2. Os Estudos de Tradução
2.6 A propósito da avaliação de qualidade na tradução
2.6.3 Avaliação e Qualidade: Diferentes perspectivas
Partindo então da noção básica de “qualidade”, deve assinalar-se que essa é a propriedade ou condição natural de um objecto que nos permite distingui-lo de outros objectos, conforme é definida e registada no Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora (2007). Mas o conceito de “qualidade” está também claramente ligado ao valor que permite identificar isoladamente um objecto e distingui-lo de outros, qualificando a sua essência e existência numa classificação particular, conforme referenciado pelo Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Portanto, “qualidade” é simultaneamente a condição natural de um objecto, por força dos elementos primários que o compõem, mas também é o resultado da conjugação desses elementos primários com os elementos secundários que o constituem, nomeadamente os juízos de valor que são externamente formulados sobre esse mesmo objecto. Daí que a análise de um objecto implique necessariamente aspectos objectivos e subjectivos.
O ideal seria que a quantidade e a catalogação de elementos objectivos fossem suficientes para elaborar uma grelha de referência perante a qual poderiam ser verificadas as componentes do objecto. Depois, e em função dessa grelha, seria possível medir o objecto por comparação com outras grandezas da mesma espécie, que poderiam ser usadas como padrão ou unidades de referência. E, na verdade, há um número significativo de elementos constituintes do objecto a traduzir que podem ser adequada e objectivamente enumerados. Elementos como a data e o formato de entrega, ou o preço a pagar pelo trabalho executado.
Contudo, também é de reconhecer que o texto traduzido, na medida em que é objecto da subjectividade, da análise crítica e da reformulação individual de cada leitor, poderá ser diferentemente interpretado e avaliado por cada um desses potenciais avaliadores/leitores. Na verdade, a confiança e fiabilidade depositadas pelos leitores no texto traduzido que têm à sua frente, enquanto representação ou reprodução do original, parecem ser, efectivamente, os factores determinantes para qualquer avaliação do objecto (Robinson 1997: 8).
Mas será que a avaliação de qualidade da tradução deve contar com a opinião e colaboração dos leitores finais? Porque, de facto, para a grande maioria dos leitores de um texto final traduzido a apreciação baseada na comparação com o texto original tem pouca importância, ou mesmo nenhuma. Com efeito, muitas das eventuais marcas presentes no texto da língua de partida não são reconhecidas por um leitor que apenas observa o texto na língua de chegada, atribuindo a este um valor único. Nesse caso, para o leitor final o factor de comparação ideal são apenas outras obras, semelhantes ou não, e as características intrínsecas das mesmas, sem que seja necessário tomar em consideração a figura do tradutor e sem que este leitor proceda a qualquer avaliação da qualidade da tradução, restringindo-se apenas à análise da qualidade intrínseca da própria obra.
Todavia, a perspectiva do próprio tradutor e dos elementos que dão sequência à execução do projecto de tradução, nomeadamente na sua revisão e correcção, é bem diferente, englobando aspectos complementares, mas inerentes a todo o trabalho conducente à tradução. Estão neste caso as especificações que lhes são solicitadas enquanto clientes primeiros do texto a traduzir, mas também os passos necessários à investigação, recolha, selecção e apresentação de soluções para a tradução, e ainda os que se referem à entrega da própria tradução e aos factores de contabilização da mesma.
Por outro lado, também os inúmeros indivíduos responsáveis pela avaliação e correcção de uma tradução poderão constituir-se como um problema para esta equação,
porquanto não usam um discurso uniforme sobre a tradução, embora se assumam, com frequência, como peritos especializados. A perícia que afirmam ostentar pode resultar muito simplesmente do facto de o texto traduzido se inserir na sua área técnica especializada, mas também porque, muitas vezes, afirmam ter um conjunto de conhecimentos importantes sobre os objectivos do leitor, ou ainda porque entendem ser eles próprios a definir e moldar as características do texto e o respectivo resultado final. Muitas vezes, a lógica de mercado em que baseiam a sua apreciação assenta apenas na produção de obras acessíveis e legíveis, com estratégias de tradução de resistência mínima e naturalidade máxima, conforme afirma Michael Cronin:
The indifference of critics and reviewers to translation questions means that there can be little in the way of quality control for translations as target-language readability is the sole criterion of assessment. (2003: 121)
Nos casos em que a perícia demonstrada e a posição efectivamente ocupada por tais indivíduos são consistentes com a necessidade de leitura e uma boa capacidade de revisão do texto traduzido, antes de este ser apresentado ao leitor final, é natural, e até desejável, que a sua intervenção aconteça. Aliás, a acção por exemplo dos revisores de texto é essencial a um bom trabalho final de tradução e tem sido devidamente comprovada, por autores e tradutores, ao longo dos tempos. Ainda assim, por vezes, tal papel parece sobrepor-se ao do tradutor, correndo o risco de o desresponsabilizar ou descredibilizar, não assumindo, como deveria acontecer, a tarefa complementar de melhoria efectiva do trabalho concretizado. Deve assinalar-se, a esse propósito, a observação incisiva e crítica de Brian Mossop:
And of course, the more revisions you make, the greater the risk that you will introduce error, and make the translation worse. Revisers would do well to take a cue from the Hippocratic Oath doctors take: first, do no harm! (2001: 144)
É notório que há cada vez mais pessoas que usam os textos produzidos pelos tradutores e cada vez mais profissionais que fazem da tradução a sua ocupação principal. Assiste-se mesmo, e cada vez com maior frequência, à passagem da situação do tradutor temporário ou a tempo parcial para a situação em que o tradutor se dedica a tempo inteiro, isoladamente ou em colaboração com muitos outros agentes, a projectos de tradução
diversificados e de grande dimensão. Contudo, no seio da disciplina, a área da avaliação da qualidade da tradução tem sido de alguma forma menosprezada (Hatim & Mason: 1997: 197).
Além disso, é muito frequente os próprios tradutores abdicarem da função de avaliadores das traduções executadas, seja porque assumem a posição inatacável de quem não aceita rectificações ou sugestões de modificação que lhes são propostas pelos revisores ou críticos, seja porque acatam silenciosamente os reparos, admitindo implicitamente os eventuais erros apontados. Há ainda muitas situações em que os tradutores são objecto de todo o género de sugestões e comentários depreciativos ao seu trabalho, em especial nas críticas literárias publicadas nos meios de comunicação social, o que inevitavelmente insinua a fragilidade da posição que deveriam defender e serve para instilar a noção de menor qualidade do tradutor e do seu trabalho.
Tendo em consideração que a maior fatia de textos produzidos na actualidade é proveniente das designadas áreas técnicas (manuais, textos formais, textos comerciais, etc.), seria importante que a criação, desenvolvimento e aplicação de sistemas de avaliação da qualidade das traduções fosse mais fomentada e adequadamente implementada, de maneira a que a verificação desse aspecto pudesse ser uniforme e generalizada. Tal atitude contribuiria ainda para conferir maior legitimidade ao trabalho desenvolvido pelos tradutores e facilitaria o seu reconhecimento público.
O uso de uma terminologia comum e de conceitos unanimemente reconhecidos deveria servir tais propósitos com maior rigor, como tão acertadamente assinalou Louise Brunette, em Towards a Terminology for Translation Quality Assessment (2000: 169-182). Ainda que afirme não pretender ser prescritiva (2000: 180), esta autora procede no texto em causa a uma abordagem cuidadosa, onde aprecia as distinções terminológicas, mas também as diferenças e semelhanças entre diferentes procedimentos de avaliação, desde os de carácter didáctico aos que poderão ser aplicados em situação profissional de cariz editorial, passando pelos procedimentos de avaliação e controlo de qualidade por amostragem (2000: 170-3).
Deve, aliás, reconhecer-se que a determinação rigorosa dos valores associados a qualquer objecto avaliado permite validar a sua existência e características, garantindo aos respectivos utilizadores a necessária confiança para a utilização que dele podem fazer. Para os clientes intermédios – as casas editoras, os agentes literários, as empresas de tradução, etc. –, ou finais – os leitores – a adequação aos objectivos de leitura e de uso dos textos traduzidos permitiria seguramente acrescentar valor ao produto final. Simultaneamente tal
atitude representaria para os tradutores o reconhecimento e a credibilidade que tanto necessitam de alcançar para a actividade que exercem.
Na análise que Susanne Lauscher (2000: 150) fez sobre o contributo que os modelos académicos de avaliação da qualidade na tradução procuraram trazer para esta área, foi devidamente realçada a inadequação de alguns requisitos de tais modelos, nomeadamente a falta de alguns elementos práticos essenciais para um modelo de avaliação. Em particular, segundo a autora, seria muito importante incluir e reconhecer a importância de elementos como o tempo de entrega, o local de entrega, ou o preço.
Esta opinião é tanto mais importante quanto deve ser reconhecido que essas questões são habitualmente menosprezadas em função da avaliação comparativa pedagógica a que os trabalhos escolares são normalmente sujeitos, mas também porque é comum os objectivos de análise das obras literárias não contemplarem tais quesitos. Daí que seja evidente que um processo de avaliação da qualidade da tradução terá de integrar os elementos subjectivos de consideração individual, mas também os elementos objectivos, nomeadamente os aspectos práticos.
Por outro lado, é curioso notar que o exercício de avaliação de uma tradução continua a conservar as características de interligação ao texto original do texto traduzido, obrigando este a corresponder aos objectivos estabelecidos para aqueloutro. Apesar das peculiaridades autorais e legais que normalmente obrigam a que isso se verifique, deveria, efectivamente, tomar-se em maior consideração o conjunto de características e condicionantes da língua e cultura de chegada, que impõem obstáculos à aplicação e emulação das condições existentes na língua e cultura de partida.
De facto, e na sequência das ideias enunciadas por Louise Brunette (2000: 174- 180), uma lista que integre os critérios de avaliação do texto de chegada deve conter obrigatoriamente os seguintes elementos:
- A lógica da forma e conteúdo do texto, que depende fortemente da coerência e coesão do mesmo;
- O objectivo do texto, em termos da intenção e do efeito pretendidos pelo autor original;
- O contexto do texto no que diz respeito ao público-alvo, à posição deste mesmo público, ao autor, ao momento e local de utilização da tradução, ao período em que o texto será usado, ao tipo de texto, ao meio usado para a sua divulgação, e à situação socio- -ideológica em que o mesmo se deverá inserir;
- Por fim, a norma linguística de chegada, no âmbito das suas regras e convenções gramaticais, ortográficas, terminológicas, etc.
Daqui poderia então partir-se para a elaboração de uma lista mais completa de quesitos complementares, convenientemente estruturados, de maneira a abarcar todas as variáveis do projecto de tradução de uma obra. Entre os requisitos em causa, devem constar quer as componentes anteriores ao processo de execução da tradução (como por exemplo, as especificações de formato de entrega por parte da casa editora), quer as que dizem respeito ao processo posterior à tradução (como por exemplo, as indicações de revisão e correcção do texto após a tradução efectuada). No fundo, talvez o modelo mais adequado seja aquele que é oferecido por uma estrutura semelhante à de uma Norma de Qualidade, como a que se apresentará nas páginas seguintes.