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Autobiografia: quadrinhos e as narrativas do eu

Reconstruir histórias de vida a partir das memórias é o que o jornalista e quadrinista maltês Joe Sacco realiza nas suas histórias em quadrinhos. Autor de obras como Palestina, Notas sobre Gaza e Área de segurança: Gorazde, Sacco transita na fronteira entre os quadrinhos biográficos e o jornalismo literário, narrando histórias de vida de pessoas anônimas em pleno campo de guerra. Em 1993, descontente com as informações que os meios de comunicação norte-americanos divulgavam a respeito da guerra entre Israel e Palestina, Joe Sacco resolveu ir até a zona do conflito para ter uma opinião própria. Entre os anos de 1993 e 1995, Sacco investigou e entrevistou dezenas de pessoas que conviviam diariamente com a guerra. A partir desses relatos, criou a obra Palestina, que inaugurou o gênero do jornalismo em quadrinhos.

A história de Palestina é baseada nas investigações de Sacco, a partir de entrevistas e depoimentos dos refugiados palestinos, que se posiciona como um narrador/jornalista, vivenciando de perto os fatos que investiga e sempre demonstrando uma preocupação jornalística com a apuração de dados e informações. Com farta contextualização dos fatos, a obra em quadrinhos assume um estilo documental, pois pesquisa e fornece datas, números, documentos e todos os tipos de informações históricas. Sempre evitando as fontes oficiais para dar atenção às fontes anônimas, Sacco narra a história do seu ponto de vista, muitas vezes dúbio, adquirindo características de herói em busca de verdades nem sempre tão evidentes. Dessa forma, o narrador/jornalista tem liberdade para detalhar suas ações, revelando seus pensamentos e convicções e mostrando o seu próprio processo criativo. Ao narrar seu esforço como jornalista e suas próprias dificuldades em obter os depoimentos, acaba por destacar a sua própria história dentro desse conflito. Sacco, na verdade, nos oferece o relato autobiográfico da sua participação na guerra. Conforme Souza Júnior,

[...] a autobiografia presente em Palestina constrói, portanto, um pacto de leitura que determina uma equivalência entre os fatos narrados e a exterioridade dos acontecimentos. Além de uma função estruturante da narrativa, a autobiografia acaba por desempenhar funções que reforçam e ressignificam a prática da reportagem. Assim, a presença de Sacco na reportagem em quadrinhos contorna um possível efeito de opacidade para servir como fio condutor na experiência jornalística. O que é experiência em outros tipos de autobiografia transforma-se em informação em Palestina. (2015, p.180)

O interesse pelas narrativas autobiográficas – ou “narrativas do eu” – é antigo, talvez alimentado pela tendência individualista, onde se busca preservar a própria memória, ou pelo simples interesse pelos detalhes de uma vida pessoal relatados em tons confessionais.

O fato é que vemos crescer rapidamente a produção e o consequente reconhecimento dos textos ficcionais e documentais autorreflexivos, escritos em primeira pessoa. Inicialmente, destes textos destacaram-se as “Confissões” de Santo Agostinho59, que representavam uma reflexão teológica que centrava-se nos desígnios da vontade de Deus sobre a razão humana.

Depois, com as “Confissões” de Rousseau60, era introduzida pela primeira vez a predominância do “eu” na construção narrativa biográfica. Para Arfuch,

Efetivamente, é no século XVIII – e segundo certo consenso, a partir das Confissões de Rousseau – que começa a se delinear nitidamente a especificidade dos gêneros literários autobiográficos, na tensão entre a indagação do mundo privado, à luz da incipiente consciência histórica moderna, vivida como inquietude da temporalidade, e sua relação com o novo espaço social. Assim, confissões, autobiografias, memórias, diários íntimos, correspondências, traçariam, para além de seu valor literário intrínseco, um espaço de autorreflexão decisivo para a consolidação do individualismo como um dos traços típicos do Ocidente. (2010, p.36).

O afastamento das obras autobiográficas dos modelos teológicos e filosóficos apontam uma nova tendência, onde o que passa a importar é a experiência vivida pelo autor, reconhecida pela autenticidade de ter vivenciado os fatos e situações que relata. Nesse contexto, a ideia de privacidade ganha contornos diferenciados e os leitores passam a desejar o conhecimento do que era secreto, do que era particular. Tornar públicas as experiências pessoais que antes eram privadas torna-se uma estratégia narrativa de sucesso.

Para Lejeune (2008), a autobiografia é uma “narrativa retrospectiva em prosa que

59 “Confissões” é um livro escrito por Santo Agostinho na Idade Média (entre os anos 395 e 397) e narra, em detalhes, a história de sua vida antes de se tornar cristão, mostrando seus dramas pessoais de pecador, sua redenção pela fé religiosa e sua entrega à palavra e aos desígnios de Deus.

60 “Confissões” é um livro escrito pelo escritor e filósofo Jean-Jacques Rousseau em 1770. Precursor do Romantismo e autor de importantes obras da filosofia ocidental, Rousseau dá a sua visão a respeito dos acontecimentos que marcaram sua vida atribulada, revelando a sua trajetória pessoal e filosófica.

uma pessoa real faz de sua própria existência, quando focaliza sua história individual, em particular a história de sua personalidade (p.14). Essa “narrativa do eu”, segundo Lejeune, se encarrega de manifestações como memórias, confissões, autorretratos, romances, textos em versos e diários íntimos. Lejeune também afirma que “o que define a autobiografia para quem a lê é, antes de tudo, um contrato selado pelo nome próprio” (2008, p.33). Ou seja, para que a autobiografia seja considerada como tal, é preciso que haja um pacto autobiográfico entre leitor e autor: uma relação de identidade comum entre o autor, o narrador e o personagem, estabelecidas por meio do nome.

Já Arfuch (2010) afirma que “não há identidade possível entre autor e personagem, nem mesmo na autobiografia, porque não existe coincidência entre a experiência vivencial e a totalidade artística” (p.55). Para a autora, que se apoia no referencial teórico proposto por Mikhail Bakhtin,

[...] essa postura assinala, em primeiro lugar, o estranhamento do enunciador a respeito de sua “própria” história; em segundo lugar, coloca o problema da temporalidade como um desacordo entre enunciação e história, que trabalha inclusive nos procedimentos de autorrepresentação. Não se tratará então de adequação, da “reprodução” de um passado, da captação fiel de acontecimentos e vivencias, nem das transformações na “vida” sofridas pelo personagem em questão, mesmo quando ambos - autor e personagem – compartilharem o mesmo contexto.

Tratar-se-á, simplesmente, de literatura, essa volta de si, esse estranhamento do autobiógrafo, não difere em grande medida da posição de narrador diante de qualquer matéria artística e, sobretudo, não difere radicalmente dessa outra figura, complementar, a do biógrafo – um outro ou “um outro eu”, não há diferença substancial -, que para contar a vida de seu herói, realiza um processo de identificação e, consequentemente, de valoração” (ARFUCH, 2010, p.55).

Para Arfuch (2010), biografias, autobiografias, confissões, memórias, diários íntimos, correspondências, têm papel importante na formação da nossa subjetividade. Nesse espaço, também podemos incluir novos conceitos, oriundos das novas tecnologias de comunicação, como entrevistas, conversas, perfis, perfis em redes sociais, retratos, testemunhos, relatos de autoajuda, blogs, variantes de show – talk show, reality show -, que também possuem como característica a reflexão sobre a vida. “No horizonte midiático, a lógica informativa do ‘isso aconteceu’, [...] fez da vida – e consequentemente da ‘própria’

experiência – um núcleo especial de tematização” (ARFUCH, 2010, p.15). Essa

“tematização” vai resultar na formação do que a autora classifica como espaço biográfico, que possibilita agregar os discursos constitutivos de inúmeras formas biográficas, permitindo a análise de suas relações em diferentes usos e meios e contemplando também seus processos contemporâneos de hibridização. Nesse espaço, podemos incluir também as narrativas

biográficas em quadrinhos que entenderemos, doravante, como toda arte sequencial, dispostas em quadros sucessivos, com textos e imagens integradas de maneira harmoniosa numa relação de cooperação, que conta a história de vida de uma pessoa real. Para Souza Júnior,

[...] as similaridades entre o desenvolvimento da autobiografia em quadrinhos e da autobiografia tradicional são extensas. Primeiramente, assim como o florescimento da autobiografia no século XIX possui uma relação direta com o desenvolvimento de uma nova concepção do “eu”, a autobiografia nos quadrinhos surge como resposta a uma concepção de vida interior derivada das profundas mudanças culturais [...] O que o modelo de autobiografia em quadrinhos introduz nesse contexto é uma perspectiva única, centrada numa experiência de interioridade que responde a transformações sociais [...]. (2015, p.82)

Segundo García (2006), as histórias em quadrinhos autobiográficas apresentam uma dificuldade a mais com relação à prosa autobiográfica, já que “estabelecem uma representação visual do narrador na terceira pessoa, que se apresenta como ‘objetiva’ quando na verdade já é uma invenção artística” (p.218). Ou seja, ao incorporar a imagem à narrativa biográfica, os quadrinhos possibilitam que o autor, no presente, crie uma imagem que representa a si mesmo, no passado, que seria uma terceira pessoa: o “ele”. No entanto, essa relação com a imagem também é uma forma de o autor obter mais legitimidade, já que é o próprio autor, representado pelo seu autorretrato, que estabelece e seleciona as situações e momentos que vai viver na sua própria história de vida revelada ao leitor. Para Souza Júnior,

Na autobiografia em quadrinhos, por outro lado, as imagens existem como dados concretos e materiais. Não é preciso imaginar: as imagens dão conta de reproduzir, em maior ou menor grau, as memórias do biografado [...] O grafismo e a imagem encontrada nessas obras correspondem a um certo tipo de construção mais ampla da memória. Nesse sentido, o próprio estilo particular de cada artista é uma forma de escrita de si, ou “pictografia de si”, para sermos mais precisos (2015, p.183).

Desde os seus primórdios, as histórias em quadrinhos já inseriam fatos, elementos e situações da realidade ou tratavam de retratar na história personagens que eram baseadas ou inspiradas em pessoas marcantes da época. Diferente da literatura, onde o autor se coloca na história a partir da descrição de suas características e de sua própria narração em primeira pessoa, nos quadrinhos o autor autorrepresenta-se através de um autorretrato, numa forma pictórica, onde suas características físicas são ilustradas. Conforme Souza Júnior,

[...] os quadrinhos são uma mídia que, por sua própria natureza, sempre comportou manifestações de autorrepresentação. Diversos autores utilizam a metalinguagem como possibilidade expressiva, de forma que não é incomum encontrar

representações pictográficas do artista interagindo com suas criações ou alusões à existência do autor. [...] Embora também se concentre na presença do autor na narrativa, a experiência da autobiografia em quadrinhos diverge completamente desses exercícios de metalinguagem”. (2015, p.40)

No caso específico dos quadrinhos, a relação de identidade entre o autor, o narrador e o personagem, proposto por Lejeune (2006), pode ser mais facilmente determinada, considerando o acréscimo da informação gráfica. Em outras palavras, como esses autorretratos já funcionam como um elemento de representação da identidade do artista, muitas vezes exteriorizando elementos de sua personalidade, o leitor visualmente determina a semelhança entre a personagem retratada e a aparência do autor, delimitando aí sua relação de identidade (SOUZA JÚNIOR, 2015, p. 41). Por isso, uma das estratégias mais frequentes dos quadrinhos é apresentar o autor – e muitas vezes as personagens mais frequentes – em imagens fotográficas, nas páginas iniciais ou finais da obra. Dessa forma, fica mais fácil comparar os elementos visuais e criar um padrão comparativo para estabelecer mais facilmente essa relação de identidade. No entanto, facilitar esse processo de identificação visual não significa a perda de densidade narrativa da obra. Ao contrário, acaba por estimular a relação de cooperação pois possibilita que o texto biográfico dos quadrinhos evite o excesso descritivo – já que a imagem fornece as informações básicas do ambiente e das personagens – e concentre-se em na qualidade das demais informações transmitidas.

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