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Antoine Saint-Exupéry

5.1 Os pressupostos da atual proposta

5.1.1 Princípios pedagógicos organizadores do currículo

5.1.1.1 O trabalho interdisciplinar e contextualizado

O intuito de organizar o currículo do Ensino Médio por áreas vem afirmar a necessidade de que os conhecimentos venham a ser trabalhados numa perspectiva interdisciplinar e contextualizada. Isso não significa que tenham que ser criadas novas disciplinas. O que se tem em mente é a utilização dos vários conhecimentos na compreensão de um fenômeno em seus vários pontos de vista. Assim sendo, os PCNEMs ressaltam que:

[...] ao se propor uma nova forma de organizar o currículo, trabalhado na perspectiva interdisciplinar e contextualizada, parte-se do pressuposto de que toda aprendizagem significativa implica uma relação sujeito-objeto e que, para que esta se concretize, é necessário oferecer as condições para que os dois pólos do processo interajam. (BRASIL, 1999a, p. 45).

Essa postura visa despertar no aluno a capacidade de compreender e intervir na realidade numa perspectiva autônoma e desalienante.

Juntamente com a proposta interdisciplinar, a contextualização do conhecimento evoca por si só o trabalho em áreas de ensino, pois os saberes se relacionam e agem em vários contextos e realidades. No conteúdo dos PCNEMs se estabelece que contextualizar os conhecimentos não significa liberá-los do plano abstrato da transposição didática para

aprisioná-los no espontaneísmo e na cotidianidade. (BRASIL, 1999a, p. 144). Deve-se

entender que a recomendação da contextualização e da interdisciplinaridade, como princípios de organização pedagógica, pretende facilitar a aplicação dos conhecimentos escolares e relacioná-los com a vida dos alunos, não por intermédio da aplicação imediata, mas por meio de situações problematizadoras que levem o aluno a tomar suas próprias decisões.

A interdisciplinaridade deve partir da necessidade sentida pelas escolas, professores e alunos de explicar, compreender, intervir, mudar, prever, algo que desafia uma disciplina isolada e atrai a atenção de mais de um olhar, talvez vários. Explicação, compreensão e intervenção são processos que requerem um conhecimento que vai além da descrição da realidade e mobiliza competências cognitivas para deduzir, tirar inferências ou fazer previsões a partir do fato observado. (BRASIL, 1999a).

Nesse sentido, a interdisciplinaridade começa no entendimento de que os mundos – físico e social – requerem que as disciplinas se articulem, superando a fragmentação e o distanciamento, para que possamos conhecer mais e melhor. Interdisciplinaridade e contextualização tornam-se recursos que ampliam as possibilidades de interação entre as áreas e seus conteúdos, permitindo um perpassar de entendimentos e novas construções. Sua perfectibilidade é realizada na prática, na medida em que são feitas experiências reais de trabalho em equipe, exercitam-se suas possibilidades, problemas e limitações. Essa reflexão ajudará na compreensão de que o saber é um constructo em que todos os conhecimentos estão interligados, uma vez que, na tomada de decisões para resolução de um problema, não se terá uma solução satisfatória enquanto não for analisado e considerado o maior número possível de variáveis envolvidas.

Dessa forma, Zanoni (2000) considera que a interdisciplinaridade é muito mais um ponto de partida do que um ponto de chegada e que ela não é dada de antemão, por meio de fórmulas ou regras, mas se constrói, num processo criativo, a múltiplas mãos, necessitando para isso de um tempo e de uma dinâmica de trabalho bastante distintos de um processo de pesquisa disciplinar.

A interdisciplinaridade gera uma atitude de reciprocidade que sugere a troca e o diálogo, o qual pode ocorrer tanto entre pares idênticos como entre pares anônimos ou do indivíduo consigo mesmo, caracterizando a limitação do próprio saber e a possibilidade de desvendar novos saberes e novos desafios diante do novo. De acordo com Fazenda (2002), entende-se que a interdisciplinaridade impõe-se não só como forma de compreender e modificar o mundo, como também uma exigência interna das ciências, que busca o restabelecimento da unidade perdida do saber. Percebo que nesse conceito, mesmo que indiretamente, a interdisciplinaridade volta seu objetivo para as necessidades que o enfoque CTS ressalta, dentre as quais a de entender o entorno no qual vivemos, para tomar decisões, com base nas interconexões dos saberes.

Uma outra exigência para o trabalho interdisciplinar volta-se para o papel do professor, que tem fundamental importância, [...] pois é ele quem toma a iniciativa de

escolhas e, analisando as necessidades dos alunos, pode planejar o desenvolvimento, aprofundamento e inter-relação dos conhecimentos anteriormente obtidos. (BRASIL, 1999a,

p.126). Faz-se, assim, uma ponte entre os conhecimentos que os alunos possuem e os novos conteúdos que deverão aprender. Além disso, a interdisciplinaridade também pode estar envolvida [...] quando os sujeitos que conhecem, ensinam e aprendem, sentem necessidade

de procedimentos que, numa única visão disciplinar, podem parecer heterodoxos, mas fazem sentido quando chamados a dar conta de temas complexos. (NUNES, 2002, p.79). Ao pensar

de maneira interdisciplinar, o professor passará a compreender o aluno como um ser histórico que participa de um processo dialógico de produção de conhecimento, que proporciona a ele (professor) um leque de oportunidades para operacionalizar seus projetos.

Como intermediadora da interdisciplinaridade aparece a contextualização, que tem por objetivo evocar áreas, âmbitos ou dimensões presentes na vida pessoal, social e cultural, mobilizando os saberes já adquiridos pelos alunos. De acordo com Nunes (2002, p. 84)

contextualizar o conteúdo a ser aprendido significa, em primeiro lugar, assumir que todo conhecimento envolve uma relação entre sujeito e objeto. Portanto, a contextualização tem a

capacidade de tornar o aluno ativo e participativo dentro da sua realidade social.

A contextualização, portanto, é entendida como o recurso para ampliar as possibilidades de interação não apenas entre as disciplinas nucleadas em uma área de conhecimento como também entre as próprias áreas de nucleação. Visa a tornar a aprendizagem significativa ao associá-la com experiências da vida cotidiana ou com os conhecimentos adquiridos espontaneamente e, assim, retirar o aluno da condição de espectador passivo. A contextualização, como princípio da organização curricular, aproxima os conteúdos escolares da vida cotidiana do aluno – aproximando escola da vida em sociedade. Ela se faz necessária, uma vez que, comumente na escola os conteúdos curriculares são repassados aos alunos de forma abstrata e formulados em graus crescentes de generalizações, o que faz com que o aluno tenha dificuldades em aplicá-los em situações concretas. Somente algumas vezes esses conteúdos são aprendidos de forma satisfatória.

Assim, a contextualização de conhecimentos não pode ser um simples estabelecimento de relações entre conteúdos. Ela requer um comprometimento com a realidade social dos educandos, sendo, portanto, um processo de investigação coletiva, um interrogar permanente sobre a cotidianidade contraditória frente ao papel que deve cumprir a escola.

Nunes (2002) chama atenção para que não se entenda a contextualização como forma de banalizar os conteúdos das disciplinas, numa perspectiva espontaneísta. Outrossim,

deverá ser encarada como um recurso pedagógico que fará da construção do conhecimento um processo permanente de formação de capacidades intelectuais superiores. Tal processo permitirá ao aluno transitar do mundo da experiência imediata e espontânea para o plano das abstrações, reorganizando suas experiências de forma a entender que mesmo situações particulares poderão ser entendidas e estudadas a partir de um princípio geral.

Em suma, podemos entender que interdisciplinaridade e contextualização são recursos complementares, ou seja, princípios norteadores da organização curricular, que ampliam as possibilidades de interação entre as disciplinas. Nesse sentido,

[...] a integração entre conhecimentos pode criar as condições necessárias para uma aprendizagem motivadora, na medida que ofereça maior liberdade aos professores e alunos para a seleção de conteúdos mais diretamente relacionados aos assuntos ou problemas que dizem respeito à vida da comunidade. (BRASIL, 1999a, p. 145).

Portanto, para que a interdisciplinaridade e a contextualização possam efetivar-se, há necessidade de que todos os envolvidos no ambiente escolar se conscientizem dos seus objetivos e admitam a flexibilidade das estratégias de ensino-aprendizagem. Além disso, eles precisam entender a reciprocidade gerada pela interação e correlação entre as disciplinas. É imprescindível que a educação busque esses dois princípios citados, como forma de excluir a tendência em hierarquizar os conhecimentos, requerendo sim a colaboração de diferentes disciplinas em termos de igualdade, complementaridade e interdependência quanto à contribuição que podem dar e que deve existir no processo de formação.

Sendo assim, esses dois princípios norteadores do currículo têm o propósito de reordenar a formação do aluno por meio de um pensamento capaz de apreender a realidade para solucionar os variados problemas que ele poderá enfrentar ao longo de sua vida como cidadão e profissional.

Um currículo que permita a contextualização e a interdisciplinaridade, tanto entre as áreas quanto entre as disciplinas, poderá fundamentar-se em um método capaz de reunir as atenções dispersas dos saberes disciplinares, formando uma realidade desfragmentada. Além do mais, os dois princípios citados, têm em vista mediar a comunicação entre os conhecimentos sem, necessariamente, criar novas teorias, uma vez que resguardam as características disciplinares tão importantes na geração dos aportes científicos ao entendimento global do problema. Santomé (1998, p.45) destaca que:

Também é preciso frisar que apostar na interdisciplinaridade significa defender um novo tipo de pessoa, mais aberta, mais flexível, solidária, democrática. O mundo atual precisa de pessoas com uma formação cada vez mais polivalente para enfrentar uma sociedade na qual a palavra mudança é um dos vocábulos mais freqüentes e onde o futuro tem um grau de imprevisibilidade como nunca em outra época da história da humanidade.

Nas palavras de Santomé (1998), podemos perceber que a mudança é o caminho para se efetivar as propostas dos PCNEMs. Para isso, precisamos ter subsídios para entender e acompanhar essas transformações. É preciso haver uma mudança pedagógica, metodológica e, principalmente, mudança na postura entre os membros que constituem o âmbito educacional em nosso país, visto que uma proposta não implica uma pura e simples aplicação em nosso cotidiano escolar. Os PCNEMs propõem que, de forma geral, se promova em sala de aula uma atitude criativa e crítica, na perspectiva de construir coletivamente o conhecimento por meio das competências. Em tal construção, é preciso buscar informações que, muitas vezes, fogem à nossa redoma de saberes, na medida em que precisam ser articulados com outros conhecimentos, uma vez que os saberes sozinhos não conseguem solucionar problemas. Além disso, é necessário argumentar e contra-argumentar, com base em problemas compartilhados com outras áreas, para que a solução seja buscada coletivamente, trazendo benefícios mútuos.