2 FUNDAMENTOS METODOLÓGICOS
3 OS DADOS PRELIMINARES E OS NÍVEIS MACRO E MICRO ESTRUTURAL
3.2 NÍVEIS MACRO E MICRO-ESTRUTURAL
3.2.2 O AUTOR JORGE AMADO E A MARCA DA ORALIDADE EM SUA OBRA
[...] Teve, pois, forçosamente, que subverter as estruturas estabelecidas da língua literária, adaptando-a às suas necessidades”(5). Essa atitude desagradou naturalmente os puritanos senhores da gramática. Mas era a única possível e aconselhável a escritor que logo de início se apresentava como um construtor de estilo. Idêntico fenômeno sucedeu com Jorge Amado quando, lúcido da tradição culta em que se inscrevia, porém manipulando formas, gêneros e linguagem da literatura oral, levantou seu edifício estilístico, que violentaria certamente a paisagem convencional. Extraindo elementos do nosso romanceiro popular e construindo uma frase modulada pelo ritmo do coloquial urbano e rural, Jorge Amado logo se distinguiria como proprietário de um estilo radicalmente seu. [...]15
Na tentativa de eliminar o artificialismo dos textos simbolistas e parnasianistas, moldados nos padrões europeus, e fornecer ao público uma literatura mais brasileira, Jorge Amado não apenas fez do povo o personagem principal dos seus romances, como também utilizou seus dialetos, expressões e gírias. Esse linguajar popular, extraído do convívio direto com os que estavam à margem da sociedade, mais especificamente as minorias, sempre aparece em suas obras, acompanhado de certa dose de lirismo. Essa presença lírica, em seus livros, está intrinsecamente relacionada à miséria, na qual vivem os seus personagens, e tem a função principal de amenizar a cruel realidade de suas vidas.
15
A decisão de incluir, em sua obra, os falares dos pobres e miseráveis com seus “erros gramáticais” (grifo meu) foi alvo de muito preconceito lingüístico por parte dos acadêmicos e leitores comuns, chegando-se, até mesmo, a questionar-se a validade de sua obra para as letras brasileiras. Ancorada em preconceitos lingüísticos e considerando indissolúveis os elos que unem a língua à gramática tradicional, a crítica da literatura amadiana falhou em perceber a riqueza estilística presente nos livros do autor, não apenas considerando a sua literatura estéticamente pobre16 como também ignorando as matrizes culturais que servem de sustentação à sua narrativa. Tais matrizes culturais incorporam esquemas de aventura e heroísmo presentes no cordel e no folhetim, no melodrama, na novela radiofônica e no cinema17.
Apesar desse fato, parece que a obra de Jorge Amado tem se valorizado cada vez mais com o passar dos anos, tanto nacionalmente quanto no exterior. No Brasil, o relançamento da obra do autor deu-se em março deste ano (2008) e deverá se estender até 2011, de acordo com informações contidas no site da Companhia das Letras. Sua importância também se faz sentir no interior das instituições acadêmicas na medida que seus pesquisadores freqüentam assiduamente a Fundação Casa Jorge Amado, no intuito de colher dados sobre a obra amadiana. Internacionalmente, Jorge Amado é o mais universal de nossos autores18, possuindo traduções em 55 países e em 49 idiomas19. É, também, o escritor brasileiro mais vendido no exterior. Podemos afirmar, assim, que a literatura amadiana é uma das grandes responsáveis por difundir os valores culturais brasileiros no exterior. Valores estes originados e fortemente arraigados na Bahia, oferecendo a Bahia ao Brasil e o Brasil ao exterior. (GOLDSTEIN, 2000).
Apesar de todo o reconhecimento internacional, Jorge Amado (1961, p.20) afirma que:
Nunca desejei ser senão um escritor de meu tempo e de meu país. Não pretendi e não tentei nunca fugir ao drama que nos coube viver, de um mundo agonizante e um mundo nascente. Não pretendi nem tentei jamais ser universal senão sendo brasileiro e cada vez mais brasileiro. Poderia mesmo dizer, cada vez mais baiano, cada vez mais um escritor baiano [...]20
16
Paulo Bezerra. Prefácio do livro Jorge Amado: romance em tempo de utopia
17 Paulo Bezerra. Prefácio do livro Jorge Amado: romance em tempo de utopia 18 Martins Editora. Jorge Amado: trinta anos de literatura. pag. 192
19 Revista Língua Portuguesa 20
Jorge Amado nasceu no dia 10 de agosto de 1912, na localidade de Ferradas, hoje município de Itabuna/ BA. Sua infância fora marcada por lutas, muitas vezes, acompanhadas de morte, que tinham como principal objetivo a conquista de terras para o plantio de cacau. Todas essas lutas que Jorge Amado viveu e presenciou apareceriam em suas narrativas num misto de documento, poesia e história.
A oposição entre os participantes dessas lutas, tenham elas ocorrido nos cacauais, entre jagunços e coronéis, ou nas fábricas, entre os operários e seus patrões, seria um tema bastante recorrente em grande parte da sua obra. Essa dupla polarização seria a grande mola propulsora dos seus romances e culminaria, quase sempre, com a conscientização e o engajamento dos personagens em atos de protesto.
O engajamento político do escritor com o Partido Comunista, no mundo real, e o desenvolvimento de uma consciência política nos personagens, ao final das suas narrativas ficcionais, contribuíram para que alguns autores dividissem a sua obra em duas fases: uma primeira fase de denúncia social e uma segunda fase que se iniciaria com a publicação do seu livro Gabriela, cravo e canela. Entretanto, o escritor Jean Roche (1987) afirma que, se há alguma mudança, a partir da publicação deste livro, na escrita amadiana, esta se refere ao aprimoramento das qualidades de romancista do escritor. È o próprio autor que, num desabafo contra uma crítica esquerdizante, anula essa divisão da sua obra quando expõe em seus dizeres que,
[...] acreditando na idéia de que até certo momento eu teria feito uma obra revolucionária, de denúncia social, para um amanhã melhor, uma nova era, uma obra ao lado do povo, e que de repente eu teria modificado minhas posições, abandonado minha atividade militante do Partido!... Eles não diziam explicitamente que era por isso. Diziam que a obra se tornara folclórica, que era a negação da obra passada, não sei mais o quê, como se os elementos da vida, do folclore, não estivessem presentes em livros como
Jubiabá, Mar Morto, a presença de Iemanjá, do candomblé, etc., ou em Capitães da areia... Tudo isso é uma tolice incomensurável. Mas perdura até
hoje: as duas obras, a do início, revolucionária, denunciando a injustiça social, e a outra. Não, minha obra é uma unidade, do primeiro ao último momento. Só se pode dizer que existe, no início, uma profusão do discurso político, correspondendo ao que eu era então.21
A respeito dessa divisão temática na obra de Jorge Amado, o professor Luciano Rodrigues Lima, professor adjunto da UFBA e professor Titular da UNEB, propõe, em artigo22 publicado no site da UNEB, a presença de quatro grandes temáticas ao longo de
21 Raillard, Alice. Conversando com Jorge Amado. 1992, p. 266
22 De como Jorge Amado, da Bahia, navegou, por tanto tempo, fora do alcance dos canhões sem mira da
toda a obra do autor, são elas: o realismo socialista, a poetização da afrobaianidade, o canto épico do Cacau e as utopias individuais e pós-ideológicas que contém ressonâncias do realismo mágico latino-americano onde se inserem as obras: A morte e a morte de Quincas Berro D’água, Dona Flor e seus dois maridos, Tereza Batista Cansada de Guerra e Tieta do Agreste. Quanto à obra que está no cerne do nosso trabalho, Capitães da Areia, o referido professor afirma que ela possui elementos temáticos concernentes ao realismo socialista e à poetização da afrobaianidade.
Ao completar quinze anos, Jorge Amado passa a morar em um casarão situado na Ladeira do Pelourinho, número 68, atual hotel Pelourinho. Data desse tempo o florescimento da consciência do autor acerca dos problemas econômicos e sociais enfrentados pelas minorias. Segundo o próprio escritor:
[...] ao contato com o povo mais pobre, mais marcado, mais perseguido. Assim eu cresci. Assim aprendi a vida baiana. Essa juventude tão livre, dentro de intimidade tamanha com a vida baiana, a vida popular baiana, faria com que esse cenário da Bahia e o povo da Bahia fossem, praticamente, os temas de toda obra que eu criei em minha vida de romancista.23
Não é à toa que seu terceiro romance, intitulado Suor, tem como personagem principal esse casarão situado numa das Ladeiras mais pobres da cidade24 da Bahia, onde se refugiam as prostitutas, os mendigos, os vagabundos e todos os que se situam à margem da sociedade. De acordo com Jacques Salah (2008) as ruas que mais aparecem na literatura amadiana, a Ladeira do Pelourinho e a Ladeira do Tabuão, são as mais miseráveis, consideradas, também, as mais misteriosas do Centro da cidade. Segundo o autor, a presença destas ruas na obra amadiana invocaria, implicitamente, as idéias de poesia, liberdade e aventura.
A crítica literária amadiana é bastante polêmica quando se trata do início da carreira do escritor. Enquanto alguns críticos só consideram iniciada sua literatura com o romance Jubiabá (1935), outros consideram as suas três primeiras obras de grande valor literário. O fato é que o próprio Jorge Amado marca o começo da sua literatura a partir de Jubiabá, em 1935, sendo os livros anteriores considerados, pelo escritor, “apenas cadernos de aprendiz de romancista” (DUARTE, 1995). É a partir deste livro
23 Depoimento dado num artigo de jornal Record do Rio de Janeiro de 1978. FCJA
24 Como a chamavam no tempo de Jorge Amado. Os velhos baianos, como ele, ainda hoje dizem Cidade
da Bahia ou Cidade de Salvador da Baía de Todos os Santos, seu nome completo. (RAILLARD, 1992, p.31)
que se originarão os dois livros posteriores do romancista: Mar Morto e Capitães da Areia, numa espécie de entrelaçamento entre as obras.