CAPÍTULO II – AUTOEMPREGO E EMPREENDEDORISMO
2.2 Autoemprego, informalidade e subdesenvolvimento
2.2.1 Autoemprego formal e informal
Os mercados e os contratos de trabalho informais têm sido percebidos por muitos autores como problemas económicos e sociais, pois representam ruturas de um contrato formal. Noronha (2003) afirma que subjacente a isso, existem duas premissas: (1) a boa
sociedade deve ter apenas um tipo de contrato (o formal) e (2) para isso deve contar com algum órgão central (o Estado, por meio do poder legislativo) que defina padrões mínimos de legalidade para os contratos de trabalho. O conceito formal/informal não é claro. Neste aspeto, o mesmo autor refere: “Assim, a compreensão da informalidade ou dos contratos atípicos depende antes de tudo da compreensão do contrato formal predominante em cada país, região, setor ou categoria profissional” (2003, p.112). Três grandes matrizes servem de abordagem na discussão da informalidade: (1) os economistas, com a oposição formal/informal; (2) os juristas, com a oposição legal/ilegal; e (3) o senso comum com a oposição justo/injusto.
Há cerca de quase três décadas que se vem discutindo a informalidade, mas sem conclusão ou consenso. Interessa-nos tecer algumas considerações, esclarecer e apresentar as opiniões de alguns autores, dada a relação estreita entre o autoemprego e o setor informal. Pamplona (2001), citando a OIT (1972), esclarece que as caraterísticas da informalidade são: ausência de barreiras à entrada, capital de origem local, pequena escala de produção, tecnologia pessoal do empreendimento, atuação em mercados competitivos e não regulados, qualificação de mão-de-obra obtida fora do ensino formal. Enquanto no setor formal, ao contrário do informal, há barreiras à entrada, os recursos são de origem externa, a tecnologia é importada e intensiva em capital, as unidades de produção são de propriedade impessoal e operam em grande escala em mercados regulados e a mão-de- obra com maior escolaridade. Pode-se, no entanto, estabelecer uma pequena comparação entre o setor formal e o informal apresentado pela OIT e é fácil constatar uma clara oposição entre os dois setores.
O informal é visto como o espaço de sobrevivência dos pobres, novamente em oposição a um espaço de sobrevivência dos “ricos”, o setor formal (Pamplona, 2001). A atitude da OIT é bastante positiva em relação ao setor informal, considerando que este setor deveria ser promovido e encorajado, pois poderia ser mais eficiente.
A PREALC (Programa Regional do Emprego para América Latina e o Caribe), um programa da OIT, já extinto, analisava com muito pormenor a informalidade. Souza (1980), citado por Pamplona (2001) considera que uma grande parcela da força de trabalho não encontra o emprego nas empresas organizadas das atividades urbanas. A única alternativa para obter pelo menos uma renda de subsistência consiste em autocriar empresas de baixos níveis de produtividade. Organiza-se, desta maneira, um setor económico, onde a procura de mão-de-obra não é em função do processo de acumulação dentro do próprio setor, mas dependente do excedente de mão-de-obra do setor organizado. O setor informal
é o produto do processo de crescimento das atividades modernas, acrescenta o mesmo autor.
A força de trabalho excedentária, como não dispõe de qualificações adequadas, certamente procura setores de produção nos quais haja maior facilidade de entrada (ausência de barreiras). Neste particular refere Pamplona (2001):
“Isto vai resultar na sua participação em atividades produtivas de reduzido tamanho (muitas vezes unidades produtivas unipessoais); rudimentares; com pouca exigência de capital (baixa relação capital/trabalho); com baixa produtividade; com limitada divisão de trabalho; com reduzida ou nenhuma separação entre trabalho e propriedade dos meios de produção (proprietário trabalha diretamente na unidade produtiva com ajuda frequente de familiares e eventualmente de poucos assalariados); com precário acesso ao mecanismo de apoio estatal (conta mais com ajuda de familiares e amigos)” (p.139).
O autor caracteriza de forma indireta o autoemprego em toda a sua dimensão. O conjunto de características para a força de trabalho excedentária revela também o grau da heterogeneidade do setor informal.
Entretanto, nem todo autoemprego é igual, mesmo a totalidade operacionaliza no setor informal da economia. Tavares (2002) sublinha que o Banco Mundial e o FMI têm recomendado a expansão do setor informal como uma contra tendência ao desemprego, que se coloca entre as ações complementares às políticas de proteção social para os extremamente pobres. Convém ressaltar que a informalidade não tem relação direta com a ilegalidade, mas sim com o não seguimento das regras legais, de uma atividade profissional mais ou menos permanente, Krien e Proni (2010) afirmam:
“Fenómenos tais como a contratação ilegal de trabalhadores sem registo em carteira, os contratos atípicos de trabalho, as falsas cooperativas de trabalho, o trabalho em domicílio, os autónomos sem inscrição na providência social, a evasão fiscal das microempresas, o comércio ambulante e a economia subterrânea, podem ser evocadas como exemplos da diversidade de situações que podem caracterizar o que a OIT denomina ‘economia informal’” (p. 7).
O conteúdo desta afirmação apenas não inclui no entendimento de muitos autores defensores da informalidade, a economia subterrânea, visto que esta inclui as atividades ilícitas como o narcotráfico e lúmpen. Nas atividades de economia informal absorvem, na maioria, os trabalhadores cuja condição tende a ser precária em razão de estarem em atividades em desacordo com as normas legais ou fora do alcance das instituições públicas.
No entanto, Pamplona (2001) esclarece que estão excluídos do setor informal os trabalhadores para a produção e consumo próprio e os da construção para uso próprio, já que realizam atividades não mercantis, não económicas em sentido restrito. Estão excluídos também das atividades do setor informal as atividades ilícitas não socialmente aceitas (tráfico de droga, contrabando, crime organizado, etc.) já que são atividades em que a condição de ilícito é inerente o que as define. O mesmo autor acrescenta ainda que existe uma relação estreita entre a informalidade e o autoemprego, visto que a informalidade é uma forma de produzir, caracterizada fundamentalmente pela existência do autoemprego. A informalidade ao organizar a produção em bases não tipicamente capitalistas faz predominar o autoemprego, não necessariamente em número, visto que os trabalhadores informais autoempregados (conta própria e empregadores) podem representar em torno de 50% do total dos trabalhadores informais em países subdesenvolvidos. Varia de país para país, em função de diferenças socioeconómicas. Os outros 50% podem estar divididos em trabalhadores familiares, aprendizes e assalariados.
A OIT (2006), na sua resolução da 90.ª Conferência Internacional de Trabalho em 2002, sobre a “economia informal” concluiu no seu ponto 3, o seguinte:
“Embora não exista nenhuma descrição ou definição universalmente aceite ou considerada como exata da "economia informal", em geral entende-se que a expressão abrange uma diversidade considerável de trabalhadores, empresas e empresários, todos eles dotados de características identificáveis, que enfrentam desvantagens e problemas cuja intensidade varia consoante o contexto, nacional, urbano ou rural. A expressão "economia informal" é preferível à expressão "setor informal", pois os trabalhadores e as empresas em questão não advêm de um só setor de atividade económica, mas sim de vários” (p.6).
Ainda para esclarecer a situação dos trabalhadores por conta própria ou autoempregado a mesma Resolução da 90.ª Conferência conclui:
“A expressão "economia informal" refere-se a todas as atividades económicas de trabalhadores e unidades económicas que não são abrangidas, em virtude da legislação ou da prática, por disposições formais. Estas atividades não entram no âmbito de aplicação da legislação, o que significa que estes trabalhadores e unidades operam à margem da lei; ou então não são abrangidos na prática, o que significa que a legislação não lhes é aplicada, embora operem no âmbito da lei; ou, ainda, a legislação não é respeitada por ser inadequada, gravosa ou por impor encargos excessivos” (p. 7).
Para analisar a economia informal ou setor informal, duas abordagens distintas se debruçaram sobre a informalidade: a abordagem marxista e neomarxista, e a abordagem legalista ou neoliberal. A abordagem marxista ou neomarxista apresentada pelos autores de
matriz teórica marxista considera o “setor informal”, Prondi (1977) citado por Pamplona (2001) considera crítica a noção de excedente de mão-de-obra (nem assalariados, nem capitalistas) como modalidades produtivas arcaicas. Considera que os trabalhadores do setor informal estão colocados no último degrau do amplo proletariado, mas não são nem operários, tampouco podem ser assimilados aos capitalistas, pois embora possuam meios de produção, estes não se mostram no produto. Na mesma linha de argumento a OIT (2006) através da sua resolução, ponto n.º 4 demonstra a situação dos trabalhadores por conta própria ou autoempregados:
“Os trabalhadores da economia informal incluem trabalhadores assalariados e trabalhadores por conta própria. A maior parte dos trabalhadores por conta própria são tão vulneráveis e carecem de tanta segurança como os assalariados, e passam de uma situação a outra. Sofrendo de falta de proteção, de direitos e de representação, estes trabalhadores são frequentemente atingidos pela pobreza” (p.7).
Nos anos 80 surgiu uma nova abordagem do setor informal de natureza “neomarxista”, a partir do trabalho de Portes e Castells (1989), sublinha Pamplona (2001) que a ideia central do enfoque é o crescimento do informal. Os referidos autores analisaram as causas específicas do processo de informalização e apontam:
1.ª Causa – reação de firmas e trabalhadores individuais ao poder de trabalho organizado (sindicatos). As empresas veriam no crescimento da informalidade uma possibilidade de minar o controlo sobre o processo de trabalho;
2.ª causa – reação contra a regulação estatal da economia, tanto em termos fiscais quanto da legislação social. O aumento de impostos num contexto de recessão global na década de 70 fizeram com que as empresas procurassem escapar do seu alcance utilizando a informalização;
3.ª Causa – o impacto da competição internacional sobre todos os países, em particular sobre as indústrias intensivas em mão-de-obra com o aumento da integração económica entre países, há uma tendência da difusão de baixos custos de mão-de-obra através dos países e regiões;
4.ª Causa – relacionada com o crescimento da economia informal com base no processo da industrialização que ocorreu em alguns países do terceiro mundo, fundamentado em condições sociais e económico que impediam o estabelecimento de outros padrões sociais e económicas da parte do Estado;
5.ª Causa – a importante causa do crescimento do setor informal é o efeito da crise económica que afetou o mundo a partir de meados da década de 70. Esta causa teria sido particularmente importante para países de periferia afetados pela recessão global e pelas políticas macroeconómicas de ajuste, promovidas pelas instituições financeiras internacionais.
A outra abordagem, a legalista ou neoliberal, (Pamplona, 2001), protagonizada pelo peruano Hernando Soto (1987) que considera que a origem do setor informal estaria na excessiva interferência do estado na economia. Acrescenta ainda que, quanto mais o Estado regular o mercado de trabalho (regulação de salários, regulação das demissões, etc.), mais elevar os impostos, mais exigir taxas de autorizações de funcionamento, mais as empresas e pessoas estariam dispostas e estimuladas a procurar algo extralegal (os custos de ilegalidade superariam os custos de legalidade) o não registo, a informalidade. O setor informal seria uma resposta do mercado à desmedida regulação do Estado e a prova cabal da incapacidade do Estado em controlar a força competitiva do mercado.
Entretanto, o setor informal caracterizava-se, na fase da sua discussão que remonta os anos 60, sempre em oposição ao setor formal, como afirmam Krein e Proni (2010) argumentando que a heterogeneidade da estrutura produtiva dava origem a dois setores diferenciados no mercado de trabalho urbano. De um lado o mercado formal, onde são geradas ocupações em empresas organizadas; de outro, o mercado informal, relacionado com atividades de baixo nível de produtividade e exercido por trabalhadores independentes (trabalhador por conta própria) e por empresas muito pequenas (operando sem uma organização realmente empresarial). Nas diferentes abordagens pode-se constatar que o setor informal foi e tem uma forte correlação com a pobreza e é a forma de inserção de classes sociais baixas no mercado de trabalho. Acrescentam ainda os referidos autores: “os ocupantes do setor informal eram caracterizados como socialmente pobres, com menor grau de instrução e em faixas etárias que incluem tanto os mais jovens quanto os mais velhos” (Krein e Proni, 2010, p.9).
Na discussão sobre a informalidade foram usados termos para designar o mesmo significado como: “setor informal”, “trabalho informal”, e “economia informal”, e a sua definição não é consensual. Entretanto, com a globalização, a OIT fez a revisão da sua definição relativa ao informal, e passou a incluir as seguintes categorias, como assinalam Krein e Proni (2010): a) trabalhadores independentes típicos (microempresa familiar, trabalhador em cooperativa, trabalhador autónomo e em domicilio); b) Falsos autónomos (trabalhador terceirizado, subcontratado, trabalhador em domicilio, trabalhador em falsa cooperativa, falsos voluntários do terceiro setor); c) trabalhador dependentes “flexíveis” ou
“atípicos” (assalariados de microempresas, trabalhador em tempo parcial, emprego temporário, ou por tempo determinado, trabalhador doméstico, “teletrabalhadores”); d) microempregadores; e) produtores para autoconsumo; f) trabalhadores voluntários do terceiro setor e economia solidária.
Vários estudos já foram realizados sobre o setor informal. Na visão dos autores (Krein e Proni, 2010) é preciso separar a fronteira entre trabalho desprotegido (sem carteira) e o que se entende por economia informal urbana. Deve-se ressaltar que, embora tal economia informal seja marcada por atividades que estão na “ilegalidade”, não deve ser confundida com as atividades subterrâneas que se enquadram no mundo da criminalidade.
No entanto, evidências demonstram que existem muitos casos de sucessos de autoemprego (ou informalidade), Pamplona (2001) para aqueles que podem desviar menos o excedente gerado pelo negócio para o consumo familiar, que assim terão novos recursos para absorver novas tecnologias; para aqueles que têm mais tempo de experiência no autoemprego e possuem mais qualificações profissionais; para aqueles com maior capital inicial; para aqueles que participam de redes de subcontratação; para aqueles que tocam seus empreendimentos em tempo integral; para aqueles que estão em nichos de mercados nos quais há menos produtos substitutos.