CAPÍTULO I – FORMAÇÃO PROFISSIONAL E A EDUCAÇÃO
1.8 Da Educação ao Emprego no contexto cabo-verdiano
Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão.
Paulo Freire A qualificação profissional dos cabo-verdianos, constitui uma aposta da parte do Estado, no quadro de parcerias com os países mais desenvolvidos e com mais experiências de formação, particularmente os países europeus. Entretanto, com a crise económica e mundial, poderá acontecer uma certa desaceleração desse movimento, em prol da qualificação dos cabo-verdianos e, consequentemente, uma diminuição de empregos por conta de outrem, incluindo a criação do autoemprego. Os apoios técnicos e financeiros provocaram uma mudança profunda em termos de pensar a formação, realizar as ações de formação e até na linguagem dos responsáveis, formadores e formandos.
Em cada época, cada século ou momentos conjunturais, entram as palavras e/ou termos na gramática discursiva, sobretudo nos discursos horizontais defendidos por Bernstein (1999) citado por Morais & Neves (2007): “ Usualmente conotado como conhecimento do dia-a-dia ou do senso comum, tende a ser um discurso oral, local, dependente e especifico do contexto, tácito e multiestratificado”. (2007, p.126). É exatamente o que acontece nos finais do século XX e início do século XXI. Surgem termos novos ou com significados renovados como educação, formação e emprego que incorporam as terminologias de gestão, psicologia, biologia entre outros.
A produção e a sustentabilidade, associadas à formação profissional, são termos cada vez mais utilizado nos dias de hoje. O aumento da produção agora é uma necessidade, mas a sua continuação sem pôr em causa a vida futura é uma exigência humana e ambiental e é uma norma moral. Dai, a formação profissional ser fundamental para assegurar esse desiderato dos dias de hoje. Neste particular, Alves (1997) sublinha que a educação permanente e a formação contínua ou inicial, tanto em relação aos quadros, como aos trabalhadores de pouca escolaridade, são indispensáveis para melhoria de produção e garantir a sustentabilidade do sistema de formação.
Ao abordar a educação e o emprego, somos permanentemente tentados a incluir quase que obrigatoriamente a “formação”, visto que se encaixa tanto no início, como no meio ou no fim da abordagem. Pois os dois temas (a educação e o emprego) requerem um mediador para poderem estabelecer uma melhor articulação, e este é a formação. Mas será que a formação desempenha bem a sua função de mediador? Permite o equilíbrio entre os dois sistemas ou apenas serve da ponte para a transição? A interligação da educação ao emprego, embora pareça condicionado pelo desenvolvimento contínuo do aluno, na verdade, é sujeita a diversos condicionalismos, desde económicas a sociais. A formação não sujeita a determinação, visto que ela é contínua e permanente até ao fim da vida. Entretanto, a formação deixa sempre a marca no sujeito, na sociedade e impulsiona o desenvolvimento económico de qualquer região ou país.
Normalmente nessa abordagem o alvo principal, independentemente do contexto e de quem faz, seja político ou investigador, é a população jovem. Ao referir a contribuição e a importância dos jovens qualificados no aumento da riqueza de um país, Alves (1997) considera que, quando não estão preparados, surgem como potenciais candidatos a engrossarem as fileiras dos que abandonam o sistema educativo sem, muitas vezes, terem concluído a escolaridade obrigatória. Desta forma não atingem processos de inserção na vida ativa, alternando, de forma cada vez mais frequente, designados por desemprego repetitivo (Alves, 1997). Naturalmente que não deixamos de pensar também nos adultos que trabalham sem a devida formação, com frágil empregabilidade e até nos desempregados de longa duração. Entretanto, nesta abordagem a atenção está voltada para jovens:
“Excluídos do sistema educativo;
Excluídos do mercado de trabalho primário, procuram empregos melhor remunerados e que asseguram melhores perspetivas de progressões na carreira”.
Os que tendencialmente, são os primeiros a serem excluídos do mercado de trabalho, visto que não suportam a adaptabilidade de empresas aos períodos da recessão económica e da implementação do processo da inovação tecnológica” (Aves, 1997,p.97).
É importante referir que, as competências profissionais, geradas pela formação profissional podem servir como reforço da empresa, para fazer face à competitividade do mercado e à sua sustentabilidade.
O contraponto que se deve estabelecer entre a educação e o emprego pode ser explicado e até suportado pela definição da educação dada pela Comissão Interministeral para o Emprego (CIME)(2001):
“Conjunto de ações e de influências tendentes a criar e desenvolver no indivíduo aptidões, conhecimentos, competências, atitudes e um comportamento que visa o desenvolvimento global da sua personalidade, a sua integração na sociedade e do seu empenhamento na transformação progressiva dessa sociedade”. (DGEFP,2001, p.22).
Analisando esta definição, pode-se constatar que quem participa em ações de educação/formação poderá adquirir algumas ferramentas básicas para exercer um trabalho ou se inserir numa estrutura de emprego. Entretanto, a tendência é quase que permanente ao se analisar a formação inclui-se a educação e tratar os dois conceitos como se fossem uma só. Na verdade existem nuances diferentes, não só pela forma de abordagem, mas pelo conteúdo de cada conceito. Ambos os conceitos têm como pano de fundo a aprendizagem, seja das ciências, da técnica, da arte, do desporto de um saber, do saber fazer e saber ser, neste aspeto, afirma Schwartz (2009):
“Il y a formation profissionnalle, formation de base, formation culturalle, formation civique, formation sociale; et alors on qu’en fait, on ne peut parler de education ou de formation sans expliciter ce que l’on met derriére ces mots e quele st le sisteme de valeurs implicite, il est rare que les educateurs précisent ces points à leurs élèves et les aient même définis pour eux-mêmes” (P.12).
O mesmo autor explica que a educação faz parte do contexto político e económico e a formação faz parte das questões de seleção e orientação. Por isso, a noção da formação profissional, da formação geral, da formação humana e cultural estão ligadas às ideologias, às opções políticas, morais e cívicas. Portanto, quando se fala de educação/formação, fala-se de dois subsistemas complementares. A formação implica responsabilidade tanto individual como institucional. A responsabilidade defendida por Hubert et Poché (2011) é bastante abrangente, sobretudo quando se enquadra no contexto ao longo da vida. Os referidos autores consideram que essa responsabilidade manifesta-se de duas forma, existencial ou institucional, e afirmam: “la responsabilité existentielle concerne chaque individu. Elle revele de ci qui se déploie au coeur de la condition humaine et mobilise des valeurs, une conscience, des convictions, ainsi que une certaine idée de l’autre, entendu comme tiell est infinie ou ilimitée” (2011, p.26).
Dai um outro conceito interessante, complementar e determinante a discutir é a educação permanente, chamada também de aprendizagem ao longo da vida que Cabrito (2009) designou de “aprender até morrer”. O autor considera-a como real dimensão, de educação permanente. Ainda o mesmo autor afirma: “ Hoje, no campo da educação/formação, nomeadamente no campo do adulto, a Aprendizagem ao Longo da Vida está na moda. Num qualquer discurso pedagógico ou político, chamar a Aprendizagem ao Longo da Vida à colocação, fica sempre bem”(2009, p.11).
Célestin (2002) afirma que “ A promoção da empregabilidade e da adaptabilidade através da formação profissional constitui dois pilares das políticas de emprego” (2002, p.56). Entretanto, constitui a preocupação da União Europeia e de muitos outros Estados. Como refere Alves (2010), as sociedades ocidentais nos últimos anos têm-se caracterizado por aumento do desemprego juvenil. Desta forma, podemos verificar a importância dada também ao tema por vários investigadores, como Lima (1992), Ashton et al (1990), Shelly (1988), entre outros.
Diversas teorias sobre o emprego e desemprego juvenil já foram produzidas. A teoria de ciclo económico, bastante defendida por Ashton et al (1990), corroborada por Alves (2008), com base nesse pressuposto teórico, defende que a partir do momento que se inicie um período de relançamento económico, os jovens serão recrutados em número superior ao dos adultos, restaurando-se um equilíbrio aceitável entre o emprego e o desemprego. Entretanto, o mesmo autor defende também que as alterações verificadas nos processos produtivos e decorrentes da modernização tecnológica implicam profundas alterações nas estruturas de qualificações, cujos diferentes efeitos se fizem sentir sobre os jovens detentores de mais baixos níveis de habilitação e de qualificação. Esta é uma lógica que apela para uma educação e formação permanente e, cada vez, a um nível mais elevado. Por exemplo, nos anos 70, um jovem com 6.º ano de escolaridade tinha emprego garantido e com maior índice de empregabilidade do que um jovem atual detentor de um mestrado, (Mendes, 2005).
A introdução de novas tecnologias produziu não só a diminuição efetiva do volume do emprego, sobretudo nos ramos de atividades recetores de mão-de-obra juvenil, mas também um aumento efetivo do nível de qualificação. Essa conjugação conduziu a uma diminuição de oportunidades dos empregos para jovens menos qualificados e aumento dos mais qualificados. Neste pressuposto, em que a maioria dos jovens desempregados ou sem empregos são de origem de classes populares ou de famílias desfavorecidas, pode-se inferir que existe, ainda em curso, o processo de reprodução familiar do desemprego. Quem não consegue fazer uma educação/formação de nível competitivo ou ao ponto de acompanhar
as exigências de qualificação, dificilmente consegue um emprego de longa duração ou sustentável.
Na mesma esteira de análise, pontua Alves (2010) que as dificuldades dos filhos de pais desempregados aumentam, na medida em que as redes de sociabilidade construídas através do trabalho, encontram-se, se não destruídas, pelo menos parcialmente desativadas. Não é por acaso que a estratégia definida pela Cimeira de Lisboa, realizada em Março de 2000, estabelece que até 2010, a União Europeia se torne: “a economia mais competitiva e dinâmica baseada no conhecimento sustentável com um maior número de empregos e de melhor qualidade e com uma maior coesão social” (Célestin, 2002, p.75).
Ainda, com base na preocupação de um emprego sustentável, a Comissão Europeia propôs integrar as questões ambientais em todas as ações de formação profissional financiadas pelo Fundo Social Europeu, para o período de 2000-2006, e acrescenta: “Todos os programas de formação, independentemente da sua matéria de fundo, deverão incluir um MAS (Módulo sobre Ambiente Sustentável) com dados gerais sobre a situação ambiental atual, os problemas presentes e os riscos futuros, com vista a adoptar o individuo de uma consciência ambiental que o leve a utilizar de forma prudente os recursos naturais” (Vilar, 2008, P.145). A atualização da formação para garantir a sustentabilidade do emprego hoje é uma realidade, dada a rápida deterioração de conhecimentos e a necessidade da conjugação do económico com o ambiental no desenvolvimento sustentável. Refere Vilar (2008) que esse desenvolvimento é aquele que oferece serviços ambientais, sociais e económicos básicos a todos os membros de uma comunidade, sem colocar em risco a viabilidade dos sistemas naturais, construídos e sociais, dos quais depende a oferta de tais serviços.
Entretanto, analisando ainda o contexto do emprego em Cabo Verde, em primeiro lugar no quadro dos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa) e com base num acordo entre a OIT (Organização Internacional de Trabalho) e o Governo português em 1997, Abecassis et al (1997) ) sublinham que: “A crise de emprego em todos os países do PALOP é séria e as suas perspetivas serão inquietantes se não forem desencadeadas medidas enérgicas que valorizem as capacidades e as potencialidades que esses países possuem em matéria de promoção de emprego”. Paralelamente consideram consideram o caso de Cabo Verde como “diferentemente complexa por causa da diminuição significativa dos tradicionais fluxos migratórios” ( p.2).
O projeto que tinha por base o referido estudo, PREP (Programa Regional para Promoção de Emprego nos PALOP), apresentava como grupo alvo:
“Os jovens que abandonam o sistema do ensino e procuram o primeiro emprego
Os atuais desempregados
As mulheres que, mesmo quando inseridos na vida ativa, em particular no setor informal da economia e no meio rural, possuem um estatuto precário e baixos níveis de qualificação” (Abcassis et al, 1997, p.5).
O estudo em apreço, ao analisar o contexto cabo-verdiano quamto ao emprego, destaca o crescimento demográfico e a pressão de procura do emprego nos sistemas de formação como principais determinantes da situação económica do país. Ainda no quadro da promoção do emprego, o estudo aponta as políticas e estratégia para a promoção do emprego, referindo:
“O emprego será promovido através da introdução de elementos catalisadores de mudanças estruturais no mercado de trabalho e de um conjunto de medidas de política ativa; formação contínua e formação para o emprego; processo de criação de novas empresas (…); desenvolvimento de sistemas de informação para apoio às políticas de emprego e formação” (Abecassis et al., 1997, p.6).
Esta referência demonstra que o emprego foi sempre uma preocupação para os governos de Cabo Verde, independentemente do partido que os suportam.
A evolução do emprego em Cabo Verde vem recebendo algumas reflexões dos investigadores cabo-verdianos. O economista Óscar Santos (2001) assinala:
“… Um dos grandes desafios para a política do desenvolvimento é seguramente satisfazer, por um lado, as necessidades do emprego e da qualificação para uma grande parte da população economicamente ativa e desempregada e, por outro, às dos ativos que precisam de aperfeiçoamento profissional para garantirem a estabilidade dos seus postos de trabalho” ( p.21)
Na mesma senda, Spencer (2001) ao analisar o trabalho, as qualificações e o desenvolvimento humano, ressalva que; “A relação que se estabelece entre a formação e o emprego é decisiva para o desenvolvimento, pelo que as duas realidades devem estar interligadas, de modo a assegurar o equilíbrio”. (2001,p.18)
Em suma, analisar o emprego, implica sempre analisar a educação como input para a qualificação de mão-de-obra, sobretudo de qualidade, tal como defendido por Célestin (2002).