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Aristóteles

RESUMO DOS TRABALHOS

7.1.3 Avaliando com os alunos

Apesar de ter aplicado em ambas as turmas um questionário final, o que me permitiu coletar várias informações a respeito das compreensões do contexto trabalhado, percebi que ainda me faltava a avaliação do processo por parte dos alunos. Optei então por realizar entrevistas, convidando aqueles que desejassem contribuir para a avaliação da experiência. Quarenta alunos entre as duas turmas propuserem-se a colaborar, por meio de uma entrevista semi-estruturada que ocorreu após termos finalizado o ano letivo de 2003.

De forma geral, a avaliação foi bastante positiva. As atividades desenvolvidas foram consideradas dinâmicas, permitindo a tomada de decisões, exposição de idéias, opiniões e, principalmente, possibilitaram a busca de vários conhecimentos. Confessaram que essa forma de trabalho lhes causava surpresa, uma vez que sempre recebiam sem esforços, da maioria das disciplinas, os assuntos a serem trabalhados. Ressaltaram como importante para eles a relação feita entre os vários conhecimentos. Reconheceram que os professores que trabalharam com a disciplina, mesmo sendo de outras áreas (Língua Portuguesa e Matemática), não deixaram de enfocar a importância dos demais conhecimentos, como a filosofia, física, química, entre outros. Isso fez com que buscassem informações, considerando que todos eram responsáveis e

capazes de construir o novo saber. Dessa forma, entendo que os alunos perceberam a educação como libertadora pois [...] professores e alunos devem ser os que aprendem, devem

ser os sujeitos cognitivos, apesar de serem diferentes. (FREIRE; SHOR, 1986, p. 46).

Nesse sentido, o aprender ganhou uma nova conotação. O conhecimento não foi considerado algo pronto e transmitido somente pelo professor. O aprender se construía à medida que o aluno tinha sua curiosidade aguçada. Para tanto, Freire (1996, p. 77) afirma que

[...] aprender é uma aventura criadora, algo, por isso mesmo, muito mais rico do que meramente repetir a lição dada. Aprender para nós é construir, reconstruir, constatar para mudar [...]. Por esse motivo os alunos citaram constantemente que a atividade do caso

simulado foi para eles uma oportunidade sem igual, pois nunca tinham tido tal oportunidade, de criar seus diálogos defendendo suas posições e tomando decisões.

Dessa forma, os alunos confessaram que a disciplina de Princípios Tecnológicos constituiu-se em uma surpresa e em um desafio. Pelo título – Princípios Tecnológicos − acreditavam que o objetivo da disciplina era visitar empresas, conhecer novas tecnologias, enfim, desenvolver ao final um artefato tecnológico. Por esse motivo, comentaram que ao iniciar as atividades, sentiram-se desmotivados em estar trabalhando com filmes, leituras, análises etc. Porém, com o andamento da experiência, acabaram por perceber que a forma de abordagem utilizada trouxe-lhes muito mais acréscimo de conhecimento, fazendo-os rever o modo de pensar e analisar a atividade humana, o que ultrapassou simplesmente a construção de um artefato ou mentefato. Ressaltaram que, além de terem acesso às novas tecnologias, aos feitos da ciência, tiveram oportunidade de refletir, questionar, podendo analisar os fatores externos a essas produções. Declararam, ainda, que suas visões se detinham em observar a ciência e tecnologia como a salvação para qualquer problema e que comprovaram na atividade de entrevistas que essa visão tende a ser generalizada entre a sociedade.

Os alunos reconhecem a importância de assumirem uma postura crítica ao analisar os feitos científico-tecnológicos e comentam que eles, enquanto cidadãos, têm o direito, o dever e, principalmente, a capacidade de intervir em seu cotidiano. Entendem que se é o homem que constrói o meio social no qual vive, mudanças podem ser realizadas. Argumentam que não precisamos apenas nos adaptar a essa realidade, temos que lutar por nossas decisões e escolhas, pois nada nos é dado pelo destino. Se tudo é construído, temos o direito de desconstruir, mudar e reconstruir para melhor. Esse entendimento foi despertado pelo contato com o enfoque CTS.

Além disso, os alunos perceberam também que a pesquisa científica não é ilimitada e livre. Antes mesmo de sua conclusão, são estabelecidos os fins e os sujeitos que serão

beneficiados. Dessa forma, os alunos percebem que pesquisadores não necessariamente buscam o que lhes interessa, mas o que possa vir a ser reconhecido ou economicamente lucrativo ou aquilo para que há dinheiro. É nesse sentido que percebemos serem os objetos de investigação em nossa sociedade aqueles que atendem aos interesses da classe dominante.

Dessa forma, entendem os alunos que para esse cenário sofrer modificações é preciso que cada cidadão assuma seu lado crítico, utilizando-se dos conhecimentos de que dispõe, seja num ambiente profissional ou na comunidade onde vive.

Pude perceber que os alunos encaram o enfoque CTS como uma força que os fez despertar para o mundo, abrindo-lhes os olhos para o senso crítico, encorajando-os a irem atrás de maiores informações a respeito dos fatos. São conscientizados quanto à sua capacidade de intervir no mundo, de comparar, romper, escolher, formalizar grandes ações em busca de soluções que venham a beneficiar um maior número de pessoas. O importante é sempre otimizar os resultados.

Se tivermos um pensamento mais crítico e questionador, e nisso o enfoque CTS nos ajuda bastante, passamos a participar mais intensamente da vida em sociedade. O enfoque CTS nos despertou, fazendo-nos ver como o meio nos manipula, como por exemplo a televisão. Eu vejo que o mundo cada vez mais está virando um mundo de feras, cada vez mais você tem acesso a informações que antes não tinha. Assiste às coisas e não entende, mas deixa passar. Mas o enfoque CTS nos diz para não deixar passar. Vejo que a disciplina foi bem útil nesse aspecto, porque muita coisa que a gente não entendia, nunca tinha ouvido falar ou não via o outro lado, nem pensava nos pontos negativos, hoje somos capaz de ver. (VH – 021).

Eu comecei a olhar para certos acontecimentos, certas coisas de um jeito diferente, mais crítico. Porque todo mundo pensa assim:”Ah, está acontecendo, mas não é comigo. Comigo não acontece e eu não tenho nada a ver com isso.” Porém, depois que eu aprendi com o enfoque CTS, eu comecei a ver o outro. Eu posso fazer alguma coisa para que não aconteça nem comigo e nem com os outros. Foi algo que marcou bastante e mudou a minha visão. Eu leio e penso: “Ah! Poderia levar para sala e aplicar o enfoque CTS!” Eu consigo ver as aplicações. (MC – 021).

Em relação à matemática, os alunos conseguem perceber que ela assim como qualquer outro conhecimento que não é questionado e refletido, acaba por se revelar como uma linguagem de poder.

O lado da matemática de enganar as pessoas, por exemplo, nos empréstimos de dinheiro é fabuloso. Quem entende bem dessas coisas é o dominador dos negócios. Um dia recebi uma oferta de emprego que levava para esse lado e recusei, porque eu acho que é muito imoral. As pessoas se iludem e eu

odeio isso. Mas na escola ninguém nos desperta para analisar esse lado da matemática, esse poder que ela, ou quem a detém, carrega. (J – 022).

É nesse sentido que os alunos, mesmo que de forma ainda pouco elaborada, percebem que a matemática participa de forma decisiva na estruturação do debate político, o que explicita sua dimensão política na sociedade. Assim sendo, aqueles que não têm o acesso à matemática estão sujeitos ao controle e à vontade daqueles que o têm e que detêm o poder autoritário na sociedade, já que a impossibilidade de acesso significa não participar do complexo debate político, sustentado por essa ciência. Como conseqüência, podem-se reforçar as desigualdades sociais, racismo, discriminação sócio-econômica, entre outros problemas ou preconceitos.

Sempre temos a idéia de que a matemática é exata, que dá sempre respostas corretas e acabadas. Então foi muito interessante refletir que nada é exato. A matemática que pensávamos que era acabada não é, então nada pode ser. Foi uma base para que pudéssemos refletir. Foi bom para nosso crescimento. Seria até um incentivo para nossas profissões saber que nem tudo está acabado e pronto e que nós podemos ir lá e dar nossa contribuição. E o mais importante: nós podemos construir junto com os professores. Melhora nosso aprendizado. (JS- 021).

Essa posição vem reforçar a idéia de que quando aplicamos a matemática em situações problemas, sempre encontramos uma resposta, e apenas uma única resposta correta. Dá-se importância à resposta final, ao resultado do problema, e não à maneira com que os dados foram tratados. Se acreditarmos que o uso da matemática nos traz respostas neutras aos problemas da realidade, respostas livres de interesses sociais, políticos ou ideológicos, estamos, mais uma vez, sendo vítimas de sua ideologia da certeza.

Ressaltam os alunos que a experiência matemática realizada dentro de uma outra disciplina possibilitou a eles perceberem que os conhecimentos estão interligados e que a matemática, assim como qualquer outro conhecimento, participou e participa da construção das ciências, das tecnologias e, por conseqüência, da sociedade. Acreditam ser necessário trabalhar com a Matemática por intermédio de um diálogo com outros conhecimentos. Discutir, questionar e analisar não somente o número em si, mas todo o contexto que gerou aquele conhecimento. É nesse momento que destaco a importância de o professor saber ouvir, em vez de somente ser ouvido. Será que a matemática é ensinada em linha única? Somente um ensina/fala? Freire (1996, p. 127-128) nos chama a atenção para essas questões ao comentar:

[...] Não é falando aos outros, de cima para baixo, sobretudo, como se fossemos os portadores da verdade a ser transmitida aos demais, que aprendemos a escutar, mas é escutando que aprendemos a falar com eles. Somente quem escuta paciente e criticamente o outro, fala com ele, mesmo que, em certas condições, precise falar a ele.

Dessa forma, também enquanto se trabalha com a matemática em sala de aula é preciso desenvolver esse escutar/falar sob forma de diálogo. A matemática também pode ser colocada como conhecimento aberto, que desperta curiosidade, indagação e dúvida. Discutir sobre a matemática a torna um saber construído pela humanidade e inacabado.

Eu acho bem importante, discutir a matemática dessa forma, porque às vezes o professor diz que fulano inventou tal coisa. E que importância tem isso para sociedade? O que trouxe de bom e de ruim? Muitas coisas que, para chegarem a ser descobertas envolveram estudos, discussões e muitos entreveros. (FD –021).

Eu achei interessante isso, eu preferia estudar Matemática assim,vendo onde ela é utilizada. Porque nós, alunos, sempre temos essa curiosidade e perguntamos para o professor. Seria bom se trouxessem a matemática para nosso cotidiano. Não ficar só naquele livro, naqueles exercícios. Sempre a matemática é imposta, nunca temos oportunidade de construir o conhecimento junto com o professor. (D-021).

Em relação ao enfoque CTS, ele é mais uma vez avaliado positivamente como fator que contribui para a compreensão crítica e reflexiva dos conhecimentos, sendo de grande necessidade sua introdução no contexto da matemática, para que possa ser o guia de abordagem desse conhecimento em sala de aula.

Através do enfoque CTS nós podemos analisar a influência positiva e negativa dos vários conhecimentos. Por exemplo, no filme do Lorenzo a gente viu o lado bom da matemática, ao ser usada pelos pais para controlar a doença do filho através dos gráficos. Mas ela pode ter um lado negativo, como no filme do Ford, em que ela era usada para controlar o tempo de trabalho das pessoas. Não tem, de repente, como isolar a matemática dos demais conteúdos. Só que isso não é visto. (DAY –021)61

De forma geral, os alunos conseguem ver a possibilidade e até mesmo a necessidade de implantar o enfoque CTS em várias disciplinas, não se restringindo a apenas uma. Todas as disciplinas deveriam trabalhar no sentido de motivar os alunos a questionar seus próprios conhecimentos, de refletir quais as influências e implicações desses conhecimentos em nossa

61 Esse comentário feito pelo aluno, reforça mais uma vez a idéia já citada anteriormente, de que apesar das discussões e reflexões, ainda permanece no discurso dos alunos a idéia de relacionar a não-neutralidade científico-tecnológica com o bom ou mau uso que dos artefatos e mentefatos se pode fazer.

sociedade, consciente de que nada é definitivo e acabado, e que vivemos num mundo em constante transformação, ainda muito longe da “verdade absoluta”.

Essa postura crítica em relação aos conhecimentos, os alunos reconhecem estar presente no enfoque CTS. Revelam que isso deveria levar o professor a rever a sua metodologia e os alunos a reavaliarem seu compromisso de participar na construção do conhecimento.

Eu acho que se todos os professores pensassem assim iria melhorar a qualidade do ensino. A matéria é sempre jogada, não temos oportunidade de discutir. O enfoque CTS se encaixa em todas as disciplinas, pois todos os conhecimentos contribuíram na construção da ciência e da tecnologia, acho que todos devem ser questionados. (JS-021).

Nesse sentido, a educação é valorizada e os alunos vêem a escola como um local que pode contribuir para que as devidas mudanças em nossa sociedade possam acontecer. E, mais uma vez, Freire (1996, p. 126) nos aponta que se a educação não fosse uma forma política de

intervenção no mundo era indispensável que o mundo em que ela se desse não fosse humano.

Eu acho que seria maravilhoso se houvesse uma escola que tratasse todas as disciplinas com o enfoque CTS. Seria a escola dos meus sonhos. Eu não digo de todo aluno, porque tem pessoas que não ligam para nada, acham tudo chato e que nós estamos perdendo tempo. Isso deveria iniciar no ensino primário, para haver a conexão entre os vários graus de ensino, pois assim se aprenderia de uma maneira muito mais ampla. [...]Eu acho que tirei da disciplina algo que me tornou uma pessoa crítica e vejo que esse pensamento não está tão longe de acontecer. As mudanças de pensamento estão ocorrendo de uma forma muito rápida. Nós mudamos em um ano. E, digamos assim, os paradigmas estão sendo quebrados. Isso me auxiliou bastante para a escolha da minha profissão. Eu optei por farmácia, porque quero me infiltrar no meio farmacêutico para despertar nas pessoas um pensamento diferente e uma coisa diferente, que talvez seja bem audacioso da minha parte. (J – 022).

Os alunos confessam que gostariam que toda a disciplina pudesse ser trabalhada sob a forma de caso simulado, a fim de que eles pudessem usar de toda a sua criatividade para criar personagens e definir seus diálogos. Porém, admitem que se não tivessem tido uma boa base teórica sobre a ciência, a tecnologia e suas relações na sociedade, não teriam subsídios para desenvolver a citada atividade.

De forma geral, posso considerar que a avaliação foi bastante positiva tanto por parte dos alunos como da professora regente das turmas. Pude averiguar que a proposta teve excelente receptividade. As estratégias de discussão oral e escrita que utilizamos, além de permitirem uma participação mais efetiva dos alunos, também propiciaram o desenvolvimento

de outras habilidades, dentre as quais a criatividade, a reflexão crítica e a capacidade de argumentação que vieram à tona principalmente na atividade do caso simulado. É cada vez mais visível a necessidade de os alunos falarem, exporem suas idéias, criticarem e questionarem.

Assim sendo, além do diálogo promovido dentro da disciplina, é necessário que os conhecimentos deixem de ser trabalhados de forma estanque, sem que o vínculo entre eles e o contexto social seja ressaltado. É necessário que o trabalho conjunto e contextualizado possa acontecer, de forma a não levar o aluno a pensar que o diálogo entre os conhecimentos não existe e que um não necessita do outro.

A interdisciplinaridade e a contextualização, proporcionadas ao longo da disciplina de Princípios Tecnológicos, mostraram-se indispensáveis para que se possibilitasse aos alunos um processo de desenvolvimento de competências, capacidades e habilidades, a fim de que pudessem compreender e atuar na sociedade científico-tecnológica.

A experiência que desenvolvemos mostra claramente o quanto os alunos do Ensino Médio têm capacidade de refletir e aprender, construindo seus próprios conhecimentos. Foram capazes de criticar, posicionando-se contra ou a favor, argumentando e defendendo suas posições. Perceberam que é possível o cidadão participar ativamente das decisões que envolvem nosso entorno e que isso já começa com eles mesmos, enquanto cidadãos e, depois, enquanto profissionais-cidadãos.

Para tanto, vários alunos relevam a necessidade de o enfoque CTS ser introduzido já na escola primária, a fim de formar aos poucos um cidadão que tenha sua atenção despertada para os aspectos que envolvem o contexto científico-tecnológico e social. Consideram, também, ser o enfoque CTS de tal relevância que ultrapassa os limites de uma forma de abordagem de conteúdos em sala de aula, para se tornar uma forma de compreender e ver o mundo. Uma postura que o cidadão assume ao tratar dos problemas que envolvem o seu entorno, acompanhando-o durante toda a sua vida, quer seja em seu contexto profissional ou no ambiente onde vive.

Pelos caminhos da matemática: