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CAPÍTULO II – GOVERNANÇA CORPORATIVA NA EDUCAÇÃO

CAPÍTULO 3 – TRABALHO DOCENTE: O IMPACTO DAS MUDANÇAS

3.2 A INTENSIFICAÇÃO DO TRABALHO DOCENTE NA FACULDADE

3.2.7 O aumento da quantidade de trabalho

Na sequência das mudanças pedagógicas, a terceira delas consubstanciou-se na aula estruturada, a qual continua em vigor da mesma forma que as disciplinas a distância.

As aulas estruturadas são o exemplo mais claro do aumento da quantidade de trabalho do professor. No documento da Kroton, a aula estruturada é concebida como uma ferramenta direcionada ao planejamento, ao controle e à gestão das atividades de aprendizagem de sala de aula. Essas aulas têm o objetivo de o “[...] aluno não perder tempo copiando matérias, [...] o professor tem mais tempo para trabalhar os conteúdos com maior profundidade” (KROTON, 2013, p. 125). Entretanto, conforme a Professora 10, a aula estruturada consiste em uma sobrecarga de trabalho. Ou seja,

Imagina a cada aula você colocar objetivo, justificativa, meta e o material que você vai usar e coloca no site todos os dias, sendo que, mesmo se você dá aula nos dois primeiros horários e nos dois segundos, mesmo que seja em uma mesma turma, são aulas estruturadas diferenciadas. Agora você imagina, uma aula estruturada é aquilo que tá ali sem considerar as dúvidas que os alunos possam ter, as relações possíveis de se fazer a partir de um assunto (PROFESSORA 10, grifos nossos).

Segundo os professores entrevistados, é necessário postar todos os dias a aula estruturada no site e, caso o professor tenha quatro aulas na mesma turma, mesmo assim, ele precisa postar uma aula estruturada referente aos dois primeiros horários e outra aula estruturada relacionada com as outras duas últimas aulas. De acordo com o relato dos professores, a aula estruturada parece ser apenas uma formalidade, visto que eles não percebem nenhuma mudança substancial nos alunos a partir dela. Somada a sobrecarga de trabalho há, segundo os professores, a dificuldade no uso do Ambiente Virtual de Aprendizagem (Portal iLang), local

onde as aulas são postadas, que constantemente está com defeito. A Professora 9 esclarece que:

As aulas estruturadas são aulas que você precisa postar antes, durante e depois da aula. Na verdade, você tem um conteúdo programático, um conteúdo deles, com um número de horas também, então a gente tem que preparar a aula, quer dizer, você tem que dar uma noção para o aluno do que ele vai ver na aula, o que ele pode tá adiantando como leitura, o que vai ser falado durante a aula e qual atividade que você cobra dele, posterior à aula. É isso que é aula estruturada. Quer dizer, na verdade, eu entendo que, no momento que entregam a ele o programa de disciplina e o plano de ensino onde tem previamente agendado o que seria falado, ele já tem um semestre na mão dele, mas, mesmo assim, a gente tem que preencher [...] tem momentos que a gente dá sorte e põe [posta via portal], mas [quando] o sistema começa a falhar, aí a gente salva em Word e manda pra ele [para o aluno], mas tem que montar a aula estruturada (PROFESSORA 9, grifos nossos).

Conforme revelado no depoimento da professora, a aula estruturada leva o professor a fazer o mesmo trabalho por três vezes, com um agravante, ou seja, de o portal não funcionar direito: “[...] às vezes a gente monta a aula estruturada e ele trava” (PROFESSORA 4). Desse modo, a aula estruturada consiste em um trabalho a mais para o professor, porém sem remuneração. O objetivo da aula estruturada, a nosso ver, é sobrecarregar o professor por meio da burocratização do trabalho extraclasse. A Professora 1 revela que a Kroton insiste em dar curso sobre a aula estruturada e “[...] é visível que os professores não suportam, ninguém gosta porque é mais trabalho. Tô elaborando trabalho pra fora da sala de aula” (PROFESSORA 1). O aluno, por sua vez, também dificilmente consegue acessar o portal em que constam as aulas estruturadas:

Outra coisa, o portal de navegação tem aluno que não consegue acessar. O portal é muito ruim, eles [a Kroton] falam pra você deixar material pro aluno acessar o portal, pra estimular o aluno a fazer as disciplinas EAD, pra estimular o contato do aluno com o ambiente virtual, que quanto mais contato ele tiver mais fácil vai ser pra passar as coisas on-line. Só que os próprios alunos não conseguem acessar o portal direito (PROFESSORA 1).

Com isso, o professor acaba perdendo o foco do trabalho do docente, sobretudo a sua capacidade de criar, visto que o tempo extraclasse é capturado por demandas externas ao seu ofício. A invasão de regras que não foram criadas por ele e que não incidem na qualidade do ensino fortalece o distanciamento do professor com o ato de ensinar. A aula estruturada, em nosso entendimento, assemelha-se ao cumprimento de metas de produtividade. Nela, o trabalho do professor é avaliado pela quantidade de aulas estruturadas produzidas e postadas

no site e não pela importância do conteúdo dessas aulas na formação de seus alunos. Nesse sentido, o Professor 5 chama a atenção para o aumento das demandas:

[..] tem que enviar um relatório pra não sei quem lá de BH, porque o cara tá perguntando tal coisa do curso, aí você mandava e aí, na outra semana, você tinha que mandar o mesmo relatório de forma diferente pra outro cara, então [...] o que eu mais ouvia lá era a questão do retrabalho. Você tinha que fazer a mesma coisa dez vezes e de forma diferente. A comunicação era muito difícil, se quisesse mudar alguma coisa da ementa e tentasse a comunicação não conseguia, tanto que, quando eu participei da construção da nova matriz do curso, nenhuma das considerações que eu fiz foi contemplada, nem mesmo discutidas. Eu enviei só pra dizer que participei, me pediram, fiz a minha parte, tudo corretamente, trabalhei, pesquisei e mandei, mas nada. O que mais me fez sair da instituição foi esse aspecto. Parece que você tá dando murro em cima de faca, então isso desmotiva (PROFESSOR 5, grifos nossos).

O Professor 5 também já havia trabalhado como coordenador de curso da Pitágoras e justificou que a sua saída da instituição se deu em função do que ele intitula como “retrabalho”, fazer a mesma coisa várias vezes e de maneira diferente.

Apoiada nos depoimentos dos professores, entendemos que a aula estruturada é uma atividade que seria desnecessária, visto que o plano de ensino de cada disciplina, uma vez entregue ao aluno, já cumpriria o objetivo dela. A aula estruturada parece atender apenas à formalidade de manter o sistema on-line atualizado, uma vez que, nos documentos da Kroton e nos relatos dos professores, há uma preocupação extrema com a postagem dessas aulas e com o uso do sistema on-line. Portanto, em nossa compreensão, a aula estruturada se converte em um trabalho a mais, sem remuneração e que não incide na melhoria da qualidade dos cursos.