3.1 LIBERDADE E AUTONOMIA SINDICAL
3.1.1 LIBERDADE SINDICAL
A organização de trabalhadores ou de empresas em sindicatos está apoiada no direito fundamental de associação. A criação de sindicatos, por sua vez, pressupõe a possibilidade do exercício da atividade sindical, sem a qual não teria razão de ser esta reunião de pessoas com os mesmos propósitos. A maneira como uma dada legislação nacional disciplina o direito de associação e o exercício da ação sindical, reflete, numa palavra, a liberdade sindical existente neste determinado ente político.
CESARINO JÚNIOR refere-se à liberdade sindical sob a ótica da possibilidade “de organizar mais de um sindicato numa mesma base territorial”, de ser a sindicalização obrigatória ou não e ao “direito de plena autodeterminação dos sindicatos”. 98
A liberdade sindical, para Oscar Ermida URIARTE, pode ser focalizada a partir do seu “sujeito passivo”, ou seja, a partir do(s) sujeito(s) perante o(s) qual(is) se congregam e se justifica o exercício da liberdade sindical. São eles: o Estado, os empregadores e as próprias organizações sindicais. 99 Trata-se, aqui, do reconhecimento da existência de sujeitos que, individual e isoladamente, se encontram em condições desiguais quando comparados com a contraparte, diversamente do que ocorre nas clássicas relações civis em que a autonomia privada individual deixava às partes a liberdade de contratar. É exatamente o reconhecimento da desigualdade dos sujeitos que justifica a reunião de pessoas, isto é, dos trabalhadores, em busca de mecanismos que dêem suporte as suas reivindicações, lhes representem nas negociações, enfim, que atuem como instrumento na conquista de melhores condições de trabalho e de vida.
A expressão liberdade sindical compreende várias dimensões. Amauri Mascaro NASCIMENTO analisa o tema com ênfase na “liberdade de associação, liberdade de organização, liberdade de administração, liberdade de exercício das funções e liberdade de filiação sindical.” 100
Já o professor João Régis Fassbender TEIXEIRA entende que a liberdade sindical deva ser analisada sob os enfoques coletivo e individual. No primeiro aspecto, não se admite “qualquer determinação – direta ou indireta – do Governo, que possa bitolar a vivência da entidade como pessoa jurídica de Direito Privado”. O autor especifica que a ausência de liberdade de constituição, a determinação de uso de estatuto padrão com preceitos obrigatórios, o enquadramento prévio por categorias, a delimitação de área de atuação por território, adoção de controle dos fundos sindicais por autoridade administrativa, sejam eles provenientes de contribuições facultativas definidas pelos associados ou obrigatórias determinadas por lei, a própria existência das contribuições obrigatórias, a proibição de livre
98 CESARINO Júnior. Antonio Ferreira. Direito social. 7. ed. São Paulo: LTr, 1980.p. 513.
99 URIARTE, Oscar Ermida. Liberdade sindical: normas internacionais, regulamentação estatal e autonomia. In: TEIXEIRA FILHO, João de Lima (Coord.). Relações coletivas de trabalho: estudos em homenagem ao Ministro Arnaldo Süssekind. São Paulo: LTr, 1989. p.253.
100 NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Direito sindical. São Paulo: LTr, 1982. p. 92.
filiação a centrais sindicais nacionais ou mesmo outras organizações internacionais, são todas características que não se afinam com um regime de liberdade sindical.
Sob o aspecto individual, a liberdade sindical compreende a possibilidade do indivíduo aderir (sentido positivo) ou não (sentido negativo) a um sindicato, de retirar-se da associação e de escolher a entidade à qual se filiar. 101
Mozart Victor RUSSOMANO, sem perder de vista os desdobramentos possíveis em diversos aspectos da liberdade, diz que se fosse possível imaginar uma figura geométrica, a liberdade sindical seria um triângulo, porque ela é formada por 3 conceitos que se tocam nas extremidades, quais sejam: “sindicalização livre, autonomia sindical e – em nosso juízo – pluralidade sindical”. 102
Como se depreende das referências acima, a liberdade sindical envolve tanto o aspecto coletivo quanto o individual, mas em qualquer deles revela-se importante a autodeterminação. A constituição, a organização, o exercício das atividades e funções sindicais, a opção individual entre filiar-se ou não, a possibilidade de escolha de filiação a outro sindicato ou fundação de uma nova entidade. Enfim, a vida sindical deve ser livre de interferências externas, estatais ou não.
Sob esta perspectiva, entende-se que exigências e condições para a constituição e a administração do sindicato, bem como a imposição de bases territoriais, o enquadramento prévio por categorias, decorrente não da espontaneidade dos trabalhadores, mas de ofícios similares, semelhantes ou conexos, definidos pelo Estado a partir da atividade preponderante do empregador, a ingerência deste ou daquele nas atividades sindicais e nas opções, mesmo quando estabelecidas por lei, soam como restrição da liberdade sindical.
Por outro lado, a liberdade sindical também não pode ser entendida como um valor absoluto e distante de outras expressões das liberdades individuais e coletivas. A própria Convenção 87 da OIT (não ratificada pelo Brasil) não trata assim, de modo absoluto, a liberdade sindical, pois admite expressamente a sua convivência e adaptação com outras liberdades. Veja-se que o artigo 8º determina que a legislação nacional não prejudique o exercício dos direitos nela previstos e estabelece que trabalhadores e entidades patronais respeitem a legalidade no
101 TEIXEIRA, João Régis Fassbender. Introdução ao direito sindical. Curitiba: Revista dos Tribunais, 1973. p. 153-161.
102 RUSSOMANO, Mozart Victor. Princípios gerais de direito sindical. 2. ed. Rio de Janeiro:
Forense, 1995. p. 65.
exercício dos direitos por ela assegurados. Desse modo, a legalidade encontra seus limites na norma internacional, quando internalizada.
É muito tênue a linha divisória entre o cerceamento da liberdade e o direito de regulamentação. Por isso, nem sempre será possível apontar soluções teóricas, sendo necessário em dadas ocasiões avaliar a situação concreta para dizer se houve ou não afronta à liberdade sindical. Os conceitos, as linhas gerais de orientação e, sobretudo o conteúdo, estes sim, podem ser apresentados em teoria.
Ainda sob o ponto de vista coletivo, os sindicatos devem ser livres para deliberar sobre a filiação a outras entidades de hierarquia superior na organização sindical, seja ela de âmbito nacional ou internacional, não cabendo às normas estatais impor qualquer vedação nesse sentido.
Do mesmo modo, não poderá a norma estatal dispor sobre o direito de associação do trabalhador a determinado sindicato. Ora, em se tratando de um direito subjetivo do indivíduo, qualquer restrição ou imposição ao exercício desse direito conflita com o princípio maior da liberdade sindical.
A liberdade sindical há que compreender, igualmente, a liberdade de ação sindical, nas suas mais variadas formas, seja mediante o uso da liberdade de expressão de suas opiniões, políticas ou não, seja pela prática de atos destinados à conquista de melhores condições de trabalho e de vida aos seus representados.
Desde o exercício do direito de greve, uma das mais clássicas formas de expressão da liberdade sindical e que não raras vezes foi tolhido em nome da paz social ou da ordem, até a maneira como o sindicato articula sua base e sua coordenação - delegacias regionais, delegados sindicais, núcleos, representação nos locais de trabalho -, enfim, a liberdade sindical se expressa na forma legal e no exercício dos direitos que lhe são inerentes.
Segundo RUSSOMANO, a liberdade individual de associar-se ou não, sequer pode ser limitada pelo Estado ou mesmo pelo próprio sindicato, mediante o uso de cláusulas de exclusão, como são a closed shop (permite a contratação somente de trabalhadores sindicalizados) e a union shops (determina a dispensa de trabalhador que se desligue do sindicato), porque nestes casos haveria uma violação à liberdade individual. Ademais - continua o autor -, não pode prevalecer o argumento de que tal restrição estaria abrangida pela liberdade de contratação;
primeiro, porque as convenções coletivas não podem ser equiparadas ao contrato, haja vista, sobretudo, os seus efeitos erga omnes; além disso, porque tais cláusulas
violam, sempre, por sua natureza, a liberdade de trabalho consagrada nas constituições modernas. 103
Orlando GOMES e Élson GOTTSCHALK explicam que cláusulas desta natureza, quando admitidas, total ou parcialmente, pelas legislações nacionais de países de tradição liberal, são entendidas como condições de “segurança sindical”, uma maneira de enaltecer o predomínio da liberdade do grupo sobre a liberdade do indivíduo. Ainda que se admita aqui uma violação à liberdade individual, isso se justificaria em função “do benefício econômico e social de todos”. 104
Seja como for, e afastadas as particularidades de legislações nacionais, o que caracteriza a liberdade sindical é o livre exercício individual e coletivo dos direitos que lhe são inerentes.
Em determinados pontos de vista, a liberdade chega a absorver a autonomia sindical, mas ambas não se identificam. Em alguns autores, percebe-se que a autonomia sindical aparece como um desdobramento ou mesmo uma forma de expressão da própria liberdade sindical. Na obra de Orlando GOMES e Élson GOTTSCHALK, por exemplo, não há uma seção específica para a autonomia sindical, mas é possível identificar a abordagem do assunto como a liberdade nas relações entre o sindicato de empregados e de empregadores (o reconhecimento da entidade sindical profissional como representante de uma dada coletividade de trabalhadores pelas organizações patronais, como ponto de partida para toda negociação), liberdade do exercício do direito sindical em relação à empresa, liberdade do sindicato em relação ao Estado (o que abrange não só a constituição e adesão dos indivíduos, mas a ação sindical de forma ampla). 105 Igualmente, em Amauri Mascaro NASCIMENTO, percebe-se a questão da autonomia principalmente quando o autor trata da liberdade de organização e liberdade de administração. 106
Entretanto, por motivo didático e pelo que interessa a este estudo como subsídio necessário para o enfrentamento da análise do sindicalismo no período de 1930-1988, será analisado especificamente no item seguinte a autonomia sindical.
103 RUSSOMANO, 1995, p. 68-69.
104 GOMES, Orlando; GOTTSCHALK, Élson. Curso de direito do trabalho. 13. ed. Rio de Janeiro:
Forense, 1994. p. 529.
105 GOMES, 1994, p. 535-536.
106 NASCIMENTO, 1982, p. 95-100.