As vésperas do século XX a evolução era um dogma co-
mumente aceito e cuja predominância ultrapassava os limites da Sociologia. Sob a influência de Spcncer e seus discípulos, certo número de cientistas procurava descobrir os estágios pre- estobelecidos ou necessários do desenvolvimento de determi
nadas fases da vida social c cultural. Afirmavam, por exemplo, que a evolução da família teve origem na promiscuidade se xual, passando, a seguir, pelos estágios da família matriarcal
(clã) e da família patriarcal (gens) até chegar por fim à pequena família conjugal de nossa época. Os economistas di ziam, às vezes, que a humanidade evoluíra através dos suces sivos estágios da coleta, da caça, da criação de gado, da agri
cultura e da indústria. A técnica considerava-se resultante de três ou quatro “idades**: da madeira, da pedra, do bronze e do ferro. No setor legal, descrevia-se a evolução como um movi mento partindo da propriedade comunal para a individual, do
status para o contrato. Na sucessão de divindades mágicas-
-anixnistas-totêmicas-pessoais denunciavam-se nítidos estágios da evolução religiosa. No domínio da política, apresentava-se a democracia como o vértice de uma linlia evolutiva em visível
ascensão. Havia dúvidas, naturalmente, quanto à exatidão das seqüências e dos estágios, mas os evolucionistas acredita* vam que estas dúvidas seriam dirimidas pelo estudo posterior. Alguns sociólogos e outros cientistas sociais preferiam coretmir seus sistemas teóricos sôbrc alicerces diferentes; mas também
esses pagaram, mais amiúde do que deixariam de pagar, seu tributo ao dogma que parecia coroar o edifício das Ciências Biológicas c Sociais.
O pensamento evolucionista recente
Gradualmente, entretanto, acumularam-sc as dificuldades. Dcscobrirain-sc fatos que não sc enquadravam no esquema evo lutivo ou quo incitavam os cientistas sociais a tentativas novas. Alguns estudiosos, porem, considerando invicto o cvolucionis- nx>, ensaiaram emendar a doutrina e dar-lhe formas que a tomassem compatível com o avanço do conhecimento. Interes sam ao presente estudo os ensinamentos de três deles.
Máximo M. Kovalevsky (1851-1914), embora de origem russa, passou os anos mais profícuos de sua existência na Eu ropa ocidental e deu grande atenção à sua história econômica e jurídica. Como sociólogo, manteve-se alheio à escola subje tiva russa (alguns membros da qual queixavam-se amarga mente dêsse alheamento). Chegando a presidente do Instituto
Internacional dc Sociologia, cm 1907, pode, portanto, ser con siderado um eminente representante das últimas idéias evo-
lucionistas na Europa ocidental.
Kovalevsky era decididamente evolucionista, porém mais che gado a Augusto Comte do que a Spencer. Tentou delinear os estágios através dos quais as sociedades hão dc passar por necessidade interna, mas não pendeu para o ponto de vista spcnccriano da evolução cósmica nem para a identificação da evolução social com a biológica. Sua obra constitui aquêle tipo de síntese geradora das Ciências Sociais concretas, proposta por Ward como tarefa central da Sociologia. Publicou vários volumes ciu russo, alemão c francês, dedicados ao desenvol vimento econômico da Europa ocidental, às origens da demo cracia moderna, à evolução da democracia direta para a re presentativa.40 Com base nesses estudos, e em outros ma teriais próprios e alheios, publicou em 1910 dois volumes de
Sociologia, em russo.
40 As obras principais de Kovalevsky, de acêrdo com êsses prin cípios. são: O Desenvolvimento Eeonimieo da Europa Até a Advento
do Capitalismo (1898-1903); A Origem da Democracia Moderna (1895-97) e Da Democracia Direta à Democracia Representativa (1906).
Neste último estudo, dedicou-se largamente ao problema dc demonstrar os estágios essenciais da evolução social. Espe cificando melhor, Kovalevsky tentou identificar e correlacionar estágios em diferentes áreas de vida sociocultural. Fugiu à desavisada conclusão de que similaridades entre dois ou mais processos concretos estabelecem entre êles uma relação de ne cessidade evolutiva, reconhecendo a possibilidade de imita ção e dc difusão cultural. Negou enfaticamente prioridade ou supremacia a qualquer fator particular no desenvolvimento evo
lutivo, embora acreditasse que, nos primeiros estágios da evo lução, as transformações na densidade da população tives sem estratégica importância no estimulo a transformações pos teriores. Reconhecia a existência de variações ou desvios das linhas retas da evolução, mas achava que o respectivo estudo devia scr adiado até que os sociólogos conseguissem estabelecer as similaridades sociais e culturais c reduzi-las a leis gerais. Finalmente, assinalava que as sociedades primitivas contempo râneas são contemporâneas e, portanto, não representam ne- cessàriamente estágios iniciais em crescimento evolutivo, fato ainda hoje negado ás vêzes.
Os trabalhos de Kovalevsky contrastam incisivamente com os dc Alfred G. Keller (1874-1942), destacado representante americano do evolucionismo recente. Keller foi aluno, cole ga e discípulo de Sumner (ver capitulo V), cuja cátedra as sumiu em Yale após a morte daquele. Não conseguira Sumner estabelecer a relação entre o desenvolvimento dos mores e a evolução orgânica, problema a que se dedicou Keller na prin cipal obra que escreveu, Societal Evolution (1915).
Êsse livro é uma tentativa de deslocar o evolucionismo do tipo spenceriano, considerado por Keller antes filosófico do que cientifico, para uma base darvriniana — tarefa que, a seu ver, os darwinistas sociais haviam conduzido mal. Assim, a fórmula spenceriana de transformação da homogeneidade in coerente em heterogencidade coerente é substituída peia de “variação, seleção, transmissão de adaptação", princípios a apli car ao processo mental primário da evolução social e à matéria- -pnma social dos mores. Variação 6 a fôrça que põe a evolução
em movimento, embora não fique bem claro como e por que isto aconteça. Mas o fato de que os costumes sejam, em tôda parte, idênticos indica a ubiqüidade das variações not mores.
variações que refletem diferenças de grupo em reação mental ao meio. E tais reações são seletivas, seguindo os caminhos
mais agradáveis aos homens. Keller localiza três tipos de se
leção social: a automática, não envolvendo nenhuma adapta
ção deliberada de meios a objetivos conscientes, e revelando-se
na guerra, na luta de classes, na concorrência; a racional, aná loga à arte dos criadores e dando, assim, certa margem à ca pacidade do homem de controlar o sentido da transformação
(margem todavia grandemente limitada); e a contra-seleção, que, através de práticas como guerra, baixa fertilidade nas "clas ses superiores”, casamento tardio, celibato, e indústria mo derna, permite a sobrevivência dos bioldgicamente menos aptos. A transmissão, terceiro princípio de Keller, considerando que
os mores não são biologicamente hereditários, refere-se ao papel
da imitação automatica e da educação artificial, na preservação das tradições da sociedade. Os processos de variação, seleção c transmissão tornam possível, finalmente, a adaptação nos mores. Cada costume ou instituição, conquanto cm contradição com outros (c, deve-se observar, Keller foi um dos primeiros a cha mar a atenção para os desajustamentos provocados pelas mé dias desiguais dc transformação nos mores), é o resultado da adaptação do homem às condições ambientes.
Êstc breve resumo da aplicação de Kcller dos conccitos darwinianos à evolução social não faz a devida justiça à ha bilidade com que êle se desincumhiu de sua tarefa. O seu, porém, foi o maior esforço final dêsse tipo. O conhecimento sociológico tem progredido consideràvelmente desde a publica ção do livro de Keller, mas poucos avanços (se algum) têm sido feitos segundo a orientação de Societal Evolution, o que sugere ao menos que o desenvolvimento cientifico se encontra em qualquer outra parte.
O terceiro autor a ser considerado e o filósofo social e antropólogo inglês Leonard T. Hobhouse (1864-1929), que reconheceu plenamente a falência do evolucionismo extrema do, sobretudo as variantes danvinianas, mas esperava salvar
tudo que dêle se pudesse utilizar com eficácia na Sociologia moderna.
Sob o ponto de vista da Sociologia empírica, a mais im portante de suas obras é Social Development (1924), onde tenta formular critérios que incluem: tamanho, eficiência (isto
é, adequada coordenação dc funções para fins especifico*) I
liberdade (considerada como o limite permissive! à indepen
dência de pensamento, caráter e imitação), e mutualidade de serviço (ou a organização de relações sociais de modo que cada um dos que servem a fins comuns também participe de seus resultados). Como filósofo social, Hobhouse não só rejei tou a concepção radical do desenvolvimento evolutivo, e a dou trina extrema do laissez-faire, como advogou um coietivismo modificado; acreditava que a própria evolução social repousa, cada vez mais, no controle consciente. Tais convicções in fluíram sem dúvidn em sua escolha dc critérios referentes ao processo evolutivo. A aplicação desses padrões a materiais etno gráficos comparativos, entretanto, representa um esfôrço subs tancial para o teste objetivo das hipóteses (qualidade também visível em Morals in Evolution, volume bem anterior, publi cado em 1906). Embora as conclusões dc Social Development sejam francamente inconseqüentes, elas indicam, conforme es clarece Hobhouse, que as sociedadcs tanto podem retroceder quanto avançar, ao longo de uma ou mais das quatro linhas traçadas pelos critérios da evolução humana.
Essa afirmativa está de acôrdo com a prova oferecida era The Material Culture and Social Institutions of the Sim
ples Peoples (1915), obra em colaboração de Hobhouse, Morris
Ginsberg e Gerald T. Wheeler; nela os autores examinaram o princípio evolucionista de que o desenvolvimento das institui ções sociais é correlato às transformações das condições econô micas. Estudaram mais de quatrocentas sociedades, empre gando técnicas estatísticas rigorosas na classificação dos está gios dc avanço c das instituições políticas, familiares e militares, entre outras. Enquanto certas correlações são evidentes nas numerosas tabelas dêsse volume (por exemplo, entre o estágio dos “caçadores inferiores" e as instituições políticas nascentes) não sc demonstrou — ou argüiu — nenhum caso de primado das condições econômicas ou de regularidade no processo evolutivo.
O desafio empiric o ao evolucionismo
Os últimos evolucionistas travaram uma batalha perdi da, com suas tentativas de remendar o evolucionismo. Já no século XIX surgiram dúvidas sôbre a doutrina, e muitas delas
nasceram de estudos mais ou menos empíricos de hipóteses tipicamente evolucionistas.
Lm dos colegas de Hobhouse, por exemplo, o estudioso
fino-sueco Edward A. Westermarck (1862-1939), levou anos
examinando materiais etnográficos numa tentativa de refutar
o postulado da promiscuidade sexual como primeiro estágio
da evolução da família humana; muitos evolucionistas (Mor
gan, por exemplo) sustentaram esse postulado, embora alguns
dos primeiros antropólogos, como Tylor, não o aceitassem.
As conclusões de Westermarck, publicadas em The History of
Human Marriage (1891), demoliram com êxito a hipótese
da promiscuidade original. Afirmou êle, com base em evi
dencias da vida dos antropóides bem como das sociedades hu manas, que o homem foi originàriamente monogâmico e que o tipo simples da íamília patemalística e o mais antigo e universal.
Embora os antropólogos modernos tenham abandonado a pes
quisa das origens das instituições, e tenhain produzido farta
documentação sôbre grande variedade de sistemas de família
culturalmente normais, concordam, via de regra, em que o
comunismo sexual não caracteriza nenhum estágio ou tipo de sociedade humana e que todos os sistemas de família, por ex tensos que sejam, envolvem combinações da família nuclear ou conjugal de pais c filhos.
A refutação de Westermarck à promiscuidade primitiva
foi acompanhada, paralelamente, por investigações doutrinárias
sôbre a evolução econômica, a partir de um primitivo comu nismo original (como o aceito, por exemplo, por Engels). Fa
zendo novamente uso de estudos etnográficos, demonstrou-se
que, enquanto a propriedade comum da terra era amplamente difundida entre os povos primitivos, os direitos da proprieda de privada — sôbre ferramentas, armas, roupas, etc. — tam bém faziam parte de suas instituições. Ficou provada a in coerência, entre os fatos conhecidos e o ponto dc vista evolu tivo, sôbre uma série dc estágios econômicos de crescimento, da caça à criação dc gado e à agricultura; houve um estudioso,
Hahn, por exemplo,41 que revelou a coexistência do exercício
da caça, pelo macho, e do recolhimento de produtos selvagens da terra, pela femea. Descobriram-se campos em que a agri
4* E. Hahn, Die IfausthUr* und ihle Betlehungsn zuj Wirttc-
ha/t dts Menschen (1896). 180
cultura dc desenvolvera sem o suposto estágio intermediário da
criação de gado, como entre muitas sociedades indígenas
americanas.
Os pontos de vista evolucionistas, relativos ao progresso
das instituições políticas, mostraram-se mais consistentes do
que estas teorias econômicas. Os acontecimentos das últimas décadas, porém — cumpre observai* —, deitaram um sôpro de morte sôbrc a fase política do evolucionismo.
Também surgiram dúvidas quanto â justeza dos métodos
utilizados pelos evolucionistas: êles habitualmente pretendiam
estar empregando o método comparativo, embora na realidade
seu critério fôsse, geralmente, ilustrativo. Reuniam-se, com
freqüência, provas selecionadas de culturas muito diferentes,
com o fim de testemunhar os estágios evolutivos; fenômenos que não se enquadravam no esquema cvolucionista eram dados como sobrevivências de estágios mais antigos, e os casos indi viduais eram asim classificados porque não alicerçavam esta ou aquela teoria evolutiva. Freqüentemente, portanto, fechava- -se num círculo o raciocínio dos evolucionistas. Maís ainda: grande parte das provas que éles ofereciam não merecia con fiança, baseando-se antes em relatórios de viajantes e missioná rios do que nos de cientistas. Finalmente, imaginou-se que a primitiva cultura contemporânea representasse os primeiros es tágios do crescimento evolutivo.
Descontados esses erros, os evolucionistas ainda poderiam ter mantido uma versão modificada de sua doutrina, apoiados
na habilidade que revelaram cm explicar surpreendentes si
milaridades, quanto a instrumentos, materiais, c instituições
sociais, entre povos separados por vastas distâncias. A expli cação, entretanto, que deram as tais similaridades era que elas englobam estágios de evolução pelos quais tôdas as sociedades humanas hão de passar. A expansão dos conhecimentos sôbre a difusão cultural à base dc imitação veio pôr em xeque essa linha dc raciocínio.
O renomado geógrafo alemão Friedrich Ratze! (1844-
-1904), cio sua Anlhropogeographic (1892), havia ji notado
similaridades culturais em sociedades marcadamente dtssixni-
lares quanto ao meio, similaridades que só podiam, portanto, ser explicadas como conseqüências do contato. £sy ponto de vista coincide com o das Lois de limitation (1890) de Tarde, em que o autor procura estabelecer o processo de imitação
como a mola do vir-a-scr social. A teoria era um exagero, inas serviu para trazer à tona o importante papel da imitação nos contatos humanos. No início do século XX, o etnólogo alemão Fritz Graebner publicou uma série dc estudos culmi nando com Métodos da Etnologia (1911), em que nega a ocor rência dc muitas invenções independentes e declara que a di fusão das invenções é um fenômeno muito cncontradiço. É cer to que excessos c conjcturas infundadas marcam as obras dele e da maioria de seus seguidores; mas a hipótese da difusão en
controu apoio considerável em certo número de descobertas
arqueológicas, a indicar que vários itens da cultura material,
pelo menos, tinham viajado do lugar dc origem até regiões
surpreendentemente distantes, nos períodos iniciais da Histó-
na humana. Conchas marinhas e ossos de peixe, por exemplo, remanescentes da Antiga Idade da Pedra (palcolitica) foram
encontrados muito longe de praias marítimos, sugerindo a exis tência de um comércio entre caçadores dc renas e tribos lito râneas. Na Bélgica apareceram pederneiras produzidas na Fran ça durante a Nova Idade da Pedra (ncolítica); conchas mari nhas da mesma época viajaram para a Alemanha e a Tchccos- lováquia. Descobriu-se que o trigo da Dinamarca c as ove lhas ali criadas cm épocas posteriores vieram dc outra parte,
não sendo descendentes das espécies selvagens do Noroeste eu ropeu; a obsidiana, usada no Egito e na Mesopotâmia, veio da Armênia e de Meios; achou-se lápis-lázuli no Irã, usado muito
antes pelos egípcios e sumerianos.42 Os clássicos evolucionistas
não desconfiaram dc fatos como estes, cuja descoberta privou a escola de uma de suas últimas linhas dc defesa.
Tal conclusão não quer dizer que nada sobrevivesse ao colapso do evolucionismo: algumas cie suas contribuições con tinuam a ser úteis na estrutura da Sociologia contemporânea.
As investigações dos evolucionistas estabeleceram paralelismos
parciais entre determinados costumes, crenças e objetos mate
riais. Embora não demonstrassem nenhum preestabelecido está
gio de avanço, apesar dos esforços monumentais realizados nes te sentido, seus estudos corroboraram a sensata noção de que certas coisas vieram antes e outras depois. As sociedades sem
organização política diferenciada, por exemplo, deram lugar
O Essas ilustrações foram extraídas de V. Gordon Childe, “A Prehiitorian’s Interpretation of Diffusion", Harvard Tercentenary Pu blications, vol. Ill (1937).
a chefes cuja posição se baseia a principio em qualidades pes soais, mas tende a tornar-se hereditária. Os instrumentos sâo simples, de inicio, c gradualmente se tornam mais complexos. O transporte se faz inicialmente a pé; depois vêm técnicas cada vez mais requintadas. Em resumo, pode-se dizer que os estudos dos evolucionistas confirmaram a convicção de que hi certa ordem na transformação social e cultural, e vieram mos trar que uma teoria sistemática da transformação precisa in
cluir a noção das causas operativas do processo histórico.tt
A validez dessas contribuições explica amplamente algu mas sobrevivcncias do evolucionismo até o dia de hoje; sobre - vivências que serão tomadas em consideração ao estudarmos o quarto período do desenvolvimento da teoria sociológica (ver
capitulo XXI).
As raizes do ncopositivismo
Acompanhou o declínio do evolucionismo o surto de uma nova tendência, a que se deu ultimamente o nome de neoposi- tivismo. Durante o período cm estudo aparecem claramente no horizonte três elementos dessa tendência, que se combi naram com cs remanescentes do evolucionismo nos últimos es critos de Giddings. £sses três elementos são o quantitativismo, o behaviorísmo e a cpistcmologia positiva.
O quantitativismo realça a enumeração e a medição como métodos de estudo essenciais k investigação científica em qual quer campo, inclusive o da Sociologia. Recorde-se que êsse realce foi dado por Quételet (ver capitulo IV) na primeira metade do século XIX, tendo sua influência atingido a So ciologia através da Biologia. O Quantitativismo logrou apoio posterior c mais fone por parte de Francis Galton (1822-1911), o qual, em Hereditary Genius (1869) e English Men of Science (1874), de caráter francamente estatístico, chega à conclusão, quanto à transmissão dos traços familiares, de que são, antes de tudo, herança biológica, embora os dados que oferece também apóiem o ponto dc vista oposto — de que a transmissão de
43 Êste resumo reprodux em forma sucinta o que foi ofeitddo
por A. Goldenweiser, "Contributions of Anthropology”, na ConUm- p/nary Social Theory, organizada por H. E. Barnes e H. Becker (Nova York, Appleton-Century, 1940).
qualidades como a capacidade de invenção e de realização, em vários campos, é de natureza essencialmente social. O segui dor dc Gallon, Karl Pearson (1857-1936), publicou uma obra
intitulada The Grammar of Science (1892), que se tomou o
evangelho dn ncopositivismo, apoiando fortemente o quantlta-
tivismo c outros elementos do mesmo critério.
O behaviorismo )& sc encontra, em embrião, na obra de Pearson. Mas veio a abrir caminho especialmente depois que
um psicólogo americano, John R. Watson (187S- ), deu-
-lhe forma precisa e radical, numa série de publicações,44 de
senvolvendo c exagerando as idéias do famoso fisiólogo russo
Ivan Pavlov (1849-1936), descobridor do reflexo condicio
nado. Watson asseverou que a “consciência** é objetivamente
incognoscível, que a introspecção não constitui fonte de co
nhecimento cientifico, e que, conseqüentemente, a Psicologia
e, por ilação, a Sociologia devem estudar sòmente a conduta
observável. Pode-se reduzir tôda conduta humana — decla
rava Watson — a um quadro de reflexos condicionados, nos
quais sc distinguem estímulos (condições especiais em que
ocorre a conduta) c reações (conteúdo da conduta assim es timulada). Com semelhante ponto de vista, uma análise bas tante refinada dc estímulos c dc reações explicaria todos os aspectos c formas dc conduta humana. De acõrdo com essa formulação, a conduta verbal pode ser considerada estímulo (de outra ação) e reação; mas no estudo da conduta verbal um
behaviorista coerente não levaria cm conta o sentido das pa lavras, porque "sentido" implica observação introspectiva.
A epistemologia positivista tem raízes na Filosofia prag
mática de William James (1842-1910), John Dewey (1859-