5 APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS
5.6 Ajustamento no trabalho
5.6.5 Aumento do conteúdo do cargo
Neste código reúnem-se as citações referentes às mudanças de conteúdo de cargo dos expatriados japoneses. Todos os expatriados entrevistados na empresa Z e da amostra “V” assumem no Brasil cargos executivos e as citações demonstram uma tendência geral de ampliação das atribuições do cargo no Brasil. Aqui os expatriados assumem mais responsabilidades de gestão. Algo marcante nas entrevistas é que todos eles tinham cargos de natureza mais operacional na matriz,
mas aqui assumiram posições gerenciais (ex: P7). ZP10 entre outros encara esta experiência de modo positivo, como uma forma de desenvolver suas competências gerenciais. A matriz passa a exigir cada vez mais do expatriado que muitas vezes se impressiona com o volume de trabalho (ex:P13):
ZP10: Eh...no Brasil...eu vim com uma posição, como assistente da diretoria e possuo poder mas não necessariamente para impor atribuições apenas, penso que esta experiência de expatriação está sendo um estudo para mim pois agora tenho que refletir sobre como gerenciar, formular políticas, organizar...houve um aumento do conteúdo do meu trabalho aqui comparado ao trabalho que desempenhava antes e agora tenho que pensar e decidir sobre como realizar esse trabalho.
P7: Se eu estivesse no Japão, faria um único trabalho dentro de uma grande organização, mas aqui há um aumento das minhas atribuições e o meu trabalho aumentou.
P13: Sim, antes eu desenvolvia funções técnicas ligadas às vendas de produtos químicos, mas agora e estou como presidente e sou responsável por toda a parte de vendas e todos os riscos associados a este negócio...A matriz tem três segmentos de negócios e estou a frente de um deles. Antes eu trabalhava na negociação entre a matriz e todos esses segmentos e havia também muito trabalho... Hoje há reclamações por parte dos expatriados que dizem que há muita coisa para fazer quando estão em um desses segmentos e aí a matriz diz: você, assuma as responsabilidades!
O aumento da responsabilidade e o contato freqüente com a matriz parece ser algo comum entre os expatriados (P17 e P9):
P20:...agora no exterior, realmente o meu conteúdo de responsabilidade é enorme.
P17: Bom, comparando com o Japão o meu trabalho aqui é maior porque eu vendo seguros para as empresas Japonesas daqui e neste tipo de negócio é preciso muita colaboração com a matriz. P9: No Japão eu estava eu desempenhava um papel mais específico na organização e aqui eu vim como diretor, cuido das finanças de toda a empresa e o conteúdo do meu cargo aumentou muito, é muita responsabilidade...
Esta dimensão de ajustamento foi a mais citada pelos expatriados japoneses das duas amostras. Esta categoria contemplou as condições que dificultam ou facilitam o trabalho dos expatriados e os desafios inerentes ao trabalho a ser desenvolvido em contexto brasileiro.
Inicialmente, observa-se nos conteúdos das entrevistas, a grande preocupação dos expatriados em serem aceitos pelos locais. Todos se preocupam, sem exceção, em demonstrar esforço e dedicação ao trabalho, em permanecer mais tempo na empresa do que os locais para que assim possam se legitimar na empresa. Um dos relatos (ZP13) ressalta que os expatriados são rigorosamente checados pelos locais quanto às folgas, suas atividades, postura e que o fato de eles estarem aqui para contribuir para a gestão da empresa com um alto salário implica em mais responsabilidades perante os locais.
De acordo com um dos relatos da empresa Z (ZP3), que mostrou maior preocupação com os locais, a empresa não quer ser vista como uma empresa etnocêntrica. Há por isso uma preocupação, por exemplo, em não colocar apenas nikkeys em cargos de gerência, mas sim de valorizar a atuação dos locais.
No Brasil, todos os expatriados da empresas abordadas nesta pesquisa estão como executivos, em uma alta posição hierárquica, o que aumenta em muito suas responsabilidades. O aumento do conteúdo do cargo configura uma primeira mudança no contexto brasileiro. Os expatriados são responsáveis aqui por mais atribuições, tais como formação e treinamento de equipes, além da comunicação com a matriz. Todos eles se reconhecem como “paipu” (YAGI, 2009). O paipu é a pronúncia japonesa para “pipe” (cano) que metaforicamente descreve a atribuição de relatar o que acontece e de passar constantemente dados sobre a subsidiária para a matriz no Japão.
No trabalho é imprescindível um ajuste no estilo de comunicação por parte dos expatriados japoneses na hora de liderar ou mesmo de chamar a atenção de algum funcionário brasileiro. As diferenças culturais mostram que se os expatriados japoneses forem muito assertivos como no Japão, seu modo de chamar a atenção poderá desmotivar ou parecer autocrático para os locais. Devido a essa preocupação, os expatriados japoneses se preocupam com o modo de apontar erros e de exigir alguma correção. O modo mais utilizado é: Que tal fazer desse modo? Tenho esses dados que mostram que esse jeito é o melhor... O fato de serem mais assertivos poderia levar os locais a se sentirem receosos perante a hierarquia, o que se refletiria em alta distância de poder, que será discutido adiante.
Uma minoria relatou ter facilidade na comunicação e no trabalho com os locais. Em sua grande maioria, os expatriados apontam dificuldades relacionadas a prazos, falta de organização por parte dos locais que acabam gerando estresse e
até mesmo a vontade de desistir e de voltar para casa. Muitos se queixam das diferenças nas formas de trabalhar, como a falta de planejamento, o excesso de desculpas e motivos para justificar um erro sem apontar medidas concretas sobre como consertá-lo de agora em diante e a falta de lógica em alguns procedimentos que forçam o trabalho a ser refeito da etapa zero.
Os expatriados disseram que aceitam as diferenças na forma de trabalhar e explicam aos locais sobre a necessidade de rigor no horário, a necessidade de lógica nos procedimentos do trabalho, mas permanece a preocupação em não desanimar ou desmotivar os locais. Neste contexto, os nikkeys assumem um relevante papel para os expatriados.
Quanto à diferença do ambiente institucional que circunda a empresa os expatriados enfatizam a complexidade do sistema tributário brasileiro, as diferenças de leis em geral e a alta taxa de rotatividade da empresa.
Enquanto o conteúdo do cargo do japonês costuma ser ambíguo, o do funcionário brasileiro costuma ser bem definido e ele não aceita cooperar com funções que vão além de suas atribuições oficiais. Embora isso já seja algo conhecido entre os expatriados japoneses, ainda há um desconforto em relação a essa questão.