3 Metodologia da Pesquisa
5.2 Roteiro de perguntas para as entrevistas semi-estruturadas:
5.2.1 Trechos e análises da primeira entrevista
O primeiro entrevistado foi um professor de dança e dançarino de danças de rua, que dirige o projeto Zona Oeste Dance e as oficinas de dança da Roda do Terreirão. A entrevista ocorreu no estúdio da rádio da Escola Superior de Propaganda
e Marketing, o que permitiu melhor controle da qualidade do áudio, por conta do ambiente e dos equipamentos disponíveis. Apesar do roteiro de perguntas bem definido, a tendência deste entrevistado na maior parte das suas respostas, foi a de falar sobre detalhes da rotina como professor em cursos de dança, quando o foco desejado era de que ele se colocasse na posição de aluno. Apesar dessa entrevista ter funcionado quase que como um piloto, alguns trechos trouxeram boas informações sobre detalhes a serem observados na elaboração do nosso programa. No primeiro trecho interessante o entrevistado atesta a necessidade de um instrumento de memória que preserve e resgate os movimentos da dança (apêndice A):
Então, se eu fico só ali, na mesma coisa, quando eu for passar lá eu quero resgatar uma coreografia de 2009, um exemplo, ah eu quero ensinar esta coreografia para estes alunos, porque eu acho que essa coreografia seria legal pra eles, como eles estão iniciantes, primeira vez que eles fazem aula comigo, então eu sempre ensino esta de primeira. E, se eu não treino essa, não tenho como ensinar, porque eu não lembro (informação verbal)10.
Perguntado então se costuma gravar seus movimentos durante aulas ou apresentações, o entrevistado respondeu afirmativamente, pois desta forma pode dispor de um instrumento para correções e para transmissões das instruções aos alunos, no momento da aula ou através dos canais de comunicação via internet, como o site do próprio entrevistado, bem como páginas de sites de redes sociais. Mais adiante, perguntado sobre seu processo criativo ele confirmou a suposição de ser um autodidata, tanto na dança, quanto no seu ensino. Suas aulas são tradicionais, ou seja, é ele quem transmite presencialmente seus conteúdos aos alunos. Mas prefere fazê-lo em locais fechados, pois em locações abertas a concorrência de fatores que podem tirar a atenção dos alunos é grande. Ele diz:
Apesar do Hip Hop ter vindo da rua, nasceu na rua, mas pra você dar uma aula legal, pra prender a atenção dos alunos mesmo, num é legal num lugar aberto. Vai chegar uma hora que ele vai ficar contigo ali no máximo uns cinco minutos e daqui a pouco ele já vai começar a achar chato e vai sair. Agora, se você vai já com a sua sequência de animação, beleza (informação verbal)11.
10Entrevista concedida por Silva, K. Entrevista 1. (jan.2017). Entrevistador: Ricardo Pimentel.
Rio de Janeiro, 2017. 3 arquivos .mp3 (39 min.50”). A entrevista na íntegra encontra-se transcrita no Apêndice A desta dissertação.
11 Id., 2017, p. 45
Esta informação acima é particularmente importante para a pretensão futura de itinerância do curso materializado a partir da pesquisa. Vencer os desafios de estruturação em ambientes de rua será certamente uma das principais questões estruturais que terão de ser pensadas e solucionadas para adaptações possíveis a cada localidade visitada. O que o entrevistado diz é que se faz necessária uma programação que ele chamou de “animação” para prender a atenção da turma, não importando o lugar onde a aula aconteça. Esta consistiria em jogos entre sexos, por exemplo, com pequenas premiações tais como pipas e bonecas destinadas aos vencedores. Esta atividade pode se constituir numa boa possibilidade de estratégia de ensino a ser considerada para as atividades externas do nosso curso rápido.
Mais a frente, quanto perguntado sobre o uso do celular para registros visuais, ele respondeu:
Uso, uso bastante. Tem aquele momento, você na rua com seu celular, celular é essencial, o Facebook12 , o Youtube, Instagram também, que a gente usa pra divulgar foto também e os nossos vídeos, né... E, antes de dançar, já registrei no celular, filmando, já justamente pra poder mostrar pra galera lá. Aqui ó, no Centro da cidade tem bastante isso. Então você registra o que tá acontecendo em tempo real e já posta pra galera ver. Isso é uma coisa, pô, muito legal, mais do que você pegar e ficar chegando em casa e mexer no computador, você chega cansado às vezes num dá nem pra olhar...
Pra registrar, pra auxiliar e registrar o momento, né daquela coreografia que eu fiz, justamente pra não esquecer (informação verbal)13.
Além de atestar a necessidade de memória visual, o trecho acima vem de encontro a uma das nossas premissas, que é a de usar o celular como instrumento fundamental para registros. Curiosamente, quando perguntado se utilizava o celular para registros do seu cotidiano profissional, ele respondeu que não, pois ele dispõe de uma pessoa que faz os registros para ele.
Mas assim, pra mim, esse lance de você pegar a câmera e você tirar a foto ali legal, pra mim não é muito, não tem muita utilidade. Mas o
12 Facebook, Youtube e Instagram são marcas de sites de redes sociais.
13 Id., 2017, p.45
que ela ensinou no celular já tem, porque eu já tô mais perto, porque eu tenho também (informação verbal)14.
O que ele dizia acima era basicamente que fotografia para ele não tem muita utilidade como instrumento de ensino, mas que os vídeos sim, são ferramentas muito úteis, pois auxiliam a corrigir e aperfeiçoar coreografias. Mas que se interessaria muito se lhe fosse oferecido um curso de fotografia dirigido a celulares, pois este equipamento ele possui, ao contrário de câmeras mais sofisticadas. Argumentou que para participar de forma mais eficaz no curso teria de adquirir um celular de melhor qualidade e usou este argumento inclusive como motivo para não usar tanto seu aparelho para captações fotográficas. Perguntado como ele armazena todo o material que vai colhendo, ele respondeu:
Costumo colocar tudo no meu PC, justamente, é o que eu uso pra dar aula mesmo. Então, tem uma pasta lá e nessa pasta eu coloquei lá:
fotos do grupo, mas não tem só fotos, tem vídeos também de apresentações que a gente fez, vídeo aulas também que eu sempre gravo, pra depois eu mesmo assistir pra ver o que tá...porque lá onde eu dou aula não tem espelho (informação verbal)15.
Os futuros alunos do curso rápido de iniciação fotográfica em smartphones serão provavelmente oriundos de camadas menos favorecidas e as tecnologias digitais exigem investimentos não só nos equipamentos principais, bem como nos periféricos. Além do problema sempre presente e discutido do acesso à internet.
Perguntado sobre o problema que seus alunos poderiam ter com o acesso à rede, ele não foi taxativo na resposta, mas disse que, sem a menor dúvida, quanto mais conectados os alunos estivessem maior seria possibilidade de contatos cotidianos com eles.