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CAPÍTULO 2 (TRANS) FORMAÇÕES DO MERCADO E TRADUÇÕES DO

2.2 O AVANÇO NO PROCESSO DE TROCA E O VALOR DA MERCADORIA

Diante do exposto, é possível perceber que as trocas passaram por processos de modificação, e foram tendo diferentes formas de aplicabilidade e medida de equivalência para as mercadorias. Ou seja, tinham valor. Esses equivalentes, permitiram observar e registrar a trajetória do nosso ator rede e suas diferentes traduções e mediações. Ressaltando-se que a partir do momento que as sociedades se estabelecem por meio de trocas e por algum valor, foi possível percorrer a história do desenvolvimento anterior e os caminhos de sua realização.

Em todo o processo histórico, a troca norteou as relações do ponto de vista das necessidades humanas. Tal forma era chamada de valor simples. Nas comunidades primitivas, as trocas se deram pela equivalência do justo preço dos produtos (HUBERMAN, 1982), e no caso dos Xavantes pela troca silenciosa de produtos (ROBERT, 1982).

Quadro 1: Relação de trocas nas comunidades primitivas

Comunidades primitivas Xavantes

20 braças de linho = 1 casaco 1 capote = 5 galões de vinho

1 peça de pano = 100 cocos 1 colar = 2 lanças Fonte: Elaborado por DA CRUZ FREITAS, 2018.

Observando a troca simples, é possível afirmar que essas mercadorias desempenham dois papeis, por exemplo: o colar expressa o seu valor na lança, e esse serve como expressão de valor. Assim, o colar desempenha um papel ativo e a lança um papel passivo. O colar encontra-se na forma valor relativa e a lança funciona como valor equivalente.

Forma de valor relativa e forma de equivalente são momentos inseparáveis, inter- relacionados e que se determinam reciprocamente, mas, ao mesmo tempo, constituem extremos mutuamente excludentes, isto é, polos da mesma expressão de valor; elas se repartem sempre entre mercadorias diferentes, relacionadas entre si pela expressão de valor (MARX, 2013, p. 126).

Portanto, no processo de desenvolvimento, o valor relativo de uma mercadoria só era expresso pelo valor equivalente de outra mercadoria, e as mercadorias valiam pelo seu uso (consumo), ou seja, a utilidade de uma coisa fazia dela um valor de uso:

O valor natural de qualquer coisa consiste em sua capacidade de prover as necessidades ou de servir às comodidades da vida humana (...) O valor-de-uso só se realiza com a utilização ou o consumo. Os valores-de-uso constituem o conteúdo material da riqueza, qualquer que seja a forma social dela (MARX, 1980, p. 42).

Depreende-se então, que a troca se tornou uma ação importante na trilha do ator dinheiro, pois é basilar nas relações humanas políticas, econômicas e sociais. A questão da troca por meio da dádiva, por exemplo, foi bastante diferente da troca silenciosa e da troca mercantil dos excedentes, após a existência do mercado local. Como também, da troca comercial após a ampliação e a internacionalização dos mercados. Cabendo ressaltar, que a motivação para lucrar surgiu quando os mercados e a produção dos bens passaram a ser usados para fins comerciais. Houve um processo de expansão da produção.

Outro dado importante, é que no processo de expansão produtiva, com a divisão do trabalho e as mudanças na troca direta, a forma de valor simples já não serviu mais como expressão de valor. Porque se quem trocasse a ovelha precisasse de açúcar e não do trigo que o outro possuía, como resolveriam a questão? Com o desenvolvimento da produção e as dificuldades recorrentes na troca direta foi se estabelecendo que uma certa mercadoria servisse de equivalência para as demais, mudando o sentido da equivalência das mercadorias.

E então, “um único artigo passou a expressar o valor de todos os demais artigos” (ROBERT, 1982, p. 19).

Segundo o autor, a primeira mercadoria que serviu como valor equivalente foi o gado. Essa mercadoria passou a ser um equivalente universal, onde todas as outras mercadorias eram trocadas por ele. Como resultado desse processo histórico, nas formas de troca e de valor, esse único artigo como equivalente universal, com o decorrer do tempo passou a ser o ouro, depois o dinheiro.

Assim sendo, o sistema mercantilista foi se desenvolvendo com base nesta mercadoria equivalente, e o modo de produção capitalista surgiu fortalecendo esse processo. Para isso, foi preciso haver a ampliação do comércio interno e externo, ambos resultados do processo de mudanças advindas do desenvolvimento, e que possibilitaram o surgimento do mercado como o conhecemos hoje.

Desse modo, o surgimento do sistema mercantilista possibilitou o nascimento de um mercado nacional, e o sistema nacional acabou com os limites que separavam dois tipos de comércio que existiam no período medieval. Estes eram o comércio local e o comércio externo. Destacando-se, que o surgimento do mercado foi o momento em que a economia se tornou um dos elementos estruturadores da vida da sociedade, (POLANYI, 2012). Então, entrou em cena os anseios capitalistas que foram de encontro aos desejos do comércio local, e assim, houve mudanças nas trocas comerciais internas e externas e a intervenção do Estado foi tornando-se necessária, em função dos problemas e conflitos que foram aparecendo com a expansão comercial.

Diante disso, o mercado local excluiu a possibilidade de trocas com o comércio externo praticado por estrangeiros. Com isso, a vida urbana estava protegida da ameaça do capital móvel capaz de dissolver as instituições sociais da cidade. Tal fato ocorreu, porque as cidades levantaram todos os obstáculos (protecionismo) possíveis à formação do mercado nacional ou interno, pelo qual pressionava o atacadista capitalista. Contudo, o mercantilismo eliminara as barreiras que separavam os dois tipos de comércio, e com o tempo, para resolver as controvérsias, a presença do Estado é requisitada para fazer a mediação entre os problemas que surgiram, tais como: monopólio, competição, luta de classes, desigualdades, etc. (HOBSBAWN, 1995).

Essa fase de acumulação primitiva (OLIVEIRA, 2003), é caracterizada como a que gerou os elementos fundamentais do modo de produção capitalista, a saber: o trabalho assalariado e o capital.

É possível destacar, de acordo com (ARRIGHI, 1996) e (OLIVEIRA C. A., 2003), que algumas características foram determinantes desse processo de mudanças no modo de produção: a acumulação do capital no comércio; a formação do mercado mundial; o estabelecimento do sistema colonial; a política mercantilista e a ação do Estado que não só disciplinou a nascente classe trabalhadora, mas regulou os salários; Houve a dissociação entre o produtor e os seus meios de produção.

Percebe-se, que com o avanço do comércio, o crescimento das cidades, o desenvolvimento do mercado, a produção em larga escala, ocorreram mudanças nas ideias sobre a economia e a sociedade, e o preço justo acaba sendo substituído pelo preço do mercado. Assim, as trocas passam a ser realizadas a partir do preço das mercadorias expresso pelo dinheiro.

A partir do nascimento da economia de mercado, baseada na relação da mercadoria como valor de troca por um preço determinado em dinheiro, o costume deixa de regulamentar o viver em sociedade e os bens: terra, trabalho e dinheiro tornaram-se, por conseguinte, mercadorias. Os seus valores deixaram de ser baseados pelo valor de uso e passaram a ser determinados pelo preço (valor de troca). Esse processo estabeleceu relações desiguais entre o capital e o trabalho. Tal processo, por sua vez, permitiu elevar o ator dinheiro, neste exato momento, à categoria de mediador, conforme registrado no capítulo anterior. A partir desse acontecimento, a troca de mercadoria se dará pelo seu valor expresso em dinheiro, inclusive a mercadoria trabalho. Dessa forma, aprofunda-se a divisão do trabalho e mudam as relações de troca.

Assim, é possível concluir que a utilização dos mecanismos do mercado, tais como, compra e a venda livre da terra e do trabalho, as transformou em mercadorias. Passou haver oferta e procura tanto da terra quanto de trabalho. O salário, por exemplo, passou a ser o preço do mercado para a utilização da força de trabalho, e a renda passou a ser o preço do mercado para o uso da terra. Essa divisão desigual do trabalho surge com essa transformação/tradução do trabalho como mercadoria, em que agora o preço do mesmo foi regulado por quem detinha os meios de produção. Diante do exposto, percebe-se claramente que esta nova dinâmica mudou substancialmente, dentre outras coisas, as relações de troca, de produção e de trabalho, tornando-as ainda mais desiguais do que em períodos anteriores.

2.3 A (TRANS) FORMAÇÃO DO MERCADO DE TROCA E DO VALOR NO MODO DE