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CAPÍTULO 3 DESENVOLVIMENTO À MODA BRASILEIRA E DINHEIRO

3.4 CARACTERÍSTICAS DO DESENVOLVIMENTO BRASILEIRO

Ao empreender o estudo das duas teses sobre o nosso desenvolvimento, tomadas em conjunto, ficou patente que ao mesmo tempo todas elas têm alguma coisa a nos falar sobre o

nosso passado e sobre o nosso presente, e assim, precisam ser consideradas de forma crítica. Tal caminho, acrescido pelas descobertas e estudos de Rangel e outros, permitiu observar as distinções na maneira de desenvolver o Brasil.

Gostaria de revelar que na preparação e nas buscas para a construção desse capítulo, comecei a me inquietar com um pensamento intrigante, e que surgiu precisamente, quando avancei na temática sobre a dinâmica do desenvolvimento do Brasil. Então, vi certa necessidade em incluir o máximo possível na análise essas frequentes situações, contradições e mediações feitas que fizessem mudar e ao mesmo tempo manter a mesma coisa tentando ser algo diferente. Talvez pudesse ter alguma claridade nas temáticas escolhidas e ajudasse a ver sob outra ótica, talvez não.

No entanto, estive atenta ao fato, de que mesmo com todas estas questões e existindo divergências entre os autores no tocante ao desenvolvimento brasileiro, um elemento une todas as explicações e este elemento pode ser assim, colocado: “Se existe algum aspecto sobre o qual há consenso entre os analistas da economia brasileira, é o de que nela prepondera uma das distribuições de renda mais desiguais do mundo ocidental, senão a mais desigual” (FRAGOSO e FLORENTINO, 1993, p. 17).

A nossa sociedade, do ponto de vista econômico, se desenvolveu de forma dual e não foi por acidente. O seu percurso de desenvolvimento, em cada tempo e momentos históricos e sociais, dependeu dos interesses das classes em conflito e da hegemonia local e mundial.

Sendo importante registrar que,

Desenvolvimento e subdesenvolvimento constituem, pois, os polos de um mesmo processo, a acumulação capitalista mundial, mas neste processo as relações entre os polos não são equilibradas: A estrutura desta totalidade é uma estrutura com dominante. Em consequência, as estruturas sociais dos países da periferia resultam essencialmente do contato que essas economias tiveram com os países do centro que as dominam (DOWBOR, 1982, p. 15).

Assim, para entender o nosso processo de desenvolvimento tive que levar em consideração tanto os elementos internos que os compuseram como as relações externas. Considerando o nosso mediador, uma questão curiosa é que as influências e as diferentes relações nos dois tipos de desenvolvimento (exógeno e endógeno) no caso brasileiro, estiveram pautados, dentre outros: na troca, no ganho de dinheiro, na acumulação, no lucro, nas desigualdades, no status social, na riqueza, no poder, na renda, na posse da terra, no trabalho, na educação e na luta de classe.

Antes de entrar no debate em torno do processo educativo brasileiro a partir dos manifestos, documentos, leis e autores, é importante frisar, que esconder e camuflar a

realidade com o propósito de mantê-la como fonte de privilégios para alguns, e principalmente se utilizando das leis - pois há uma suposta crença no poder mágico das leis, revelou, antes de tudo, a persistência em se mudar a lei para não mudar a realidade. Assim, “atende-se retoricamente aos reclamos por uma sociedade mais justa, ao mesmo tempo em que, na prática, persistem as injustiças” (PILETTI, 1991, p. 22). Segundo Teixeira,

Proclamavam os europeus aqui chegarem para expandir nestas plagas o cristianismo, mas, na realidade, movia-os o propósito de exploração e fortuna. A história do período colonial é a história dêsses dois objetivos a se ajudarem mutuamente na tarefa real e não confessada da espoliação continental. A vida do recém-descoberto Continente foi, assim, desde o comêço, marcada por essa duplicidade fundamental: jesuítas e bandeirantes; "fé e império"; religião e ouro. O português e o espanhol que aqui aportavam não eram cristãos, mas, quando muito, "cruzados". Não vinham organizar nem criar nações, mas prear... Esta obra destruidora e predatória nunca se confessava como tal, revestindo-se, nas proclamações oficiais, com o falso espírito de cruzada cristã (TEIXEIRA, 1962, p. 59).

Nesse contexto, o que me propus foi destacar as características que marcaram o nosso modo de desenvolvimento, sendo possível ao longo de todo o capítulo perceber as nossas especificidades e similaridades. No entanto, como dito no capítulo anterior, está em curso em alguns países desenvolvidos, tais como a Alemanha, a nova revolução industrial, a revolução 4.0. Essa revolução trará efeitos para todos os países que não entrarem nesta nova dinâmica, mas para países como o Brasil poderá trazer efeitos mais devastadores que as outras revoluções.

Tendo em vista as análises anteriores, os efeitos mais prováveis serão mais uma vez, o aumento da desregulamentação e flexibilização do mercado de trabalho e um alto nível de desemprego tecnológico e sem possibilidade de reinserção. Poderá haver níveis elevados de miséria, pobreza, violência e aumento da imigração e, indubitavelmente, o aumento das desigualdades nacionais, regionais e internacionais. Nessa dinâmica, será importante pensarmos também, os frequentes conflitos intranacionais e internacionais que possuem grande capacidade destrutiva e que nesse contexto, é potencializada pela rápida degradação dos recursos do planeta, gerados pela busca incessante de acumulação da riqueza e do consumo. Isso poderá desembocar em uma nova divisão internacional do trabalho, ou quem sabe uma divisão ainda mais socialmente centrada da riqueza.

Essas questões me levaram a pensar, que talvez as mudanças ocorridas ao longo do tempo, além de produtos históricos e sociais podem ter se dado de forma acompanhada pelos países, pelas empresas e por capitalistas que dominam e controlam a informação e as novas tecnologias, como também, controlam a economia, a cultura, a mídia, ou seja, detém a hegemonia. Todavia, e em acordo com o pensamento de (ARENDT, 1972); (GRAMSCI A. ,

1968) e (GÉNÉREUX, 1999), penso que a tecnologia e a informação são fatores políticos e não meramente um processo de inovação social, ou seja, não são fatores exteriores a política. Até porque, os limites ecológicos, como destacado por Ciavatta (2005), Magalhães e Vendramini (2018), visto aqui também como uma questão política, impõem uma renovação no processo econômico, político e social porque não é mais possível fazer modernizações como as experiências do passado.

A continuar do jeito que está sendo anunciada, como se pôde perceber na discussão sobre a nascente Revolução 4.0, similar aos períodos anteriores, só estarão no topo os países e empresas que desenvolverem tecnologia de ponta do novo padrão tecnológico, e possivelmente, mesmo que tentem, os países em desenvolvimento e alguns países hoje considerados desenvolvidos, podem não conseguir desenvolver essas tecnologias. Essas tecnologias, podem não ser desenvolvidas em função, sejam de barreiras protecionistas, sejam por barreiras culturais e políticas, sejam em função dos altos custos das patentes, seja no dizer de Chang (2004), com os países desenvolvidos chutando a escada do desenvolvimento, seja pela cooptação das oligarquias políticas e das elites econômicas nacionais, a serviço do capital internacional.

Se assim for, podemos estar a caminho do aprofundamento da coletivização/massificação, aumento da pobreza e das desigualdades nos países em estágios de desenvolvimento industrial e econômico abaixo dos demais, e em alguns países que hoje estão no mesmo patamar de desenvolvimento, mas que poderão vir a empobrecer por não conseguirem acompanhar o novo padrão (BRITO JUNIOR, 2014). No entanto, ocorrerão mudanças, também, no âmbito dos indivíduos, como podemos perceber atualmente, a massa de imigrantes em função de guerras e da falta de condições de subsistência em seus países.

Ou quem sabe, estamos vivendo um novo modelo de colonização. Pois, vem em mente um pensamento, em consonância com as discussões de (CHANG, 2004) e (ARRIGHI, 2008), que julgo ser pertinente: Com a constante tentativa de enfraquecimento do papel do Estado e dos países em desenvolvimento no novo processo da investida neoliberal, qual país exercerá a hegemonia cultural, econômica e política? ou essa hegemonia será exercida por mais de um país? ou não importa qual país a exerça, a hegemonia será exercida pelo capital?

Vale ressaltar, que na experiência brasileira, a diminuição do poder do Estado, a fragilidade democrática da participação da sociedade civil é um risco proeminente e cada vez maior, pois não interessa aos capitalistas que haja regulação e controle popular de nenhum tipo, principalmente, quando conseguirem entrar no próximo período de expansão econômica para a classe dominante. Então, cada vez mais, torna-se necessária a defesa do Estado

ampliado (GRAMSCI A. , 1979), como regulador das relações, mas agora sobre uma nova ótica, sob a ótica da ação pública (LASCOUMES e LE GALÉS, 2012). Por que a história, ao mesmo tempo em que nos revela que o Estado sempre esteve a serviço do capital, no momento atual é a organização deste no âmbito da ação pública que pede fortalecimento, redirecionamento e mudanças.

Após a descrição do segundo e terceiro capítulos, uma coisa é possível afirmar: desde o início do modo de produção capitalista, e seus ciclos de crise e crescimento, o problema das desigualdades de classe e de renda é característico do sistema, independente do modelo de produção (ARRIGHI, 1996); (MARX, 1980);; (WOOD, 2001); (POLANYI, 2012). Portanto, a cada dia percebe-se que talvez, a opção por governos e sociedade abertos e participativos, por meio da ação pública e instrumentos de gestão efetivos, como proposto por (LASCOUMES e LE GALÉS, 2012), (FREITAS e FEITOSA, 2017); rumo a uma democracia radical é o que se apresenta como um dos prováveis caminhos.

Polanyi, quando analisou o problema da pobreza viu que esse se concentrou em dois termos: pauperismo e economia política, e quando se apreendeu o significado da pobreza, já estava preparado o cenário para o século XIX. O autor, ainda apontou que,

Houve um tempo em que as relações quotidianas eram imediatas, diretas e pessoais por meio da cooperação, e que com o tempo, e isso é o que o autor destaca na obra, os seres humanos teriam relações indiretas e na maioria das vezes, relações de trocas baseadas no ator dinheiro (POLANYI, 2012, p. 12).

Considerando as discussões dos capítulos anteriores sobre a formação do mercado capitalista, entender a dinâmica do desenvolvimento em um contexto como o brasileiro, que surgiu sob a égide do capitalismo como colônia marcada historicamente como fator de enriquecimento exógeno é relevante. Nesse sentido, foi possível perceber na discussão do capítulo terceiro, que a sociedade brasileira foi estruturada por meio das desigualdades características do desenvolvimento capitalismo, mas conseguiu preservar certa autonomia interna. À vista disso, conhecer esse processo foi relevante, pois é possível pensar que as políticas públicas, em especial, as políticas do campo da educação no Brasil podem ter sido estruturadas com base nessas desigualdades e nas lutas contra hegemônica ao longo de sua história.

Desigualdades entre as pessoas e populações, e no modo de produção capitalista, desigualdades educacionais (HOBSBAWN, 1995), de renda e sociais entre as classes (MARX, 1980). Diante dessas considerações, cabe agora partir para discutir a relação de

nosso modo específico de desenvolvimento, com as estratégias estruturantes da educação e seus possíveis caminhos na atualidade.

CAPÍTULO 4 - BASES ESTRUTURANTE DA EDUCAÇÃO