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6 Materialidade decorrente da pesquisa

7.2 Aula teste sobre determinado conteúdo do programa e seu relatório

revisado, com os quais as células replicantes do curso deverão contar. Para esta primeira edição, a prioridade para formação de turma será dada ao nosso grupo de colaboradores. Assim, nosso teste aconteceu contando com a infra estrutura ideal, com uma sala fechada e refrigerada, um computador laptop e monitor externo cedidos pela ONG, além de conexão wi-fi com a internet. Sabemos de antemão não ser possível se exigir esta mesma estrutura em outras localidades e, portanto, apenas a estrutura mínima conforme listada no corpo do programa deverá estar à disposição.

Voltando à atividade teste, decidiu-se trabalhar com as cadeiras dispostas seguindo a sugestão de um dos entrevistados, para que a arrumação das mesmas fosse feita quebrando a disposição tradicional em fileiras e corredores, passando a serem dispostas num semi-círculo ao redor da tela de projeção, que neste caso da experiência foi um monitor de Tv digital de 40 polegadas, como mostra a figura 30 a seguir.

Figura 30 - Início do teste do programa do curso

Fonte: Arquivo Ricardo Pimentel, novembro 2017.

Essa organização espacial traz inegavelmente mais integração e proximidade entre o motivador e os participantes e deverá ser adotada como orientação para futuras edições. A parte oral cronometrada durou uma hora e dois minutos, onde inicialmente foi feito um breve perfil histórico da Fotografia, importante para localizá-la

no tempo e colocá-la marcadamente não como curiosidade técnica, mas sim como extraordinária fonte de expressão pessoal. A seguir, falou-se a respeito dos sistemas operacionais existentes no mercado equipando smartphones. Seguindo a expectativa sobre estatística celular, dos nossos oito entrevistados, seis possuem aparelhos equipados com sistema Android e apenas dois com iOS. Na atividade teste, coincidentemente todos que compareceram possuíam aparelhos com sistema Android, o que não excluiu a necessidade de se falar sobre o outro sistema, mas certamente abreviou a explanação total sobre o tema. Na sequência, o aplicativo baixado, FV-5, foi aberto e sua interface analisada caso a caso. A atenção especial recaiu, como previsto pelo programa, sobre a função de números ISO, que obrigam o fotógrafo a escolher dentre várias opções oferecidas pelo sistema, de maneira a se adequar à situação de luz que enfrentará.

Feito isso, partiu-se então para a parte final da aula, com a saída a campo pela Praça do Futuro, que por ter sido revitalizada e adotada pela ONG Onda Carioca, oferece intensa atividade cotidiana, especialmente num dia de feriado, como o dia 15 de novembro próximo passado escolhido intencionalmente para que o máximo de participantes pudesse comparecer. O horário das 17 horas marcado para começar a parte oral também foi intencional, pois a expectativa era de que algum atraso acontecesse e que a parte prática se iniciasse por volta das 19 horas, quando pelo nosso horário de verão começa a escurecer de fato, aproximando assim o exercício proposto da situação provável de oferta do curso, que deverá ocupar dois dias da semana a serem determinados numa pesquisa prévia com os inscritos, entre 19 e 22 horas e aproximando a prática também dos horários reais das Rodas Culturais, quase sempre noturnas, a partir das 19 horas e onde os participantes depois do curso provavelmente aplicarão seus conhecimentos.

A atividade solicitada foi também um extraordinário teste para o estilo de didática que será adotado. Como já descrito e defendido anteriormente, cada participante foi estimulado a escolher trechos de músicas e que partisse daí então ao campo para fotografar procurando traduzir visualmente os trechos por ele escolhidos.

As atividades externas foram num crescente, como era de se esperar, já que inicialmente os testes técnicos de números ISO buscando adequação à iluminação ambiente predominaram – naquele momento as luzes da praça já estavam acesas, misturando-se com a luz natural, mas ainda havia predominância desta última, por conta do horário – e geralmente estes testes suscitam muitas dúvidas aos iniciantes.

Como as Rodas Culturais são quase que exclusivamente noturnas, um dos grandes desafios técnicos a ser superado será explicar e se fazer entender quanto ao ISO ideal a ser usado durante os eventos, para que se possa controlar a aparência dos

movimentos presentes, congelando ou descongelando seus registros, conforme a escolha expressiva do fotógrafo.

Estas opções já haviam sido mostradas e discutidas através das projeções em sala, com exemplos que mostravam como cada um deles havia sido obtido tecnicamente. Os resultados não tardaram a acontecer em registros de cenas com escolhas de diversos ISOs e partindo daí para variar controles de tempos de exposição disponibilizados pelo aplicativo baixado, dentre as opções que cada câmera trazia internamente de fábrica, Como estas mudam de modelo para modelo, criou dificuldade que tomou conta das dúvidas a princípio, mas que foi progressivamente sendo superada. Conforme a atividade fluía, todos foram percebendo os efeitos que os ISOs propiciavam para as mudanças nos tempos de exposição, que por sua vez faziam as aparências dos movimentos captados se alterarem. A ferramenta que mais empolgou foi a descoberta de como dominar a técnica dos movimentos escorridos, que antes vinham sendo obtidos sem controle, criados automaticamente quando a câmera identificava uma situação de luz deficiente em cena. Agora, a situação começava a ser controlada e a servir criativamente, como mostra a figura 31 abaixo.

Movimentos escorridos, ou descongelados atestam inequivocamente a presença de movimentos durante a captação das imagens e adicionam sensação de tensão aos mesmos, além de uma conexão conceitual com a fluidez da passagem do próprio tempo capturado. Diferentemente de situações fotografadas com congelamento de movimentos, que flagram e travam um determinado instante no tempo e no espaço, as fotos capturadas com tempos longos de exposição criam grafismos e rastros de movimentos que podem ser utilizados de forma expressiva e abstrata, tirando a precisão e a objetividade que inicialmente se pode atribuir a imagens fotográficas.

Além disto, como dito acima, as fotos com descongelamento de movimentos atestam suas respectivas presenças nas ações originais fotografadas, o que pode não acontecer em cenas que tiveram seus movimentos congelados pelas técnicas utilizadas, mesmo que estas técnicas tenham sido eficientemente aplicadas. Como exemplos, podemos pensar em duas situações: na primeira, uma pessoa acena para alguém e seu movimento aparentemente congelado pode ter sido forjado pela simulação de ação e não pela presença de movimento de fato. Se, por outro lado, tivéssemos escorrimento de movimento na área das mãos da pessoa que acenava, a presença deste na ação original seria inquestionável. Numa outra situação, se fotografarmos eficientemente um cata-vento que gira, congelando seu movimento, a estaticidade na imagem fotográfica final não nos dará certeza se o cata-vento girava, o que não aconteceria se tivéssemos adicionado rastros de movimento ao giro do instrumento. Portanto, a escolha da técnica interfere diretamente no resultado estético

e de estilo de comunicação final de imagens que procurem descrever movimentos, devendo ser escolha a ser feita pelo fotógrafo, de maneira a mostrar claramente suas intenções. Evidentemente, bastante atenção deverá ser dada a esta etapa, pois se trata de algo básico no ensino de fotografia, pois como já foi analisado anteriormente, no fundo todas as imagens fotográficas são registros de determinadas passagens do tempo.

Figura 31 - Foto com autoria de William testando movimento

Fonte: Página de William Araújo, no Instagram, novembro 201778.

O entardecer avançava e a intensidade da luz caía drasticamente e variava a cada instante até o escurecer total. Esta nova situação de luz trouxe as inevitáveis dificuldades para se congelar movimentos, como os dos jogadores de futebol em ação na quadra da praça das figuras seguintes. A necessidade de se variar o ISO, aumentando seu valor para que se possa usar o tempo de exposição com a fração de segundos mais curta possível requereu várias tentativas e muitas explicações até que fosse assimilada pelos participantes. As técnicas de controle de luz na fotografia são muito simples, seguindo combinações entre tempos de exposição e diafragmas, que

78 Disponível em:

<https://www.instagram.com/p/BbiPYaGDuqOE8CCBF1nNX-w-HarEYwPcHJOyfI0/?hl=pt-br&taken-by=willinrio>. Acesso em: 17 de nov. 2017

possuem valores entre si de dobros e metades a cada estágio selecionado, porém apesar de simples, sua lógica sempre traz certa dificuldade até que seja de fato dominada.

Figura 32 - Tentando congelar movimentos

Fonte: Arquivo Ricardo Pimentel, novembro 2017..

Figura 33 - Testando congelar os movimentos

Fonte: Arquivo Ricardo Pimentel, novembro 2017.

Primeiramente, as dúvidas e solicitações que predominaram nas fotos de controles de movimentos foram as eminentemente técnicas, mas progressivamente foram dando lugar às questões estilísticas e de adequações das fotos aos temas e trechos musicais escolhidos. Foi aí que a empolgação tomou conta dos participantes, conforme intencionado. Tão logo captassem imagens para traduzir seus trechos musicais e, porventura, colhessem algo que avaliassem como de qualidade, corriam

para mostrar. Uma vez feitos os comentários, voltavam rapidamente à busca por novas fotos. E as imagens abaixo atestam que o inusitado e a imprevisibilidade que advém das diferenças de olhares e intenções traz toda a graça e a magia envolvidas na fotografia. A primeira imagem mostra a ação dos fotógrafos com a precisão necessária para que um observador externo entenda o que se passava naquele momento e, neste caso, o congelamento técnico era o desejado e necessário.

Figura 34 - Mike Charlie fotografa Will em ação

Fonte: Arquivo Ricardo Pimentel, novembro 2017.

Acima, Ernesto Mike Charlie fotografou William em ação, que por sua vez fotografou um ônibus usando tempo de exposição bem longo, por opção sua naquele momento, com a expectativa intencional de obter uma imagem gráfica, com as luzes do ônibus que passava em movimento escorrido, deixando rastros que criassem algum tipo de grafismo, que acabou se revelando tenso e belo, em abstração que foge inteiramente à objetividade do olhar, lançando o resultado na esfera da subjetividade, confirmando assim a possibilidade de fazê-los entender na prática a pluralidade das linguagens fotográficas, que apesar de dependerem da técnica para se concretizarem, constituem-se nos objetivos finais a serem perseguidos por fotógrafos.

Figura 35 - Resultado da foto que Will fez com escorrimento nas luzes

Fonte: Página de William Araújo, no Instagram, novembro 2017.79

Figura 36 - Mike Charlie faz flagrante de morador de rua

Fonte: Arquivo Ricardo Pimentel, novembro 2017.

De repente, Ernesto Mike Charlie começou a fotografar um morador de rua que se aproximou e se instalou na esquina em que os fotógrafos estavam em ação e começou a tirar areia de um de seus sapatos diante deles. A inspiração surgiu e

79 Disponível em: < https://www.instagram.com/p/BbiQZc1DffyfaxEW5vLzMu-H-sCFPLWDLos7zM0/?hl=pt-br&taken-by=willinrio>. Acesso em: 17 nov. 2017

Ernesto se lembrou do trecho da música intitulada “A Estrada”, do grupo Cidade Negra, que diz: “Você não sabe o quanto eu caminhei, pra chegar até aqui”. Deu o clique certeiro e:

Figura 37 - Tradução perfeita da música “A Estrada”, do Cidade Negra

Fonte: Arquivo de Ernesto Mike Charlie, novembro 2017.80

A imagem dispensa comentários com relação à análise de seu discurso, pois traduziu espetacularmente e com precisão absoluta o trecho de música que representava. Do ponto de vista estético, a composição foi extremamente feliz ao deslocar o personagem para um dos lados do retângulo de enquadramento, aplicando uma regra de composição intitulada “Regra dos Terços”, que permitiu a relação conceitual entre o personagem e o entorno onde se desenrolava sua ação, já que sua imagem foi deslocada para o terço à esquerda do quadro. A única questão estética que ainda podia ser levantada era quanto à opção pela captação colorida sobre um tema que tradicionalmente é mais afeito à estética da fotografia em preto e branco, muito por conta da influência dos fotógrafos documentaristas, especialmente os das escolas francesa e americana, que produziram extraordinários ensaios urbanos e rurais e que transformaram o século XX no mais e melhor documentado período da história humana. Mas não se pode dizer que a escolha dele pela cor na sua foto de exercício tenha sido equivocada e a aplicação prática da regra de composição, que havia sido transmitida oralmente na parte inicial da experiência, mostrou que a atividade tinha atingido plenamente seus objetivos e podia ser encerrada, até porque já havíamos chegado às 20:30 horas, atingindo a previsão de três horas programadas

80 Disponível em: < https://www.facebook.com/ernesto.mikecharlie>. Acesso em: 17 nov.2017.

para cada aula. Estava na hora de voltar à sede e desfrutar do lanche, encerrando o dia, sugestão igualmente colhida durante as entrevistas. Para os dois participantes que não concluíram especificamente traduções visuais de trechos de música, a tarefa foi passada como exercício a ser realizado fora do horário de aula, conforme previsto a partir do terceiro encontro, com envios posteriores pela rede.

Figura 38 - Hora do lanche no encerramento do teste

Fonte: Arquivo Ricardo Pimentel, novembro 2017.

Como uma das materialidades principais que se quer obter como produto do curso é a formação de um banco de imagens de qualidade, que garanta a memória do movimento Hip Hop carioca, esta fase do pós-aula será particularmente importante.

Primeiramente pela questão da motivação, que deverá ser produzida pela clareza na comunicação dos objetivos, bem como na elaboração de atividades realmente atraentes do ponto de vista criativo, que façam os participantes perceberem ser o produto do curso algo que lhes trará benefícios comuns, vencendo assim a tendência que em geral a maioria dos alunos demonstra de resistir a realizar tarefas fora dos horários de aula. Depois, pela necessidade de se criar para esta interatividade pós-aula, a área para trocas de informações e arquivos criada no Instagram para uso durante e após as aulas ganhará grande importância. Terminada a fase de entregas e correções de projetos finais surgirá a necessidade de se criar uma forma específica de indexação e armazenamento dos arquivos produzidos, para que as imagens postadas passem progressivamente a formar coleções, que por sua vez configurem a estrutura

de um banco de imagens colaborativo, que fique à disposição de todos. Porém, este sistema não será objeto desta pesquisa, ficando para momento futuro.