CAPÍTULO 1. REVISÃO DE LITERATURA
4.6 Autocuidado antes e após as sessões psicoeducativas
Modificações presumidas no repertório comportamental dos participantes quanto ao fortalecimento ou ampliação de práticas preventivas e promotoras da saúde nos três momentos
de avaliação da pesquisa – linha de base, pós-intervenção e seguimento – foram organizadas e analisadas tomando por parâmetro seus comportamentos e crenças relativos aos três eixos centrais de análise já mencionados, os quais são apresentados nesta subseção na seguinte seqüência: busca e utilização dos serviços de saúde, hábitos saudáveis e habilidades psicossociais.
Para cada um destes eixos, são relatados os dados quantitativos levantados ao longo das entrevistas mediante as respostas fornecidas pelos participantes às questões do QUASHI que foram apresentadas na forma de escalas ou de escolha de alternativas prévias. Também são apresentadas categorias temáticas elaboradas a partir das verbalizações emitidas em resposta às questões abertas.
Os conteúdos dos relatos dos idosos foram categorizados tendo em vista a emissão ou não de condutas tidas como importantes para a prevenção ou identificação de doenças prevalentes neste grupo etário e em concordância com seus planos de tratamento. Além disso, foram consideradas as suas crenças, entendidas como proposições ou hipóteses quanto à prática de determinados comportamentos, incluindo a expectativa dos seus possíveis resultados.
Com embasamento no Modelo Transteórico de Mudança, o tipo de análise empregada foi relativa ao estágio motivacional dos participantes com respeito ao processo de implementação dos comportamentos desejados. Os participantes, dessa forma, foram classificados e reclassificados, conforme seus relatos, de acordo com a intenção evidenciada ou emissão de determinados comportamentos.
4.6.1 Busca e utilização dos serviços de saúde
Na categorização e análise das verbalizações dos idosos relativas à busca e utilização dos serviços de saúde, procurou-se identificar seus comportamentos e crenças relacionados com cuidados médicos necessários para a prevenção e controle de agravos à saúde, especificamente a realização de consultas e exames médicos e o seguimento das orientações e prescrições recebidas dos profissionais consultados. Tais assuntos foram abordados principalmente nas sessões cujos temas foram: a saúde do homem (sessão 2), o adoecer e o cuidar de si (sessão 3), a importância da prevenção (sessão 7) e a relação entre crenças, comportamento e saúde (sessão 8).
4.6.1.1 Realização de consultas médicas
A freqüência dos participantes a consultórios médicos nas avaliações que precederam as sessões psicoeducativas foi considerada tomando como parâmetro os doze meses anteriores às primeiras entrevistas. Nas avaliações posteriores, o espaço de tempo considerado foi relativo aos três meses que antecederam as entrevistas pós-intervenção e aos quatro meses que antecederam as entrevistas de seguimento. Para efeito comparativo, foi obtida a média de consultas em cada período, dividindo-se o número de consultas informado pelo número de meses correspondentes. Como mostra a Tabela 17, observou-se um aumento relativo das consultas nos sete meses
seguintes a intervenção, com a ressalva de que a última avaliação foi respondida por apenas onze idosos, já que Amadeu e Fausto não puderam ser contatados na ocasião. Artur, Eusébio e Sérgio não realizaram consultas no seguimento.
Tabela 17. Média de consultas médicas por mês antes e após a intervenção
Etapa da Pesquisa Tempo de
referência Total de consultas
Média de consultas por mês
Linha de base 12 meses 52 4,33
Pós-Intervenção 3 meses 18 6,00
Seguimento 4 meses 19 4,75
A Figura 5 apresenta a comparação da média mensal de consultas por participante, evidenciando aumento no número de visitas médicas para dez dos participantes.
Figura 5. Média de consultas por mês de cada participante antes e após a intervenção
No intervalo de tempo total incluído nas avaliações, relativo a dezenove meses, computou-se uma média de 6,8 consultas por participante, sendo que em apenas 13,5% das entrevistas foi afirmada nenhuma realização de visitas a consultórios médicos no período correspondente. Os idosos com maior número de consultas médicas realizadas foram Edgar e Oscar, com um número estimado de dezessete consultas cada um, em dezenove meses. Estes participantes realizavam consultas periódicas com diferentes especialistas para acompanhamento de seus quadros clínicos. Por outro lado, Berilo foi o participante que se submeteu a um número menor de consultas médicas, tendo realizado apenas duas delas, sendo a primeira correspondente à necessidade de obter atestado médico com cardiologista para
viabilizar a realização de atividades físicas no CCI e outra, posterior às intervenções, relativa a uma consulta oftalmológica para troca de óculos. Em suas palavras: “O único exame que eu
tenho feito é o de cardiologia para pegar o atestado. Todo ano nessa época eu faço. Peguei o atestado há poucos dias. De cardiologia, não porque tá doente” (Berilo, 75 anos, E1).
Ao todo, os idosos recorreram, no período, a clínicos gerais e a médicos de oito especialidades para avaliações preventivas, investigações diagnósticas ou acompanhamento de doenças. Os especialistas mais procurados foram cardiologistas e urologistas, consultados, respectivamente, por 69,2% e 61,5% dos participantes. Em freqüência menor, houve também relatos de visitas a endocrinologistas, oftalmologistas, ortopedistas, oncologistas, neurologistas e pneumologistas. Sete idosos informaram consultas com clínicos gerais, tratando-se, em parte dos casos, de médicos que atuavam em postos de saúde no acompanhamento a pacientes diabéticos. Na Tabela 18, é apresentada a frequência de participantes que buscaram diferentes especialidades nos meses que antecederam e que se seguiram às intervenções.
Tabela 18. Freqüência e porcentagem de participantes que realizaram consultas a diferentes especialidades médicas antes e após as intervenções
Especialidades Médicas Linha de Base
Pós-Intervenção e Seguimento f % f % Cardiologia 9 69,2 8 61,5 Urologia 8 61,5 5 38,5 Clínico Geral 4 30,8 5 38,5 Endocrinologia 3 23,1 2 15,4 Oftalmologia 1 7,7 3 23,1 Ortopedia 1 7,7 1 7,7 Neurologia 1 7,7 1 7,7 Oncologia 1 7,7 1 7,7 Pneumologia 0 7,7 1 7,7
Além dos atendimentos médicos clínicos ou ambulatoriais, três participantes relataram a ocorrência de atendimentos emergenciais devido a acidente automobilístico, elevação da pressão arterial e lesão provocada por quedas. Apenas Edgar, na entrevista de seguimento, informou internação hospitalar, o que ocorreu por um período de dez dias em decorrência de sua submissão a uma angioplastia. Embora em menor freqüência, houve referências ainda a consultas com outros profissionais da área de saúde, abrangendo odontólogos, nutricionistas e fisioterapeutas. A Tabela 19 apresenta os tipos de atendimentos na área da saúde que os participantes informaram terem recebido nos períodos avaliados.
Um total de sete participantes declarou possuir plano privado de assistência à saúde e utilizar exclusivamente (n=4) ou prioritariamente (n=3) os serviços médicos privados, enquanto os demais idosos, com exceção de Berilo, relataram recorrer em maior freqüência ao serviço
público de saúde. A procura por atendimentos em centros ou postos de saúde foi referida por sete idosos, incluindo consultas e orientações em grupo para portadores de diabetes ou hipertensão. Por exemplo: “Noutro dia eu participei de uma reunião com os hipertensos lá no
posto de saúde, eles sempre fazem essa reunião lá, é uma vez por ano” (Gastão, 62 anos, E2);
“Eu tenho acompanhamento do diabético, hipertenso, no posto de saúde” (Fausto, 66 anos, E1).
Tabela 19. Tipos de atendimentos em saúde recebidos pelos participantes antes e após a intervenção (N=13)
Tipos de Atendimento Linha de Base
Pós-Intervenção e Seguimento
f % f %
Atendimento médico
Médico não emergencial 13 100 12 92,3
Médico emergencial 1 7,7 2 15,4
Cirúrgico 1 7,7 1 7,7
Com outros especialistas
Odontológico 7 53,8 2 15,4
Nutricional 2 15,4 2 15,4
Fisioterápico 2 15,4 1 7,7
Para efeitos de maior compreensão e de facilitação da análise dos resultados, os participantes foram agrupados conforme os padrões de comportamento e os estágios de mudança identificados em relação às metas traçadas para cada um deles.
Meta 1: Promover a realização de consultas médicas.