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2.2 Auditoria interna governamental

2.2.6 Autonomia técnica e objetividade

Ao conceituar a auditoria interna como atividade independente e objetiva de avaliação e consultoria, a Instrução Normativa nº 03/2017 evidenciou os princípios da autonomia técnica ou independência e da objetividade (CGU, 2017a). Erasmus e Coetzee (2018) apontam que esses dois princípios são alguns dos fatores que afetam a efetividade da auditoria interna.

Os princípios da independência e objetividade são regulamentados pelas normas do IIA e no âmbito do SCIPEF. As Normas de Atributos do IIA estabelecem as seguintes orientações mandatórias:

1100 – Independência e Objetividade

A atividade de auditoria interna deve ser independente e os auditores internos devem ser objetivos ao executar seus trabalhos.

Interpretação:

Independência é a imunidade quanto às condições que ameaçam a capacidade da atividade de auditoria interna de conduzir as responsabilidades de auditoria interna de maneira imparcial. Para atingir o grau de independência necessário para conduzir eficazmente as responsabilidades da atividade de auditoria interna, o executivo chefe de auditoria tem acesso direto e irrestrito à alta administração e ao conselho. Isto pode ser alcançado através de um relacionamento de duplo reporte. As ameaças à independência organizacional.

A objetividade é uma atitude mental imparcial que permite aos auditores internos executarem os trabalhos da auditoria de maneira a confiarem no resultado de seu trabalho e que não seja feito nenhum comprometimento da qualidade. A objetividade requer que os auditores internos não subordinem a outras pessoas o seu julgamento em assuntos de auditoria. As ameaças à objetividade devem ser gerenciadas nos níveis do auditor individual, do trabalho da auditoria, funcional e organizacional.

(IIA, 2017, p.3-4)

No âmbito do Sistema de Controle Interno do Poder Executivo Federal, a Instrução Normativa nº 03/2017 adotou o termo autonomia técnica no lugar de independência e manteve a objetividade como princípios fundamentais para a Prática da Atividade de Auditoria Interna Governamental.

A referida norma, ao abordar os princípios da independência e objetividade, estabelece que:

45. Os requisitos de autonomia técnica e objetividade estão associados ao posicionamento da UAIG e à atitude do auditor em relação à Unidade Auditada, com a finalidade de orientar a condução dos trabalhos e subsidiar a emissão de opinião institucional pela UAIG. Para tanto, tem-se como pressupostos que a unidade de auditoria disponha de autonomia técnica e que os auditores sejam objetivos

(...)

47. A autonomia técnica refere-se à capacidade da UAIG de desenvolver trabalhos de maneira imparcial. Nesse sentido, a atividade de auditoria interna governamental deve ser realizada livre de interferências na determinação do escopo, na execução dos procedimentos, no julgamento profissional e na comunicação dos resultados.

(...)

50. Os auditores internos governamentais devem atuar de forma imparcial e isenta, evitando situações de conflito de interesses ou quaisquer outras que afetem sua objetividade, de fato ou na aparência, ou comprometam seu julgamento profissional.

(CGU, 2017a, p.10-11)

Conforme se depreende das normas supracitadas, a autonomia técnica ou independência se refere à capacidade de atuação da unidade de auditoria interna livre de interferências. Já a objetividade está associada à atitude imparcial e isenta do auditor (IIA, 2017; CGU, 2017a).

Por se tratarem de atributos indissociáveis da auditoria interna, caso ocorram eventuais interferências que envolvam esses princípios, tanto as normas internacionais quanto as do âmbito do SCIPEF tratam esses casos como ameaças, sendo necessário reportar tais situações (IIA, 2017; CGU, 2017a).

A Instrução Normativa nº 03/2017, inclusive, prescreve que deve ser evitada qualquer situação que interfira na objetividade, “de fato ou na aparência”

(CGU, 2017a, p. 11). Sendo assim, a norma estabelece situações em que os auditores devem declarar impedimento ou se abster e, caso haja dúvida sobre possíveis interferências, “devem buscar orientação junto aos responsáveis pela supervisão do trabalho ou à comissão de ética ou instância similar, conforme apropriado na organização” (CGU, 2017a, p. 11).

De acordo com o IBGC (2018), a ocorrência dessas interferências ou pressões sobre o trabalho da auditoria interna é uma questão importante e não pode ser tratada como trivial, já que acontece com mais frequência do que se imagina. Por conta disso, informa que

O estudo The Politics of Internal Auditing, divulgado pelo Institute of Internal Auditors Research Foundation (IIARF) em 2016, mostrou que 55% de líderes de auditoria interna sofreram pressões para omitir ou modificar achados de auditoria pelo menos uma vez na carreira, sendo que 17% indicaram que estas pressões aconteceram três vezes ou mais. Outras formas de pressão relatadas foram para não auditar áreas consideradas de elevado risco ou para investigar áreas de baixo risco como forma de retaliação pessoal a outro executivo. Foram entrevistados mais de quinhentos líderes de auditoria (chief audit executives – CAE) dos Estados Unidos para o estudo. (IBGC, 2018, p. 32).

Como visto no subtópico 2.2.5, a auditoria interna evoluiu conceitualmente, ao longo da história, o que promoveu a expansão das atividades e responsabilidades desempenhadas pela auditoria interna e auditores.

Diante desse cenário, surgem alterações na compreensão e na execução dos serviços tradicionalmente prestados pelos auditores, o que pode levar ao aumento de ameaças à objetividade e independência (HASS; ABDOLMOHAMMADI; BURNABY, 2006).

Sobre isso, Leung, Cooper e Wong (2006) evidenciaram, em seu estudo na Ásia, que ainda existe confusão quanto à independência dos auditores internos, por conta da definição complexa de auditoria interna, que abrange as expectativas envolvendo o papel de consultoria e assessoria. Em razão disso, os autores concluíram que os auditores internos apresentam dificuldades para equilibrar a independência em ambas as funções.

Por outro lado, Humphrey (1997) descreveu que a questão da independência leva ao cerne do debate das expectativas envolvendo à auditoria. Concluindo, Hoos et al. (2013) definem que a auditoria interna sempre atuará em

domínio contraditório, de um lado, fazendo parte da organização e, por outro, tentando permanecer independente e objetiva para poder melhorar a eficácia dessa.

Em razão disso verifica-se a importância do gerenciamento das expectativas das partes interessadas, a fim de evitar ou mitigar inclusive as possíveis ameaças aos princípios da autonomia técnica e objetividade.