5 APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS
5.5 Ajustamento interacional
5.5.1 Relacionamento com locais
Para as duas amostras, observou-se que, conforme mostra a figura, a maior parte dos entrevistados (10 citações da empresa Z e 16 dos demais) declarou ter pouco relacionamento com os locais. O relacionamento se limita ao ambiente do trabalho e grande parte dos expatriados se relaciona apenas com os expatriados japoneses: Ajustamento interacional facilidade na comunicação com locais {Z=2;V=2} dificuldades na comunicação com locais {Z=17;V=12} muito relacionamento com locais {Z=5;V=3} pouco relacionamento com locais {Z=10;V=16}
ZP6:...apenas na empresa...na vida particular não me relaciono com os Brasileiros...na empresa quando me comunico com os Brasileiros procuro sempre dar atenção para que o trabalho seja feita de maneira agradável.
P3: Cerca de 80 a 90% das minhas relações humanas se restringem ao interior da empresa, mas o contato é escasso. Penso que seria interessante fazer amizades e tenho algumas oportunidades quando vou fazer alguma refeição ou compra, pois são abertos.
P21: Tenho. São amizades ligadas à empresa. Houve outro dia desses uma festa do “setor de garantia” e fui convidado. As pessoas cantaram, dançaram, há também churrascos do pessoal da empresa ou alguma comemoração em restaurantes e aí tenho a chance de entrar em contato com os Brasileiros. Penso que para que se acostumar ao Brasil isso é importante.
As amizades feitas pelos expatriados abrangem basicamente os parceiros de negócios, a comunidade dos expatriados e os nikkeys conforme afirmam P5, P8 e P18:
P5: Da outra vez que vim eu também fiz amizades com nikkeis e parceiros de negócios, pois há muita oportunidade através do trabalho. Essas amizades facilitam as negociações e se não houver o amigo então não há um relacionamento confiável. O fato de fazer amizades locais facilitam muito os negócios.
P8: No golfe eu tenho amizades com nikkeys e no trabalho tenho feito amizades.
P18: É difícil fazer amizades com Brasileiros porque na minha vida particular eu tenho poucas oportunidades de entrar em contato eles e tenho apenas as oportunidades no ambiente de trabalho.
Já ZP4 coloca o viés que existe no relacionamento no trabalho gerado pela hierarquia, pois os expatriados vêem e se relacionam com os locais a partir do cargo elevado que possuem e por isso deixam de conhecer o que pensam realmente os brasileiros e como se sentem:
ZP4: Acho fundamental e desde maio eu comecei a praticar capoeira e aí eu percebi que os brasileiros não gostam quando estamos aqui somente como Japoneses...o que quero dizer é que aqui na empresa a posição do japonês é superior na hierarquia, temos um alto salário, dirigimos um Corolla e aí o Brasileiro pensa: só porque ele é japonês...Aqui na empresa todos os Brasileiros são sorridentes para a gente e não falam mal da gente, mas quando faço amizades fora da empresa, percebo que não é bem assim. Fora da empresa,
eu encontrei um jeito de realmente conhecer o verdadeiro Brasil me colocando em uma situação igual o inferior como aprendiz da capoeira, pois aí eu estou na posição de aprender e os Brasileiros podem até reclamar comigo e me questionar sobre por quê eu não falo o português por exemplo...Se eu ver o Brasileiro apenas como gerente ou a partir de um ponto de vista de alguém que ocupa um cargo superior, aí eu penso que não vou conhecer o verdadeiro Brasileiro.
Uma minoria de expatriados da empresa Z e da amostra “V” afirma que tem muito contato com locais. ZP12 e ZP7 afirmam que as chances de contato com os locais surgem de algum tipo de esporte. P11 fez muitas amizades que mantém até hoje através de cursos de pós-graduação que efetuou no Brasil. Já P10 tem aproveitado sua estadia no Brasil para interagir com Brasileiros através de atividades de entretenimento fora do horário de trabalho, como aulas de samba:
ZP12: Amigos fora do trabalho... meio difícil, mas como jogo futebol tenho feito amigos, isso desde em que estudava aqui.
ZP7: na vida particular eu pratico esportes (rugbi) e através do esporte tenho amigos.
P11: ...o Brasil é um país aberto que aceita tudo e por isso decidi estudar aqui também, fiz o MPA na GV e estudei bastante com os brasileiros e fiz muitas amizades. Essa experiência foi muito boa. P10: Converso com os pais de outras crianças que estudam com minha criança; estou praticando aulas de “samba” no Brasil e converso com meu professor por exemplo...
Os expatriados ZP12 e ZP13 reconhecem que os brasileiros são receptivos e que as relações humanas são fáceis aqui no Brasil:
ZP12:...Bom... Edson, você sabe bem...os brasileiros são generosos e receptivos e nunca tive problemas, pelo contrário sinto que as relações humanas entre os próprios Japoneses é que são mais difíceis...hum..aqui é fácil fazer amizades mesmo com pessoas que não conhecemos.
ZP13: Hum...os Brasileiros são tolerantes, não são nervosos e não ficam criticando...é confortável morar aqui...
Dentre os motivos que resultam em pouco relacionamento com os locais podem ser enunciados a escassa disponibilidade de tempo dos expatriados e o
desconhecimento da língua portuguesa (P15, P6, P9 e P2):
P15: Não tenho feito amigos Brasileiros. Isso levaria muito tempo... P6: Fiz muitas amizades aqui...só que sinto que na hora de se relacionar com os Brasileiros precisamos nos relacionar com toda a família também... e aí vai tempo. Os Brasileiros precisam dedicar mais tempo aos japoneses pois não falam português e muitas vezes não há preparo para isso e aí sinto que gastamos muito tempo... P9: Eu quero fazer amizades com os Brasileiros, mas tenho dificuldades em compreender a língua, se o assunto fosse contabilidade então conheço terminologias e poderia conversar mais, mas é difícil, pois na conversação normal sempre aparecem palavras que não conheço e como se deve escolher bem as palavras para não deixar nenhuma impressão negativa na conversa então é difícil...Há também o lado de que como há muitos nikkeys isso me deixa meio acomodado, muito embora os nikkeys tenham a aparência de japoneses mas muitas vezes não pensem de maneira igual, pois há diferenças e isso é compreensível. Se eu fosse conversar com Brasileiros descendentes de italianos, espanhóis, alemães, então eu deveria levar em consideração os diferentes backgrounds que somados a língua dificultariam a conversa. Gostaria de conversar mais e fazer amizades, mas na conversação normal há coisas que não entendo.
P2: Bom eu não me relaciono com os Brasileiros fora do trabalho, pois fico geralmente em casa ocupado com meu filho que nasceu há três meses. Não tenho muito tempo, mas eu procuro me relacionar com outros Japoneses. Inclusive amanhã à noite eu vou me reunir com expatriados de várias empresas e penso que isso também é muito bom para o meu networking. Eu sou de Nagano e lá não tem muitas empresas, a maioria está em Tokyo como sabe.
Além disso, muitas vezes há uma orientação da matriz para manter certa distância em relação aos locais, pois a aproximação poderia comprometer a qualidade da gestão. A aproximação é permitida apenas para alavancar negociações e a comunicação com outros parceiros de negócios, conforme afirmam (ZP13 e P20):
ZP13: No caso da vida privada há algum intercâmbio mas não muito... às vezes sou convidado por fornecedores para ir a alguma churrascaria,casamento e quando tenho condições participo...imagine se eu rejeitar todos esses convites e ficar só com os japoneses.. acho que o trabalho... não fluirá bem...há esse lado...Do outro lado, não significa que devemos ficar no mesmo nível dos locais, curtir com eles, ir beber com os locais pois nós somos representantes do Japão e ganhamos mais e estamos numa posição
superior com responsabilidades, então devemos manter uma certa distância... essa distância é necessária... esse é um assunto meio delicado...
P20: Sinceramente só tenho as ligações com as pessoas do meu trabalho, especialmente porque nós fomos expatriados para cá com um cargo de gestão, e o contato com funcionários locais é evitado ao máximo para evitar vários problemas que possam surgir quando nos relacionamos com apenas uma parte deles...Em meus hobbies pessoais que são a pescaria e o golfe tenho oportunidades, assim também com a minha criança que ainda é pequena e está numa escola infantil local. Nesta escola eu tenho contato com outros pais brasileiros, com o professor brasileiro...