. Quanto a isso, o neopositivismo dificil­ mente se coaduna com as idéias do fur.dador do positivismo.4

* Politique positive. Vol. IV, apêndice.

* Ver. entretanto, a réplica de George Lundberg, em Funda- mentos i* Sociologia.

Como então alcançar o conhecimento positivo, segundo seu ponto de vista? Comte menciona quatro processos: observação, experimentação, comparação e método histórico.

A observação, ou uso dos sentidos físicos, como acentuava, com acerto, só podia ser desenvolvida, produtivamente, guiada pela teoria. Quanto aos modos de observação, dedicava pouca estima à introspecção, isto é, à observação dos fenômenos que ocorrem na mente do observador. Algumas dc suas afirmativas a êsse respeito antecipam as dos behavioristas contemporâneos. Olhava em outra direção c acreditava que a Frenologia 9 podia explicar melhor as variações do comportamento humano. Sabia que o experimento real é quase impossível no estudo da socie­ dade. Mas no idioma francês a palavra experiment freqüen­ temente implica observação controlada. Comparação produtiva, sustentava êle, podia ser desenvolvida entre as sociedades humana c animal, entre as sociedades coexistcntes e entre as classes sociais da mesma sociedade.

Por método histórico, entendia Comte a pesquisa das leis gerais da variação contínua da opinião pública, ponto de vista que reflete o papel dominante das idéias evidente na lei

dos três estados. O método histórico pouco tem em comum com os métodos usados pelos historiadores que dão relêvo às relações causais entre fatos concretos e que apenas incidental- mente formulam leis gerais. Entretanto, Comte unicamente indicava o que devia ser feito, sem, porém, demonstrar como se poderia fazê-lo. Em seus tratados, registra certo número de inferências de fatos históricos, raramente porém convincentes, e às quais parece ter chegado mais por dedução da lei dos tres estados do que pela autêntica inferência.

Cumpre ainda mencionar dois outros pontos dc signi­ ficação metodológica. Primeiro: a sociedade, em sua opinião, é, de certo modo, como um organismo em que o todo é mais conhecido do que as partes.6 Desta proposição, derivou a

8 A Frenologia é urna teoria pseudodentifica, oferecida por F.

H. Gall (1758-1828), de acordo com a qual as faculdades mentais do homem se relacionam estreitamente com as peculiaridades de seu ciftnio.

* Relativamente a um organismo, a proposição é correta: mesmo tem qualquer estudo especial entende-se a conduta de um homem, um cão, um gato; ao passo que a compreensão da operação das partes, ou órgãos, exige algum estudo. A proposição, entretanto, dificil­ mente é aplicável à sociedade.

conclusão algo inconsistente de que os estudos especializa 0¼ a exemplo da Economia, são enganadores, porque jamais se deveria introduzir na ciência qualquer fato social cncaiado como fenômeno isolado. E mais, acusava os economistas da época por sua má-vontade em reconhecer a possibilidade dc outra ordem na sociedade que não fusse a que se estabelece automaticamente. Comte achava que, além dessa ordem es­ pontânea, podia haver uma ordem planificada, estabelecida à base do conhecimento das leis sociais c dc sua aplicação ra­ cionai a problemas e situações concretos.

Segundo: cm sua obra há uma sugestão que antecipa de mais de cinqüenta anos uma relevante contribuição de Max Weber (vide capítulo XIV). Ccmtc considerava os tipos sociais “os limites de que a realidade social sc aproxima, cada vez mais sem nunca conseguir atingi-los”. Nessa afirmativa, percebe-sc a influência dc sua formação matemática c, tam­ bém, de modo rudimentar, o tipo ideal de Max Weber, excelente instrumento lógico para a análise sociológica. Corrobora essa afinidade outra, afirmação de Comte, ao sugerir como utilizar

No documento teoria sociológica - NICHOLAS S. TIMASHEFF (páginas 33-52)