3.1 LIBERDADE E AUTONOMIA SINDICAL
3.1.2 AUTONOMIA SINDICAL
Conquanto relacionados, autonomia e liberdade têm conceitos distintos.
José Carlos AROUCA formula interessante raciocínio que permite identificar de maneira clara como a autonomia não se confunde com a liberdade. A autonomia
“é liberdade potencializada, é poder de ser livre”. A autonomia tem relação com a liberdade frente ao Estado, “como direito de não submissão, ficando a salvo, pois, de qualquer ingerência em sua administração ou intervenção capaz de comprometer suas atividades”. Autonomia não significa ausência de limites – explica o autor -, pois mesmo autônoma, a organização sindical há que se conformar com o Estado Democrático de Direito no qual está inserida e no poder político que dele emana. 107
Portanto, a autonomia está diretamente ligada com a não interferência de organismos externos, estatais ou particulares, na administração, na organização e na vida sindical. No dizer de Maurício Godinho DELGADO, a autonomia é considerada um princípio do Direito Coletivo, assim como a liberdade sindical, e representa a “garantia de autogestão às organizações associativas e sindicais dos trabalhadores, sem interferências empresariais ou do Estado”, o que compreende a
“livre estruturação interna do sindicato, sua livre atuação externa, sua sustentação econômico-financeira e sua desvinculação de controles administrativos estatais ou em face do empregador”. 108
Em Amauri Mascaro NASCIMENTO é possível perceber a autonomia em mais de uma forma de expressão da liberdade sindical. Enquanto liberdade de organização, o autor destaca que é essencial a autonomia de escolha dos trabalhadores para criação de um grupo que seja espontâneo e adequado para o exercício do direito de resistência contra o empregador. Na medida em que o Estado impõe determinados fins e formas para a organização sindical, está a inibir o direito de livre escolha quanto à associação e a organização. Do mesmo modo, a imposição de restrições pelo Estado ao direito do sindicato filiar-se a outros organismos nacionais ou internacionais, revela-se ofensivo à autonomia sindical.
Sob o aspecto da liberdade de administração, NASCIMENTO entende que cabe ao
107 AROUCA, José Carlos. Curso básico de direito sindical. São Paulo: LTr, 2006.p. 60.
108 DELGADO, Maurício Godinho. Curso de Direito do Trabalho. 7. ed. São Paulo: LTr, 2008. p.
1311.
sindicato redigir o próprio estatuto e estabelecer as regras relativas ao tipo de eleição, enfim, a democracia interna, inclusive com a vedação de que o poder se perpetue num mesmo grupo de pessoas; a liberdade de administração representa a independência de administração (autarquia), ou seja, a escolha dos próprios dirigentes e a fiscalização e controle apenas por seus próprios órgãos, até mesmo no que diz respeito ao afastamento de seus diretores. Compreende, ainda, a autonomia para fixar contribuições em assembléias, quanto ao tipo e quanto ao valor. Ressalta o autor, por fim, a necessária independência em relação ao empregador, evitando-se os sindicatos incentivados ou criados pelos patrões. 109
Segadas VIANA anota que o Estado, “mediante leis compatíveis” com a Constituição Federal, pode continuar tratando de matéria sindical, o que não se admite são as interferências no funcionamento das entidades e intervenções nas suas administrações. O autor adverte que o sindicato deve respeito aos seus próprios objetivos e ao princípio da legalidade, assim como as demais pessoas jurídicas, sem que se olvide das garantias que possui. 110
Em relação à autonomia organizativa e administrativa, SIQUEIRA NETO aponta que compete aos estatutos sindicais fixar as normas e a forma de sua administração, estipulando os seus órgãos e respectivas funções. Nesse sentido é que o autor afirma que cabe ao grupo, e não ao Estado, decidir sobre a chamada democracia interna do sindicato. 111
A autonomia, portanto, pode ser entendida com uma forma de expressão da liberdade sindical, quiçá seja aquela sem a qual não se possa falar em verdadeira liberdade sindical. Mas há outros modos pelos quais esta liberdade se expressa, podendo haver maior ou menor grau de liberdade.
Existe autonomia na medida em que não existe a interferência ou intervenção do Estado nem de particulares na vida sindical, competindo ao próprio sindicato definir sobre seus estatutos, direção, administração e respectivos órgãos, ação sindical, funções, organização em nível horizontal e vertical, contribuições dos representados.
109 NASCIMENTO, 1982, p. 95-100.
110 SUSSEKIND, Arnaldo et al. Instituições de Direito do Trabalho. 16. ed. São Paulo: LTr, 1996. p.
1104-1105.
111 SIQUEIRA NETO, José Francisco. Liberdade sindical e representação dos trabalhadores nos locais de trabalho. São Paulo: LTr, 2000, p 92.
Em que pese a opinião manifestada por SIQUEIRA NETO, no sentido de que cabe ao grupo decidir sobre as questões relativas à democracia interna, matéria que está compreendida no âmbito da autonomia organizativa, a experiência recente no Brasil, mesmo após a Constituição de 1988, tem demonstrado que num grande número de sindicatos o grupo que permanece à frente de cada entidade sindical se repete por muitos anos graças à permissão estatutária de reeleição por número indefinido de vezes. Entretanto, autonomia organizativa e democracia interna não são conceitos que se identificam. A autonomia é pressuposta para que o sindicato possa escolher com independência sua linha político-ideológica de atuação, bem assim para definir da maneira que entender correta todos os assuntos internos de ordem administrativa. No entanto, a democracia interna não é uma decorrência natural da autonomia nem deve ser analisada sob os aspectos meramente formais.
Há que se verificar materialmente como é exercido o poder por parte daqueles que se encontram à frente das organizações sindicais. É possível que exista autonomia e garantia formal da participação de todos os membros da categoria, mas que as práticas sindicais se revelem autoritárias. Não se pode ignorar, por exemplo, que diversos sindicatos são dirigidos pelos mesmos líderes por muitos anos em sucessivas gestões, fato que reduz a possibilidade de renovação dos quadros diretores, permanecendo nas mesmas mãos, por muito tempo, não só a política sindical, mas também as negociações coletivas de toda a categoria. A situação se agrava quando considerada no contexto atual da unicidade sindical. Isso, por si só, seria suficiente para se interrogar e se refletir sobre as bases materiais da democracia interna nos sindicatos e, por conseguinte, no desenvolvimento e amadurecimento das relações trabalhistas e sindicais no Brasil.
Assim, a discussão sobre a existência de democracia interna nas entidades sindicais não deve se restringir ao aspecto da autonomia, isto é, não deve ser entendida apenas como o inverso da intervenção estatal, nem tampouco se limitar a uma análise formal dos seus estatutos
A necessidade de registro do sindicato em órgão competente não restringe a autonomia; o reconhecimento dele pelo Estado, para que se o admita como representante dos trabalhadores, sim.
A ausência de autonomia torna o sindicato uma entidade manipulável conforme os interesses da classe dominante, sejam eles políticos, econômicos ou ideológicos. Fica prejudicada a busca de melhores condições de vida e de trabalho
para os trabalhadores em prol destes outros objetivos albergados pela política do Estado. O sindicato não se identifica com a classe trabalhadora e se transforma direta ou indiretamente em instrumento necessário para a manutenção do status quo, não exercendo a sua função primordial que seria a luta pela defesa de melhores condições para a classe operária.
A relação entre a autonomia e interferência estatal está na razão de proporção inversa, quanto maior a interferência menor a autonomia e vice versa. E, para concluir, novamente com AROUCA, é possível dizer, portanto, que “o tamanho da autonomia sindical é igual ao da liberdade política”. 112