3.5 O Projeto UCCC na concepção dos seus personagens
3.5.2 A importância do Projeto UCCC
3.5.2.1 Autoestima
Autoestima é um termo muito utilizado na atualidade para referir-se à valorização de si mesmo e do resgate do amor próprio. No contexto de projetos sociais, a utilização dessa palavra vem representar a construção do respeito a si próprio e ao próximo, a valorização do indivíduo que, em algum momento da vida, fora perdida ou destituída. Por meio das atividades musicais e com uma postura de enfrentamento e de incentivo ao progresso, a coordenadora pedagógica e monitora, Oleide, acredita que a autoestima pode ser trabalhada, oportunizando uma vida com perspectivas melhores:
Com esse trabalho que a gente faz [...] que é uma questão minha, [...] como [...] tive uma dificuldade, uma pessoa muito sofrida, então eu quero proporcionar uma coisa diferente, um trabalho onde essas crianças possam visualizar um mundo melhor. Esse mundo melhor, não é que elas vão ser musicistas, mas que naquele momento, naquela uma hora e meia [...] a gente consegue passar para eles coisas. Com a música a gente vai trabalhando, vão surgindo várias “pontezinhas”, várias pérolas ou situações que a gente pode ir incutindo conteúdos, coisas para a vida deles. [...] Então é uma oportunidade que a gente está dando para essas crianças [...]. Eu acredito que quando eu estou ali na frente das crianças, o meu olhar e a minha postura de acreditar é que faz com que eles acreditem neles mesmos, e aí tudo o que a gente trabalha e que está diretamente ligado à canção que a gente está ensinando, torna-se uma coisa grandiosa para a vida deles, a autoestima. Quando você está trabalhando “você consegue, você pode”, a gente os desafia em muitos momentos, ou que a gente conta um pouquinho da história da gente [...], você está desenvolvendo essa criança. [...] Naquele momento ela viveu aquilo e alguma coisa ela vai levar, coisas [...] boas vão ficar (ENTREVISTA, Coord.Ped. e M. Oleide, 04/04/2014).
A busca no oferecimento de um ensino de música significativo para a formação dos sujeitos e que estimule, inclusive, a autoestima, mistura-se com a própria história de vida da coordenadora pedagógica e monitora, Oleide, que em algum momento da sua vida conviveu com dificuldades, mas por meio do trabalho e da consciência de sua importância na sociedade, superou-os. A fala da Oleide demonstra a busca por uma educação sistêmica, que tenha significado para a vida, transcendendo a finalidade de domínio artístico.
Em alguns dos ensaios observados na E.M.B1, presenciei situações em que a Oleide orientava os alunos com relação ao papel dos sujeitos frente às eleições. Durante a aprendizagem das canções, conforme algum aluno destacava-se, ela o chamava à frente. Esse aluno convidado para ir à frente, era convocado a escolher outro aluno, que também estivesse destacando-se no processo de aprendizagem musical. Nessas idas e vindas de alunos, Oleide
sempre alertava “não escolha qualquer um, não vá escolher só porque é amigo, tem que escolher aquele que está produzindo, que está cooperando com o grupo”. Esse discurso reforçava a atenção dos alunos para com eles próprios, além de evidenciar os que apresentavam um desempenho satisfatório, fortalecendo a autoestima e cooperando para o entendimento de que todos tinham condição de ir à frente, desde que demonstrassem esforço e vontade para envolver-se com o que era proposto. As falas da Oleide, que ressaltavam a importância de escolha, eram transferidas para o contexto das eleições quando de maneira dinâmica ela dizia “veja bem em quem você vai votar, não podemos escolher qualquer um”. Assim, na concepção de Oleide, ao mesmo tempo em que um ensino para vida era proposto (escolha ou vote em quem faz a diferença e contribui para a melhoria do grupo), a autoestima era trabalhada por meio da nomeação de alunos que demonstravam esforço e melhora no desempenho musical e social, no contexto da prática coral.
A monitora Carla afirma que para escolas localizadas em regiões mais carentes, o Projeto apresenta-se como uma proposta importante por trabalhar com a autoestima. Carla diz que o desenvolvimento da autoestima durante a infância tende a refletir no futuro, no qual adultos confiantes e conscientes terão condições de exercer seu papel na construção de uma sociedade justa e equilibrada (Entrevista, M. Carla, 10/04/2014).
Além do trabalho de construção ou resgate da autoestima por meio dos ensaios semanais, os discursos dos entrevistados revelam que esse aspecto é muito desenvolvido no processo de preparação para a performance. A fala da monitora Gilcene demonstra essa concepção, em que o ato de apresentar um trabalho para um grande público, contribui com a autoestima da criança, reforçando o sentimento de ser alguém especial, capaz e competente:
O Projeto trabalha muito com a autoestima das crianças. Então, em segundo plano ou talvez igual para algumas crianças, chega até em primeiro plano né, essa questão da autoestima, do fazer uma coisa bonita, de ser alguém que tem uma competência de apresentar algo, de fazer uma apresentação para mil e duzentas pessoas, e ela se realizar com aquilo, se sentir especial, capaz, competente [...] (Entrevista, M. Gilcene, 11/04/2014).
A diretora da E.M.C1 observa que o aluno que participa das atividades do Projeto UCCC tem a autoestima elevada. Ela explica que isso acontece porque o aluno “sente-se valorizado, porque ele tem uma boa voz” para participar do grupo (Entrevista, D._E.M.C1, 09/04/2014). A professora responsável da E.M.P2 amplia esse pensamento, quando o sentimento de autoestima envolve também os pais dos alunos ao afirmar que “a gente vê como os pais se emocionam quando vão assistir a apresentação dos filhos, e os filhos também ficam emocionados de ver como os pais estão ali vendo eles, eles se sentem de fato artistas”
(Entrevista, D._E.M.P2, 03/04/2014). A professora responsável da E.M.Q2 salienta a melhora da autoestima envolvendo toda a família ao dizer que:
[...] Em primeiro lugar eu acho que [...] eleva a autoestima das crianças, dos pais, é muito interessante olhar os rostinhos, eles se sentem valorizados quando vão cantar, que tem apresentação do coral, [...] eles ficam procurando os parentes. É muito bonito e emocionante (Entrevista, P.R._E.M.Q2, 03/04/2014).
O acompanhamento das atividades do Projeto UCCC e a análise dos discursos dos entrevistados proporcionam o entendimento da autoestima como uma característica ao mesmo tempo individual e coletiva por envolver diversos personagens da rede de diálogos. É caracteristicamente individual quando um diretor relata a alegria de um aluno em participar dos ensaios e das performances e é coletivo quando os pais prestigiam e compartilham do desenvolvimento artístico musical.