Capítulo II – A formação continuada ofertada aos professores da rede
3.3 A Autonomia docente
Em defesa de valores considerados tipicamente profissionais, Contreras (2012) realiza uma análise mais ampla do contexto do trabalho docente. Ao caminhar pelos terrenos da profissionalidade docente, o autor aponta para as características do trabalho de ensinar e para valores e pretensões que os
professores almejam na profissão, justificando que a intenção de um maior controle sobre o próprio trabalho não é privativo apenas aos trabalhadores da área de ensino.
Desta forma, para compreender o problema da autonomia a partir de uma perspectiva na qual existe a convicção de que um desenvolvimento mais educativo dos professores e das escolas virá do processo democrático da educação, o autor estabelece que a autonomia se dê pela interpretação de três dimensões presentes na profissionalidade docente: a obrigação moral, o compromisso com a comunidade e a competência profissional, pois estas concepções norteiam o trabalho dos professores, caracterizando-os enquanto modelos de exercício daqueles.
Como primeira dimensão, “a obrigação moral” está intrinsecamente relacionada ao trabalho na prática educativa e a ética de suas atuações, em que o comprometimento com os alunos perpassa por relações de afetividade, no seu desenvolvimento como pessoas e no avanço de sua aprendizagem. Ressalta-se aqui o exercício de modificar a situação em que se encontra, superando as contradições ou dilemas, ou encontrar argumentos ou razões para justificar sua situação. Para Contreras (2012, p. 86),
O professor ou professora tem que inevitavelmente se defrontar com sua própria decisão sobre a prática que realiza, porque ao ser ele ou ela quem pessoalmente se projeta em sua relação com alunos e alunas, tratando de gerar uma influência, deve decidir ou assumir o grau de identificação ou de compromisso com as práticas educativas que desenvolve [...].
Por “compromisso com a comunidade”, situando-se como segunda dimensão da profissionalidade, demonstra-se estabelecido, inicialmente, com os professores e, a seguir, com a sociedade, a intervenção nos problemas sociais e políticos, compreendendo a escola como um local de preparação para a vida futura, como agente regulador da sociedade.
Para Contreras (2012, p. 88), a “educação não é um problema da vida privada dos professores, mas uma ocupação socialmente encomendada e responsabilizada publicamente”. Assim, o autor ressalta que devido aos procedimentos burocratizados, organização administrativa e o currículo, o professor pode ser condicionado a exercer o papel de funcionário obediente e a sociedade ao papel de espectadores. Em defesa desta condição, sua análise defende que o professor não pode ser apenas uma parte num conflito entre
pretensões e finalidades educativas, limitando-se em seguir irrefletidamente as diretrizes, ordens, correntes ou pressões. Concordando com esta argumentação, Libâneo (2010, p. 60), expõe sobre o papel reflexivo do professor, na sua atitude em pensar sobre o fazer, baseando-se no contexto da reflexão que emergiu num movimento surgido no final dos anos 1970 e permeia até hoje discussões em torno do ato de buscar criticamente “qualidade educativa, a mudança nos currículos na gestão educacional, na avaliação dos sistemas e na profissionalização dos professores”.
Para cumprir esse papel reflexivo no exercício da profissionalidade, a discussão nos conduz por caminhos que permitem demonstrar possibilidades para ajudar os professores no fazer e pensar o cotidiano, ultrapassando a ideia dos sujeitos da formação inicial e continuada apenas se submeterem à reflexão dos problemas da prática docente mais imediatos.
Para Libâneo (2010, p. 70),
Os professores deveriam desenvolver simultaneamente três capacidades: a primeira, de apropriação teórico-crítica das realidades em questão considerando os contextos concretos da ação docente; a segunda, de apropriação de metodologias de ação, de formas de agir, de procedimentos facilitadores do trabalho docente e de resolução de problemas de sala de aula. [...] A terceira, é a consideração dos contextos sociais, políticos, institucionais na configuração das práticas escolares.
Diante deste panorama defendido por Libâneo em seu discurso da necessidade da reflexão sobre a prática a partir da apropriação de teorias para melhorias das práticas de ensino, em que o professor é ajudado a compreender o seu próprio pensamento e a refletir de modo crítico sobre o seu fazer, internalizando novos instrumentos de ação, justifica-se a necessidade do professor estar em constante busca por teorias que fundamentem seu exercício e lhe possibilitem mecanismos de análise no decorrer do seu exercício.
A terceira dimensão da profissionalidade definida por Contreras denomina-se “competência profissional”. Tal dimensão transcende o domínio de habilidades e técnicas e emerge a partir da coerência entre a obrigação moral e o compromisso com a comunidade. Para tanto, a competência profissional não se refere “apenas ao conhecimento disponível, mas também aos recursos intelectuais de que se dispõe com objetivo de tornar possível a ampliação e desenvolvimento desse conhecimento profissional” (CONTRERAS, 2012, p. 93). Neste discurso, do desenvolvimento da
intelectualidade dos professores, encontra-se subsídio na fundamentação de Giroux (1997), uma vez que este dispõe sobre os aspectos democráticos, os quais devem se situar as escolas, tornando possível elucidar o papel dos educadores e pesquisadores educacionais enquanto intelectuais transformadores. Conforme Giroux (1997, p. 29),
As condições materiais sob as quais os professores trabalham constituem a base para delimitarem ou fortalecerem suas práticas como intelectuais. Portanto, os professores enquanto intelectuais precisarão reconsiderar e, possivelmente, transformar a natureza fundamental das condições em que trabalham.
Diante destes argumentos, correspondentes ao cenário das dimensões da profissionalidade docente, vislumbra-se a possibilidade de discorrer brevemente sobre o papel da reflexão na experiência, durante a atuação profissional, o que nos permite apontar direções convergentes aos fundamentos e objetivos do PDE/PR.