4. Análise do processo
4.1. Avaliação e controlo de treino
A avaliação e o controlo de treino revestem-se de extrema relevância. Nas tabelas que se seguem, iremos analisar a época desportiva com alguma profundidade relativamente à assiduidade dos atletas, comparando-a com o tempo de jogo de que estes dispõem durante a competição. O tempo de jogo a que cada atleta tem direito durante a competição é importante, pois, nestas idades de formação, todos têm o direito a jogar. No entanto e a meu ver, cada um terá de merecer esse tempo de jogo, quer pelas suas capacidades globais,
42 quer pelo tempo que este cumpre no treino. Vale a pena referir que a competição é de extrema valia nos jovens em formação.
Na equipa em apreço no presente estudo, existiam 29 atletas e usufruiu-se de uma gestão do plantel de forma equitativa, de modo a atingir os objetivos da formação desportiva.
ATLETA 1º VOLTA 2º VOLTA
Tempo de jogo % Assiduidade % Tempo de jogo % Assiduidade % A 34,20 79,00 16,79 72,40 AT 25,54 77,25 0,98 23,20 BG 8,66 90,00 10,63 32,00 DF 41,07 35,75 82,86 91,80 FM 57,41 89,00 44,64 63,00 FB 44,55 78,00 10,71 66,40 FC 15,00 100 14,46 86,00 F 79,20 100 58,66 95,00 FL 54,11 35,75 87,32 90,00 GP 23,21 33,45 83,84 89,90 JG 40,54 90,00 21,43 72,80 JO 21,79 60,00 40,09 78,00 J 36,61 86,00 43,84 66,40 JP 87,77 96,25 72,50 89,40 JR 69,29 92,00 38,13 59,00 JM 4,91 79,25 6,79 64,20 JR 59,11 98,25 61,96 82,20 LS 20,89 12,50 57,95 43,80 ML 18,48 91,75 66,52 96,40 MA 25,36 79,00 0,00 0,00 MC 58,84 100 35,89 98,40 PF 30,45 35,75 83,57 100 PL 26,88 77,00 0,00 0,00 PT 7,14 42,25 8,57 56,40 RS 82,05 92,50 25,45 38,60 RB 80,54 91,00 53,93 88,00 RC 41,79 26,50 67,68 60,20 TP 21,79 74,50 0,00 11,60 TV 17,23 68,75 7,14 18,00
Tabela 3: Tempo total de tempo de jogo e da assiduidade dos atletas na 1ª volta e na 2º volta em
43 Como podemos observar na tabela 3, na 1.ª volta do campeonato, todos os jogadores obtiveram tempo de jogo, porém, obviamente uns mais do que outros. O atleta JP foi aquele que auferiu mais tempo de jogo, totalizando 87,77% de tempo de jogo total durante a primeira volta. Este jogador era dos que trabalhava melhor e dos mais importantes na estratégia da equipa. Quanto à assiduidade deste, esta era evidentemente bastante elevada, com 96,25%. Já do lado oposto, o jogador que menos tempo de jogo obteve foi o JM, com 4,91% do tempo total. Este era um atleta com algumas lacunas ao nível técnico- tático e, comparando com a assiduidade, também pertencia ao grupo dos que mais faltavam aos treinos, com apenas 79,25% de assiduidade, pelo que o seu tempo de jogo é justificado.
Na 2.ª volta, o atleta FL foi quem mereceu mais tempo total de jogo, com 87,32%, o que vai ao encontro da sua assiduidade de 90%. Este tornou-se, todavia, indispensável na equipa durante a fase final de época. Em contraste, o jogador que menos tempo jogou correspondeu ao AT, com 0.98% de tempo total: facto que se deveu à sua pouca assiduidade, com 23,20% de presença nos treinos, relativamente à 2.ª volta, pelo que obteve menos tempo de jogo.
O tempo de jogo de cada atleta foi realizado através de uma gestão do plantel ao nível não só da prestação e da necessidade da equipa, mas também dos comportamentos e da assiduidade de cada um, dado que a presença no treino não significa necessariamente a existência de treino de qualidade.
Segundo Marques (2004), a competição constitui um elemento de estímulo crucial no jovem em formação, por permitir a expressão das habilidades aprendidas durante o treino.
44 As competições decorrem fora do contexto de influência direta e imediata dos treinadores, constituindo uma experiência insubstituível ao nível da tomada de decisões e da autonomia de que os participantes dispõem para assumir em cada contexto.
De acordo com Costa (2009), os atletas terão de merecer o tempo de jogo que lhes é presenteado em competição, sem nunca descurar de jogadores com menos potencial naquela fase.
Na próxima tabela, iremos analisar os conteúdos que receberam mais importância na época desportiva aos níveis quer físico, quer psicológico, quer cognitivo, bem como a diferença entre o grau do volume de treino planeado e volume de treino real.
FÍSICO 1ª VOLTA 2ª VOLTA VTP VTR VTP VTR Recuperação Ativa 3,34 3,34 0,00 0,00 Força Específica 21,99 20,86 38,55 36,45 Resistência Específica 54,53 55,66 35,12 37,22 Velocidade Específica 10,44 10,41 13,26 13,25 Aquecimento Geral 9,70 9,73 13,08 13,09 PSICOLÓGICO Regras no Treino 2,06 2,06 0,00 0,00 Valores 2,06 2,06 0,00 0,00 Jogos Lúdicos (Criação
Grupo/Equipa) 36,02 36,07 42,73 42,76 Motivação 36,02 36,04 42,73 42,70 Gestão Material 2,06 1,09 0,00 0,00
Concentração 21,76 21,76 14,53 14,53
Tabela 4: Conteúdos físicos, psicológicos e cognitivos planeados/realizados durante a época em
45 Como podemos observar na tabela 4, ao nível físico, o conteúdo que recebeu mais atenção na 1.ª volta foi a resistência específica, tendo em conta que estes conteúdos físicos se encontram inseridos dentro dos exercícios que foram delimitados na aquisição do modelo de jogo. Já na 2.ª volta, a força e a resistência específicas encontram-se dentro do mesmo tempo total de treino. Este facto ocorreu, pois, na 1.ª volta. Utilizámos um número maior de exercícios com um cariz resistente por ser o início da época. No que diz respeito à 2.ª volta, este diminui; apenas tivemos de manter os níveis de competitividade física. Ao nível psicológico, os aspetos que receberam mais importância, quer na 1.ª, quer na 2,ª volta, equivaleram aos conteúdos de motivação e coesão do grupo/equipa. Na 2.ª volta, aferiu-se um aumento desses conteúdos de 36,04% para 42,70%. A fase final da época revestiu-se de maior relevo ao nível motivacional, enquanto forma de se atingir objetivos definidos.
A motivação e os motivos não se apresentam lineares nem possuem o mesmo significado. A motivação tem como origem etimológica o verbo latino “movere”, que surge como uma força interna ou externa que nos leva a desenvolver uma determinada ação. A intensidade desta ação irá variar de pessoa para pessoa. Motivo provém, por seu lado, do étimo latino “motivum”, que significa “uma causa que põe em movimento”, relacionada com os impulsos do ser humano relativamente a uma tarefa(Buonamano, 1995; Weinberg et al., 2000).
Alguns estudos recentes têm vindo a generalizar a área da motivação como uma componente que não se rege apenas por forças internas, mas que depende também de fatores externos ao indivíduo, nomeadamente do contexto social e cultural de inserção(Vallerand & Losier, 1999; Gagne & Deci, 2005).
46 A motivação encerra grande importância, num grupo ou equipa, podendo conduzir esta coletividade ao sucesso.
Na próxima tabela, iremos analisar os momentos de jogo que mais importância receberam ao longo da época, pois estes possuem um cariz relevante durante o jogo, tendo sido trabalhados consoante o modelo de jogo pretendido.
MOMENTOS DE JOGO em % 1ª VOLTA 2ª VOLTA VTP VTR VTP VTR Organização Ofensiva 34,77 36,92 26,85 31,07 Organização Defensiva 17,97 5,82 21,75 19,73 Transição Ofensiva 23,02 21,02 24,12 23,53 Transição Defensiva 19,31 21,28 22,16 20,64 Esquemas Táticos 4,93 4,96 5,12 5,02
Tabela 5: Momentos de jogo planeados/realizados durante a 1º volta e 2º volta em percentagem
Como podemos observar pela tabela 5, o momento de jogo mais trabalhado durante a época, seja na 1.ª, seja na 2.ª volta, correspondeu à organização ofensiva, com 36,92% na 1.ª volta e 31,07 na 2.ª volta. Nos esquemas táticos foi dedicado 4,93% deste na 1.ª volta e 5,12% na 2.ª.
A organização ofensiva, como parte fulcral da fase de jogo de caráter ofensivo, possui uma importância considerável.
Como assevera Oliveira (2004), o modelo de jogo assume um papel nuclear no nosso processo de treino. Tendo em conta a tabela acima, podemos observar que recaiu uma maior ênfase no ataque em detrimento da defesa, tanto na 1.ª quanto na 2.ª volta da época. Isso assim se realizou pelo facto de, no decorrer da época desportiva, eu ter julgado necessário atribuir mais importância à organização ofensiva, tendo em conta tudo o que foi referido anteriormente, na revisão da literatura, em relação à criatividade dos atletas.
47 Na próxima tabela, iremos analisar os princípios e os subprincípios de cada momento de jogo e aquele a que foi dada mais importância ao longo da época desportiva.
MICROTÁTICO em %
PRINCÍPIOS E SUBPRINCÍPIOS DA ORGANIZAÇÃO OFENSIVA
1ª Volta 2ª Volta
VTP VTR VTP VTR
Manutenção da Posse de Bola 26,80 29,80 20,37 24,21 Manutenção/Construção Ações Ofensivas 14,64 11,64 12,94 13,95 Aceleração do Jogo 11,07 10,07 8,24 9,93 Articulação dos Sectores 11,07 12,07 8,24 9,93 Variação do Centro de Jogo 13,80 12,80 8,17 11,53 Mobilidade e Criatividade 9,94 10,43 19,26 13,70 Eficácia na Finalização 12,67 13,08 22,79 16,75
PRINCÍPIOS E SUBPRINCÍPIOS DA ORGANIZAÇÃO DEFENSIVA
VTP VTR VTP VTR
Contenção e Pressão Alta 25,00 25,00 25,00 25,00 Redução de Espaços 25,00 25,00 25,00 25,00 Linha Defensiva Alta 25,00 25,00 25,00 25,00 Guarda-Redes e a cobertura da linha defensiva 25,00 25,00 25,00 25,00
PRINCÍPIOS E SUBPRINCÍPIOS DA TRANSIÇÃO OFENSIVA
VTP VTR VTP VTR
Largura e Profundidade 34,22 36,42 41,35 37,64 Velocidade de Transição 34,22 32,02 38,25 36,15 Cobertura Ofensiva 15,84 15,34 10,20 13,14 Criação de linhas de passe em profundidade e para diferentes
corredores 15,72 16,22 10,20 13,07
PRINCÍPIOS E SUBPRINCÍPIOS DA TRANSIÇÃO DEFENSIVA
VTP VTR VTP VTR
Criação de superioridade numérica
42,37 41,35 44,79 43,58 Oscilações em função da bola tendentes a reduzirem espaços de
penetração 26,44 27,45 43,36 34,93 Defesa em Diagonal e em Pirâmide 31,19 31,20 11,85 21,49
Tabela 6: Princípios e subprincípios dos momentos de jogo planeados/realizados durante a 1ª volta e a 2ª
48 Como se torna passível de verificar na tabela 6, entre os princípios e os subprincípios da organização ofensiva, o mais relevante correspondeu à manutenção da posse de bola. Tal como afiança Cruyff (1999), se tivermos a bola, gozamos de mais hipóteses de marcar e de sofrer menos golos. Este facto deve-se às características da nossa equipa e dos nossos jogadores em particular, pois estes tinham, além de uma boa relação com a bola, a capacidade de a fazer circular sem grande dificuldade. O nosso modelo de jogo tinha, assim, como aspeto principal esse princípio muito bem definido.
No que diz respeito à organização defensiva, todos os princípios e subprincípios tiveram a mesma importância, nomeadamente a contenção e pressão alta; a redução de espaços; a linha defensiva alta e o guarda-redes e a cobertura da sua linha defensiva.
Na transição ofensiva, o princípio que mais tempo treinámos equivaleu ao da largura e da profundidade, bem como a velocidade de transição após a perda da bola, pois quanto mais rapidamente se partir para o ataque ao adversário, menos tempo este terá para se recompor ao nível defensivo, implicando mais danos para esta equipa.
Na transição defensiva, conferimos mais importância à superioridade ou igualdade numérica após a perda de bola, que terá também relação com a velocidade com que os nossos jogadores reagem a esta perda de bola. Se tivermos, relativamente ao adversário, um maior número de jogadores para podermos defender, disporemos de maior probabilidade de recuperar a bola. Segundo Campos (2008), há que acreditar que o nosso “jogar” é tudo o que caracteriza aquilo que nos pode levar ao sucesso e é sobre ele que devemos atuar e todo o nosso modelo não poderá ser separado. Nas palavras de Morin
49 (2001, p.8), “[a] complexidade indica que conhecimentos simples não ajudam a
conhecer as propriedades do conjunto. Trata-se de uma constatação banal, que no entanto tem consequências bem relevantes: a tapeçaria é mais do que a soma dos fios que a constituem. O todo é mais do que a soma das suas partes quando o entendemos como uma estrutura complexa”.
Na tabela que se segue, iremos analisar relativamente a forma dos exercícios, sejam estes fundamentais sejam complementares, aos quais mais importância se reconheceu durante o processo e o controlo de treino durante a época desportiva. FORMAS em % 1ª Volta 2ª Volta VTP VTR VTP VTR Fase I 3,27 3,25 0,00 1,57 Fase II 24,91 24,93 21,75 23,27 Fase III 38,47 38,41 41,95 40,28 Complementares 33,35 33,41 36,30 34,88
Tabela 7: Formas dos exercícios planeados e realizados durante a 1ª volta e 2ª volta em percentagem
Como podemos observar na tabela 7, na 1.ª volta utilizámos 38,47% de exercícios de fase III, 33,35% de exercícios complementares e 24,91% de fase II.
Durante a época desportiva, a nossa equipa utilizou um número maior de exercícios de fase III e complementares, pois estes foram reconhecidos como os mais adequados tendo em conta o que se pretendia para a equipa e aquilo de que esta necessitava naquele contexto. Temos de considerar algo deveras essencial: segundo Pacheco (2004), os exercícios de oposição e cooperação são aqueles que mais servem o interesse dos jovens atletas no treino desportivo, pois vão ao encontro do que é pretendido.
50 A próxima tabela diz respeito à execução do modelo de jogo em si num contexto prático, designadamente aferindo se os atletas realizam ou não o pretendido no modelo de jogo.
Esta tabela possui no entanto um cariz subjetivo, visto que não poderemos ter em conta todos os aspetos particulares, pois algumas partes não podem ser separadas umas das outras, pois teremos de observar como um todo.
1ª Volta
2ª Volta Princípios e Subprincípios da Organização Ofensiva
Manutenção da Posse de Bola 4 4 Manutenção/Construção Ações Ofensivas 4 4
Aceleração do Jogo 4 4
Articulação dos Sectores 3 4 Variação do Centro de Jogo 3 3 Mobilidade e Criatividade 3 4 Eficácia na Finalização 2 2
Princípios e Subprincípios da Organização Defensiva
Contenção e Pressão Alta 4 5
Redução de Espaços 3 3
Linha Defensiva Alta 4 5 Guarda-Redes e a cobertura da linha defensiva 3 3
Princípios e Subprincípios da Transição Ofensiva
Largura e Profundidade 4 4 Velocidade de Transição 4 5
Cobertura Ofensiva 4 4
Criação de linhas de passe em profundidade e para diferentes corredores
3 4
Princípios e Subprincípios da Transição Defensiva
Criação de superioridade numérica 3 3 Oscilações em função da bola tendentes a reduzirem espaços
de penetração
3 4 Defesa em Diagonal e em Pirâmide 2 3
Esquemas Táticos 4 5
Inferioridade e Superioridade Numérica
Jogo com 11x10 4 4
Jogo com 10x11 4 4
5- Executam muito bem
Tabela 8: Execução do modelo de jogo
51 4- Executam bem
3- Executam satisfatoriamente 2- Executam com dificuldades 1- Não executam
52