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2 FUNDAMENTOS METODOLÓGICOS

3 OS DADOS PRELIMINARES E OS NÍVEIS MACRO E MICRO ESTRUTURAL

3.2 NÍVEIS MACRO E MICRO-ESTRUTURAL

3.2.3 O TEXTO DE PARTIDA E SEUS DIÁLOGOS METATEXTUAIS

Os romances de motivação baiana, Jubiabá, Mar Morto, Capitães da Areia, além de semelhante configuração estilística, identificam-se pelo esfôrço comum de projeção de tôda a grande e múltipla temática da cidade [...]. A Bahia, a cidade da Bahia é o principal e absorvente personagem. Em tôrno dela, e como uma constelação sua, se ergue uma série de outros temas, a maioria dos quais de contextura ética [...]25

Em Capitães da Areia, a cidade da Bahia é o grande cenário determinante das ações dos personagens, chegando a ser a verdadeira autora do romance. Queimado em praça pública, no momento do seu lançamento, esse romance trataria de um assunto inédito, até então, na chamada literatura de 1930, a infância abandonada.

Apesar de ter como tema central a infância abandonada, Capitães da Areia ainda comporta uma série de outros temas que são recorrentes em toda a obra amadiana. Tais temas serão, aqui, abordados na medida que se revelam as partes que integram a narrativa. Entretanto, relembraremos ao leitor que, antes de iniciar a narrativa, Jorge Amado utilizou o recurso do prólogo, onde a escrita das autoridades contrasta com a da mulher do povo. As “cartas à redação” mostram uma sociedade desigual e polarizada, na qual ricos se opõem a pobres, opressores a oprimidos e consentidos a rejeitados.

A primeira parte da narrativa de Capitães da Areia, “Sob a Lua num velho trapiche abandonado”, tem como objetivo maior apresentar o romance e a biografia das principais personagens. Já no título podemos identificar a palavra lua que invoca um elemento muito recorrente em toda a obra amadiana - a noite. A importância deste elemento deve-se ao espírito de desordem, devaneio e mistério que ela evoca preenchendo a narrativa com lirismo e poesia (SALAH, 2008).

Alguns capítulos desta primeira parte serão mencionados em razão de conterem informações essenciais à compreensão do nosso trabalho. Outros, entretanto, serão omitidos já que apresentam elementos recorrentes. Já no primeiro capítulo, o Trapiche, o escritor utiliza, freqüentemente, elementos líricos ligados à natureza: mar, lua, ondas, oceano, noites, estrelas, o cais e o areal, numa tentativa de permear a narrativa de

25 PORTELLA, E. A fábula em cinco tempos. Prefácio do livro Jorge Amado: trinta anos de literatura,

imagens líricas. Neste capítulo, temos, também, a apresentação do personagem principal Pedro Bala, menino abandonado que nunca conhecera sua mãe e cujo pai morrera numa greve atingido por uma bala da qual se originará seu apelido. Os apelidos, traços marcantes dos Capitães da Areia, são atribuídos em virtude de um gesto, uma fala ou um defeito físico logo que o integrante passa a fazer parte do grupo.

É somente a partir do segundo capítulo, Noite dos “Capitães da Areia”, que seremos introduzidos aos demais personagens e conheceremos o papel que cada um desempenha dentro da narrativa. O negro João Grande invoca o tema da negritude. O Sem-Pernas, coxo, atormentado pelas gargalhadas e surras da polícia, tem a função de despertar a piedade das senhoras em troca de comida e estada, para depois indicar aos Capitães da Areia onde são guardados os objetos de valor das residências. O Gato invoca a marginalidade urbana, o tipo vigarista. O Boa-Vida invoca a malandragem. O Professor, que só furtava livros, invoca para a narrativa a figura dos contadores de estórias presentes no cordel. O Pirulito consegue se ordenar padre, graças ao auxílio do Padre José Pedro. O Querido-de-Deus invoca a herança da cultura afro-brasileira no Brasil, já que, além de praticar capoeira, ainda é ogã no candomblé de Gantois. O Volta Sêca invoca o grupo de Lampião, que diz que é seu padrinho. E, por fim, o Padre José Pedro, representante da igreja católica, e a mãe-de-santo Don´Aninha, representante da religião afro-brasileira, a quem os personagens recorrem quando estão doentes.

É interessante notar a relação lírica com que o autor vai descrevendo os personagens e os ambientes onde se desenrolam as suas ações. Todo este lirismo atinge seu ápice, por exemplo, no quarto capítulo, As Luzes do Carrossel. Nesse capítulo, o Carrossel parece conter uma espécie da magia que encanta a todos que o vêem. Em virtude da presença dele em certo vilarejo, Lampião e seu grupo, ao avistá-lo, não saqueam a cidade, nem defloram as moças e matam os homens, práticas comuns aos cangaceiros. Eles esquecem totalmente a realidade e se entregam a um mundo de pureza e fantasia no qual são crianças novamente. Fato semelhante ocorre com os Capitães que, ao rodar no Carrossel, se sentem iguais aos outros, meninos que tem o aconchego de um lar para retornar e uma família que os protegem e alimentam.

No quinto capítulo, Docas, delineia-se, de forma muito nítida, a oposição entre a cidade alta e a cidade baixa, os pobres e os ricos e a terra e o mar. Pedro Bala, personagem principal, toma conhecimento que seu pai, um grevista, lutara a favor dos homens que trabalhavam no cais. Sua mãe, mulher rica da cidade alta, morrera quando Pedro Bala ainda tinha seis meses de vida. A oposição entre a terra e o mar é, também,

ficcional, na medida em que o capoeirista Querido de Deus, que também é pescador, retorna ao cais onde aguardam Pedro Bala e Boa-vida.

O sexto capítulo, Aventura de Ogum, traz para a narrativa a problemática dos candomblés. Representando uma religião adotada pelas minorias e que faz oposição à religião oficial, os candomblés foram perseguidos pela polícia cujo interesse era sua total extinção. Entretanto, os candomblés se revelaram um verdadeiro tesouro para a ficção amadiana com seus misteriosos ritos e modos de pensar e de agir.

No décimo capítulo, Alastrim, ocorre um dos pontos mais críticos de toda a narrativa. O Cônego do Arcebispado acusa o padre José Pedro de ser cúmplice dos Capitães da Areia e o chama de comunista. O Cônego disse ter tido reclamações de uma das viúvas mais protetoras da religião baiana cujos donativos eram enormes. Esse capítulo traz algumas reflexões feitas pelo Padre José Pedro, nas quais ele cogita a possibilidade de Jesus Cristo ser um comunista e sente a aprovação do senhor às suas idéias e atitudes em relação aos Capitães da Areia.

Na segunda parte da narrativa, “Noite da grande paz, da grande paz dos teus olhos”, mais dois personagens integram o bando dos Capitães da Areia: Dora e Zé Fuinha, seu irmão. Se, na primeira parte a poesia parece estar diluída na narrativa, nesta segunda parte ela se concentra na personagem de Dora. No primeiro dia que chega ao trapiche, Dora trata gentilmente os Capitães ajudando-os nos afazeres domésticos, costurando as roupas deles e curando suas feridas. A maioria deles passa a considerar Dora como uma mãe e irmã, só o Professor e Pedro Bala nutrem sentimentos de amor por ela. Dora, por sua vez se encanta por Pedro Bala. No capítulo, Dora, irmã e noiva, Dora decide participar das aventuras diárias dos Capitães da Areia. Essa coragem faz com que o personagem Sem-Pernas a compare a Rosa Palmeirão, que continha a fragilidade de Maria Bonita e a coragem de Lampião (SALAH, 2008).

Ainda nessa segunda parte da narrativa temos, também, a captura dos personagens de Pedro Bala e Dora. Pedro vai para o reformatório e Dora para o orfanato. Após sofrer inúmeros maus tratos, Pedro Bala consegue fugir do reformatório e resgata, com a ajuda de outros Capitães da Areia, Dora, já muito doente e ardendo em febre, do orfanato. Eles levam Dora ao trapiche. Pedro Bala a possui, faz de Dora sua esposa. De madrugada, percebe que Dora está morta. O corpo é levado à Iemanjá no saveiro do capoeirista e pescador Querido-de-Deus. Pedro Bala nada atrás do saveiro do Querido-de-Deus e parece presenciar o momento em que Dora, moça valente, vira estrela no céu.

Na última parte do livro, “Canção da Bahia, canção da liberdade”, todos encontram seus destinos. O Professor vai estudar com um pintor famoso no Rio de Janeiro. O Pirulito torna-se Irmão Franciscano da Sagrada Família. Boa Vida tornou-se malandro vagando pelas ruas da cidade com seu violão. Gato vai para Ilhéus com Dalva. Volta Seca integra o grupo de Lampião. O Sem-Pernas, numa perseguição policial, se joga do Elevador Lacerda. João Grande embarca num navio cargueiro do Lóide como marinheiro. O título do penúltimo capítulo, Os atabaques ressoam como clarins de guerra, já invoca a força que dirige Pedro Bala à luta social. O engajamento de Pedro Bala culmina quando a organização dos fura-greve decide que ele irá organizar outro grupo de meninos abandonados, os Índios Maloqueiros de Aracaju.